terça-feira, 6 de novembro de 2012

Visitas

No próximo dia 12 Portugal recebe a visita, ilustre, daquela senhora alemã que usa casacos parecidos com os meus, embora bem mais feios.
É um momento importante para o nosso país, havendo a lamentar apenas que a estadia seja tão curta, trazendo, seguramente, enormes transtornos à senhora. 
Estando 6 horas em Portugal, de entre as formalidades do aeroporto, as apresentações às autoridades, a visita à Auto Europa, as conversas com o PR (vai ensinar-lhe como se comunica no Facebook) e com o  PC (Passos Coelho, que lhe ministrará uma pequena aula de canto), sobrará muito pouco tempo para a senhora ir ao WC fazer um pequeno xixi, se disso tiver necessidade. O cócó nem faz parte da agenda, ficando a vontade guardada para o fazer a bom recato na sua terra, talvez numa sanita portuguesa.
A vida de chanceler deve ser muito dura e a capacidade de síntese exigida para executar esse mister inimaginável. Ainda pensei em convidá-la para um cházinho em minha casa, mas reconheço que nem tempo teria para lhe abrir a porta.
Nota final: Espera-se que o povo português compreenda que a senhora tem uma vida muito ocupada e não atrapalhe a visita com manifestações. Saibamos receber quem nos quer bem ...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Reflexão

O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, a expressão de sentimentos, uma gaveta de memória, a manifestação de opinião livre, sem preconceitos nem vassalagem, sem pretensiosismo de qualquer espécie nem ambição de leitores, elogios ou críticas. 
Discreto, pacato, por vezes reflexivo, outras impulsivo, à imagem do seu autor. Por aqui têm passado os temas que, em cada momento, me marcaram por qualquer motivo e me deram vontade de registar, aproveitando este arquivo monumental, ordenado e espaçoso que, sem grande trabalho, esta geringonça permite.
É assim que quero continuar, para me surpreender quando percorro os cantinhos da gaveta e descubro o que entendia em tempos idos, no que reparei, onde me levou o sentimento.
Se um dia os meus netos vierem a passear por este arquivo, gostaria que se sentissem tentados a vasculhar o que, nessa altura, já terá desaparecido na voragem do esquecimento.
Acabei há dias o melhor livro de Lobo Antunes, a que já fiz referência aqui. O meu carácter impulsivo acha sempre que o último livro deste autor é o melhor, mas este é, sem qualquer dúvida, um grande livro! Em três dias, as inúmeras vozes que nele se ouvem caminham por situações da vida, numa beleza de escrita onde cada palavra é aquela e não podia ser outra, onde cada imagem é mais bela do que a anterior, onde cada descrição só ficava perfeita com aqueles pormenores, onde cada um diz o que deve no momento certo, mesmo que a voz seja a do irmão surdo da professora angustiada com as complicações da vida, que decide juntar-se ao irmão, no mesmo mar onde ele mergulhou e a cabra caiu, junto à casa de praia onde não se passava o muro para brincar, por do lado de lá morar gentinha. Deve dar muito trabalho escrever assim!
A convalescença do corte também tem algumas vantagens e esta é uma delas: tem-me permitido ler (muito) quando quero e como quero.
Agora estou na fase das novidades: depois de Lobo Antunes (Não é meia noite quem quer), já vai avançado o Cafuné de Mário Zambujal, mais leve que o anterior, onde, com prosa deliciosa, se contam as aventuras, desventuras, sonhos e realidades de um Rodrigo Favinhas Mendes, que viveu em Lisboa por alturas das invasões francesas. Seguir-se-á Mario de Carvalho (O Varandim), Rui Cardoso Martins (Se fosse fácil era para os outros) e Bruno Margo (Sandokan & Bakunine). Gosto variado, prosas diferentes, leitura diversa.
Nos intervalos, as caminhadas, a crise, o orçamento, o Gaspar, o Portas e o Coelho, que não devem ter tempo para ler, tão afadigados que estão em obedecer àqueles funcionários de segunda, que ditam as regras impostas por aquela senhora alemã, cujo nome não me ocorre, mas que usa casaquitos parecidos com os meus, porém bem mais feios ...

domingo, 21 de outubro de 2012

Não há bem que sempre dure ...

António Lobo Antunes na Visão de 18.10.2012:

"O meu trabalho está praticamente terminado. Escrevi os livros que queria, da maneira como queria, dizendo o que queria: não altero uma linha ao que fiz e, se me dessem mais cem anos de vida em troca deles, não aceitava. Era exactamente isto que ambicionava fazer. Há uns dez dias acabei o último. Se tiver tempo, e embora a obra esteja redonda (sempre esteve na minha cabeça deixar a obra redonda) é possível, seria possível acrescentar uma espécie de post-scriptum. Não sei se vou fazê-lo. Sai um livro em 2012, para o ano uma colecção destes textozitos, em 2014 o que agora terminei e uma última colecção destas prosinhas e acabou-se (...)"

Como sempre e em todas as circunstâncias, arrepia e, ao mesmo tempo, anseia-se pelo que virá a seguir, agora mais ainda sabendo-se que serão os últimos. Enquanto se aguarda pelo romance agora acabado, um pequeno excerto do recém publicado "Não é meia noite quem quer". 
Em "meia dúzia de linhas", a descrição exaustiva da angústia, da separação, do trabalho, da doença, das relações familiares, da vida. 

"(...) Gostei de ti logo no primeiro minuto só que não sabia o que fazer desde que o meu marido me trocou por, desde que o meu marido se foi embora, eu estava morta, percebes, morta, tudo defunto em mim, quando a requisição no Ministério acabou pensei, sem tristeza nem alegria, porque cá dentro nem tristeza nem alegria, indiferença, lá vou ter que suportar aulas de novo, criaturas à minha frente que não se darão ao trabalho de ouvir o que digo e o que posso dizer que lhes interesse, vão à escola porque têm que ir à escola, não escutam, não aprendem, não sabem falar quanto mais escrever, cochichos, empurrões e eu sozinha diante deles como sozinha em casa, nem os via, palavra, debitava a matéria enquanto assuntos sem relação com o trabalho e sem relação entre si apareciam e desapareciam à medida que a minha boca continuava a mover-se, a factura do gás, por exemplo, de que deixei passar o prazo e agora tenho que ir à companhia e aguentar horas na fila antes que me fechem o contador, um dente lá para trás a aborrecer-me, a minha madrasta, há muitos anos, foste tu que partiste o bambi e foi o braço, sem querer, que o expulsou da cómoda, o bambi da época da minha mãe e eu tão aflita meu Deus, obrigando-a a agonizar outra vez, para além do bambi pouco restava dela, a minha madrasta expulsou o que lhe pertencia, o meu pai calado e eu chorando de zanga, não de pena, no quarto, talvez pelo hábito de a ter ali sem conversar com ela, nunca conversei com ela, isto é a minha mãe não conversava comigo, observava a rua da varanda, tão magra do pâncreas, antes do pâncreas palavra alguma também, a única palavra de que me recordo era come e eu de boca cheia, esquecida de engolir, (...)"

 Uma prosa brilhantemente simples e simplesmente brilhante.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Crise

Pálido, cabisbaixo. soturno, triste, pensativo, meditabundo, colérico, zangado, o país levanta-se todos os dias com pior aspecto e, para quem nada percebe de ciências ocultas, definha a olhos vistos, caminhando inexoravelmente para o desconhecido.
Os "médicos" que o tratam são autoridades nas várias especialidades e garantem que a terapêutica é a adequada para que se atinjam os objectivos propostos. Outros "médicos", muitos dos quais com experiência "hospitalar" que agora não exercem, falam em septicemia, morte por emagrecimento exagerado, destruição de células, risco de eliminação do doente antes da cura produzir efeitos, diagnósticos estes que os residentes rejeitam, não admitindo discussão sobre alternativas a um caminho sem rumo.
O presidente do "hospital" continua nos jardins de Belém a ouvir os passarinhos. Conhecerá ele a história do burro do espanhol?
Conte-se, para que conste e sirva de alerta:
O espanhol tinha um burro que comia de forma desalmada, obrigando-o a gastar a quase totalidade dos parcos rendimentos que a sua actividade de almocrevaria lhe proporcionava. Conhecendo a máxima de que somos todos animais de hábitos e que estes fazem o monge, meteu-se na cabeça do espanhol que o burro, sendo asno, não tinha necessidade de comer. Vai daí, deixou de lhe dar o penso e de lhe permitir o pasto pelos campos. O burro começou a perder a força e os seus ossos acentuavam cada vez mais os ângulos do corpo.
- Vai habituar-se, ou eu não me chame Gaspon! A receita é boa, o burro é burro, os custos diminuem, tudo bate certo.
Um dia o burro apareceu morto.
Conclusão do espanhol:
- Que pena! Logo agora que já se estava habituando ...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Palavras bonitas ... adequadas ao momento

ESTA GENTE

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Geografia - Procelária (1967)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Crise

Casaram-se há pouco mais de um ano, após um noivado sufragado pela maioria e com o apoio de muita gente que entendia ter o casal todas as condições para gerir a habitação.
Os noivos, por seu lado, apregoaram aos sete ventos que há muito vinham estudando as matérias da vida em comum, e que se encontravam preparadíssimos para dar os passos necessários à abertura das portas, conhecendo todos os cantos da casa e todos os segredos da boa governação da mesma.
Com portas bem abertas e passos na direcção certa, haveria coelho para todos, sem necessidade de pedir mais ingredientes aos comensais. 
Com o espanto de muitos e a confirmação do pensamento de alguns, afinal o namoro não tinha proporcionado um suficiente conhecimento mútuo, a vivenda era demasiado grande e a experiência que ditava certezas não passava de balão cheio de nada, numa mão de coisa nenhuma.
O divórcio está em marcha!
Já não dormem na mesma cama, conversam apenas através dos representantes, sentam-se à mesma mesa mas cada um escolhe a sua própria ementa ...
O país já fala abertamente no caso e os amigos mais próximos já o dão como irreversível.
O juiz paira no seu gabinete, aguardando que o casal chegue a acordo e evite o litigioso, mais caro e mais trabalhoso.

P.S. 1 - A semelhança entre o relato e as relações PSD/CDS não é pura coincidência.
P.S. 2 - A bandeira nacional foi içada ao contrário nas cerimónias do 5 de Outubro e houve dois "incidentes" bem reveladores do "estado" da Nação, numa cerimónia à porta fechada, com mais polícias a guardar que entidades a participar.


domingo, 30 de setembro de 2012

Actualidade

(...) Se fosse rei por uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal. Uma fogueira em cada oiteiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má morte. Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr matacão em cima. Uma choldra de ladrões! Imaginem Vossorias que um pobre já nem uma bestinha pode ter! Muito tempo conservei aquele cavalito fouveiro - lembram-se? - para me ajudar a espairecer saudades dos tempos em que corria de almocreve Ceca e Meca e olivais de Santarém. Vai senão quando, António Malhadas, salta de lá com nove tostões de sumptuária. Irra, novecentos réis por um cavalicoque, um chincaravelho que não valia, a bem dizer, os guizos dum gato! Raios partam o Governo mailos governados, raios partam tanto tributo com que a gente de bem tem de ustir para andar aí meia dúzia de figurões, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos! Raios partam! O governo é um corpo da guarda que nos defende ou é a quadrilha do olho vivo que não faz senão roubar? Quem lhe encomenda o sermão?!(...)
Aquilino Ribeiro
O Malhadinhas
1922

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Dias ... de crise

A perna presa mantém-me preso ... , em casa, a procurar que o descanso diminua as dores, que o calendário se mexa e que o "dia do corte" chegue depressa.
Será a 10 de Outubro que irei aconchegar-me, não nos braços de Morfeu, mas juntinho ao Santo António que dá nome à clínica onde já tenho hospedaria reservada.
"Vai ser fácil, sexta-feira já almoça em casa". 
Razão tem o meu amigo Z.F.:"Pimenta no do parceiro é refresco!".
Valha a leitura. Já lhes perdi a conta. Tenho lido (e relido) muito ... e bom!
Novo e velho, conhecido ou virgem, nacional ou estrangeiro.
Acabei há pouco "O Rebate", de J. Rentes de Carvalho: um "fresco", extraordinariamente bem escrito, em 1971(?), e um retrato do Portugal da "outra senhora", que alguns parecem apostados em ressuscitar.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crise

Recado para o país, surgido das imediações do Palácio de Belém, na noite em que o Conselho de Estado está reunido para aconselhar o Presidente da República.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Data

Um papel sem data não vale nada ...
Jovem escriturário numa grande (à época) casa agrícola da região oeste, marquei no cartório notarial a escritura de venda de uma pequena courela que, sendo da casa, se encontrava encravada entre dois talhos que lhe não pertenciam, não tendo qualquer hipótese de exploração com um mínimo de rentabilidade.
No dia aprazado para o "solene" acto e de acordo com as indicações que tinha, deixei um recado, em papel grande e com letra de imprensa, na mesa que a isso estava destinada. Dizia mais ou menos o seguinte:
"Senhor F..., agradeço que esteja no cartório notarial às 12H00, para assinar a escritura da Lameira. Obrigado. O"
Fui à minha vida, verificar se estava tudo em condições e tratar de alguma imponderável de última hora que surgisse.
A pontualidade era uma norma da casa, cumprida escrupulosamente por toda a gente, do empregado mais humilde ao patrão, que detestava atrasos e ficava de "cabelos em pé" quando alguém se atrasava, incluindo ele próprio. Estranhou-se, por isso, que às 12H00, o outorgante mais importante não estivesse ainda presente.
Cinco, dez, quinze minutos e nada! O notário já desesperava e o ajudante do dito via a sua hora de almoço comprometida.
Os telemóveis ainda nem em projecto existiam e o telefone do cartório não era para uso público.
Embaraçado e sem saber o que fazer, pedi ao notário para, violando a regra, me deixar telefonar para a quinta. 
O último dos cinco números mal tinha acabado de regressar à posição inicial do disco e a voz surgia do outro lado:
- Sim!?
- Senhor F..., estamos todos à sua espera ...
- De mim, para quê?
- Para a escritura da Lameira, respondi, percebendo que qualquer coisa não tinha corrido bem.
- Deixei um papel escrito, em cima da mesa da sala ...
- Vi e li. Não tinha data, não adivinhava que era para hoje. Vou já para aí!
Passaram mais de quarenta anos. Ainda hoje, em qualquer situação, coloco sempre, mas sempre, a data. Para não ter surpresas ...