segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cansaço

Apetecia-me tanto escrever sobre guerra, drones, carros de combate, ordem unida, pista de obstáculos, pórtico, detentor do cão, rancho, formatura, divisas e galões, aviões, balas normais e tracejantes, mísseis, pára-quedas, corvetas, cornetas, porta-aviões, defesa anti-aérea, granadas, metralhadoras, continências e manejo de armas, tiro, valas, trincheiras, minas, mas estou cansado ... e convencido que sou um nabo azucrinado pelo homem da melena e pela corte de apaniguados que religiosamente o segue.

Reduz-te à tua insignificância e aguarda, serenamente, que te peçam umas "lecas" para comprar os imprescindíveis F-35!

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

É por estas e por outras que continuo a ler, mantendo a teimosia de há tantos, mas tantos anos. E continua a valer a pena ...

"(...) Depois de decidir que deveria conquistar o segurança mudo através da narração dum conto, minimizando o gesto impulsivo e suspeito que tive com a porcaria do plano dos caroços de pêssego - que me dá esperança na mesma medida em que me oferece desespero - e tentando ir mais longe e sensibilizá-lo para a minha causa revolucionária, este foi o passo que dei no sentido de seduzir um inimigo que à partida deveria estar do meu lado, pois ambos sofremos, e de que maneira, com a ditadura e com a esquálida potestade.

Estando ele no seu posto, estaquei à sua frente antes de me dirigir para a bancada e pegar na faca serrilhada.

Comecemos, silencioso Dimitar, por cortar o pão em treze fatias:

O pão, prima fatia, é o alimento básico por excelência. <<O pão nosso de cada dia>> tornou-se sinónimo de vivência. É símbolo do que é necessário, do mínimo vital.

O pão, segunda fatia, é fruto do labor: semear, colher, moer, amassar, cozer. É metáfora do esforço, da fadiga e da dignidade do trabalho. Receberás o pão com o suor do teu rosto. A primeira troca comercial foi feita assim: pão em troca de suor.

O pão, terceira fatia, sendo facilmente repartido, simboliza fraternidade. Partir o pão é gesto de união. <<Companheiro>> vem do latim cum panis, aquele com quem se partilha o pão.

Quarta fatia: oferecer pão é acolher. Na Bíblia, nas epopeias clássicas, no mundo camponês, o pão é o sinal do hóspede recebido.

Aliança com o divino é a quinta fatia. No Antigo Testamento, havia o <<pão da proposição>>, no Templo de Jerusalém. No cristianismo, o pão da Eucaristia é o corpo de Cristo, alimento sagrado que une humanos a Deus.

Simplicidade e humildade são a sexta fatia. O pão é alimento dos pobres, básico, a descrição da ausência de qualquer tipo de luxo. Por isso, simboliza a humildade, a sobriedade, a essência. Até Deus se esconde no pão, pois não há nada mais humilde, mais comum, mais fundamental. É no formato de pão que ele se deixa devorar na Eucaristia.

O pão, sétima fatia, é justiça social. Falar de pão é falar de desigualdade e de fome. <<Pão e trabalho>> foi lema popular. O pão simboliza os direitos do povo.

Ressurreição e renovação compõem a oitava. O pão é feito de grão triturado e morto que, ao fermentar e ser cozido, se transforma em algo novo e nutritivo. (...)"

A cozinheira do ditador
Afonso Cruz

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Chapéus de praia

De acordo com o Público de hoje, a Herdade da Comenda intentou uma acção contra o Estado e a Agência Portuguesa do Ambiente, reclamando-se detentora de 5 (cinco!) praias da zona da Arrábida que "estão no domínio particular (privado) e não no domínio público marítimo", o que as torna, sem qualquer dúvida, sua propriedade.

Talvez por deficiência de capacidade intelectual, não consigo entender a necessidade de recorrer à Justiça, sempre inundada com trabalho, com um direito que todos deviam aceitar ter sido adquirido há séculos e não merecer qualquer contestação. O seu a seu dono ... e o Estado devia cuidar disso.

Difícil é compreender que o maralhal queira e se ache no direito de frequentar o mar, exibindo os seus dotes natatórios e os seus corpos curvilíneos, sem respeito pelo passado, pelas tradições e por quem manda.

Ironias à parte, não será isto o desencadear de um processo a estender por toda a costa, tornando cada vez mais o mergulho na água salgada um "objecto" de luxo, acessível apenas a quem detém o pedigree necessário? Esperemos que não! Já haverá por aí muita gentinha de sorriso aberto, aguardando tempos novos que lhe acabem com o castigo de ser incomodada no seu merecido lazer.

- Cala-te, palerma! Chapéus há muitos!