quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Palavras bonitas

FICAM AS SOMBRAS ...

Não. Não podeis levar tudo.
Depois do corpo,
E da alma,
E do nome,
E da terra da própria sepultura,
Fica a memória de uma criatura
Que viveu,
E sofreu,
E amou,
E cantou,
E nunca se dobrou
à dura tirania que a venceu.

Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.
E sabeis que se comem
Os frutos acres da recordação ...

Fantasmas invisíveis que atormentam
O sono leve dos que se alimentam
Da liberdade de qualquer irmão.

Miguel Torga
Cântico do Homem
Nota: Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta, no dia 12 de Agosto de 1907, há 103 anos.

domingo, 8 de agosto de 2010

Férias

Acabou-se!

Amanhã volta a rotina, o trânsito, a gravata, o casaco, as meias e os sapatos.

Para trás ficam uns bons banhos, as brincadeiras com o neto, os livros lidos, as sestas viciantes.

Na despedida e após os últimos mergulhos, a bandeira mudou para a cor do costume e apareceram os pingos, visita habitual do mês de Agosto na Foz, que provocaram a debandada geral e uma despedida apressada.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recordar António Feio


Agora, que já se passaram alguns dias sobre a partida e que o bolor do esquecimento se vai instalando, fica a recordação de um grande espectáculo realizado na "minha" Associação, com a sala a abarrotar e uma "fézada" de que tudo iria correr bem, como aconteceu.
A segurança era quase nula e o público participava activamente e de tal forma entusiasmado que o espectáculo durou mais de três horas.
No final, os dois actores, naturalmente muito satisfeitos, "picavam-se" mutuamente com as "buchas" que cada um foi metendo, pervertendo sistematicamente um guião já de si bastante elástico.
Nunca mais voltarei a ver António Feio e José Pedro Gomes, juntos e ao vivo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Palavras bonitas

DIA DE ANOS

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse ...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado ...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!
Não faça tal; porque os anos,
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.
Mas os anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira.
João de Deus

segunda-feira, 26 de julho de 2010

domingo, 25 de julho de 2010

Férias

Já lá vai uma semana, penso, usando o lado pessimista do cérebro.
Logo a seguir, o lado oposto exprime o seu optimismo e salienta, contentíssimo, que ainda faltam mais duas.
Quando e se me apetecer, volto aqui ...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Palavras bonitas

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta.
Sózinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida ... (...)
Álvaro de Campos
Poesias

segunda-feira, 12 de julho de 2010

José Saramago e o Céu

Para além de um grande escritor, o único (até agora) Prémio Nobel da Literatura da língua portuguesa foi um polemista terrível, sarcástico, cáustico, que nunca virou a cara uma boa refrega, intelectual, entenda-se.
Pelos vistos, nem mesmo a morte lhe cerceou a verve, como se prova pela descrição da sua subida ao céu e da argumentação tida com o Criador. Ler aqui.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Vinicius de Moraes

Há 30 anos a música popular brasileira ficou mais pobre e o mundo perdeu o poeta do amor e da beleza.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Fim de tarde

A tarde caminha a passos largos para o fim e, ainda assim, o calor sufocante mantém-se, desafiando a capacidade de adaptação pulmonar, habituada à humidade oestina.
A Praça de Espanha está cheia de carros.
Enquanto uns colocam os "cavalos" no chão e abandonam o local por o "sporting" jogar do seu lado, aguardo na fila com o (meu) "benfica" a impedir a marcha.
Os vidros estão abertos, o rádio sintonizado na Antena 2, que a música ajuda a libertar e a desligar.
"Sou" o primeiro carro da fila da esquerda.
O vendedor transporta, em cada mão, 2 sacos de plástico com barquilhos. Já desistiu de apregoar o produto.
- Não se vende nada ...
Ainda se chamam barquilhos, pergunto, recordando o homem que, na minha infância, os retirava de uma lata redonda, branca e vermelha, junto à Escola Rafael Bordalo Pinheiro.
- Claro. Também há quem lhe chame bolacha americana ... mas não se vende nada. Desde o 25 de Abril que é assim.
???
A compostura do "fato de trabalho", a música ou o sorriso enigmático deram-lhe coragem para continuar.
- Estragaram tudo, o dinheiro, o ouro, as províncias ... e quem se lixa é o povo.
Mas vivia-se bem pior, arrisco.
- Qual quê, a gente cantava e bailava ... era uma alegria!
Por certo que o calor lhe toldou a vista e não percebeu que o "antes" também passou por mim, e bem (se calhar estou ainda em muito bom estado !!!!).
O "sporting" caiu e o diálogo terminou com o "até amanhã" próprio de quem, não se conhecendo, frequenta os mesmos locais.
Se os semáforos proporcionarem novo encontro, vou tentar perceber o que o leva a dizer que era melhor viver "cantando e rindo".