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sexta-feira, 2 de março de 2012

Palavras bonitas

CLARO-ESCURO

Dia da vida,
Noite da morte ...
O verso
e o reverso
da medalha.
E não há desespero que nos valha,
nem crença,
nem descrença,
nem filosofia.
Esta brutalidade, e nada mais:
Sol e sombra - o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro,
e a sombra depois ...
E à luz do sol é tudo o que sabemos:
Juventude,
beleza,
poesia,
e amor
- Amargo fruto que na sepultura,
em vez de apodrecer, ganha doçura.

Miguel Torga
Orfeu  Rebelde

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS

História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei

Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.
                                                                                      Faianças Bordalo Pinheiro
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,                                           
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;

E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Palavras bonitas

DIÁLOGO

Pergunto ...
Mas quem me poderia responder?!
Tu não, rio sem asas,
Que permaneces
A passar ...
Nem tu, planeta alado,
Que pareces
Parado
A caminhar ...
Humano, só de humanos meus iguais
Entendo a fala,
Os gestos
E o destino.
E esses, como eu,
Olham a terra e o céu,
Os rios e os planetas,
E perguntam também ...
Perguntam, mas a quem?

Miguel Torga

sábado, 2 de julho de 2011

Palavras bonitas

PÓRTICO

Aqui começa a nova caminhada.
Se a levar ao fim, darei louvores a Deus,
Como meu Pai, ao despegar
do dia ganho.
Não por haver chegado,
mas ter acrescentado
um palmo de ilusão ao meu tamanho.

Miguel Torga

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa …

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças …
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca …

Fernando Pessoa

EM TODOS OS JARDINS

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens

Sophia de Mello Breyner Andresen

MIRADOIRO

Com tristeza e vergonha enternecida,
Olho daqui
A ponte das palavras
Que construí
Sobre o abismo da vida.

Sonhei-a;
Desenhei-a;
Sólida até onde pude,
Lancei-a como um salto de gazela:
E não passei por ela!

Vim por baixo, agarrado ao chão do mundo.
Filho de Adão e Eva,
Era de terra e treva
O meu destino.
E cá vou como um pobre peregrino.

Miguel Torga

O SAL DA LÍNGUA

Escuta, escuta: tenho ainda
Uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
Salvar o mundo, não mudará
 A vida de ninguém – mas quem
É hoje capaz de salvar o mundo
Ou apenas mudar o sentido
Da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
Que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
Mais. Palavras que te quero confiar.

Para que não se extinga o seu lume,
O seu lume breve.
Palavras que muito amei,
Que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

sábado, 8 de janeiro de 2011

Palavras bonitas

LETREIRO

Porque não sei mentir,
não vos engano;
Nasci subversivo.
A começar em mim - meu principal motivo
de insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
de cada paraíso.
Miguel Torga
Orfeu rebelde

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Palavras bonitas

Apocalipse

É o cavalo do tempo a galopar ...
Ninguém pode detê-lo.
Vê-lo,
é ver, a sonhar,
um relâmpago a rasgar
o céu dum pesadelo.
Deixa a desolação por onde passa.
Torna os sonhos maninhos.
Desmente os adivinhos
que, na divina graça
de feiticeiras alucinações,
prometem duração às ilusões.

Besta infernal,
com asas de morcego
e raiva desbocada,
largou do prado onde pastava ausente,
e corre, corre, em direcção ao nada,
única direcção que a fúria lhe consente.
Miguel Torga
Câmara Ardente

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Vindimas

Começou o corte dos cachos das videiras que, em Abril deste ano, no Douro, ainda nem sequer abrolhavam. O ritual de antigamente está hoje em desuso, exigindo-se a quem vindima um cuidado carinhoso com as uvas, para que o corte acrescente qualidade ao vinho que há-de resultar da cozedura do mosto.
Hoje cruzei-me com várias carrinhas que transportavam pessoas para as vindimas e, quando cheguei, fui à estante procurar Torga, lido há anos, mas a quem se volta sempre com prazer.
" (...) Encosta espraiada de cepas a olhar o rio ao fundo e o céu lá no alto, a Cavadinha, com o  nome em letras garrafais no arco de ferro que encima o largo portão da entrada, é o mimo das quintas. Uma alta ramada dá sombra ao caminho varrido que liga a estrada à residência, sólida construção sobranceira às várias dependências que a rodeiam: os lagares, os armazéns e a cozinha do pessoal. Casas caiadas de branco, telhado e tudo, como as de Penaguião, quando neva. Uma brancura para enganar o coração de quem vem.
A cal, porém, não chegava até à cardenha onde dormiam os vindimadores. Longe do terreiro, sobradada de palha e dividida em dois por uma meia parede que teias de aranha prolongavam até ao telhado, de um lado amontoavam-se as mulheres, do outro ressonavam os homens e as crianças, quando, depois de um dia de corte, de cestos e de lagar, caíam como tordos no chão.
- Onde se começa? - quis saber o Eusébio, ao deitar, numa curiosidade de boi pela molhelha.
- Na encosta do buxo, disse-me o tio Seara.
Dançado o último fandango, esgotado o reportório das cantigas, a tarde caíra sonolenta sobre as léguas do caminho. E agora, antes de se entregar inteiro a um repouso de morte, o corpo necessitava de conhecer em que sítio se iniciava a vida quando viesse a ressurreição.
- Aperte mais o rabo, tia Joana! - gritou de cá o Jerónimo, a um ruído suspeito do outro lado.
- Eu ainda não estou tão lassa como cuidas, ó alma do diabo! Fala ali com a Carminda ...
Um impudor de convívio chegado, de intimidade de paredes sem reboco e sem remate no tecto, rasgava o véu que cada natureza, principalmente se era feminina, trazia à volta de si. Velhas e novas, virgens e casadas, homens e meninos, olhavam-se descompostos e naturais, numa ironia tolerante.
- Ó tia Virgínia, que tal é o colchão?
- É-é-é ... bô-ô-ô ...
- E você, tia Angélica, reza a coroa?
- A minha alma já está no céu, só de vos aturar ...
- Fartei-me de uvas! - gabava-se o Chico, entoirido. - Até me dói a barriga ...
- Se te apertar, não me sujes ... Vai lá fora!
- Há pulgas, aqui! - gritou a Carminda.
- Queres que tas vá coçar?
Nenhum dito regressava sem troco, nenhuma intenção ficava por entender. (...)"
Miguel Torga
Vindima - 1945

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Palavras bonitas

FICAM AS SOMBRAS ...

Não. Não podeis levar tudo.
Depois do corpo,
E da alma,
E do nome,
E da terra da própria sepultura,
Fica a memória de uma criatura
Que viveu,
E sofreu,
E amou,
E cantou,
E nunca se dobrou
à dura tirania que a venceu.

Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.
E sabeis que se comem
Os frutos acres da recordação ...

Fantasmas invisíveis que atormentam
O sono leve dos que se alimentam
Da liberdade de qualquer irmão.

Miguel Torga
Cântico do Homem
Nota: Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta, no dia 12 de Agosto de 1907, há 103 anos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Palavras bonitas

DIES IRAE

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Miguel Torga
Cântico do Homem

sábado, 17 de outubro de 2009

Palavras bonitas

DEPOIMENTO

Deponho no processo do meu crime.
(Sou testemunha
E réu
E vítima
E juiz).
Juro
Que havia um muro,
E na face do muro uma palavra a giz.
Merda ! - lembro-me bem.
- Crianças ... - disse alguém
Que ia a passar.
Mas voltei novamente a soletrar
O vocábulo indecente,
E de repente,
Como quem adivinha,
Numa tristeza já de penitente,
Vi que a letra era minha ...
Miguel Torga
Câmara Ardente

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Momentos

Quando a vontade de ler se desvanece, quando a concentração se dispersa, quando o ouvido é massacrado de "barbaridades" sem nexo, "marketizando" o que devia ser sério, com meias verdades a ilustrarem as realidades, o folclore demagógico servido na bandeja da propaganda, coloco no aparelho o CD "Longe daqui", de Pedro Barroso, pego em Torga e "desapareço".
"(...) Tropeçar? Não aguentar a carga? Se fosse apenas isso! Embora pessimamente dormido e com a barriga vazia, nem as pernas lhe quebravam às primeiras, nem três sacos de centeio lhe faziam mossa. Os aborrecimentos que temia eram doutra natureza ... Qualquer encontro desagradável, por exemplo ...
Nem de propósito! Ele a pensar no mal, e a ponta de um uivo tenebroso a furar-lhe os ouvidos.
Um arrepio fundo percorreu-lhe o corpo. E, a seguir, todo ele ficou hirto, frio, pregado ao chão, num pânico mortal. Obra de um segundo, apenas. O justo tempo de a arreata ficar esticada entre a mão que a segurava e o argolão do cabresto. É que reagiu logo. Que diabo! Ia ali quem o defendesse ... Não havia razão para um terror assim!
Mas o dono, enigmaticamente, recuava. Aos poucos, encurtava os passos e chegava-se ao seu bafo. Mau! ...
Novo uivo, quase sobre eles, fendeu a noite. E ambos, agora como se fossem um só, de tão cingidos, se puseram a pisar o chão ao de leve, encolhidos no bioco da noite, com a respiração suspensa.(...)"
Miguel Torga
Bichos
Morgado

domingo, 5 de julho de 2009

Palavras bonitas

PERENIDADE

Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
Uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.
Miguel Torga
Libertação
(Para o meu neto ler e interpretar, quando o conseguir. Fez hoje 3 anos.)

domingo, 17 de maio de 2009

Palavras bonitas

FRONTEIRA

De um lado terra, doutro lado terra;
De um lado gente, doutro lado gente;
Lados e filhos desta mesma serra,
O mesmo céu os olha e os consente.

O mesmo beijo aqui, o mesmo beijo além;
Uivos iguais de cão ou de alcateia,
E a mesma lua lírica que vem
Corar meadas de uma velha teia.

Mas uma força que não tem razão,
Que não tem olhos, que não tem sentido,
Passa e reparte o coração
Do mais pequeno tojo adormecido.
Miguel Torga
Libertação

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Palavras bonitas

PERSPECTIVA

Olho a sebe de versos que plantei
Ao longo do caminho dos meus dias:
Tristezas e alegrias
Enlaçadas
Como irmãs vegetais.
Silvas e alecrim ...
O pior e o melhor que havia em mim,
Num abraço de arbustos fraternais.

Nada quero mudar dessa harmonia
De agruras e doçuras misturadas.
Pasmo é de ver a estranha maravilha.
Poeta que partilha
O coração magoado
Por presentes e opostas emoções,
Contemplo, deslumbrado,
O renque de vivências do passado,
Longo poema sem contradições.

Miguel Torga
Câmara Ardente
Gráfica de Coimbra

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Palavras bonitas

EIS-NOS AQUI

Eis-nos aqui, sentados à lareira
Do desespero.
O borralho ideal vai-se apagando,
Enquanto o vento da realidade
Sopra lá fora.
É esta a nossa hora
De amor
Ou de traição?
Porque fechamos todas as portas
Do coração,
Entanguidos de frio e de terror?
Se o temporal entrasse,
Talvez a labareda se ateasse
E nos desse calor ...
Miguel Torga
Cântico do Homem
Gráfica de Coimbra

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Palavras bonitas

RECUSA

Convosco, não, traidores!
Que poeta decente poderia
Acompanhar-vos um segundo apenas?

À quente romaria do futuro
Não vão homens obesos e cansados.
Vão rapazes alegres,
Moças bonitas,
Trovadores,

E também os eternos desgraçados,
Revoltados
E sonhadores.

Miguel Torga

Cântico do Homem(4ª. Edição)
Gráfica de Coimbra
Janeiro 1974

sábado, 5 de julho de 2008

Palavras bonitas

CONFIANÇA
.
O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura ...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova ...
Miguel Torga
Cântico do Homem
O meu neto faz hoje dois anos ...

domingo, 13 de abril de 2008

Palavras bonitas

DEPOIMENTO

Foi na vida real como nos sonhos:
Nunca pisei um chão de segurança.
Procuro na lembrança
Um sólido caminho percorrido,
E vejo sempre um barco sacudido
Pelas ondas raivosas do destino.
Um barco inconsciente de menino,
Um barco temerário de rapaz,
E um barco de homem, que já não domino
Entre os rochedos onde se desfaz.
Mas o céu era belo
Quando à noite o seu dono o acendia;
E era belo o sorriso da poesia,
E belo o amor, dragão insatisfeito;
E era belo não ter dentro do peito
Nem medo, nem remorsos, nem vaidade.
Por isso digo que valeu a pena
A dura realidade
Desta viagem trágico-terrena
Sempre batida pela tempestade.
Miguel Torga
Orfeu Rebelde

domingo, 12 de agosto de 2007

Palavras bonitas


CONFIANÇA
O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura ...
E que a doçura
Que não se prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga
Cântico do Homem (4º. Edição)
Gráfica de Coimbra
Janeiro de 1974
Passam hoje 100 anos do nascimento do Grande Poeta.