domingo, 5 de dezembro de 2010

Livro ... lido.

Acabei de ler ... e confirmou as expectativas.
Termina assim: (...) O amanhecer apenas se distingue do anoitecer por aquilo que o antecedeu e pela sucessão que lhe imaginamos, o antes e o depois. Agradeço-te por teres aceitado que este livro se transformasse em ti e pela generosidade de te teres transformado nele, agradeço-te pela claridade que entra por esta janela e por tudo aquilo que me constitui, agradeço-te por me teres deixado existir, agradeço-te por me teres trazido à última página e por seguires comigo até à última palavra. Sim, tu e eu sabemos, isto: . Insignificância, pedaço de nada, interior da letra ó. Mas isso será daqui a pouco. Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui.
José Luís Peixoto
Livro - Quetzal 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Palavras bonitas e ... inquietação

Chama-se Livro o último romance de José Luís Peixoto e vou mais ou menos a metade da sua leitura. Apesar disso, arrisco-me a dizer que o título deveria ser Vida, num Portugal que começa (no livro) em 1948 e se prolonga até não sei quando, porque não quero ir ver (ler) o fim da história. Prefiro digeri-la, a pouco e pouco, saboreá-la: está lá muito do que eu conheci: as castas sociais e os seus desequilíbrios, a amante do padre e o filho de pai incógnito, a matança do porco e os seus rituais, o Portugal salazarento e a ida, a salto, para França, o alcoolismo, a miséria, a ignorância ...
"(...) O que seria a França? A Adelaide sabia três coisas acerca do país para onde se dirigia: na França, as pessoas tinham máquinas que faziam a lida da casa, que varriam o chão, que lavavam a loiça e a roupa, braços de ferro; na França, as pessoas só andavam de automóvel, mesmo para ir à padaria; na França, as pessoas comiam carne de cavalo cozida. Esta última informação era a que mais espécie lhe fazia, tinha pena dos bichos. Também já tinha ouvido falar da cidade de Paris, conhecia o nome, e também já sabia que os franceses falavam estrangeiro. Como iria entender-se num lugar em que toda a gente falava estrangeiro e comia cavalo? Durante as horas de viagem, coberta por lona, a fugir com o rosto aos olhares embaciados dos homens, a Adelaide apoquentava-se com estas perguntas, mas havia um pensamento que lhe fazia mais mazela.(...)
José Luís Peixoto
Livro 

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Palavras bonitas

EM TODOS OS JARDINS

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poesia

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mercados

A Irlanda já fez a vontade aos mercados e pediu ajuda à União Europeia e ao FMI, tudo indicando que, para compor o ramalhete, cairá o Governo e haverá eleições antecipadas. 
Segundo os analistas que tudo sabem (agora), Portugal deverá seguir o exemplo dos irlandeses, porque os mercados não nos darão tréguas.
Como não percebo nada disto e me parece que os mercados são uma espécie de "meninos irrequietos" que ninguém consegue manter sossegados, não seria bom que o nosso Primeiro lhes levasse o vídeo da sua Ministra da Educação, para ver se eles se portavam melhor?

domingo, 21 de novembro de 2010

Três em um

Uma grande canção de Chico César, um conjunto de imagens de muito bom gosto compiladas por Ruiva Misteriosa (?) e a voz, inconfundível, de Maria Bethânia, são o produto de uma "pescaria" no YouTube, no final da tarde de domingo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Quotidiano

Ficamos hoje a saber, sem grandes alaridos, que:
  • Os Hospitais do Serviço Nacional de Saúde deviam, em Outubro, 1.034 milhões de Euros à indústria farmacêutica e que o Centro Hospitalar das Caldas da Rainha demora, em média, dois anos e meio a solver os seus compromissos. Tenho um amigo, ilustre comerciante desta praça, que, já há muitos anos , só fornece o CHCR com dinheiro na mão ...
  • O Presidente da Câmara de Guimarães vai propor a redução de 30% dos salários dos membros do Conselho de Administração da Fundação Guimarães Capital da Cultura, o que significa um enorme esforço, tendo em conta que a base de partida se situa bem acima dos 10.000,00 Euros mensais. Tenho um amigo, no Canadá, que, aquando da divulgação dos salários que agora irão (?) ser objecto de ajustamento, me enviou um mail intitulado "É fartar vilanagem" ...
  • Os dois blindados comprados para a PSP utilizar na cimeira da NATO que amanhã acontece por cá, afinal não vão chegar a tempo. Nenhum amigo me disse, mas talvez tenham ficado na fronteira ou tenham sido recambiados para o país de origem, por não trazerem os documentos ...
Nada disto nos tira a motivação para sermos cada vez melhores, mais educados, mais competentes e mais solidários. A depressão colectiva que estava latente, por causa do défice, da dívida externa, dos mercados nervosos e da possível entrada do FMI sem convite, desapareceu sem deixar rasto, aguardando-se que regresse das mini férias, após a tolerância de ponto de amanhã.
E tudo isto porque a Selecção Nacional de Futebol, tranquilamente treinada pelo "bestial" Paulo Bento, que substituiu a "besta" do Carlos Queirós, "deu" ontem 4 a zero à Espanha campeã da Europa e do Mundo e, verdade se diga, só não foram tantos como o meu Benfica trouxe do Porto porque o árbitro não quis ...

sábado, 13 de novembro de 2010

Palavras bonitas

MANHÃ CINZENTA

Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra dos meus pais ...
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais ...

O meu veleiro - era de espuma fria -
levava-o o fervor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes,
nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta - mais nenhuma:
na Ilha que o passado envolve em bruma,
um lenço branco que me acena ainda ...
Natália Correia
O Sol nas noites e o luar nos dias

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Música - Três pianos

Porque hoje foi um dia cansativo, apeteceu-me colocar nove minutos de boa música, por três grandes intérpretes portugueses, junto e ao vivo no CCB.
Apesar de tudo, ainda se fazem coisas muito bonitas em Portugal ...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Palavras bonitas

SONETO

Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Eugénio de Andrade
Poesia
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

sábado, 6 de novembro de 2010

Crise e fome

Cumpridos os rituais de sábado - praça, almoço, "sestinha", flores - sento-me a ler o Expresso, também ele um ritual .
Televisão sintonizada no Mezzo, tenho em fundo Jazz num concerto do Jazz in Vienne 2010 (Liz Comb).
O Expresso actualiza-me as últimas sobre o orçamento, a crise, os arrufos e os entendimentos, os ditos e os seus contrários, o BPN, o BPP, as taxas de juro, as constantes indisposições dos mercados, o processo do homem da Protecção Civil que parece ter passado "a mão pelo pudim", etc., etc.. Nas páginas centrais do primeiro caderno surge, frio, o desenvolvimento da manchete: há escolas que vão passar a abrir ao fim de semana e nas férias para poderem minorar a fome de muitos dos seus alunos.
A música torna-se desagradável, o sofá desconfortável, o arrepio percorre-me o corpo.
Não foi este o país sonhado na época em que o sonho "comanda a vida".
Quase quarenta anos depois, interrogo-me: poderia e deveria ter feito mais para impedir que a incompetência, a selvajaria, a ausência de princípios e valores tomassem o poder e dele fizessem a sua "quinta", colhendo toda a "fruta" e deixando a grande maioria apenas à mercê dos caroços que os "iluminados" deitam fora?
Não sei a resposta ...