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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Quotidiano (ou saudosismo)

Hoje, dia em que se comemora o Santo Antão, não já o da minha infância que só tinha chouriço assado, pão e muito vinho, mas o que apresenta, segundo a reportagem televisiva, entremeadas, costeletas, febras e até ostras, passam 25 anos - um quarto de século - da morte de Miguel Torga, um escritor de quem gosto muito e que, parece-me, já vai caindo num, imerecido, esquecimento. A sua poesia tem tido presença regular neste espaço mas hoje apeteceu-me pegar nos BICHOS, livro que foi editado pela primeira vez em 1940 (doze anos antes de eu vir ao mundo) e deixar um dos seus 15 contos, seguramente não dos mais conhecidos.

FARRUSCO

Dentro da poça do Lenteiro, há rãs. Naquela água coberta de agriões e de juncos moram centenas delas. Mas à volta, na sebe de marmeleiros, silva-macha e alecrim, vive Farrusco, o melro. Sabe-se isso desde que, em certo entardecer de Agosto, a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente:
          - Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
A rapariga era toda ela de se comer. E o cuco, maroto, olhou de lá, viu, e respondeu:
          - Cucu ...  Cucu ...  Cucu ...
Três anos! A moça ficou varada. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias, e prometera levá-la à igreja logo a seguir. Que significava, pois, semelhante demora? Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada:
          - Ora vê?! Que lhe dizia eu?
A Isaura nem queria acreditar.
          - Ouvirias mal! ...
          - Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem.
E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas, como se alguém rasgasse um pano cru, rijo e comprido, no silêncio da tarde serena, que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Nada mais do que isso. Mas o bastante para mudar o sinal de desencanto. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. De parada, a natureza animou-se. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. A própria terra, sonolenta do calor do dia, acordou. E de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro.
Chamadas por aquela volatina, as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. Às rãs, juntaram-se logo, pressurosos, os ralos, as cegarregas, os grilos e quanta arraia miúda tinha fala. A esta, a passarada. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. Um coro imenso, cósmico e fraterno, que enchia o mundo de confiança.
Clara, arrastada pela onda de harmonia, apelou da sentença:
          - Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
O que foste fazer! O malandro do pitonisa, se há pouco fora cruel, desta vez requintou.
          - Cucu ... Cucu ... Cucu ... Cucu ...
Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. Ou de propósito, ou porque o mundo, naquele instante, era um orfeão aberto, o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu.
Desapontada, a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. E, num amuo justificado, deixou correr as horas. A seu lado, comprometida, a Isaura, que tinha garantido o noivado a curto prazo, falava, falava, sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. E quando a noite se aproximou, disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da seja para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias de Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar.
          - O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro se riu!
          - Riem-se de tudo, esses diabos ...
Mas o luso-fusco começava a empoeirar o céu, e Farrusco is fechando docemente os olhos, deitado na cama dura. A vida que lhe ensinara a mãe, simples, honesta, espartana, não lhe consentia luxos de noitadas. Pela manhã, ainda o sol vinha lá para Galegos, já ele tinha de estar de perna à vela, pronto para comer a bicharada da veiga, e rir de novo, se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco.
Miguel Torga
Bichos
Gráfica de Coimbra

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Palavras bonitas

VOZ

Era uma voz que doía, 
Mas ensinava.
Descobria,
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.

Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia,
Lá na terra onde morava.

E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.

Miguel Torga
Libertação (4ª Edição)
Coimbra 1978

Já passam hoje 4 anos da partida do meu pai e ainda parece que foi ontem.

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia do Pai

Dia do Pai.
O meu, se ainda por cá estivesse, faria hoje 97 anos.

CLARO - ESCURO

Dia da vida,
Noite da morte ...
O verso
E o reverso
Da medalha.
E não há desespero que nos valha,
Nem crença,
Nem descrença,
Nem filosofia.
Esta brutalidade, e nada mais:
Sol e sombra - o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro,
E a sombra depois ...
E à luz do sol é tudo o que sabemos:
Juventude,
Beleza,
Poesia,
E amor
- Amargo fruto que na sepultura,
Em vez de apodrecer, ganha doçura

Miguel Torga
Orfeu Rebelde
Coimbra Editora (1992)

segunda-feira, 19 de março de 2018

Palavras bonitas

(Para o meu pai, que faria hoje 96 anos)

PERSEVERANÇA

Abro o leque da sorte, e mostro o jogo.
Outro lance perdido!
Obras do mundo que eu não tenha erguido
Sobre o suor do corpo e da vontade,
Morrem-me assim nas mãos, num dolorido
Gesto de orgulho e de incapacidade.

Mas o fruto humilhante da falência
Tem um azedo gosto que me excita.
Se o destino se engana, ou se dormita
Na hora crucial do desafio,
Então é o mar que há-de encontrar no rio
O sal da terra em que não acredita.

Miguel Torga
Cântico do Homem
Coimbra (4ª. Edição-1974)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Palavras bonitas

(Passam hoje 2 anos sobre a partida do meu pai.)

PERENIDADE

Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
Uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.

Miguel Torga 
Libertação
Coimbra (4ªEdição)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Netos

Hoje, o meu neto caçula festeja o primeiro aniversário.
E que prazer e confiança ele nos transmite agora, quando já vai decorrido um ano da sua vida e começam a aparecer as brincadeiras e as tropelias.
O meu Miguel ainda não lerá este poema de outro Miguel, mas foi para ele que o avô o escolheu.

CONFIANÇA

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura ...
E que a doçura
Que se não prova
Se tranfigura
Numa doçura 
Muito mais pura
E muito mais nova ...

Miguel Torga
Cântico do Homem

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS




NATAL

Velho Menino-Deus que me vens ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram ...

Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder ...
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer ...

Vem, apesar de tudo, se queres vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão ...

Mas o brinquedo ... quebra-o no caminho.
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração ...

Miguel Torga
Diário II
24/12/1942 - Coimbra


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Palavras bonitas

Para o meu pai, que partiu há um ano.

CERTEZA

Sereno, o parque espera.
Mostra os braços cortados,
E sonha a primavera
Com os seus olhos gelados.

É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente;
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e semente.

Basta que um novo sol
Desça do velho céu,
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.

Miguel Torga
Diário II

segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de Abril

FLOR DA LIBERDADE

Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós ... Também nós ... E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.
Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos 
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.

Miguel Torga
Orfeu Rebelde


sábado, 19 de março de 2016

Dia do Pai

Hoje é (era) o Dia do (meu) Pai!

Ponta Seca

Remendo o coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha ...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.

Miguel Torga
Diário VI (05.04.1952)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Palavras bonitas ... para o meu neto Miguel

VIDA

Do que a vida é capaz!
A força dum alento verdadeiro!
O que um dedal de seiva faz
A rasgar o seu negro cativeiro!

Ser!
Parece uma renúncia que ali vai,
- E é um carvalho a nascer
Da bolota que cai!

Miguel Torga
Diário II

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Palavras bonitas

CONDIÇÃO

A onda vem, lambe o areal e parte;
A mágoa vem, morde o meu corpo e fica;
A mágoa ateima, ateima, e quer ser arte,
A onda envergonhou-se de ser bica.

E nem a areia seca se revolta,
Nem o meu corpo pode protestar;
A onda anda no mar, à solta,
E a mágoa já tem casa onde morar.

Forças sem coração e sem governo
Jogam no pano que lhes apetece;
Pobre de quem padece
O seu capricho eterno ...

Miguel Torga
Diário III
Lavadores, 11 de Agosto de 1946

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Palavras bonitas e ... actualidade

AVE DA ESPERANÇA

Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
aquece as alegrias do futuro,
o tempo que há-de vir sem este muro
de silêncio e negrura
a cercá-lo de medo e de espessura
maciça e tumular;
o tempo que há-de vir - esse desejo
com asas, primavera e liberdade;
tempo que ninguém há-de
corromper
com palavras de amor, que são a morte
antes de morrer.
Miguel Torga
Penas do Purgatório

Torga publicou estes versos em 1954, desabafando o seu desejo de um tempo sem muros de silêncio e de negrura, com asas, luz e liberdade.
Numa altura em que tudo é posto em causa e se ouvem arautos clamando pelo regresso ao "ontem", é bom deixar claro que "uma andorinha não faz a primavera" e que a sociedade livre e justa passará, sempre, pelo castigo dos que prevaricam e pela absolvição dos inocentes, sem condenações prévias nem absolvições de casta, sejam ou tenham sido os indiciados banqueiros, primeiros-ministros, chefes da polícia, juristas, altos quadros ou simples cidadãos desconhecidos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Palavras bonitas

LUTA

O que eu sonho!
A fé que ponho
na imaginação!
Digo à razão
que sim, que desvario
nesta humana aventura,
e ergo mais a lança em desafio
e desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
os gigantes que encontro nos caminhos
das minhas digressões.
Mas combato,
combato
e desbarato
as próprias ilusões.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Momentos

Regresso inúmeras vezes a Torga, cuja escrita me fascina e transmite estados, ideias, vertigens, retratos, um sem número de sensações que não consigo explicar.
O Público tem vindo a facultar, semanalmente, reproduções de livros proibidos por quem nos quis (e conseguiu) manter inaptos, incultos, subjugados, atentos, veneradores e servis. Esta semana chegou o Diário VIII, publicado em Janeiro de 1960 e que os algozes decidiram proibir, apesar dos inúmeros protestos quer por cá quer no estrangeiro. 
Após a retirada do plástico de protecção e antes de o arrumar junto ao seu companheiro original mas bem mais novo ( tenho a 3ª. edição, de 1976), folheei e reli na diagonal:

TATUAGEM
Um verso apenas, mas que fique impresso
Na morena epiderme
Do teu corpo maciço;
Um verso agradecido
à universal beleza
Do teu rosto redondo,
Infatigàvelmente variado;
Um verso branco e puro
De rendido louvor
À serena ironia
Com que deixas brincar no teu regaço
A inquietação,
E devolves o eco
De cada grito
À boca enfurecida,
- Terra, pátria da vida!
Eva que o sol fecunda do infinito!

S. Martinho de Anta, 29 de Outubro de 1955 - O solar da família, térreo, de telha vã, encimado pelo seu brasão de armas esquartelado, com enxadões em todos os campos ... Foi desta realidade que parti, e é a esta realidade que regresso sempre, por mais voltas que dê nos caminhos da vida. É uma certeza de marco com testemunhas, que nunca me deixa desorientado quando quero avivar as estrelas da alma. Basta escavar um pouco a crosta da aparência, e aí estou eu na matriz, confrontado.
Há tempos, em Lovios, no Gerês espanhol, depois de conversar com vários habitantes da povoação, interessei-me por um tumor a despontar no pescoço de uma velhota.
- É doutor ... - informou o meu companheiro.
- Que doutor! Ele é como nós! ...
E sou. Tudo, menos trânsfuga da minha classe. Nasci povo, povo continuo, e povo quero morrer. (...)
Miguel Torga
Diário VIII - Janeiro de 1960

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia

Dia do Mar

A minha esperança mora
no vento e nas sereias -
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias

Sophia de Mello Breyner Andresen

Trova

Beira da serra da Estrela
Onde o sol finge de lua ...
Soturna e magra courela
Que lã de ovelhas debrua ...

Miguel Torga

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.

Natália Correia


sábado, 14 de dezembro de 2013

Palavras bonitas

À BELEZA

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
o que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
o sorriso das pedras,
e a candura do instinto.
És aquele alimento
de quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
ou em arte,
ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
ou a moça do espelho, que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
uma linha sem traço …
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
tudo repousa em paz no teu regaço!

Miguel Torga
Odes

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Palavras bonitas

Para a minha mãe, que faria hoje 90 anos, se por cá ainda permanecesse, como era justo.

REMINISCÊNCIA

Prossegue o pesadelo.
Feliz o tempo, que não tem memória!
É só dos homens esta outra vida
Da recordação.
E tão inúteis certas agonias
Que o passado distila no presente!
Tão inúteis os dias
Que o espírito refaz e o corpo já não sente!
Continua a lembrança dolorosa
Nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais
E permanecem verdes, vegetais,
No silêncio profundo das raízes.

Miguel Torga
Penas do Purgatório

sábado, 1 de dezembro de 2012

Palavras bonitas

PERENIDADE

Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
o luxo eterno que ela te concede.

Miguel Torga

quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavras bonitas ... no Dia Mundial da Poesia

P A I S A G E M

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen

F O L H I N H A

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.

Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Miguel Torga

R I C O C H E T E

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?

Natália Correia

D U N A S

É o mar do deserto, ondulação
Sem fim das dunas,
Onde dormir, onde estender o corpo
Sobre outro corpo, o peito vasto,
As pernas finas, longas,
As nádegas rijas, colinas
Sucessivas onde o vento
Demora os dedos, e as cabras
Passam, e o pastor
Sonha oásis perto,
E o verde das palmeiras se levanta
Até à nossa boca, até à nossa alma
Com sede de outras dunas,
Onde o corpo do amor
Seja por fim um gole de água.

Eugénio de Andrade