segunda-feira, 27 de setembro de 2010

É assim ...

... não melhorou e já não regressa à casa que foi sua durante quase treze anos.
O tumor a que foi operado há alguns anos tinha deixado sementes e estas disseminaram-se por vários orgãos. Estava "minado" pelo cancro.
Já não há mais "vamos ao jardim, cão velhote".

sábado, 25 de setembro de 2010

Fim de semana

A sexta-feira começou da pior maneira.
Logo pela manhã, o Skiffo não se movimentou na procura do biscoito rotineiro e permaneceu deitado, com os olhos mortiços, a pedir a ajuda que precisava sabe-se lá desde quando.
Tinha ficado bem na noite anterior, passeado pelo jardim como de costume e, embora os anos já vão pesando, nada fazia prever que ficaria doente.
Telefonema para a veterinária e lá foi ele para a clínica, Levado numa "padiola" feita com um tapete, apenas rosnou um pouco quando viu que um dos elementos que o transportavam não era conhecido ou, pelo menos, não lhe inspirava confiança. Umas festas, umas falas e acalmou.
Chegado ao carro, parece que adivinhou que, afinal, quem lhe iria valer não eram os donos e que a viagem ia ser para local desconhecido ou para um sítio que lhe traria recordações desagradáveis. Pela primeira vez, neste dia, exibiu o seu orgulho e, fazendo das fraquezas forças, levantou-se, rosnou, olhou para nós e transmitiu o seu desagrado pela viagem.
Está a soro, medicado e estacionário. Já foi diagnosticada uma insuficiência hepática e uma compressão nas vértebras cervicais. Malhas que a idade tece!
Mas vai melhorar ...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Música portuguesa

Fora dos grandes circuitos, avesso às cedências, contra a corrente, raramente se ouve nas rádios ou nas televisões.

Lá pelo Ribatejo profundo, Pedro Barroso encontrará a inspiração para fazer coisas tão lindas como esta Tão Mulher, que faz parte do album Sensual Idade, gravado em 2008.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Vindimas

Começou o corte dos cachos das videiras que, em Abril deste ano, no Douro, ainda nem sequer abrolhavam. O ritual de antigamente está hoje em desuso, exigindo-se a quem vindima um cuidado carinhoso com as uvas, para que o corte acrescente qualidade ao vinho que há-de resultar da cozedura do mosto.
Hoje cruzei-me com várias carrinhas que transportavam pessoas para as vindimas e, quando cheguei, fui à estante procurar Torga, lido há anos, mas a quem se volta sempre com prazer.
" (...) Encosta espraiada de cepas a olhar o rio ao fundo e o céu lá no alto, a Cavadinha, com o  nome em letras garrafais no arco de ferro que encima o largo portão da entrada, é o mimo das quintas. Uma alta ramada dá sombra ao caminho varrido que liga a estrada à residência, sólida construção sobranceira às várias dependências que a rodeiam: os lagares, os armazéns e a cozinha do pessoal. Casas caiadas de branco, telhado e tudo, como as de Penaguião, quando neva. Uma brancura para enganar o coração de quem vem.
A cal, porém, não chegava até à cardenha onde dormiam os vindimadores. Longe do terreiro, sobradada de palha e dividida em dois por uma meia parede que teias de aranha prolongavam até ao telhado, de um lado amontoavam-se as mulheres, do outro ressonavam os homens e as crianças, quando, depois de um dia de corte, de cestos e de lagar, caíam como tordos no chão.
- Onde se começa? - quis saber o Eusébio, ao deitar, numa curiosidade de boi pela molhelha.
- Na encosta do buxo, disse-me o tio Seara.
Dançado o último fandango, esgotado o reportório das cantigas, a tarde caíra sonolenta sobre as léguas do caminho. E agora, antes de se entregar inteiro a um repouso de morte, o corpo necessitava de conhecer em que sítio se iniciava a vida quando viesse a ressurreição.
- Aperte mais o rabo, tia Joana! - gritou de cá o Jerónimo, a um ruído suspeito do outro lado.
- Eu ainda não estou tão lassa como cuidas, ó alma do diabo! Fala ali com a Carminda ...
Um impudor de convívio chegado, de intimidade de paredes sem reboco e sem remate no tecto, rasgava o véu que cada natureza, principalmente se era feminina, trazia à volta de si. Velhas e novas, virgens e casadas, homens e meninos, olhavam-se descompostos e naturais, numa ironia tolerante.
- Ó tia Virgínia, que tal é o colchão?
- É-é-é ... bô-ô-ô ...
- E você, tia Angélica, reza a coroa?
- A minha alma já está no céu, só de vos aturar ...
- Fartei-me de uvas! - gabava-se o Chico, entoirido. - Até me dói a barriga ...
- Se te apertar, não me sujes ... Vai lá fora!
- Há pulgas, aqui! - gritou a Carminda.
- Queres que tas vá coçar?
Nenhum dito regressava sem troco, nenhuma intenção ficava por entender. (...)"
Miguel Torga
Vindima - 1945

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Graffiti

Em Outubro de 2007, os Couple Coffee estiveram nas Caldas, num tributo a José Afonso organizado pelo Teatro da Rainha, apresentando um trabalho de excelente qualidade intitulado Co'as tamanquinhas do Zeca.
Recentemente, Luanda Cozetti, a voz do grupo, gravou uma das músicas do album Graffiti, de Júlio Pereira. O disco é fantástico e reúne as vozes de Sara Tavares, Dulce Pontes, Olga Cerpa, Mariza Liz, Nancy Vieira, Manuela Azevedo, Maria João, Sofia Vitória, Filipa Pais e Luanda Cozetti, numa edição cuidada e muito bonita.
Não é fácil escolher entre tanta gente de nível, mas a música minha preferida é esta aguarela da lusofonia denominada "É um  dia, é um dia não".

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Palavras bonitas *

À CHEGADA DOS DIAS GRANDES

Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior do que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.
Ruy Belo
* Para o meu filho, que hoje faz 29 anos.

sábado, 28 de agosto de 2010

Fogos e alertas

As chamas continuam a consumir as matas nacionais, não fazendo distinção entre parques naturais, paisagens protegidas, mato rasteiro, carvalhos, pinheiros ou eucaliptos.
Na mesma senda da repetição, os orgãos de comunicação social fazem eco das cores dos alertas da Protecção Civil, do número de homens envolvidos no combate, dos meios terrestres e aéreos, numa contabilidade absurda e massacrante que o Ministro completa determinando percentagens sobre o que ardeu a menos, rebuscando estatísticas até encontrar resultados positivos.
Entretanto, ainda ontem na A8, presenciei o comportamento de uma condutora que, no exacto momento em que a ultrapassava, deitou pela janela a beata do cigarro com que, por certo, se tinha acabado de deliciar.
Fica a pergunta: se a Protecção Civil utilizasse os orgãos de comunicação social para emitir comunicados didácticos, apelando ao civismo, à educação para o bem de todos, ao respeito pela natureza, responsabilizando os maus comportamentos, não obteríamos melhores resultados do que com o contínuo bombardeamento de números e cores de alertas?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quotidiano

No final do dia de hoje, para desanuviar de algumas centenas de quilómetros, fui caminhar à beira da Lagoa, utilizando a "pista" que o Instituto da Água ali criou há já bastante tempo (talvez 2 anos), no âmbito de um programa de recuperação das margens da Lagoa de Óbidos, co-financiado pela Comunidade Europeia.
Tinha ideia de já não caminhar por ali há algum tempo, mas não supunha que já tanto tivesse decorrido. Deparei, hoje, com uma placa que assinala, para a posteridade, a inauguração daquele espaço de lazer em Maio deste ano, pelas mãos da Ministra do Ambiente, Dulce Pássaro.
Centenas, talvez milhares de pessoas utilizaram aquele espaço sem que, afinal, houvesse "licença de utilização". O "documento" foi agora emitido pela Ministra Pássaro.
Vivam a "passarada", os "passarões" e, já agora, os "passarinhos".

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Palavras bonitas

AI SILVINA, AI SILVININHA

Lindos olhos tem Silvina,
lindas mãos Silvina tem,
e a cintura de Silvina
é fina como o azevém.
Em Silvina tudo exala
um cheiro de coisa fina,
mas o que a nada se iguala
é a fala de Silvina.

A doce voz de Silvina
é como um colchão de penas,
é um fio de glicerina,
um vapor de águas serenas.

- Porque não cantas, Silvina?
Se a tua voz é tão doce
talvez cantada que fosse
mais doce que a glicerina.
Porque não cantas, Silvina?

- Não me apetece cantar
e muito menos para ti.
Eu sou nova, tu és velho,
já não és homem para mim
.

- Não me tentes, Silvininha,
que eu já não te olho a direito.
Sou como um ladrão escondido
na azinhaga do teu peito.

- A azinhaga do meu peito
corre entre duas colinas.
O ladrão do meu amor
tem pé leve e pernas finas.


- Canta, canta, Silvininha,
uma canção só para mim.
Dar-te-ei um lençol de estrelas,
uma enxerga de alecrim.

- Deixa o teu corpo estendido
à terra que o há-de comer.
A tua cama é de pinho,
teus lençóis de entristecer.

- Canta, canta, Silvininha,
como se fosse para mim.
Dar-te-ei um escorpião de oiro
com um aguilhão de marfim.

- Não quero o teu escorpião,
nem de ouro nem de prata.
Quero o meu amor trigueiro
que é firme e não se desata.

- Pois não cantes, Silvininha,
se é essa a tua vontade.
Canto eu, mesmo assim velho,
que o cantar não tem idade.
Hás-de tu ser morta e fria,
cem anos se passarão,
já de ti ninguém se lembra
nem de quem te pôs a mão.
Mas sempre há-de haver quem cante
os versos desta canção:
Ai Silvina, ai Silvininha,
Amor do meu coração.
António Gedeão
Máquina de fogo 1961

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Regresso

Habitualmente, a rádio acompanha-me no regresso a casa, com umas incursões, pontuais, ao leitor de CD's.
Hoje apetecia-me ter companhia mais íntima e fui à procura de Elis Regina, no monte que anda no porta luvas.
Vim com Elis & Tom, numa remasterização feita em 2004 de um disco gravado na cidade de Los Angeles trinta anos antes. Fica uma amostra do que ouvi ...