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sábado, 6 de junho de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Três dias depois de ter chegado, ei-lo que se vai encaminhar para a prateleira e juntar-se a todos os seus "irmãos" mais velhos, num sítio onde não há violência e antes muito carinho por todos. 
É o melhor!?
Não sei, mas quando o terminei pensei isso. Depois, olhei o mar e disse para comigo: estarás a ser influenciado pela memória que está tão presente no espanto da Margarida e já arrumou no cantinho mais fundo todos os outros. Podes estar a ser injusto. Diz só: é muito bom!
Lembro-me de, há bastantes anos e quando RGC ainda estava no começo, ter ouvido António Lobo Antunes dizer, sem papas na língua, que ele era um grande escritor. Os seus livros têm-no confirmado e o "Daqui a nada" já saiu em 1995. A minha opinião, que nada vale, é a mesma. 
Espero que o próximo não tarde e não sofra as vicissitudes que este teve no "parto".

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Livros lidos (ou em vias disso)

Chegou ontem, autografado pelo autor, depois de uma longa espera "covidiana", para quem não quis aceder à versão digital. 
Não há nada que se compare ao manuseamento, apalpação, admiração, abertura ao acaso, ver a contracapa, as badanas, um conjunto de emoções difíceis de explicar, que só o livro físico possui e, depois, começar a tarefa.
Já está catalogado, fica na prateleira 14 do armário A e juntar-se-á a todos os outros do mesmo autor, mas só dentro de alguns dias. Até lá, faz-me companhia na secretária, no carro, na sala, na cama, até naquele "lugar solitário onde todo o cobarde faz força".

"(...) Se soubéssemos em crianças que era útil começar a tomar notas pouparíamos imenso tempo no psiquiatra. Bastava entrar.
- Olá, doutor, trago então aqui as gravações vídeo e áudio de tudo o que me aconteceu na infância.
- Ah sim? Ora muito bem, vamos então lá ver isso. E é tudo, tudo?
- Tudo. Tudo o que os meus olhos viram sem saber o que estavam a ver, tudo o que escutei, mesmo sem querer, tudo o que me disseram, nas exactas palavras que me disseram.
- Portanto, quando lhe ralharam ou repreenderam e assim, também? E outras coisas, enfim, mesmo mesmo desagradáveis?
- Tudo. A minha infância toda.
- Mas momentos bons também, espero?
- Sim, claro. Quer dizer, acho que sim.
- Óptimo, óptimo.
- Acha que vai encontrar as razões da minha depressão?
- Bom, não sei, uma coisa lhe garanto, normalmente estão aqui, nestas gravações do cérebro, muitas vezes em idades em que mal sabíamos falar.
- Boa. Olhe, assim sendo se calhar escuso de ficar, não é? Deitar-me no divã, fazer um esforço para me recordar do que não me recordo, você constantemente a fazer perguntas que eu acho que me resolvem o problema mas quando eu pergunto "Isto é o quê, doutor?", você pergunta de volta "e que acha você que pode ser?".
- Sim, sim, acho que sim, deixe-me as gravações e pronto, não prometo é que as veja hoje.
- Ligo depois a marcar para vir ouvir as conclusões?
- Sim, claro, ou marque ali com a minha assistente quando sair, está bem?
- Claro, até breve.
- Até breve, Margarida. 
Seria tudo tão mais fácil.(...)

Rodrigo Guedes de Carvalho
Margarida Espantada
D. Quixote (2020) 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Livros lidos (ou em vias disso)

Está lá tudo!
É suposto que um romance contenha uma história, mais ou menos bem contada, que desperte o entusiasmo de quem lê e que, no final, deixe o leitor satisfeito com o que leu e, se possível, identificado com o(s) tema(s) abordados.
"O Pianista de hotel" não é uma história, são várias sempre interligadas, todas muito bem contadas, na linguagem simples que é tão difícil de usar quanto é bonita de ler: o médico que perdeu a filha que era para ser médica, quis aprender violino, foi depois promissora violoncelista, passou pela violência no namoro e acabou com um tiro, no Brasil; o bailarino de boite que foge da aldeia para que terminem as perseguições e acaba vítima da mesma homofobia na grande cidade; a jovem, linda, que fica sozinha no restaurante embora faça "parar o trânsito"; o advogado bem instalado e badalado que, afinal, está bem longe de ter atingido a felicidade; o enfermeiro que não conseguiu ser médico, criado pelo avô que resolvia os mais intrincados problemas mecânicos e andava de harmónica no bolso; a médica psicóloga que, um dia, cansada, foi caminhar para o rio ...
Violência, traumas, rejeições, fingimentos, máscaras, realidades, a vida e ... a música - da melódica à harmónica, do violoncelo ao piano - que atravessa todo o livro.
Grande regresso de Rodrigo Guedes de Carvalho!

"(...) Maria Luísa olhou para a paragem e viu um grupo de pessoas, afastadas umas das outras, a consultar o telemóvel, a ver as horas e a espreitar, a ver se o autocarro tarda muito, outra de braços cruzados só a olhar em frente, com um saco de plástico pendurado num dos pulsos, e ao lado da paragem estava uma vendedora de castanhas a fazer fumarada, e começando a chuviscar as pessoas juntaram-se mais na paragem, em busca de abrigo, e de dentro do carro o olhar de Maria Luísa subiu e ficou focado num candeeiro alto, onde a ferrugem já pintalgava o metal, e a luz alaranjada deixava ver como estava a cair a água, que vinha tímida, ligeiramente de viés devido ao vento, como um chuveiro sem força.
Luís Gustavo entrou no autocarro, que travou na paragem a chiar no alcatrão molhado. (...)

Rodrigo Guedes de Carvalho
O pianista de hotel
D. Quixote (Maio 2017)

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Mulher em branco

" ... Na cabeça de Laura. Na sua cabeça viaja, doce, segue fluída a tranquilidade de não pertencer. Nenhuma expectativa, nenhuma angústia. Assim dita, uma paz.
Porque vive numa calma ausência de si. ..."
Rodrigo Guedes de Carvalho
Mulher em Branco
Dom Quixote - Março 2006
Um livro de imagens ou um filme de palavras?

Talvez um quadro da vida, actual, pintado de forma abstracta, com cores tão reais que os factos entram pelos olhos dentro. Um rigor descritivo impetuoso, que nos transporta para o interior da história e nos faz sentir parte nela.
Parece tão fácil!