sábado, 13 de novembro de 2010

Palavras bonitas

MANHÃ CINZENTA

Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra dos meus pais ...
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais ...

O meu veleiro - era de espuma fria -
levava-o o fervor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes,
nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta - mais nenhuma:
na Ilha que o passado envolve em bruma,
um lenço branco que me acena ainda ...
Natália Correia
O Sol nas noites e o luar nos dias

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Música - Três pianos

Porque hoje foi um dia cansativo, apeteceu-me colocar nove minutos de boa música, por três grandes intérpretes portugueses, junto e ao vivo no CCB.
Apesar de tudo, ainda se fazem coisas muito bonitas em Portugal ...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Palavras bonitas

SONETO

Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Eugénio de Andrade
Poesia
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

sábado, 6 de novembro de 2010

Crise e fome

Cumpridos os rituais de sábado - praça, almoço, "sestinha", flores - sento-me a ler o Expresso, também ele um ritual .
Televisão sintonizada no Mezzo, tenho em fundo Jazz num concerto do Jazz in Vienne 2010 (Liz Comb).
O Expresso actualiza-me as últimas sobre o orçamento, a crise, os arrufos e os entendimentos, os ditos e os seus contrários, o BPN, o BPP, as taxas de juro, as constantes indisposições dos mercados, o processo do homem da Protecção Civil que parece ter passado "a mão pelo pudim", etc., etc.. Nas páginas centrais do primeiro caderno surge, frio, o desenvolvimento da manchete: há escolas que vão passar a abrir ao fim de semana e nas férias para poderem minorar a fome de muitos dos seus alunos.
A música torna-se desagradável, o sofá desconfortável, o arrepio percorre-me o corpo.
Não foi este o país sonhado na época em que o sonho "comanda a vida".
Quase quarenta anos depois, interrogo-me: poderia e deveria ter feito mais para impedir que a incompetência, a selvajaria, a ausência de princípios e valores tomassem o poder e dele fizessem a sua "quinta", colhendo toda a "fruta" e deixando a grande maioria apenas à mercê dos caroços que os "iluminados" deitam fora?
Não sei a resposta ...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

LP's, CD's e MP3

Na noite passada estive a converter alguns CD's para MP3 para, com uma simples "pen", fazer chegar algumas dezenas de canções a quem, sobre elas, manifestou interesse.
De entre os CD's convertidos contavam-se alguns de Gal Costa que, lembrei-me hoje, não coincidiam com alguns discos de vinil que fazem parte do "antiquário". A memória, por vezes, já vai traindo, mas a lembrança de um velho LP (era assim que se designavam os albuns de vinil) com uma capa muito sugestiva, estava bem fresca.
Fui à procura do "India" (gravado em 1973) e não o consegui encontrar nas "catacumbas".
Andará por aí ...
Fica a música que dá título ao album, sacada do Youtube, com a sugestiva capa a servir de suporte.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Palavras bonitas

Apocalipse

É o cavalo do tempo a galopar ...
Ninguém pode detê-lo.
Vê-lo,
é ver, a sonhar,
um relâmpago a rasgar
o céu dum pesadelo.
Deixa a desolação por onde passa.
Torna os sonhos maninhos.
Desmente os adivinhos
que, na divina graça
de feiticeiras alucinações,
prometem duração às ilusões.

Besta infernal,
com asas de morcego
e raiva desbocada,
largou do prado onde pastava ausente,
e corre, corre, em direcção ao nada,
única direcção que a fúria lhe consente.
Miguel Torga
Câmara Ardente

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sôbolos rios que vão

Numa visita relâmpago, em final de tarde, à minha amiga Isabel Castanheira (as tuas melhoras), da Loja 107, comprei e comecei a ler, enquanto esperava ser atendido para uma consulta médica de rotina.
Vou no quinto dia - 25 de Março de 2007 - com uma vontade enorme de continuar, sem paragens, para desvendar o muito que lá está. Não é possível. O tempo é pouco e a leitura exigente, num vai e vem constante para entender e digerir, sem pressas que o caminho certo é de difícil descoberta, mas entusiasmente quando se descobre a linha.
"... a hera a crescer na varanda não pareceu entusiasmar-se quando o tio o ensinou a andar de bicicleta entre o castanheiro e o portão trotando-lhe ao lado a equilibrar o selim
- Pedala
o tio exausto lá para trás e ele sozinho direito à garagem sem conseguir travar, a garagem subitamente enorme e o tio distintíssimo
- Pára
ultrapassou um canteiro, um segundo canteiro, o médico
- Vamos explorar as hipóteses
e ele contente embora a incisão principiasse a maçá-lo, isto é não dor ainda, a vizinhança da dor, o que em algumas horas se tornaria dor, impossível de travar como a bicicleta apesar dos gritos do tio, uma raiz desviou o pneu da frente e não o portão agora, um pilar de granito com um vaso em cima, o avô distraído com o rato de chocolate não o via da sala, chinelos cuja existência desconhecia, o avô sempre calçado até então, ..."
E chega, para aguçar o apetite.

domingo, 17 de outubro de 2010

Foz do Arelho

Sendo certo que olhos que gostam vêem diferente, a rotina de ir olhar a Foz é sempre quebrada por surpresas do mar, do tempo, da paisagem, resultantes de variadíssimos factores, quiçá, até, da disposição que se leva.
Hoje o nevoeiro apresentava-se de norte para sul, ou melhor, para quem conhece bem, do mar para a lagoa, ao contrário do que normalmente acontece, quando se tem um sol radioso na lagoa e o mar envolto naquele enorme “capacete” que nem o deixa ver.
O Sol já convidava ao passeio e havia no areal uma exposição de arte contemporânea a não perder. Uma série de instalações, em diversos materiais, onde predominavam as canas mas onde se podiam distinguir outros tão diferentes e banais como chinelos, sapatilhas, garrafas (de plástico e de vidro), bóias, troncos de árvores, embalagens de iogurte, latas de sumos, num conjunto de obras que, embora não tendo autor identificado nem título, se presumia serem da autoria conjunta do mar e da lagoa e se chamarem Desleixo.
Ainda bem que, certamente por causa da crise, não existirá capacidade financeira (ou de decisão?) na Junta de Freguesia nem na Câmara Municipal para mandar retirar aquilo.
Perder-se-ia a oportunidade de ver obras de grande qualidade estética e ficava-se, de novo, com possibilidades de passear descalço pela praia …




sábado, 16 de outubro de 2010

Inveja

Sou um invejoso!
Padeço de um mal muito comum no nosso país, que afecta muito mais portugueses do que a bactéria helicobacter, o cancro do colo do útero, a doença dos pézinhos, o reumático ou a rinite dos fenos. Porém, a minha inveja não provoca a reacção mais habitual de que os outros têm sempre o melhor carro, a mulher mais bonita e o melhor emprego apenas porque nasceram com o dito virado para a Lua ou foram bafejados com uma "sorte do caraças".
A minha inveja resulta daquilo que outros fizeram e que eu muito gostaria de ter sido, antes, capaz de conseguir. Esta semana, no Expresso, (não sou accionista) vêm insertos textos que me causaram um ataque do mal de que sofro, dos quais destaco algumas partes:
Henrique Monteiro - Sócrates, a fonte do problema
Aqui há um mês e meio, o Governo acusava o PSD de querer acabar com o Estado Social. Ontem, apresentou um Orçamento do Estado que o destrói. As coisas têm de ser vistas no real e não nos discursos - a retórica, a habilidade, a falsa promessa, a demagogia, o ataque soez (e lamento não me lembrar de mais palavras dizíveis) que então campearam eram injustificados.(...)
Nicolau Santos - Um sangrento massacre fiscal
Pode-se justificar com o estado de urgência em que se encontra o país, com a pressão dos mercados, com o aperto em matéria de financiamento em que se encontram os bancos e a República. Mas a proposta de lei sobre o Orçamento do Estado para 2011 só pode ser classificada como um saque brutal à bolsa dos contribuintes, um tsunami que arrasa toda a economia à sua passagem, uma bomba atómica que levará milhares de empresas a fechar as portas e milhões de cidadãos a passarem a viver bem pior a partir do próximo ano.
Além disso, é um Orçamento sem esperança.(...)

Miguel Sousa Tavares - A lição do Chile
Um a um, vou vendo sair os mineiros das profundezas do Atacama: duas madrugadas e grande parte de um dia de televisão sempre ligada, fascinado com essa extraordinária oportunidade de seguir em directo, a milhares de quilómetros, a extracção, corpo a corpo, de 33 condenados à morte de encontro à superfície, à luz e à vida. O mundo inteiro esteve, em diferentes fusos horários, preso desta transmissão televisiva planetária, que é daquelas que ficará para sempre na nossa memória, como as da chegada à Lua ou do início da Guerra do Iraque, em directo. A transmissão foi preparada ao pormenor e teve imagens inesquecíveis, como a da agulha progredindo num mostrador, da esquerda para a direita, à medida que a Fénix ia fazendo cada uma das suas ascensões ao longo dos 700 metros de túnel. Ou as fantásticas imagens recolhidas no interior do próprio abrigo, de onde a Fénix partia, desaparecendo no buraco perfurado na rocha para uma viagem que, de facto, tinha toda a carga simbólica e quase física de um parto.(...)



quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Palavras bonitas

Sê como és: o sol é bom,
o ar vivaz.
Do azul aos azuis, do verde aos verdes,
a terra é menina e o tempo rapaz.

Também tu és menina
(um bichinho rebelde, de tão natural!)
e correr descalça era mesmo o que querias,
mas seria indecente nesta capital ...

E enquanto, doutro verde possuído,
em versos me explico, bem ou mal,
à primavera corres, já descalça,
por uma relva ideal!
Alexandre O´Neill