A "empreitada" da "biblioteca itinerante" do meu amigo ADS está quase concluída, arrumados que estão no saco alguns calhamaços, de entre eles o "A leste do Paraíso" com as suas 743 páginas belíssimas. Dos onze que a "carrinha" deixou restam apenas dois, ambos de Vergílio Ferreira: "Apelo da noite" e "Mudança". Ficarão em cima da secretária por alguns dias, esperando vaga, que o tempo de ler dois ou mais livros ao mesmo tempo já lá vai há muito. Agora, um de cada vez e com calma, que os olhos estão já bem longe de ser os mesmos e o "computador" já não tem memória suficiente.
Para intervalar, segue-se um exemplar da biblioteca da casa, entrado recentemente em edição nova, de um original mais antigo do que eu - 1948. É o regresso, sempre agradável, a Aquilino, com "Uma luz ao longe" e a necessidade permanente de ter o dicionário sempre por perto.
O livro tem um belíssimo prefácio de Gonçalo M. Tavares e começa assim:
Dali em fora, sempre a subir, via-se uma aguilhada de semeadura por dez de fragoedo e baldio. As messes começavam a apendoar, para não desmentirem o ditado: Em Março bota o centeio o plumaço; Em Abril o penduril; com Junho, foicinha em punho. Mais bonito que a folha, mostrava-se ainda o maninho, picado das primeiras lantejoilas dos tojos e com as giestas a derreterem-se em maias argênteas e amarelas, e era pena que não as houvesse vermelhas. Mas pela terra alastrava o verde, o verde dos esplêndidos matizes, entre diáfano nos bosques e encarniçado no mato galego, e polifonicamente luxurioso. E, onde as águas não cantavam, sussurravam, levadas numa ladainha de brancura, de socalco para socalco.(...)
Aquilino Ribeiro
Bertrand Editora (2020)
(…) De alto, em cima da égua, os meus olhos divagavam, reflectindo a contenção interior e sensíveis a tudo o que viam. Não há como o chouto de um cavalo para embalar corpo e alma. As ilusões e os sonhos soltam-se e voejam como abelhas, quando acerta o sol nos cortiços. (…)
ResponderEliminarUma luz ao longe
Aquilino Ribeiro
Bertrand Editora (Setº 2020)