segunda-feira, 10 de março de 2008

Estatísticas

No final do jogo da 22ª. Jornada do Campeonato Nacional de Futebol da 1ª. Divisão, o treinador do Benfica, José António Camacho, demitiu-se do cargo e voltou à terra natal.
Na viagem de regresso não utilizou a avioneta que o tinha trazido, talvez por não ter sido possível obter, em tempo útil, as necessárias autorizações de voo e o planeamento da sua saída não ter sido tão bem feito quanto o foi o da sua chegada. Também não teve a companhia do LFV, que partiu, de avião, para Espanha, não para as férias em Ibiza, mas com a missão, específica, de motivar os jogadores do Glorioso, para o jogo com o Getafe.
Entretanto, porque o “algodão não engana”, ficam os números à 22ª. Jornada desta época e da anterior, para que a ignorância não sirva para ajudar o branqueamento:
  • Na época de 2006/2007, o Benfica era segundo com 51 pontos; em 2007/2008, também é segundo, mas com, apenas, 40 pontos;
  • Em 2007/2008, o F.C. do Porto é primeiro e tem 52 pontos; no ano anterior, também era o primeiro, mas tinha 54 pontos ;
  • O Sporting era terceiro em 2006/2007, com 46 pontos e, em 2007/2008, está no quinto lugar, com 34 pontos.

E o burro sou eu ?!

sexta-feira, 7 de março de 2008

Palavras bonitas

COM AS GAIVOTAS

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2000)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Uma vida ...

Cinquenta anos de carreira, setenta de uma vida cheia ...

Uma disposição de fazer inveja, uma classe de senhora, uma senhora de classe ...

Uma Desfolhada, com versos de Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, que deu brado, em 1969, num país de censores e moralistas!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

E o futuro?

A crise é apenas uma invenção dos arautos da desgraça:
- o défice reduziu, o desemprego regrediu, o produto interno bruto cresceu ...

A política de saúde está correcta:
- as pessoas não entendem a profundidade das medidas ...

Os professores não estão adaptados aos tempos de hoje:
- não querem ser avaliados, não aceitam leccionar por objectivos e não percebem o alcance, profundo, de medidas que vão combater o insucesso escolar e fomentar o sucesso da estatística ...

A formiga no carreiro, vinha em sentido contrário (Zeca Afonso - 1973)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Pimpões

Passam hoje 70 anos sobre a data em que seis jovens, na época, deram vida à Sociedade de Instrução e Recreio "Os Pimpões", nascimento do que viria a ser (e é) uma Associação de referência no panorama do associativismo citadino, regional e, até, por que não dizê-lo, nacional.

Fundada entre as duas grandes guerras, num período dos mais duros da ditadura e em plena guerra civil espanhola, a tudo resistiu, mantendo uma actividade ininterrupta até aos nossos dias, em prol da cultura, do desporto e do lazer, instalada num bairro de classes trabalhadoras que a ela dedicaram muito do seu tempo livre e das suas capacidades.

Hoje, com o advento dos novos tempos em que o tempo cada vez se torna mais ínfimo, a vivência dos Pimpões é outra e o seu futuro, como o passado, ter-se-á que adaptar às novas exigências, aos novos paradigmas, à nova forma de cada um e de todos, sempre com a preocupação, sábia de antanho, de que, juntos, conseguimos sempre mais e melhor do que sozinhos.

Os laços, fortes, que me ligam a esta grande casa obrigam-me a registar a efeméride e a desejar que o futuro lhe seja risonho, próspero e, sobretudo, tão digno como o foram os setenta anos já vividos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Sem título

Hoje ouvi falar de pessoas e da sua importância nas organizações.
Apesar de o dia ter sido longo e de já ter alguma relutância em "correr a foguetes", vinha satisfeito.
Nas notícias dos da Casa (com quem já não falei devido ao adiantado da hora do regresso), vieram notas de satisfação grega pela vitória e lisboeta pela adaptação, paulatina, do neto à nova escola.
Mas ... não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe: por indicação filial, uma espreitadela a um blog, no qual é narrada uma "pérola" produzida por um "indígena" encarregue de seleccionar candidatos, com base em currículos recebidos:
"1975? Esta está em idade reprodutora. E não trabalha desde Junho do ano passado? É de certeza casada e deve estar em casa com a prole".
Lapidar !!!
Como é que este "indígena" teria "comprado" o poder?
Ainda nos falta tanto ...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Despachos e matemática

Do jornal Público de hoje:

"Telmo Correia assinou 300 Despachos na madrugada da tomada de posse de Sócrates"

Considerando que o dia - 24 horas - tem 1.440 minutos, resultam, em média, 4,66 minutos para cada "Despacho", tempo naturalmente mais que suficiente para ler, meditar, decidir e assinar, quando estamos perante um ser humano sobredotado, que até foi Ministro da República.
O jornal assinala, ainda, que as 300 decisões foram tomadas na "madrugada do dia", o que diminui consideravelmente o tempo gasto e prova, à saciedade e à sociedade, ser possível aumentar, quando se quer, a produtividade no trabalho, a bem de todos nós e dos vindouros.
Saliente-se ainda o espírito de sacrifício do homem, que esteve tão concentrado a ler, entender e assinar que não deve ter comido nem . . . . . . !
Valha-nos isso, que assim só ficou a . . . . . dos Despachos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Bastonário

Uma lição de liberdade e cidadania, para meditar ...
Entrevista de hoje, na RTP 1, conduzida por Judite de Sousa, tendo o Dr. Marinho Pinto, actual Bastonário da Ordem dos Advogados como entrevistado.
Retive:
  • Há uma justiça, forte, para os fracos, e outra, fraca, para os fortes.
  • Em novo tinha ilusões e ideais; já não tenho ilusões, mas os ideais ainda os não perdi.
  • Por formação e cultura, não sou delator. O Estado tem meios e obrigação de investigar factos que são públicos, notórios e lesivos do interesse de todos.

Às vezes, é reconfortante ver televisão.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Palavras bonitas



FUNDO DO MAR

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
e os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

O Búzio de Cós e outros poemas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A bronca do bronco

A observação, à distância, é sempre mais realista ...
Vale a pena espreitar e sentir como a imagem de quem manda na cidade saiu reforçada, na brilhante intervenção do último "Prós e Contras" da RTP 1.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Flic-Flac

Ontem:
  • Ota ... sempre;
  • Alcochete ... "jamais";
  • Estudos credibilissimos garantem ser a melhor solução.
  • O resto é apenas demagogia.

Hoje:

  • Alcochete ... sempre;
  • Estudos credibilissimos garantem ser a melhor solução;
  • Demissão ... "jamais".

Conclusão, à Scolari:

... E o burro sou eu ?!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Ironias

A comparação entre as épocas de 2006/2007 e 2007/2008 da Liga Bwin de futebol, no final da 1ª. volta, produz os seguintes resultados:

  • 2006/2007 - Porto: 40 pontos; Sporting: 33 pontos; Benfica: 32 pontos.
  • 2007/2008 - Porto: 38 pontos; Benfica: 29 pontos; Sporting: 26 pontos.

Os jornais concluem que o F.C. do Porto está, neste ano, imparável e muito melhor ...

Os reformados fazem filas nos Bancos, para constituirem depósitos a prazo com o aumento que irão receber. Afinal parece que os retroactivos já não vão ser pagos em 14 suaves prestações mensais ...

O Tratado de Lisboa não vai ser referendado. A promessa fora feita, mas referia-se ao outro ...

Armando Vara vai ter uma licença sem vencimento na CGD. Talvez obtenha um VENCIMENTO sem licença no BCP ...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Livros (lidos ou em vias disso)

Morreu ... perdeu-se uma voz "envinagrada" que, durante décadas, "temperou" a vida literária do Portugal "fechadinho".

Memorial do recolhimento

Aqui há meses, chateadíssimo de viver sozinho, resolvi recolher a um lar da terceira idade. ( )

... Não sei ao certo de onde veio esta moda, mas calculo. E veio para ficar.( )

... E tenho trabalhado. E tenho editado. E me considero privilegiado por isso. E surgiram-me apoios e palavras boas.( )

... E não me considero arrumado.( )

... E se padeci sustos e flatos e, às vezes, isto parece uma casa de orates, não perdi a vontade de rir de mim, principalmente, o que é óptimo sintoma. Deêm-me os parabéns. Tudo tem um fim, sei, sabemos todos. Aquela história que os elefantes conhecem a morte (e morrem) tem a sua beleza e sua nobreza. E quando me surge um neto pequenino ... e quando Raio de Luar vier ... fazem o favor de me invejar. Há razões que o coração conhece bem. E a razão aprova.

Raio de Luar
Luiz Pacheco
Oficina do Livro (2003)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Palavras bonitas


LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterelizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
 
Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

domingo, 30 de dezembro de 2007

Árvores

No final de mais um ano, as árvores mantêm o seu porte majestoso, mesmo que o vento, o frio e a chuva as fustiguem amiúde ...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Rotina

Ei-la de novo e sem autorização ou passaporte.
Instala-se e pronto ... não paga renda, não pede licença, "abanca".
Já não há: "fala mais baixo que acordas o menino"; "cuidado com a porta aberta"; "despacha-te que pode ser preciso alguma coisa"; "agora não me peças nada".
A casa é enorme !!!
Ontem tinha tanta gente ...

domingo, 23 de dezembro de 2007

Natal

As flores do Natal, no jardim e na Casa.

Estão cá todas ... as grandes, as pequenas, as "estrangeiras" e as nacionais, as que aqui nasceram e as que se juntaram.

É o jardim completo ... por pouco tempo.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Sem data

No final dos anos sessenta fazer uma escritura significava, pelo menos, uma manhã de burocracia, depois de algumas passagens pelas Finanças e pela Conservatória, também pela Câmara, para obter os documentos necessários.
Ao Notário, coadjuvado pelo Ajudante de mangas de alpaca no casaco, cabia a marcação da data, depois de uma olhada rápida pelos elementos entregues. Os pormenores ficavam para o dia aprazado, com a presença de todos os intervenientes, que compareciam com bastante antecedência para que nada pudesse correr mal e o serviço, de muita responsabilidade, não fosse prejudicado pelo atraso de alguém.
Nessa altura trabalhava como empregado de escritório (ou guarda-livros como, por vezes, ainda se ouvia aos mais velhos) de uma grande casa agrícola da região, cujo proprietário, herdeiro de uma grande, antiga e conceituada família, era uma pessoa de grande cultura, educação e rigor.
Pouco dado às burocracias e com, por certo, coisas bem mais interessantes para fazer, mandava-me ir em sua representação e chegava, apenas, na hora aprazada para o acto. O Notário conhecia os hábitos e sabia que, à hora marcada, deveria ter a escritura totalmente pronta e em condições de ser lida e assinada, porque a sua pontualidade era "inglesa".
Naquele dia, à hora prevista, não chegou ...
Passou-se quase meia hora e nada ...
Pedi ao Notário para utilizar o telefone, fixo, que os móveis só chegariam muitos anos depois.
Liguei para a Quinta e fui atendido de imediato. Estava, quase de certeza, sentado a aguardar o telefonema.
- Estamos todos à sua espera ...
- Para quê?, foi a pergunta que surgiu do lado de lá.
- Para assinar a escritura de... deixei um recado escrito num papel, na mesa da sala verde, respondi, já com algum receio e sensação de culpabilidade.
- Vi e li. Não tinha data, não fiquei a saber que era para hoje. Vou já para aí.
Nunca mais esqueci a lição.
Ainda hoje, em qualquer nota, por mais curta que seja, coloco sempre a data.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Natal

 NATAL UP-TO-DATE

Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa. E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

Obra Poética (1948-1988)
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Orgulho sem preconceito

A Casa hoje está muito orgulhosa!

Um dos seus rebentos (agora já são honorários, mas sempre de pleno direito) submeteu-se às provas de doutoramento em Biologia, na Faculdade de Ciências de Lisboa.

Cá dentro havia a certeza de que tudo iria correr bem, mas o sistema nervoso tem andado algo descontrolado nestes últimos dias.

Quando o meu neto puder entender, vou contar-lhe que a mãe foi aprovada por unanimidade, com distinção e louvor e que respondeu a perguntas e explanou ideias durante mais de três horas.

Perdoe-se a vaidade (contida), mas a modéstia em demasia é defeito.

O mérito (e o trabalho) é todo dela - "é uma valente" - mas nós também demos um pequeno contributo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Laços

Venceu o Concurso de Curtas do YouTube. São pouco mais de seis minutos de filme, que valem a pena, pela forma como o laço atado se desata, puxando pela ponta, por mais pequena que seja. "A vida nada mais é que viver cada coisa que acontece".

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Alegria ... no trabalho

O dinheiro não faz a felicidade ... mas ajuda muito!

No início da semana que hoje termina atendi um jovem cidadão ucraniano, com as faces muito coradas e um sorriso largo mas envergonhado, cuja razão não consegui descortinar no imediato.
Cumprimentou-me (já não era a primeira vez que falava comigo) e disse-me, num português arrastado e sem concordância gramatical:
- Ter cheque a depositar.
O sorriso alargou-se quando me entregou a ordem de pagamento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, emitida a seu favor, por cerca de 230.000,00 Euros.
Esteve cerca de 30 minutos a conversar ... da vida e do que agora poderá fazer.
Ontem voltou, mais calmo, já com as ideias claras. Vai mandar uma parte do dinheiro ganho para ser aplicado na Ucrânia, mas "Portugal é meu país segundo. Fico cá".

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Palavras bonitas

TALVEZ

Talvez os galos rujam os leões cacarejem
mas a nossos ouvidos nos pareça o contrário
Talvez leões e galos se riam em segredo
por saberem que andamos desde sempre enganados
Talvez bebamos fogo quando ouvimos silêncio
Talvez sejam serpentes o que chamamos água
Talvez o tempo tenha tanto a ver com o Tempo
como têm cem corvos a ver com uma cigarra
Ou talvez estes versos sejam só o enredo
de dez rios dois astros a névoa de uma casa

Obra poética (1948-1988)
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Dama-da-Noite

Moro no vaso do canto, junto ao pilar que suporta a varanda da casa, mas não nasci aqui. Trouxeram-me lá do fundo do País, de um lugar onde o Guadiana se espraia beijando as duas margens, oferecendo-se a portugueses e espanhóis sem cuidar de saber se mata mais a sede a uns do que a outros.
Apesar de a viagem ter sido agradável (o carro tinha ar condicionado), vinha com receio do desconhecido e a questionar-me sobre o que me aguardava na nova vida.
O primeiro impacto foi positivo. Agradou-me o local, o carinho com que fui colocada num vaso maior, a companhia de outras flores, todas diferentes, belas e cheirosas. O Sol não era tão forte como na minha terra, de vez em quando a nortada abanava-me e obrigava a algum cuidado, para não perder o equilíbrio e a roupagem, havia menos trânsito e o bulício era bem menor.
Por vezes, a memória agitava-se com recordações dos jardins anteriores, com pouca água, pouco cuidado, pouco alimento, pouca atenção.
Experimentei a crista e o fundo da vaga, tropecei nas pedras, escorreguei nas rochas, caí na areia. Não vou ser capaz ... os ramos partiam-se, as flores caíam, o cheiro evaporava-se, o cão mijava-me o tronco ...
Num olhar em volta, mais atento, a realidade beliscava: ao lado, nas outras flores, também havia fragilidades, tristezas, angústias.
Espreitei o Sol, bebi a água da chuva, encolhi-me com o frio, ouvi as vizinhas, olhei para dentro, espreitei pelo canto, mexi as mãos, cocei a cabeça, esfreguei os pés.
Vamos à vida, que o futuro é hoje!
Exalo perfume, dou flores bonitas, valorizo o jardim!
Sou a Dama-da-Noite ... e gosto de mim!

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Mês da música



Hoje, que acaba Outubro, apetece-me dizer que José Afonso foi um grande, grande músico.

O Teatro da Rainha, de quinta a sábado da semana passada, prestou-lhe um excelente tributo, com três espectáculos de alto nível.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Palavras bonitas

Quem me amarrou a ser eu
Fez-me uma grande partida.
Debaixo deste amplo céu,
Não tenho vinda nem ida.
Sou apenas um ser meu.

Nem isso ... Anda tudo à volta
A retirar-me de mim.
Parece uma fera à solta
Este mundo que anda assim
A servir-me de má escolta.

Quando encontrar a verdade
Hei-de ver se hei-de fugir,
Pelo menos em metade.
Depois ficarei a rir
Da minha tranquilidade.

Novas Poesias Inéditas
Fernando Pessoa
Edições Ática (1973)

domingo, 21 de outubro de 2007

Partida

Aguardava-se há alguns dias.
O "bilhete" estava "comprado", faltava apenas saber a que horas chegaria o "autocarro".
Foi há pouco, no final de um fim de semana de sofrimento. Já nem soube o resultado do seu Benfica.
Conheci-o há mais de 40 anos, jovem mecânico de automóveis, numa oficina, no sítio da minha infância. Apesar de já não exercer esse mister, algumas vezes resolveu pequenos problemas mecânicos que me foram acontecendo.
Vivíamos na mesma rua há 30 anos! Em tempos idos, discutíamos quem devia ter a chave, por disputarmos sempre o último lugar da chegada.
Tinha 4 anos e pouco a mais que eu ... partiu, levado pela força indomável do cancro.
Adeus, Q.M.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Palavras bonitas

A GENTE NÃO LÊ

Ai Senhor das Furnas
Que escuro vai dentro de nós
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão
Rogar a Deus que nos guarde
Confiar-lhe o destino na mão

Que adianta saber as marés
Os frutos e as sementeiras
Tratar por tu os ofícios
Entender o suão e os animais
Falar o dialecto da terra
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais

E do resto entender mal
Soletrar assinar em cruz
Não ver os vultos furtivos
Que nos tramam por trás da luz

Ai Senhor das Furnas
Que escuro vai dentro de nós
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezítia
De boca em boca passar o saber
Com os provérbios que ficam na gíria

De que nos vale esta pureza
Sem ler fica-se pederneira
Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira

Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
E não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem.

Album Fora de Moda (1982)
Letra de Carlos Tê
Música de Rui Veloso


quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Barcelona


O feriado comemorativo da República e um diazito que ainda restava do plano de férias, permitiram uma escapadinha a Barcelona, capital da Catalunha, afinal aqui tão perto. A viagem de regresso a Caldas foi mais rápida do que a realizada pela filha, entre Torres Novas e Lisboa.

Refira-se, para clarificar, que um viajou "pelo ar", enquanto outra, mais prevenida, veio com os "pés na terra".

Barcelona é uma cidade lindíssima!!!

Para além de Gaudi, Miró, Picasso, estão passeios largos, praças soberbas, avenidas vistosas, espaços verdes, mercados arrumados e limpos, gente nas ruas, trabalho intenso, lazer vivido de igual forma, gentes dos quatro cantos do mundo,numa miscelânea de liberdade e de convivência,
de respeito por todos e pelas diferenças de cada um.





Espero lá voltar!
Ficou tanto por ver e ... viu-se muito, num combate incessante entre o cansaço, o prazer e a vontade de usufruir. Ganhou o relógio, implacável, sem qualquer condescendência perante quem tão pouco tempo tinha!

Como se Barcelona não valesse por si só, ainda foi possível recuar 40 anos e conviver com uma "catalã", por adopção e matrimónio, radicada na bela cidade e que viveu e estudou nas Caldas, na juventude que já vai tão longe.

Obrigado D. pelo convívio e pelas recordações que manténs bem vivas.
Saltaste o "muro" e percebeste que, afinal, a rua da tua infância era demasiado pequena.
Ainda é ... apesar dos anos passados.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Coisas da "Quinta"

Apesar dos mais de vinte anos de "reinado", "Rei Costa" não pára de surpreender e de demonstrar a sua queda, inata, para a inovação.

Depois da "corrida em osso" ao Primeiro Guterres, da entrada no Guiness das rotundas, pela construção mais rápida das mesmas, e das evidentes capacidades e conhecimentos de arquitectura e urbanismo, eis a sua brilhante contribuição para a sinalética a adoptar no novo Códido da Estrada:

O novo sinal está colocado na Praça 5 de Outubro e determina uma excepção para os transportes públicos, excepção essa que a capacidade reinante, confiando, como é seu timbre, na perspicácia dos seus munícipes, deixa à adivinhação de cada um ...

Será autorizado o trânsito para os autocarros?

Poderá ser estacionamento para todos os veículos, com excepção dos mencionados?

Permitir-se-á que toda a gente beba uma cervejinha no 120, excepto os que viajam em transportes públicos?

Ora TOMA e adivinha !!!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Palavras bonitas

E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

Todos os Poemas
Ruy Belo

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sem título

Não me apetece escrever sobre:

  • a extraordinária lição de convivência, diálogo, respeito e civismo que resulta da campanha eleitoral para as eleições directas no PSD;

  • a santa ignorância de quem vai dar espectáculo à TV e diz que o macho da perdiz é o perú;

  • as excelentes exibições do meu Benfica, relatadas por alguns dos jornais ditos especializados e que a minha televisão não transmite;

  • o amianto que, segundo a senhora Ministra da Educação, está a ser retirado de todas as Escolas ... com excepção daquelas em que isso não acontece.

Por tudo isto, fico-me por uma linda fotografia da Lagoa de Óbidos, à espera da despoluição completa para ficar ainda mais bonita.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Fim do dia

É tão bom ouvir o silêncio ...

(Estou constipado)
E pensar:

- cheguei mais cedo hoje?!

Não há torneiras nem gavetas a abrir, ainda é cedo para pôr a mesa ...

Começaram as aulas!
Li meia dúzia de páginas do Canário (último livro de Rodrigo Guedes de Carvalho), no sítio do costume ... vi o correio electrónico, os filhos não estão no MSN ...

Bolas ... já estou farto de ouvir o silêncio!
Que chegue o "barulho", que me faz falta!

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Cerveira


Tudo tinha sido pensado para um fim de semana tranquilo, sem pressas, usufruindo da beleza e da suavidade da terra, do remanso do Minho e das obras da Bienal.

A viagem começou bem cedo, ainda o Sol não acordara, e decorreu sem problemas, com a estreia de um pouco mais da A8, deixando Leiria a Nascente e ligando à A1, já bem perto de Pombal.

Duas paragens para desentorpecer as pernas e compor os estômagos, "Basófias" com a névoa matinal, e pouco trânsito. O Porto "sentido" e atravessado "junto à Serra do Pilar" com o "velho casario, que se estende até ao mar". Não foi "a primeira vez", mas a imponência do Dragão fez lembrar quem está por outras paragens ... mas adiante.
A voz, feminina, do GPS, fazia companhia e "obrigava" a silêncios, para escutar o melhor caminho.
Chegados ao destino, viatura estacionada junto ao pavilhão principal da Bienal e passeio pela Vila, com visita ao mercado semanal, cheio de compradores vindos do lado de lá do rio, que proporcionavam um ruído de vozes, tons e sotaques, ao mesmo tempo estranho e agradável para quem chega.
A Bienal começou a ser vista depois de umas boas costelinhas grelhadas, a fazerem jus à fama gastronómica da região, e que tiveram "molho" a contento.

Para a noite programou-se a ida ao Terreiro, para onde estava anunciada a recreação de uma desfolhada, integrada nas Festas de Nossa Senhora da Ajuda. Música tradicional, ranchos folclóricos que se faziam acompanhar de "merenda" para quem tivesse apetite e, anunciava o apresentador, os melhores tocadores de concertina da região, antes do fogo de artifício que seria "deitado" cerca da meia-noite.

Já não ouvimos as concertinas!

Alguém fez chegar um papel ao palco e segredou meia dúzia de palavras ao apresentador. Primeiro, a informação de que estava mal estacionado e, logo a seguir a correcção: tinha sido assaltado o carro XX-XX-XX.

Era o nosso!

Uma corrida de cerca de 300/400 metros e lá estava ele, "guardado" pelos familiares de quem tinha voltado atrás para dar o alerta. Vidro partido, gaveta do tabliê aberta, tudo remexido, faltava o suporte do GPS, o respectivo carregador, uma pequena bolsa com CD's copiados e um saco com algumas compras feitas pelos amigos que nos faziam companhia.
Passado o primeiro impacto, entre o "se não tivesse ficado o suporte colado ao vidro" e o "tivemos sorte, podia ser bem pior", decide-se fazer a participação às autoridades, pelo menos para influenciar as estatísticas.

Recebidos de forma simpática, com as desculpas pelo incómodo causado "a quem vem de tão longe", fomos respondendo às perguntas que faziam parte dos vários ecrãs que o agente se esforçava por preencher da forma mais rápida que conseguia. Após algumas dificuldades na impressão, meia dúzia de assinaturas.

No final da "confissão", que durou quase uma hora, a informação, com a simpatia habitual:
- Vai levar um exemplar da participação. Pode ser necessário para o seguro ... Devia ser uma Certidão, mas teria de pagar ... e talvez não seja preciso.
- Pagar?
- Sim, claro! A Certidão tem que ser paga!
- Mas eu sou o lesado. O Estado tem deveres para comigo e um deles é garantir a minha segurança e a dos meus haveres ...
- Tem razão, por isso leva a cópia ... Se fosse certidão, tinha de pagar!

A despedida, tal como a chegada e o atendimento, foi extremamente simpática.

- Deve ser tão aborrecido! Vir passear à nossa terra e acontecer isto. Há três sábados seguidos que isto sucede. O nosso Comandante até está a pensar pôr pessoal à civil por aí ...

Moral da história: Fui roubado, fiquei com o carro danificado, fui bem atendido e trouxe uma via da participação.

Faltou a Certidão para o processo ficar completo ... mas tinha de pagar !!!???

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Caldas da Rainha


No mês em que se completam 80 anos da elevação a cidade, um comentário sobre a estratégia ou a falta dela ...

"...
Infelizmente, Caldas manteve-se nesse aparente desenvolvimento, assente numa gestão urbana de obra pública duvidosa e empreendimentos imobiliários. As enormes potencialidades das Caldas e das suas gentes estão embotadas por uma condução sem estratégia nem rasgo da sua edilidade. Valem-nos os que ainda lutam, mantendo nichos de qualidade. Esperemos que resistam até que cheguem melhores dias. Esta terra merece-o. E eu sei que sim."

Maria José Nogueira Pinto
Diário de Notícias - 16.08.2007

terça-feira, 28 de agosto de 2007

O barrete do Manelinho

O barrete era peça sempre presente na sua indumentária. Protegia do sol, do frio e da chuva, que os poucos cabelos dispersos pela careca já não cumpriam essas missões.

Diga-se, porém, que não foi a calvície que determinou o seu uso e julga-se, até, que terá contribuído fortemente para a queda do adorno capilar. Se assim aconteceu, a importância do barrete fica muito diminuída e prejudica a sua reputação, enquanto peça essencial do vestuário.

Na época, o barrete já era raro nos campos, substituído, com vantagem, pelo boné de pala, que se apresentava muito mais cómodo e ... mais bonito.

Tinha sido abegão na casa!

Quando o conheci já "mancava" da perna direita, por via da queda de um cavalo, em condições que nunca ouvi explicar bem.

Por essa altura já os cavalos de quatro patas tinham sido substituídos pelos de quatro rodas e o velho abegão deixara de ser o professor de equitação das crianças, o apoio das senhoras no acto de montar e o moço de recados para os ditos, urgentes.

A perna já só era direita no nome de baptismo. O joelho quase encostava ao seu irmão do lado e o pé afastava-se para fora, num simulacro de chuto na bola ... sem ela. A perna fazia um ângulo obtuso, com o vértice situado no joelho. O homem andava, coxeando, num misto de saltinhos e passos, por entre as flores e os canteiros do jardim, local onde passou a trabalhar após a "recuperação" da queda.

A idade, a deficiência e o gosto já não ajudavam na execução das tarefas da jardinagem. Todos, incluindo os patrões, o respeitavam e ninguém comentava a sua fraca ou nula produtividade.

Era desajeitado nas flores.

Não conseguia podar uma roseira, não sabia transplantar um alporque de cravo, não cortava uma sebe de buxo, de nada servia ensiná-lo a semear um canteiro de sécias.

Apesar da perna, nunca estava parado. Corria o jardim de ponta a ponta, vezes sem conta.

Conhecia todas as luras dos coelhos, os sítios onde melros e tordos bebiam água, os locais onde perdizes e codornizes faziam os ninhos.

Era um caçador exímio!

Quando aparecia, na hora do almoço ou da merenda, mandava atiçar o lume e sacava o barrete: bem lá do fundo surgia um melro, apanhado desprevenido na rede, montada no pequeno charco onde fora saciar a sede; um tordo, que se colara no visgo do ramo de loureiro, quando pretendia saborear uma baga da cheirosa árvore; um láparo, apanhado no laço, armado à saída da loca.

Nos pássaros, um pequeno corte dado pela navalha junto a uma das patas ... e as penas saíam, num repelão, agarradas à pele. No coelho, o sistema era idêntico e esfolá-lo era uma questão de segundos ...

A cor avermelhada da carne punha todos a salivar. Antes de o petisco ser posto no lume, era "amanhado" pelas mãos habilidosas e pela "naifa" afiada, "moradora" permanente no barrete.
A dose era curta e mal dava para a "cova do dente" de cada um.

O barrete do Manelinho era a caixinha de surpresas que todos queriam abrir!

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Alcunhas

A professora escrevia no quadro preto, com giz branco, qualquer coisa que já não consigo precisar ... devia ser alguma explicação matemática! A área das contas punha-a sempre de costas e os alunos aproveitavam para fazer algumas caretas que, noutras circunstâncias, nunca arriscariam.
Apesar das momices, o silêncio era sepulcral e só o giz, de vez em quando, "chiava", incomodando os ouvidos e arrepiando a pele.
Primeiro ouviu-se um ligeiro assobio, quase imperceptível, detectado apenas pelo colega de carteira! Pouco depois a intensidade aumentou, o som identificou-se e acabou num "foguete", como se terminasse uma sessão de fogo de artifício.
Vermelho que nem um tomate, ficou o Bufa-Pum ... e já lá vão quase 50 anos.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Livros (lidos ou em vias disso)

" (...)Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande. (...)"

Extracto do conto Retrato de Mónica, publicado em 1962 por Sophia de Mello Breyner Andresen e agora reeditado.

Contos Exemplares
Sophia de Mello Breyner Andresen
Figueirinhas (2006)

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

15 de Agosto

Não houve carrinhos de choque, carrosséis, poço da morte (cuidado, Marlene, foi assim que seu pai morreu ...), barraquinhas de tiro ou circo.
Nem sequer houve praia.
Apenas foi 15 de Agosto ... no calendário!
A visita matinal ao café teve a companhia do guarda-chuva ...
O mar, na Foz, estava cinzento e bruto ...
Fica a consolação de amanhã ser quinta-feira e o fim-de-semana estar à porta!

domingo, 12 de agosto de 2007

Palavras bonitas


CONFIANÇA
 
O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura ...
E que a doçura
Que não se prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Cântico do Homem
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)

Passam hoje 100 anos do nascimento do Grande Poeta.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Hoje

A Protecção Civil não difundiu nenhum alerta e a "peixeirada" aconteceu na Assembleia Geral do BCP. A reunião acabou por ser suspensa, por avaria no sistema informático, que não conseguiu proceder à contabilização correcta dos votos em presença.
No meio de tantos homens de negócios, não havia ninguém que soubesse fazer as contas à mão?

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Palavras bonitas .. para a minha filha

Para a minha filha

O PAÍS SEM MAL

Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal -
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado.

Ilhas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Natalidade

Cada vez nascem menos crianças em Portugal.
Especialistas estudam o problema, procuram as causas e dissertam sobre as consequências, apresentando conclusões numa linguagem científica, carregada da eloquência própria de quem sabe e que convence qualquer leigo de que a sapiência está por ali ...
E o leigo, com medo de desnudar a sua ignorância, pergunta-se:
  • E as dificuldades económicas?
  • E a falta de perspectiva para o futuro?
  • E a geração dos 500,00 Euros a 6 meses?
  • E o trabalho de "sol a sol"?
  • E as horas intermináveis nas deslocações de e para os dormitórios?
  • E o preço e a escassez dos jardins de infância?
  • E os avisos de não renovação do contrato se houver gravidez?
  • E os que continuam na CP (leia-se: casa dos pais), sem pressa nem condições para partir?
  • E o preço das casas?

E o futuro?

Será dos velhos?

terça-feira, 10 de julho de 2007

De férias ... quase

É este mar que me espera, dentro de poucos dias, mesmo que o Sol faça negaças e a brisa oestina massacre as costas.
À beira-mar ou no "T0", cheques nem os meus; letras, só as dos livros que me farão companhia; saldos, nem aos das lojas vou ligar; notas, já não me preocupam as dos filhos e as do neto ainda vêm longe; aplicações, empréstimos, juros, comissões, devolve/debita, recusa/aprova, faz .. não fez (porquê?) ... e a campanha, está conseguida?
A Foz do Arelho é a melhor praia de Portugal ... a sua maior virtude é ter um mar tão possessivo que nem admite que se disperse a atenção para "coisitas" de somenos ...

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Mensagem do meu neto

Festejei hoje o meu primeiro aniversário!
A minha avó fez rissóis, pastéis, arroz, bacalhau, salada de frutas, bolos e uma infinidade de coisas, das quais eu nem sei o nome. Por mim, chegava a papa e aquela frutinha deliciosa que minha mamã me dá! Não entendo a trabalheira ...
Beberam água, vinho e sumos, amarelos e castanhos, com bolinhas ...
As vozes, roucas e desafinadas, procuraram cantar os "Parabéns a você" e eu fiquei espantado ... costumam tratar-me sempre por tu.
Provei um bocadinho do bolo que diziam ser o meu e que tinha um 1 feito num material que ainda não conheço. Não gostei! Fiz uma careta feia .. mas não chorei!
Não é para me gabar, mas acho que me portei muito bem!
Ri-me muito com as caras dos adultos, que me fazem caretas e me falam como se fossem da minha idade e do meu tamanho.
Na parte final, já estava um bocadinho cansado!
Não tenho tido treinos para este nível de exigência. Isto é quase alta competição! O meu tio está no estágio. Sozinho, não tenho pachorra para o exercício físico e ... o corpo ressente-se.
Já me esquecia ... pousei para "milhares" de fotografias! Quando fizer o filme da minha vida, vão dar um jeitão!
Vou-me deitar!
Amanhã prossigo a aventura de descobrir o que existe na Casa!
Já vi muitas coisas boas para puxar, mandar ao chão, partir ...
Será que vão deixar? Logo se vê ...

segunda-feira, 2 de julho de 2007

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Constatação


Não recordo bem se foi na primária, no ciclo ou em brincadeiras de miúdo, mas relembro a experiência de colocar um feijão num recipiente com água e, passados alguns dias, poder admirar como, pouco a pouco, a semente germinava e desenvolvia um pequeno feijoeiro.

Decorridos tantos anos, verifiquei que a natureza delegou poderes e concedeu a alguns empresários da construção civil a possibilidade de fazerem germinar casas, com as vantagens que, seguramente, daí resultam.

Só não consegui descobrir se germinam num recipiente com água (como o feijão), no interior de um saco de cimento ou se basta colocar o projecto no cabouco e aguardar a emissão da licença da autarquia.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Palavras bonitas

OS ERROS

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida - o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

O nome das coisas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)