terça-feira, 3 de junho de 2008

Imaginação

Hoje, no regresso, já bem tarde, de mais uma jornada diária, pensei:
- Tens de colocar qualquer coisa no blogue, para não se perder o hábito!
Afinal, a imaginação, que já é pouca e arredia em circunstâncias normais, não quis correr o risco de se misturar com o cansaço e desapareceu.
Não sei se foi analisar o aumento dos combustíveis, a greve dos pescadores, as eleições nos Estados Unidos, ou se viajou para a Suiça, acompanhando a Selecção de futebol.
Verdade, verdadinha é que me fugiu ...
Espero que tenha ido para algum sítio onde faça qualquer coisa de útil ... por exemplo, dar uma ajudinha à Autoridade da Concorrência, para que o relatório sobre a cartelização dos preços praticados pelas gasolineiras apareça antes que o petróleo acabe !!!

domingo, 25 de maio de 2008

Palavras bonitas

RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Dual
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Pensamentos

Estou convicto que acontece com todos ...
Por vezes, o peito abre e emerge um ser convencido de que possui um jeito extraordinário para fazer determinada tarefa, tem alma de pintor ou de poeta, imaginação sem limites, capacidade a rodos, qualidades não evidenciadas nem reconhecidas apenas por caprichos da sorte, que lhe foi madrasta, ao contrário do que sucede com os "favorecidos da vida", a quem tudo foi oferecido e que, por isso, sem trabalho nem preocupação, têm "o melhor carro, a melhor casa, a melhor mulher (ou homem), o melhor emprego, a melhor vida, o melhor ... tudo".
Regressa uma pessoa do trabalho, a pensar no "feriadito" (Dia Santo), ouvindo música no tal que não é o melhor carro (esses passam como balas), é "abanado" com dois telefonemas atendidos ilegalmente (se a polícia aparecesse, pedia desculpa) e chega a casa.
Os telefonemas já tinham feito "descer à terra", colocar o peito no lugar e no tamanho devidos, acabar com o trautear (desafinado) ao compasso da música.
No sítio do costume, a leitura da crónica de António Lobo Antunes, na Visão desta semana, coloca, em definitivo, o ego no devido lugar.
Há gente tão grande ... e tão simples.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Regresso ...

Os dias voaram, emoldurados pelo almoço da Escola, a chegada do filho e da nora para umas merecidas férias, a visita do neto, da filha e do genro, umas horas passadas no Hospital Termal à procura de que "santos da casa façam milagres", as Festas da Cidade, neste ano engalanadas com a inauguração do CCC e, consequência, há dez dias que por aqui não passava.
Não estive na inauguração oficial do CCC, por dificuldades de agenda, mas presenciei a inauguração popular, com lhe chamou Fernando Costa, que caprichou no fogo de artifício mas fez um discurso demasiado simplista para a importância da obra. Espero que tenha estado melhor na presença do PR.
Perdi António Pinho Vargas & José Nogueira mas estreei-me com Tricicle, um espectáculo extraordinário vindo de Barcelona e que pôs toda a gente a rir e a aplaudir.
O Cartaz promete e, apesar do bilhete semestral, corre-se o risco de a algibeira se queixar, tanta e tão diversificada é a oferta.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Acordo ortográfico

Entendo que uma língua é tanto mais viva e mais bela quanto mais formas existirem para a sua expressão, sem espartilhos de legalidade ou baias de criação.
A língua de Aquilino Ribeiro é bem diferente da de Mia Couto; Lobo Antunes não escreve como Germano de Almeida; Jorge Amado não se compara com Eça de Queiroz e Fernando Pessoa com João Cabral de Melo Neto, para citar apenas alguns exemplos.
Alguém deixou de entender estes e tantos outros, por a forma de escrever ser diferente?
Adaptando um velho slogan:
Há acordo??? Sou contra !!! ... e já subscrevi em

Recordações


Outrora era hoje o dia da mãe.

domingo, 4 de maio de 2008

Perguntas (im)pertinentes

  • O aumento dos bens alimentares terá alguma coisa a ver com a especulação dos fundos de investimento?
  • Será possível passar pela cabeça de alguém que o Santana Lopes pode voltar a ser Primeiro-Ministro?
  • Se a anterior for verdadeira, também teremos, de novo, o Jardim Gonçalves no BCP?
  • Para o ano só haverá oito clubes a disputar a Primeira Liga?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril



Se o quadro que a Visão publica esta semana fosse um cartoon, o cartunista colocaria a legenda "SEM PALAVRAS".
São apenas números, elucidativos, que reflectem duas realidades , felizmente bem diferentes. Se a isto se acrescentar que não há guerra colonial, não há censura, não há Pide e há liberdade de opinião (até para dizer e escrever disparates), de reunião e de escolha, a grandeza da resultante é tal que nunca pode ser esquecida e os agradecimentos a quem arriscou e conseguiu fazer o 25 de Abril de 1974 nunca serão demais.
P.S. - Naturalmente que a liberdade de todos permite que surjam alguns energúmenos e oportunistas. É o preço a pagar, o nosso "imposto social", mas vale a pena.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Tempo

A saca de capuz, com tons de castanho bem escuro, indicava que o céu regava os campos com todos os cântaros que tinha à mão. Era de serapilheira grossa e, olhando-se com atenção, ainda se viam as letras do Foskamónio 15-15-15 que nela tinha sido embalado. O mais provável era que tivesse feito parte de uma das partidas de adubo que a quinta comprava no final do Outono e tivesse sido dada a Jerónimo como recompensa de um dia bem sucedido na adubação.
Cumpria agora a missão de lhe proteger a cabeça e as costas.
A chuva, impediosa em grossas bátegas batidas de vento, desmentia o "marçagão" do ditado e inundava as terras, sem contemplações de calendário.
Tinha saído de casa bem cedo. Mal via o caminho e, de quando em vez, uma pedra rebolava com o impacto, desastrado, de uma das suas botas. Os melros acordavam, sobressaltados, e levantavam do poiso da noite, com um silvo, zangado, próprio de quem é acordado antes da hora prevista.
Caminhava a passo estugado.
O dia começava a clarear.
Barafustava: Alvorei cedo, chegarei tarde?
A chuva aumentava de intensidade. Só uma grande sorte faria com que o caseiro lhe desse um diazito a rachar lenha no telheiro; para o campo não estava capaz.
E a jorna?
O garoto estava doente. O homem da loja já tinha cortado o assento no livro.
Quando avistou o portão, pensou em desistir e voltar a casa.
Encostados ao muro já se distinguiam, pelo menos, cinco vultos que tinham amanhecido mais cedo.
O caseiro não tardou:
- Hoje só preciso de dois; ficam o Xico e o Manel. Voltem amanhã, talvez dê para fazer alguma coisa na vinha!
A tasca já estava aberta. Procurou nos bolsos uma moeda que sabia lá não estar.
Ficou-se pela sensação de calor que um copo de aguardente lhe daria, se o tivesse bebido.
Voltou a casa, com as costas vergadas pelo peso da saca encharcada.
Alvorou cedo ... chegou tarde!

domingo, 13 de abril de 2008

Palavras bonitas

DEPOIMENTO

Foi na vida real como nos sonhos:
Nunca pisei um chão de segurança.
Procuro na lembrança
Um sólido caminho percorrido,
E vejo sempre um barco sacudido
Pelas ondas raivosas do destino.
Um barco inconsciente de menino,
Um barco temerário de rapaz,
E um barco de homem, que já não domino
Entre os rochedos onde se desfaz.
Mas o céu era belo
Quando à noite o seu dono o acendia;
E era belo o sorriso da poesia,
E belo o amor, dragão insatisfeito;
E era belo não ter dentro do peito
Nem medo, nem remorsos, nem vaidade.
Por isso digo que valeu a pena
A dura realidade
Desta viagem trágico-terrena
Sempre batida pela tempestade.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

domingo, 6 de abril de 2008

Palavras bonitas

Artur G. foi meu companheiro na Escola Industrial e Comercial das Caldas da Rainha na primeira metade da década de 60 do século passado. A vida levou-o, como a muitos, para longe da cidade e da região: vive em Faro e é Professor na Universidade do Algarve.

Há cerca de quarenta anos que não nos encontramos, ou que, pelo menos, disso nos tivéssemos dado conta.

O Blog dos Antigos Alunos fez o "milagre" de confirmar que ainda existimos e proporcionou a troca de correspondência electrónica, recordando o passado, desvendando a actualidade e criando expectativas para o futuro encontro pessoal.

Estive fora uns dias (fui ver o meu "menino" à Grécia) e o Blog ressentiu-se.

Nesta ausência, o Artur mandou-me um mail, com palavras bonitas cantadas e recitadas por Maria Bethânia, que fazem parte de um disco chamado Mar de Sophia, editado em 2006.

Tenho o CD e um outro - Pirata - da mesma altura, na minha "colecção Bethânia". Têm uma história curiosa, por serem ambos da edição brasileira e me terem sido trazidos directamente por um amigo que lá se deslocou e que foi obrigado a interromper a preguiça na praia para me satisfazer o capricho.

O Artur despertou-me a vontade para os ouvir, uma vez mais.

O Mar de Sophia tem três ingredientes que têm funcionado como lenitivo para mim: a poesia de Sophia, a voz de Bethânia e o mar ...

PS - Conto rever o Artur no almoço dos antigos alunos, que irá ter lugar no próximo dia 10 de Maio.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Palavras bonitas

No Dia Mundial da Poesia, a recordação da voz e das palavras de Natália Correia, declamando a sua Defesa do Poeta.

A gravação foi efectuada em Dezembro de 1968, num serão dedicado à poesia e realizado na casa de Amália.



"Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer ."

domingo, 16 de março de 2008

16 de Março


A manhã estava serena, a temperatura agradável e o sol, envergonhado, escondido por entre as nuvens.

O mar da Foz deve ter andado, nesta semana, com grandes sobressaltos e zangado com a vida. A areia mostrava isso mesmo, quer exibindo muitos detritos trazidos pelas marés, quer por se apresentar tão "fofinha" que mal aguentava o nosso (excessivo) peso.

Ainda antes do almoço, um "salto" à Quinta dos Loridos, para uma visita, indiscreta e sem licença, aos Jardins do Oriente que Joe Berardo por lá anda a edificar. O que existe já vale a pena, depois de concluído vai ser local de visita obrigatória.

Há 34 anos era sábado e, por esta hora, já um brigadeiro de voz esganiçada tinha dado ordem de rendição, por megafone e em cima de um jeep, aos militares do RI 5 que tinham dado o primeiro grande sinal público de que alguma coisa, importante, se preparava.

No dia 25 do mês seguinte, o brigadeiro já nem com megafone se ouviu ...

segunda-feira, 10 de março de 2008

Estatísticas

No final do jogo da 22ª. Jornada do Campeonato Nacional de Futebol da 1ª. Divisão, o treinador do Benfica, José António Camacho, demitiu-se do cargo e voltou à terra natal.
Na viagem de regresso não utilizou a avioneta que o tinha trazido, talvez por não ter sido possível obter, em tempo útil, as necessárias autorizações de voo e o planeamento da sua saída não ter sido tão bem feito quanto o foi o da sua chegada. Também não teve a companhia do LFV, que partiu, de avião, para Espanha, não para as férias em Ibiza, mas com a missão, específica, de motivar os jogadores do Glorioso, para o jogo com o Getafe.
Entretanto, porque o “algodão não engana”, ficam os números à 22ª. Jornada desta época e da anterior, para que a ignorância não sirva para ajudar o branqueamento:
  • Na época de 2006/2007, o Benfica era segundo com 51 pontos; em 2007/2008, também é segundo, mas com, apenas, 40 pontos;
  • Em 2007/2008, o F.C. do Porto é primeiro e tem 52 pontos; no ano anterior, também era o primeiro, mas tinha 54 pontos ;
  • O Sporting era terceiro em 2006/2007, com 46 pontos e, em 2007/2008, está no quinto lugar, com 34 pontos.

E o burro sou eu ?!

sexta-feira, 7 de março de 2008

Palavras bonitas

COM AS GAIVOTAS

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2000)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Uma vida ...

Cinquenta anos de carreira, setenta de uma vida cheia ...

Uma disposição de fazer inveja, uma classe de senhora, uma senhora de classe ...

Uma Desfolhada, com versos de Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, que deu brado, em 1969, num país de censores e moralistas!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

E o futuro?

A crise é apenas uma invenção dos arautos da desgraça:
- o défice reduziu, o desemprego regrediu, o produto interno bruto cresceu ...

A política de saúde está correcta:
- as pessoas não entendem a profundidade das medidas ...

Os professores não estão adaptados aos tempos de hoje:
- não querem ser avaliados, não aceitam leccionar por objectivos e não percebem o alcance, profundo, de medidas que vão combater o insucesso escolar e fomentar o sucesso da estatística ...

A formiga no carreiro, vinha em sentido contrário (Zeca Afonso - 1973)