terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quotidiano

Os estudantes do ISCTE expulsaram hoje Miguel Relvas das instalações, quando o ministro se preparava para proferir uma conferência integrada nas comemorações da TVI.
Fizeram mal!
O ministro queria assistir às aulas ou, pelo menos, conhecer os corredores, para poder pedir a equivalência com conhecimento da casa.
Não é justa esta decisão dos estudantes. Vai persegui-los a vida toda. Impediram o acesso ao conhecimento a quem o busca de forma tão ávida.
Meninos, portem-se bem e deixem estes adultos que cumpriram antecipadamente a divisa da vossa Escola - Chegar ao Topo -  estudarem e aprenderem. 
Eles "há-dem" ir longe, sem "quaisqueres" dúvidas.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Palavras bonitas

As novas tecnologias ajudam muito aqueles a quem o tempo falta. 
Ver televisão, durante a semana, é um "luxo" cada vez mais difícil de conseguir. Vou deixando a gravar alguns programas que não quero perder e, quando surge a oportunidade, "play" com ele.
O "5 para a meia noite" das terças-feiras é sempre gravado e, assim que é possível, lá coloco o Zé Pedro Vasconcelos em diferido, para me deliciar com o seu humor e com a inteligência com que aborda os assuntos e convidados.
Hoje vi o programa do passado dia 12, no qual estiveram presentes dois jornalistas: Pedro Coelho, da SIC, que falou da sua grande reportagem sobre o BPN, e Rita Marrafa de Carvalho, da RTP, que dissertou sobre jornalismo de investigação e mostrou os dotes da sua voz, bem bonita, a cantar, "à capela".
O nível estava elevado e subiu quando, na rubrica que surgiu nesta segunda série, Vítor de Sousa, com a sua extraordinária voz, disse um poema de Manuel da Fonseca, apropriado para o programa e para os dias em que vivemos.
Tinha uma vaga ideia das palavras e fui buscar o velho livrinho (1978) dos Poemas Completos. 
Lá estava a 

DONA ABASTANÇA

"A caridade é amor"
proclama Dona Abastança
esposa do Comendador
senhor da alta finança.

Família necessitada
a boa senhora acode
pouco a uns a outros nada
"Dar a todos não se pode".

Já se deixa ver
que não pode ser
quem
o que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
e sai caro fazer o bem
ela dá ele subtrai
fazem como lhes convém
ela aos pobres dá uns cobres
ele incansável lá vai
com o que tira a quem não tem
fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
que não pode ser
dar
sem ter
e ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
sempre ao bem fazer foi dado
pouco custa a quem roubou
dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
de tão estranha caridade
feita com dinheiro do povo
ao povo desta cidade.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ignorância

Não costumo ser redutor e penso sempre que os outros podem ignorar temas que eu domino perfeitamente, mas seguramente sabem muitas que eu ignoro. 
Tenho dos jovens de hoje a melhor das impressões e não me canso de dizer que os bons são muitos e bem melhores do que os do meu tempo. Contudo, ver tanta ignorância inconsciente, mete dó!
Como é que esta gente acedeu à universidade? Não seria melhor voltarem à primária e experimentarem as réguas do meu tempo, por cada asneira deste calibre?
- É uma boa pergunta !!!!!
- Não faço a mínima ...
- A capital da Itália é Nápoles.
- Eça de Queiroz morreu há pouco tempo.
- John Lennon cantava as músicas dos desenhos animados da Disney.
- Califórnia é a capital dos Estados Unidos.
- A fórmula química da água é PH0.
- O fundador da Microsoft é o Gill Bates, que morreu há pouco tempo.
- O Evangelho segundo Jesus Cristo foi escrito pelos Apóstolos.

E riem-se ...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quotidiano

Hoje ofereceram-me um simulador para calcular o novo ordenado e clarificar qual a melhor opção para "os linces da Malcata", perdão, para os subsídios que iremos receber este ano.
O simulador está concebido em Excel e a folha deve ter dedo do Ministro Gaspar: os cálculos que dela resultam estão certos, sem qualquer dúvida ou incerteza!
O que nos vale é que o país (em letra pequena, pois claro, para poupar) está a melhorar a olhos vistos e os sacrifícios exigidos são a penitência para aqueles valdevinos que viveram acima das suas possibilidades e agora não querem expiar os pecados. 
É bem feito, não tivessem sido estroinas!!!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Palavras bonitas

TARDE

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira
Antologia pessoal de Eugénio de Andrade

domingo, 20 de janeiro de 2013

Foz do Arelho

São de ontem, numa fugida do fotógrafo oficial, com vento forte de mais para o que estamos habituados.



Quotidiano

Uma manhã de temporal, sem luz, uma constipação que ameaça tornar-se gripe, o vento assobiando lá fora (não nas gruas, como o de Lídia Jorge, que a construção há muito está parada por estas bandas) com uma intensidade louca, sem música e sem deslocação à Foz, onde o mar deve estar "lindo", resta o ritual de sábado, hoje bem mais cedo do que é habitual. 
Ainda não completei o primeiro caderno, mas a entrevista de Jorge Sampaio ao Expresso de hoje já foi lida.
Dois pequenos apontamentos de quem pensa, sem peias, grades ou subserviências.
"(...) Por exemplo, esta ideia de que o objectivo é aparecermos como os bons alunos da Europa ... Francamente, não é por aí! Atribuir culpas só aos portugueses parece-me ser excessivo e demasiado violento. Exige-se da Europa que volte a ter uma resposta colectiva e se deixe de separações, de falta de solidariedade, de divisões. A Europa, em vez de reforçar a sua união, corre o perigo de se desagregar.(...)".
"(...) A credibilidade dos cidadãos no sistema político está em declínio vertiginoso. Temos a responsabilidade de parar isso, pela credibilização do diálogo e do trabalho político. Se só se grita, não vamos a lado nenhum.(...)".
Nota - Escrito ontem, quando pensava que o regresso da energia eléctrica traria a normalidade. Afinal a publicação só hoje foi possível, passado dia e meio sem Net e também sem televisão. Como é que se vivia dantes?

sábado, 5 de janeiro de 2013

Expresso

Comecei a ler bem novinho, já não recordo com que idade, mas bastante antes de ingressar na escola primária, o que, na época, acontecia no ano em que se completavam 7 anos. A responsável pela precocidade foi a minha irmã, três anos mais velha, que começou a exercitar com o pimpolho as tarefas que acabariam por lhe ocupar toda a sua vida profissional.
Também cedo comecei a consumir jornais, ou melhor, o Jornal de Notícias, em formato para mim gigante, que lia soletrando,  ajoelhado no jornal aberto no chão da cozinha. Meu pai comprava-o todos os dias e, quando chegava do trabalho, entregava-o para o lermos no dia seguinte. Depois de lido, servia para manter quente a panela da sopa. 
Na memória ainda estão as notícias sobre o terramoto de Agadir, a invasão de Goa, o início da guerra colonial, o assalto ao Santa Maria, as palavras cruzadas que fui aprendendo pouco a pouco e, pasmem, o boneco da última página (cartoon?), julgo que da autoria de Miranda.
Foram muitos os jornais que conheci, li, recordo e já desapareceram: Mundo Desportivo, Século, República, Diário de Lisboa, A Capital, Diário Popular, Gazeta dos Desportos, O Ponto, e podia continuar ...
Em Janeiro de 1973 tinha 20 anos! 
Já sabia a diferença entre o Diário da Manhã (de triste memória) e o República quando surgiu, pela primeira vez, o semanário Expresso. Comprei o primeiro exemplar e adquiri hoje, de manhã, a edição comemorativa dos 40 anos de publicação ininterrupta. Ao longo desta "eternidade", devo ter falhado a compra, talvez, uma dezena de vezes, se tanto. Em alturas de ausência, cheguei a ir buscá-lo vários dias depois, por se encontrar sempre guardado na Jornália.
A minha amiga Nisa ainda hoje me reserva religiosamente o exemplar, apesar de a procura actual já não justificar esse cuidado. Eu, para compensar o carinho, digo-lhe sempre com antecedência:
- No próximo sábado, vende o meu Expresso a outro, que não vou estar por cá.
É preciso ser teimoso! Nem sequer conheço Francisco Pinto Balsemão...
Longa vida ao Expresso e à liberdade de que sempre foi arauto.

domingo, 30 de dezembro de 2012

2012 / 2013

O ano de 2012 está de abalada e não voltará. 
Não conseguiu as equivalências necessárias à licenciatura, não colou cartazes, não obteve qualquer diploma e, porque foi negligente e incompetente, não conseguiu emprego. Não tendo trabalho, também não tem direito ao subsídio de desemprego. Ainda pensou recorrer ao RSI mas desistiu, por não conseguir provar a sua indigência.
A decisão de partir é irreversível e foi tomada depois de muito ponderar, durante 366 dias, nos quais se viu vilipendiado, injuriado, enxovalhado, culpado, condenado, sem qualquer desculpa ou remissão.
Para que o trono não fique vazio, à meia-noite de 31 de Dezembro de 2012 surgirá o ano de 2013, legitimado pelo direito consuetudinário que garante esta substituição desde que Cristo nasceu.
Por cá, continuaremos na mesma, à espera de Godot, perdão, de Cavaco, de Seguro, de Barroso, de Dragui ou de Merkel, penitenciando-nos diariamente pelos erros que cometemos, por termos vivido acima das nossas possibilidades, termos adquirido, em transacção particular, umas acções do BPN que permitiram uma vivendita nos Algarves, termos contraído uns financiamentos no mesmo Banco que, em resultado da crise, agora não conseguimos cumprir, termos negociado com marroquinos, passado férias em Cabo Verde e fundarmos por lá um Banco fantasma, enfim o povinho viveu "à grande e à francesa" e agora não quer suportar os castigos que aqueles que sempre nos avisaram e nos deram bons exemplos, são forçados a impor-nos.
Valha-nos isso: continuamos a ter gente disponível para, com sacrifício, tomar conta de nós e aconselhar-nos para que sejamos bem comportados, atentos e obrigados. Falta-nos o "A Bem da Nação" mas sobra-nos o Facebook.
Cumprindo o ritual, BOM ANO para todos e, quando estiverem deprimidos ou cansados dos castigos, leiam e ouçam Ricardo Araújo Pereira, aqui, aqui e em todo o lado onde for possível. Não há muito disto!!!

sábado, 15 de dezembro de 2012

A URBANA FOME

O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem
(Manuel Bandeira - Rio - 25-2-1947)

A situação detonadora deste poema de Manuel Bandeira tornou-se tão banal que hoje nos deixa quase indiferentes. Ver gente ir buscar restos de comida aos caixotes do lixo, numa cidade como o Rio, é, de facto, trivial. Mas não só no Rio, também aqui em Lisboa. Para comer ou procurar seja o que for que possa trocar-se por algumas moedas, é comum topar-se com gente de nariz mergulhado em caixotes ou lixeiras. Uma certa, furtivamente. Deve ser gente principiante nessa lida. Outra, perfeitamente indiferente a quem passa.
Este é um dos aspectos mais cruéis que as chamadas grandes urbes nos patenteiam. Foi para isto que construímos (como gostamos de dizer) uma civilização de conforto? Já em certos restaurantes é corrente ver pessoas meterem em saquinhos o que não comeram. Se peixe, "é para o gato"; se carne, "é para o cão". Ora, desculpas. E o sorriso irónico dos donos das tascas revela que nem valia a pena os necessitados ou "poupados" desculparem-se assim. É mas é para as barriguinhas deles. Osso, ferve-se e dá sopa; restos, sanduíches ou qualquer outra maneira de entreter a fome. Entretanto, há pessoas que desviam os olhos e dizem "que horror!" quando, na TV, aparecem meninos pretos, de grandes barrigas, esqueleto a romper sob a pele, a inevitável cobertura de moscas que se passeiam pelos seus misérrimos corpitos. Realmente é um horror, mas, atenção, até a ver o horror as pessoas se habituam. A fome-em-imagens é como a guerra-em-imagens. Sem querer, familiarizamo-nos com ela. E haverá quem tenha estômago para tirar disso uma estética de horror. Há gente para tudo neste tresloucado mundo, até para achar que "a guerra tem uma certa beleza".
A fome nas grandes cidades - para não falar agora da fome nos campos - escancara-se ou rebuça-se, mas é sempre, e com maiúsculas,  A FOME.
Existe uma teoria que diz que a fome é um problema técnico, mas, como alguém disse, na prática a teoria é outra. Eu acredito (e nem era preciso que eu acreditasse) que a fome é, antes de tudo, um problema político. E desta convicção ninguém me tira enquanto me restar alguma capacidade de compreensão do mundo onde estou inserido. Numa sociedade onde podem coexistir o supérfluo e a falta do essencial, algo se encontra politicamente errado.
- Anda jantar, filho, que o osso está fervido!
Acreditem ou não acreditem, gostem ou não gostem, foi esta a fala que eu ouvi, há dias, no noctambular por um dos bairros mais pobres desta nossa sempre linda Lisboa.
Trinta e sete anos decorridos sobre o poema de Bandeira, que, hoje, esteticamente nos delicia, as fome continua negra, cruel e, com certeza, mais universal que antes. Que grande criminoso que é o homem!, diria um pregador qualquer. Eu não vou tão longe, nem tão abstracto. Penso, apenas, que o homem ainda não se libertou.
Alexandre O'Neill
Uma coisa em forma de assim
Editorial Presença, 1985