SERENATA DO ADOLESCENTE
Que doentia claridadea que me invade e me obsidia,durante a noite e à luz da tarde,à luz da tarde, à luz do dia!Que doentia aquela gradede insone e ténue claridade,sob a avançada gelosia!Passo na rua e nada vejosenão a luz, a luz e a grade,Ó lamparina do desejo,porque ardes tu, até tão tarde?E às vezes surge, entre a cortina,aquela sombra vespertinaque me retém nesta ansiedade.Se tens trint'anos? ou cinquenta?Quis lá saber a tua idade!Sei que em meus olhos se impacientafome de luz daquela grade!Sei que sou novo, e que me odeioporque me tarda - ante o teu seio -queimar tão pobre mocidade!Obra PoéticaDavid Mourão-FerreiraEditorial Presença (1997)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
segunda-feira, 1 de março de 2021
Palavras bonitas
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021
Palavras bonitas
CIRCULAMOS EMBOLSADOS
Circulamos embolsadosem automóveis de luxoNas portas surdasos fechossão linhas a níquel a traçar o limitedos peões ocasionaisO espaldar desuneanula o solavancoreduz a área expostaEsguichos lavampára-brisas que a gargalhada abaulaClareiam as estradasSó o retrovisorlembra o caminho andadoa um olho reflectindode quem guiaTrémulo o chassispressagiaas roturasos sulcos dos freiosa divulgação do desastreMas real e criadano bolso de Picassouma pomba de bico floridosuja por inocência os tejadilhos
domingo, 31 de janeiro de 2021
Palavras bonitas
É uma quantidade de desilusão
sexta-feira, 25 de dezembro de 2020
Palavras bonitas
NADA / NATAL
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020
Palavras bonitas
ECLIPSE
Pela primeira vezNão vieste ao poema,Sol do eterno retornoDa inspiração.E foi esta prosaica desolaçãoNum quarto de hospitalA ouvir versos profanosNa lembrança.Pobre dessa fiançaTutelar.Sem te poder louvarDevidamente,Menino Jesus eternamenteOculto e manifesto,Aqui lavro o protestoDe poeta traídoQue descrêDa própria vocação,Perdida a graça da iluminaçãoDe quem sonha o que vê.Diário XVI (24/12/1991)Miguel TorgaGráfica de Coimbra (1995
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Palavras bonitas
CANÇÃO
Clara uma cançãoRente à noite caladaCismo sem atençãoCom a alma veladaA vida encontrei-aTão desencontradaEmbora a lua cheiaE a noite extasiadaA vida mostrou-seCaminho de nadaEmbora brilhasseLua sobre a estradaComo se a belezaDa lua ou do marNada mais quisesseQue o próprio brilharPor esta razãoSem riso nem prantoNeste sem sentidoSe rompe o encantoIlhasSophia de Mello Breyner AndresenCaminho (2004)
terça-feira, 22 de dezembro de 2020
Palavras bonitas
ALGUMAS IMAGENS DO INVERNO
conheço-lhe os passos:
já muita vez aqueceu as mãos
ao lume das minhas.
Vai demorar-se;
segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
Palavras bonitas
O JOGO DO CHINQUILHO
domingo, 18 de outubro de 2020
Palavras bonitas
(Lembrança roubada à minha filha)
Horário do fim
morre-se nadaquando chega a vezé só um solavancona estrada por onde já não vamosmorre-se tudoquando não é o justo momentoe não é nuncaesse momentoRaiz de orvalho e outros poemasMia CoutoEditorial Caminho (1999)
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Memória
As memórias da infância e juventude são hoje bem mais claras do que aquilo que fiz de manhã. De acordo com o que dizem os estudiosos, é normal que o "computador" pessoal despreze o que aconteceu há pouco e privilegie aquilo que tem anos esquecidos, já não tem jeito nenhum, poucos se lembram e, para a grande maioria, é uma estucha perfeitamente dispensável. Também diz quem sabe que é comum fazer ligações entre o que acontece no momento e coisas passadas e arrumadas.
O Prémio Nobel da Literatura de 2020 foi hoje atribuído a uma poeta americana - LOUISE GLUCK - que não conhecia e continuo a não conhecer, por nunca ter lido nada por ela escrito. Talvez por ter sido escolhida a poesia, veio-me à memória, não a frase batida do Sérgio Godinho, mas a Balada da Neve, de Augusto Gil, que decorei há muitos, muitos anos e ainda permanece, vejam só, na primeira "gaveta do arquivo" memorial. E, diga-se de passagem, nesse tempo eu mal sabia o que era nevar e nunca tinha visto sequer uns farrapitos ...
BALADA DA NEVE
Batem leve, levemente,Como quem chama por mim.Será chuva? Será gente?Gente não é, certamentee a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:mas há pouco, há poucochinho,nem uma agulha buliana quieta melancoliados pinheiros do caminho ...
Quem bate, assim, levemente,com tão estranha leveza,que mal se ouve, mal se sente?Não é chuva, nem é gente,nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caíado azul cinzento do céu,branca e leve, branca e fria ...- Há quanto tempo a não via!E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.Pôs tudo da cor do linho.Passa gente e, quando passa,os passos imprime e traçana brancura do caminho ...
Fico olhando esses sinaisda pobre gente que avança,e noto, por entre os mais,os traços miniaturaisduns pezitos de criança ...
E descalcinhos, doridos ...a neve deixa ainda vê-los,primeiro, bem definidos,depois, em sulcos compridos,porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecadorsofra tormentos, enfim!Mas as crianças, Senhor,porque lhes dais tanta dor?!Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,uma funda turbaçãoentra em mim, fica em mim presa.Cai neve na naturezae cai no meu coração.
Augusto Gil (1873-1929)
sábado, 3 de outubro de 2020
Memória
Ontem, por força de um vídeo enviado, lembrei-me do jogo do pião e recordei-o, sozinho, no quintal cá de casa. Hoje, à custa de ter lido que "um corvo crocitava no alto de uma bela árvore", recordei-me da fala dos animais, que aprendi na primária. Já não recordava o autor nem me lembro de o seu nome ser referido, mas descobri tratar-se de um poeta que viveu entre 1839 e 1896 e se chamava Pedro Diniz.
A memória, velha, tem destas coisas.
VOZES DOS ANIMAIS
A fala foi dada ao homem,Rei dos outros animais.Nos versos lidos acima,Se encontram, em pobre rima,As vozes dos principais.
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
Palavras bonitas ...
NÓS
E a Cólera também andaram na cidade,
terça-feira, 15 de setembro de 2020
Bocage
Nasceu a 15 de Setembro de 1765. Chamava-se Manuel Maria Barbosa du Bocage, ficou conhecido como o Elmano Sadino e ainda hoje é recordado por inúmeras anedotas que se lhe atribuem, com ou sem razão. Foi um excelente poeta. Deixou vasta obra, que se lê sempre com muito agrado. Por força da evolução natural dos tempos e dos tempos que já foram, talvez não seja recordada com a atenção que lhe seria devida.
Fica aqui o seu retrato, com a ressalva de que, quando o li pela primeira vez, a moral e os bons costumes da época determinavam que o último verso fosse "Num dia em que se achou mais pachorrento" e não aquilo que o poeta escreveu.
Magro, de olhos azuis, carão moreno,Bem servido de pés, meão na altura,Triste de faxa, o mesmo de figura,Nariz alto no meio e não pequeno;Incapaz de assistir num só terreno,Mais propenso ao furor do que à ternura,Bebendo em níveas mãos por taça escuraDe zelos infernais letal veneno;Devoto incensador de mil deidades,(Digo de moças mil) num só momento;Inimigo de hipócritas e de frades:Eis Bocage, em quem luz algum talento;Saíram dele mesmo estas verdadesNum dia em que se achou cagando ao vento.
sexta-feira, 4 de setembro de 2020
Palavras bonitas
DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
Palavras bonitas
Não vou a Lisboa desde Fevereiro e é dessa ida a última vez que subi a Calçada do Carriche. Em tempos idos e com uma configuração muitíssimo mais apertada, era o caminho utilizado para entrar na capital indo do Oeste.
A memória tem destas coisas e a associação foi imediata com esta pérola, escrita há largos anos por um grande poeta, e sempre actual. Lisboa (e o mundo) ainda mantém muitas Luísas que, diariamente, sobem a calçada.
CALÇADA DE CARRICHE
sobe e não pode
que vai cansada.
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
Palavras bonitas
ao luar e ao sonho, na estrada deserta.
Poesias de Álvaro de Campos
Obras completas de Fernando Pessoa
Edições Ática (1980)
segunda-feira, 22 de junho de 2020
Palavras bonitas ... e actuais
na frente, aos montes, aos molhos, quase sempre o mais bonito
tantas coisas que não vemos está guardado pr'a quem lê
nem mesmo perto dos olhos? o que lá não 'stá escrito.
O mundo só pode ser A esmola não cura a chaga
melhor do que até aqui, mas quem a dá não percebe
- quando consigas fazer que ela avilta, que ela esmaga
mais p'los outros que por ti! o infeliz que a recebe.
Sem que o discurso eu pedisse, Chegasses onde pudesses;
ele falou; e eu escutei. mas nunca devias rir
Gostei do que ele não disse; nem fingir que não conheces
do que disse não gostei. quem te ajudou a subir!
Julgando um dever cumprir, Veste bem, já reparaste?
sem descer no meu critério mas ele próprio ignora
- digo verdades a rir que, por dentro, é um contraste
aos que me mentem a sério! com o que mostra por fora.
António Aleixo
Este livro que vos deixo ...
Edição, corrigida, de Vitalino Martins Aleixo (filho do poeta)
1975
quarta-feira, 17 de junho de 2020
Poesia racismo

domingo, 3 de maio de 2020
Palavras bonitas
estou bem e continuo
resisto
de noite custa mas de manhã
quando me visto
meto-te ao bolso
esperança
e assisto
a mais um dia
o calendário anda
para trás o sol é longe
o silêncio corrói
os fios da vontade
mas no meu bolso estás
e lá te afago
tranquila como um lago
que enche de seiva
as veias do meu corpo
Manuel Alberto Valente
Poesia reunida
Quetzal (2015)
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Palavras bonitas
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido ...
Alexandre O'Neill
Poemas com endereço (1962)




