segunda-feira, 27 de maio de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

Passam hoje 50 anos da morte de Mestre Aquilino Ribeiro, o escritor que ainda agora me obriga a ler, reler e a ter o dicionário por perto, para aprender mais uma, duas, três, muitas palavras novas que sempre surgem, demonstrando que a língua portuguesa é muito mais rica do que aparenta, pelo cada vez mais reduzido vocabulário que vamos usando.

Aquilino foi grande na "Casa Grande de Romarigães", nas "Terras do Demo", no "Malhadinhas", em "Quando os lobos uivam" ou no "Um escritor confessa-se", e em tantos outros, nas mais de seis dezenas de livros que publicou.

O excerto abaixo é da "Geografia Sentimental", livro escrito em 1951 e reeditado pela Bertrand em 2008, que retrata o Portugal profundo e as suas formas de viver, sofrer e trabalhar.

"(...) salvo que o menino, o Quinzinho, viera ao mundo muito enfezado, muito raquítico, velhinho de todo. Ninguém dava nada por ele. Em pequeno era um rolho de bichas, que a mãe ajoujava com um rosário de dentes de alho e escapulários ao pescoço. Depois com a infância, sempre amarelo, sempre a tremer as maleitas, umas enfermidades a seguir às outras, escarlatina, sarampo, dizem que as bexigas negras, que não deitam para fora, e deixam o picado por dentro, só estava bem detrás dos potes da vianda. O homem desesperava-se:
- De que vale tanta labuta, mulher? O nosso menino nunca há-de ser gente!
- Quem sabe lá! Olha, homem, pode ser que Deus Nosso Senhor se amerceie da gente. Chamemo-nos a Santo Antão, se até às sortes o nosso Quim enrijar e estiver em condições de deitar as correias às costas, prometemos-lhe ... prometemos-lhe o quê?
- Dize lá tu?
- Prometemos-lhe a cera que se possa comprar com o dinheiro duma vaca, a melhor vaca, que a essa altura, a gente tenha na loja. Combinado?
- Caramba, o Santo Antão tem para se alumiar à tripa-forra uns dois ou três anos! Será muito prometer, mulher! - foi proferindo ele.
(...) Aos dezanove anos o Quim lidava rijo e fero. Tanto era capaz de rachar um carro de cavacos em meia manhã como dar uma beirada nas malhas, de rópia com as mais valentes mangueiras. À porta da igreja apareceu colado finalmente o rol dos mancebos em idade militar que haviam de ir à inspecção, e o pai veio ter com a mulher coçando a nuca:
- Agora, arrota!
- Arrota o quê?
- A promessa a Santo Antão!
(...) Ataviaram-se com andainas de ver a Deus para ir à feira e, que remédio, tiveram de advertir o moço da obrigação inelutável. Quando tal soube o Quim deu por paus e pedras, não se cansando de censurar à mãe que se tivesse abalançado a tão desorbitado voto, sendo certo que uma avé-maria, dita com unção, vale aos olhos de Deus tanto como a embaixada que D. Manuel mandou ao Papa. (...) - Traga também um galo! - disse o Quim no momento de despegar para a feira com a vaquinha presa já por uma corda, em cruz de ponta para ponta.
(...) - Para que quer dois galos? Para as pitas que tem, chega-lhe um. Ou pagam-lhe para galar as galinhas cá da terra? (...)
- Quanto a germela?
- Uma libra ... (...) 
- Palavra de rei: custa uma libra! (...)
- Está castigado! A vaca é minha.
- Mas alto ...! - exclamou o Quim. - Ainda não disse a palavra derradeira ...
(...) - Quem levar a vaca tem de levar o galo. Senhora mãe mostre cá o frangão ...
(...) - Se é isso, também levo o galo. Quanto?
- Vinte libras. (...)

Geografia sentimental
Aquilino Ribeiro
Bertrand (2008)

sábado, 25 de maio de 2013

Quotidiano

Ontem, perdi o metro por pouco.

Começava a descer a escada quando o silvo anunciou o fecho das portas e ... foi-se!

Vou no próximo. O aviso informa que faltam apenas quatro minutos.

Do saquinho retiro o último livro de Manuel Alegre - Tudo é e Não é - e continuo a leitura, suspensa desde a manhã, bem cedinho, na viagem inversa.

Chega a "cobra subterrânea".

Sai gente, muita, e no gesto há muito automatizado, entro,  quando o turbilhão de apressados me permite. Consigo encostar-me à porta do lado oposto, que é o sítio onde mais gosto de viajar e que, normalmente, me permite ler sem problemas.

Não ouço nada do barulho ensurdecedor que existe à minha volta. Tão pouco vejo ou reparo em quem quer que seja. Concentração absoluta, que o fim do capítulo está mesmo a chegar.

Acabou.

Levanto os olhos e ouço duas jovens (trinta, trinta e cinco anos):

- Ainda não me habituei bem, mas já consigo ler no ipad.

- Eu não sou capaz. Preciso de folhear o livro, sentir o papel...

- Mas é muito prático e muito mais barato. Estou a ler um, bem sei que é inglês, mas custou 3 Euros. Se fosse em papel, não custaria menos de 15.

Pois é! E o cheiro do livro? E o ritmo das folhas? E a capa? E o ritual da compra?

Na próxima semana vou à Feira do Livro. Só ainda não sei o dia!

terça-feira, 14 de maio de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

O final da tarde do passado domingo foi passado no CCC, a assistir ao lançamento do livro "A redenção das águas - As peregrinações de D. João V à vila das Caldas", de Carlos Querido. 

Romance histórico, bem escrito (posso testemunhar porque já o li), o livro relata as vindas do Rei magnânimo às Caldas, na procura de remédio para as suas maleitas nas águas sulfurosas, e conduz-nos numa viagem pelos costumes, privilégios, subjugações, amor e intrigas da época, deixando-nos, nalguns casos, a dúvida sobre se estamos no século XVIII ou no XXI.

A apresentação foi precedida de uma lição de história das Caldas, da minha amiga Isabel Castanheira, que, socorrendo-se de muitas páginas da literatura, traçou paralelos entre o ontem e o hoje que devem ter feito corar muita gente.

Do livro, cuja leitura se recomenda vivamente, um pequeno excerto:

"(...) O povo sabe que não pode aspirar ao luxo e ao conforto do rei e da corte que o rodeia, mas essa impossibilidade não lhe traz qualquer sofrimento. Cada um conhece o lugar que lhe foi destinado na vida terrena. À Igreja incumbe a tarefa de dizer ao povo, do alto dos seus púlpitos, que, se aceitar com resignação e sem revolta a condição desta vida efémera, alcançará o único desígnio que verdadeiramente interessa, a eternidade abençoada, um lugar no céu, no tempo sem limite. Abençoados clérigos que sossegam os espíritos simples e mantêm tranquila a multidão. Bem merecem os privilégios, as mercês e as dádivas que recebem das mãos generosas e reconhecidas do soberano. O rei não poderia ser feliz com um povo revoltado contra a sua condição. E a felicidade do rei é a felicidade do povo.(...)"

A redenção das águas
Carlos Querido
Arranha Céus (2013)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Palavras bonitas

Para a minha mãe, que faria hoje 90 anos, se por cá ainda permanecesse, como era justo.

REMINISCÊNCIA

Prossegue o pesadelo.
Feliz o tempo, que não tem memória!
É só dos homens esta outra vida
Da recordação.
E tão inúteis certas agonias
Que o passado distila no presente!
Tão inúteis os dias
Que o espírito refaz e o corpo já não sente!
Continua a lembrança dolorosa
Nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais
E permanecem verdes, vegetais,
No silêncio profundo das raízes.

Penas do Purgatório
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1976)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lagoa de Óbidos

Há cerca de três anos Contente conquistou lugar aqui, apesar de se apresentar cansado e, aparentemente, sem qualquer utilidade.
Todavia, quem passear à beira da Lagoa poderá verificar que Contente voltou às lides, remoçado e com boa companhia.
Talvez tenha sido a crise que o obrigou a voltar, à procura de um pouco mais de sustento para a mesa, talvez as companhias tenham ajudado, talvez, talvez ...
O facto é que o Contente voltou a navegar nas águas calmas da Lagoa, na companhia do Feliz e de muitos outros, alguns com nomes bonitos de mulheres ou nomes de mulheres bonitas, vá-se lá saber.
A Maria Alice está de pernas para o ar. Um destes dias volta-se ... e vai também navegar e pescar. 



segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quotidiano

Ocupam todo o espaço da escada rolante, em amena cavaqueira sobre o dia de labuta que já acabou.

Devem trabalhar na mesma empresa, porém em secções diferentes. Não se encontraram e estão, agora, a colocar a "escrita em dia". Falam (alto) sobre o que fizeram, completamente alheias ao que se passa à sua volta.

Habitualmente o espaço da esquerda da escada rolante é deixado vago para quem tem pressa ou gosta de descer os degraus, apesar de eles nos levarem até às profundezas, sem necessidade de qualquer esforço.

Tenho alguma pressa e sou dos que gostam de descer.

Atrás de mim já surgem alguns suspiros de enfado.

- Quer passar?

- Se não se importa ...

- Se tivesse pedido, já tinha passado! É preciso pedir licença, sabia?!

- Pois ... não pedi, desculpe.

E lá fui, escada abaixo, à procura da serpente subterrânea que me levará ao autocarro. Para a próxima, peço logo licença!

É a minha obrigação e ... eu não sabia!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Prevaricando ...

No dia da Liberdade, um pequeno passeio pelas infra estruturas de lazer que estão quase concluídas nas arribas da Foz do Arelho, violando, com cuidado, os sinais proibitivos que lá se encontram.

E surgiu isto, feito com essa máquina que nos permite contactar e fazer tantas outras coisas, entre as quais estas fotos, com a qualidade que um fotógrafo de "meia-tigela" pode ter.



quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril

No ano passado fiz aqui um matemático trocadilho com o meu aniversário redondo, cuja comemoração coincide, há trinta e oito anos, com a da liberdade em boa hora restaurada pelos militares de Abril, em 1974.
Os tempos de esperança apanharam-me com pouco mais de 20 anos, a cumprir serviço militar, ávido de fruir, de aprender, de crescer, de viver, com uma vontade indómita de contribuir para um país melhor, mais justo, onde o respeito pelas gentes fosse o lema, onde a arrogância do poder, qualquer um, não existisse, onde as portas do saber e da saúde fossem franqueadas a todos, independentemente do berço, do credo ou da cor.
Ainda não perdi os valores, já me vai escasseando a capacidade de conviver com a arrogância, a má educação, o desprezo com que, diariamente, convivo, "submetido" a gente eivada de convencimento da detenção da verdade absoluta, de argumentação fácil mas desprovida de lastro, que mascara ignorância e cheira a mofo.
Os anos trazem-nos comichão, irritabilidade, diminuem-nos a paciência e dão-nos a presunção, perigosa, de já não valer a pena ouvi-los, porque não sabem o que dizem nem dizem o pouco que sabem. 
Ao contrário do que esperava, temos uma nova geração com medo de exprimir ideias, de contraditar opiniões de outrem, a remeter-se ao silêncio, a ser subserviente, a ceder (e a pisar) com facilidade, a ser usada e abusada, a não ter futuro à vista.
Voltamos a ter uns quantos "iluminados", agora pela cola, que detêm a sapiência e, com ela, decidem e determinam hoje, o branco, amanhã, o preto, com a mesma ligeireza com que bebem o sumo e mastigam o croquete.
E o país, com oito séculos de história, a assistir e a achar normal!

sábado, 13 de abril de 2013

(In)dependência nacional

Uma imagem vale mais que mil palavras ...

Quotidiano laboral

Todos os dias a encontro.
Manhã cedo, lá está ela no banco da paragem do autocarro, na soleira da porta de um prédio, no passeio, no sítio onde por certo passou a noite, com os cartões que transporta juntamente com as duas malas de viagem que arrasta.
Andrajosa, suja, com vários vestidos uns em cima dos outros (por causa do frio ou por falta de móvel para os guardar?), cabelos desgrenhados e sebentos, por vezes fumando um cigarro, talvez antes uma beata, paira pelas ruas da Baixa pombalina, normalmente na esquina da Rua do Comércio com a da Prata, sempre rodeada de pombos.
Grita com ela, com quem passa e com os pombos, que debicam da mesma caixa de onde os seus dedos sujos retiram qualquer coisa que não distingo que seja e levam à sua boca. Não tem dentes, pelo menos que se vejam. Move os lábios de forma impressionante, e mastiga. A mão, quando vai à caixa, enxota os pombos.
Pragueja. Insulta. Diz palavrões, que entendo pela terminação.
Ao almoço e no final da tarde já não a vejo. 
Amanhã lá estará, pela manhã, bem cedo. 
Terá nome? É a velha dos pombos ...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Finalmente!

Hoje estou deprimido!
O Relvas já não é ministro e vai perder a licenciatura que tanto trabalho lhe deu a arranjar. Consta que a licenciatura andava a passear pelo jardim do Campo Grande e um dos homens que tratam das flores viu-a e guardou-a no bolso. Está com esperanças de chegar a ministro ou pelo menos a secretário de estado. Experiência tem, faltava só o canudo. Já o achou.

Voltando ao início: como é que o homem vai subsistir, ainda por cima agora que está para casar e com a vida difícil como está ... tenho pena e vejo o futuro do senhor com muita dificuldade.
Talvez possa tentar a vida artística, quem sabe. Voz não tem muita mas arte sobra-lhe! A experiência da Grândola não foi feliz, por desconhecimento da letra e falta de voz, por culpa do Zeca que fez aquilo muito puxado.
É melhor começar por esta, do Sérgio Godinho, que tem mais aliciantes e pode dar resultados imediatos.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Quotidiano

Muito embora tivessem aparecido alguns, preocupados com a crise, que queriam ficar no Banco na tarde de quinta-feira, não a trabalhar, que é coisa que só fazem em fogachos para chefe ver, mas a linguarar, a larachar, a engraxar, a serventuar e outras terminadas em "ar", esta ano a tarde de quinta ainda foi "santa".
O almoço foi no sítio do costume sem a barafunda do dito, por muita gente ter saído directamente do trabalho para a sopinha caseira.
O percurso entre a Baixa e Belém foi rápido e agradável. O novo Museu dos Coches deve estar quase acabado e é imponente. No Palácio cor de rosa, como de costume, não se via nem ouvia ninguém. Estará habitado?
Subida a Calçada da Ajuda (acho que já não passava por lá há perto de 40 anos, quando o serviço militar me lá levou por uns tempos), mais de meia hora na fila (a bicha apareceu na casa de banho, a compor o cabelo), algumas personalidades conhecidas e, finalmente, o acesso à exposição do momento. Joana Vasconcelos expõe algumas das suas monumentais obras, muito bem enquadradas na beleza das salas do Palácio, numa mistura perfeita e onde o par de sapatos se destaca pelo brilho, monumentalidade e ... singeleza.
Nas paredes do átrio da entrada, o Palácio tem várias estátuas, cada uma representando uma qualidade. Esta, que o telemóvel registou numa foto de má qualidade, representa a GENEROSIDADE e, curiosamente, perdeu a mão direita. 
Acidente do tempo ou maldição do mesmo?

terça-feira, 26 de março de 2013

Quotidiano

Hoje não me apeteceu ouvir rádio na viagem da manhã.
Liguei a "pen", mas tirei-lhe a escolha aleatória. 
Fiz a pesquisa e escolhi eu, bem, para o meu gosto!
Já há largos meses que não ouvia um album inteirinho do Zeca.
O "Cantares do Andarilho" tornou a viagem mais curta e bem mais agradável.

domingo, 17 de março de 2013

Futuro ou a eterna juventude

E foi isto que se construiu?

As consciências de quem "governa" este país e esta Europa estarão tranquilas?

Não há alternativa?

Vão bugiar ... antes que o espelho se parta!

sábado, 16 de março de 2013

Efemérides e actualidade

Passam hoje 20 anos da morte de Natália Correia e 39 do "levantamento das Caldas", que precedeu o 25 de Abril.




AUTO-RETRATO

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia
Poemas (1955)




sexta-feira, 8 de março de 2013

Teimosia

Costumo dizer que uma das minhas poucas qualidades é ser muito teimoso. E é verdade: gosto de uma boa polémica, adoro contraditar, defendo as minhas ideias com toda a energia e convicção.

Vem isto a propósito de, esta semana, ter encetado uma discussão, pacífica, sobre o adjectivo "obrigado" e a forma correcta de o aplicar.

A A.L. defendia que o adjectivo devia ser utilizado no feminino se dito por uma mulher e no masculino, quando pronunciado por um homem. A R.R. contraditava, parecendo-lhe que o correcto era sempre "obrigado". O M.R. não tinha certezas e estava virado para a abstenção. Teimoso, eu argumentava que se devia dizer sempre "obrigado" e, para justificar o meu argumento, ilustrava com uma frase:

- A menina não se sinta obrigada a dizer obrigado sempre que lhe oferecem flores!

A A.L. mantinha-se irredutível. O seu professor de português tinha-lhe ensinado a regra, há muitos anos, e nunca se tinha esquecido.

Comecei a duvidar de mim e cedi:

- Quando chegar a casa, vou confirmar!

Hoje, logo pela manhã, enderecei este mail aos meus colegas:

" Bom dia
Rendo-me à evidência!!!
Penitencio-me do erro e congratulo-me pelo facto de termos discutido uma das coisas boas que temos: a nossa língua.
No Dia das Mulheres, confirmam-se, como sempre, os saberes de antanho: elas têm sempre razão e é estúpido quem as contraria.
O adjectivo “obrigado” deve ser utilizado no masculino ou na sua forma feminina (obrigada) consoante o sexo de quem o pronuncia. (Edite Estrela e outro cujo nome não me lembro) – “Saber escrever / Saber falar”
Para ilustrar a minha rendição, qual Egas Moniz, mas sem corda ao pescoço, umas rimas (mal) alinhavadas no “horário” (como se diz na Madeira) que me trouxe do Oeste profundo e inculto à capital dotada e sapiente:

És homem? Sê delicado
E agradece, cortês
Sempre com um "obrigado",
Pra falares bom português!

Porém, a recusa delicada
Da menina esbelta e fina,
Será sempre: não, obrigada,
Por a voz ser feminina! "

sábado, 2 de março de 2013

Quotidiano

Há vida para além da folha de Excel ...
A esta hora, em várias cidades do país, milhares de portugueses manifestam a sua indignação, cantando como o Zeca.

Palavras bonitas

UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse 
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.

Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.
Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.
Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.
Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.
Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida é tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que em todo o mundo há.
E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa 
a uma qualquer pessoa!

E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,
se brotasse do chão, do tecto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente,
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?

Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sôfregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quotidiano

Os estudantes do ISCTE expulsaram hoje Miguel Relvas das instalações, quando o ministro se preparava para proferir uma conferência integrada nas comemorações da TVI.
Fizeram mal!
O ministro queria assistir às aulas ou, pelo menos, conhecer os corredores, para poder pedir a equivalência com conhecimento da casa.
Não é justa esta decisão dos estudantes. Vai persegui-los a vida toda. Impediram o acesso ao conhecimento a quem o busca de forma tão ávida.
Meninos, portem-se bem e deixem estes adultos que cumpriram antecipadamente a divisa da vossa Escola - Chegar ao Topo -  estudarem e aprenderem. 
Eles "há-dem" ir longe, sem "quaisqueres" dúvidas.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Palavras bonitas

As novas tecnologias ajudam muito aqueles a quem o tempo falta. 

Ver televisão, durante a semana, é um "luxo" cada vez mais difícil de conseguir. Vou deixando a gravar alguns programas que não quero perder e, quando surge a oportunidade, "play" com ele.

O "5 para a meia noite" das terças-feiras é sempre gravado e, assim que é possível, lá coloco o Zé Pedro Vasconcelos em diferido, para me deliciar com o seu humor e com a inteligência com que aborda os assuntos e convidados.

Hoje vi o programa do passado dia 12, no qual estiveram presentes dois jornalistas: Pedro Coelho, da SIC, que falou da sua grande reportagem sobre o BPN, e Rita Marrafa de Carvalho, da RTP, que dissertou sobre jornalismo de investigação e mostrou os dotes da sua voz, bem bonita, a cantar, "à capela".

O nível estava elevado e subiu quando, na rubrica que surgiu nesta segunda série, Vítor de Sousa, com a sua extraordinária voz, disse um poema de Manuel da Fonseca, apropriado para o programa e para os dias em que vivemos.

Tinha uma vaga ideia das palavras e fui buscar o velho livrinho (1978) dos Poemas Completos. Lá estava a 

DONA ABASTANÇA

"A caridade é amor"
proclama Dona Abastança
esposa do Comendador
senhor da alta finança.

Família necessitada
a boa senhora acode
pouco a uns a outros nada
"Dar a todos não se pode".

Já se deixa ver
que não pode ser
quem
o que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
e sai caro fazer o bem
ela dá ele subtrai
fazem como lhes convém
ela aos pobres dá uns cobres
ele incansável lá vai
com o que tira a quem não tem
fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
que não pode ser
dar
sem ter
e ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
sempre ao bem fazer foi dado
pouco custa a quem roubou
dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
de tão estranha caridade
feita com dinheiro do povo
ao povo desta cidade.
Poemas Completos
Manuel da Fonseca
Forja (1978)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ignorância

Não costumo ser redutor e penso sempre que os outros podem ignorar temas que eu domino perfeitamente, mas seguramente sabem muitas que eu ignoro. 
Tenho dos jovens de hoje a melhor das impressões e não me canso de dizer que os bons são muitos e bem melhores do que os do meu tempo. Contudo, ver tanta ignorância inconsciente, mete dó!
Como é que esta gente acedeu à universidade? Não seria melhor voltarem à primária e experimentarem as réguas do meu tempo, por cada asneira deste calibre?
- É uma boa pergunta !!!!!
- Não faço a mínima ...
- A capital da Itália é Nápoles.
- Eça de Queiroz morreu há pouco tempo.
- John Lennon cantava as músicas dos desenhos animados da Disney.
- Califórnia é a capital dos Estados Unidos.
- A fórmula química da água é PH0.
- O fundador da Microsoft é o Gill Bates, que morreu há pouco tempo.
- O Evangelho segundo Jesus Cristo foi escrito pelos Apóstolos.

E riem-se ...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quotidiano

Hoje ofereceram-me um simulador para calcular o novo ordenado e clarificar qual a melhor opção para "os linces da Malcata", perdão, para os subsídios que iremos receber este ano.
O simulador está concebido em Excel e a folha deve ter dedo do Ministro Gaspar: os cálculos que dela resultam estão certos, sem qualquer dúvida ou incerteza!
O que nos vale é que o país (em letra pequena, pois claro, para poupar) está a melhorar a olhos vistos e os sacrifícios exigidos são a penitência para aqueles valdevinos que viveram acima das suas possibilidades e agora não querem expiar os pecados. 
É bem feito, não tivessem sido estroinas!!!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Palavras bonitas

TARDE

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira
Antologia pessoal de Eugénio de Andrade
Campo das Letras (2000)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Ventania

São de ontem, numa fugida do fotógrafo oficial, com vento forte de mais para o que estamos habituados.


Quotidiano

Uma manhã de temporal, sem luz, uma constipação que ameaça tornar-se gripe, o vento assobiando lá fora (não nas gruas, como o de Lídia Jorge, que a construção há muito está parada por estas bandas) com uma intensidade louca, sem música e sem deslocação à Foz, onde o mar deve estar "lindo", resta o ritual de sábado, hoje bem mais cedo do que é habitual. 
Ainda não completei o primeiro caderno, mas a entrevista de Jorge Sampaio ao Expresso de hoje já foi lida.
Dois pequenos apontamentos de quem pensa, sem peias, grades ou subserviências.
"(...) Por exemplo, esta ideia de que o objectivo é aparecermos como os bons alunos da Europa ... Francamente, não é por aí! Atribuir culpas só aos portugueses parece-me ser excessivo e demasiado violento. Exige-se da Europa que volte a ter uma resposta colectiva e se deixe de separações, de falta de solidariedade, de divisões. A Europa, em vez de reforçar a sua união, corre o perigo de se desagregar.(...)".
"(...) A credibilidade dos cidadãos no sistema político está em declínio vertiginoso. Temos a responsabilidade de parar isso, pela credibilização do diálogo e do trabalho político. Se só se grita, não vamos a lado nenhum.(...)".
Nota - Escrito ontem, quando pensava que o regresso da energia eléctrica traria a normalidade. Afinal a publicação só hoje foi possível, passado dia e meio sem Net e também sem televisão. Como é que se vivia dantes?

sábado, 5 de janeiro de 2013

Expresso

Comecei a ler bem novinho, já não recordo com que idade, mas bastante antes de ingressar na escola primária, o que, na época, acontecia no ano em que se completavam 7 anos. A responsável pela precocidade foi a minha irmã, três anos mais velha, que começou a exercitar com o pimpolho as tarefas que acabariam por lhe ocupar toda a sua vida profissional.
Também cedo comecei a consumir jornais, ou melhor, o Jornal de Notícias, em formato para mim gigante, que lia soletrando,  ajoelhado no jornal aberto no chão da cozinha. Meu pai comprava-o todos os dias e, quando chegava do trabalho, entregava-o para o lermos no dia seguinte. Depois de lido, servia para manter quente a panela da sopa. 
Na memória ainda estão as notícias sobre o terramoto de Agadir, a invasão de Goa, o início da guerra colonial, o assalto ao Santa Maria, as palavras cruzadas que fui aprendendo pouco a pouco e, pasmem, o boneco da última página (cartoon?), julgo que da autoria de Miranda.
Foram muitos os jornais que conheci, li, recordo e já desapareceram: Mundo Desportivo, Século, República, Diário de Lisboa, A Capital, Diário Popular, Gazeta dos Desportos, O Ponto, e podia continuar ...
Em Janeiro de 1973 tinha 20 anos! 
Já sabia a diferença entre o Diário da Manhã (de triste memória) e o República quando surgiu, pela primeira vez, o semanário Expresso. Comprei o primeiro exemplar e adquiri hoje, de manhã, a edição comemorativa dos 40 anos de publicação ininterrupta. Ao longo desta "eternidade", devo ter falhado a compra, talvez, uma dezena de vezes, se tanto. Em alturas de ausência, cheguei a ir buscá-lo vários dias depois, por se encontrar sempre guardado na Jornália.
A minha amiga Nisa ainda hoje me reserva religiosamente o exemplar, apesar de a procura actual já não justificar esse cuidado. Eu, para compensar o carinho, digo-lhe sempre com antecedência:
- No próximo sábado, vende o meu Expresso a outro, que não vou estar por cá.
É preciso ser teimoso! Nem sequer conheço Francisco Pinto Balsemão...
Longa vida ao Expresso e à liberdade de que sempre foi arauto.