segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quotidiano

Ocupam todo o espaço da escada rolante, em amena cavaqueira sobre o dia de labuta que já acabou.
Devem trabalhar na mesma empresa, porém em secções diferentes. Não se encontraram e estão, agora, a colocar a "escrita em dia". Falam (alto) sobre o que fizeram, completamente alheias ao que se passa à sua volta.
Habitualmente o espaço da esquerda da escada rolante é deixado vago para quem tem pressa ou gosta de descer os degraus, apesar de eles nos levarem até às profundezas, sem necessidade de qualquer esforço.
Tenho alguma pressa e sou dos que gostam de descer. 
Atrás de mim já surgem alguns suspiros de enfado.
- Quer passar?
- Se não se importa ...
- Se tivesse pedido, já tinha passado! É preciso pedir licença, sabia?!
- Pois ... não pedi, desculpe.
E lá fui, escada abaixo, à procura da serpente subterrânea que me levará ao autocarro.
Para a próxima, peço logo licença!
É a minha obrigação e ... eu não sabia!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Prevaricando ...

No dia da Liberdade, um pequeno passeio pelas infra estruturas de lazer que estão quase concluídas nas arribas da Foz do Arelho, violando, com cuidado, os sinais proibitivos que lá se encontram.
E surgiu isto, feito com essa máquina que nos permite contactar e fazer tantas outras coisas, entre as quais estas fotos, com a qualidade que um fotógrafo de "meia-tigela" pode ter.




quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril

No ano passado fiz aqui um matemático trocadilho com o meu aniversário redondo, cuja comemoração coincide, há trinta e oito anos, com a da liberdade em boa hora restaurada pelos militares de Abril, em 1974.
Os tempos de esperança apanharam-me com pouco mais de 20 anos, a cumprir serviço militar, ávido de fruir, de aprender, de crescer, de viver, com uma vontade indómita de contribuir para um país melhor, mais justo, onde o respeito pelas gentes fosse o lema, onde a arrogância do poder, qualquer um, não existisse, onde as portas do saber e da saúde fossem franqueadas a todos, independentemente do berço, do credo ou da cor.
Ainda não perdi os valores, já me vai escasseando a capacidade de conviver com a arrogância, a má educação, o desprezo com que, diariamente, convivo, "submetido" a gente eivada de convencimento da detenção da verdade absoluta, de argumentação fácil mas desprovida de lastro, que mascara ignorância e cheira a mofo.
Os anos trazem-nos comichão, irritabilidade, diminuem-nos a paciência e dão-nos a presunção, perigosa, de já não valer a pena ouvi-los, porque não sabem o que dizem nem dizem o pouco que sabem. 
Ao contrário do que esperava, temos uma nova geração com medo de exprimir ideias, de contraditar opiniões de outrem, a remeter-se ao silêncio, a ser subserviente, a ceder (e a pisar) com facilidade, a ser usada e abusada, a não ter futuro à vista.
Voltamos a ter uns quantos "iluminados", agora pela cola, que detêm a sapiência e, com ela, decidem e determinam hoje, o branco, amanhã, o preto, com a mesma ligeireza com que bebem o sumo e mastigam o croquete.
E o país, com oito séculos de história, a assistir e a achar normal!

sábado, 13 de abril de 2013

(In)dependência nacional

Uma imagem vale mais que mil palavras ...

Quotidiano laboral

Todos os dias a encontro.
Manhã cedo, lá está ela no banco da paragem do autocarro, na soleira da porta de um prédio, no passeio, no sítio onde por certo passou a noite, com os cartões que transporta juntamente com as duas malas de viagem que arrasta.
Andrajosa, suja, com vários vestidos uns em cima dos outros (por causa do frio ou por falta de móvel para os guardar?), cabelos desgrenhados e sebentos, por vezes fumando um cigarro, talvez antes uma beata, paira pelas ruas da Baixa pombalina, normalmente na esquina da Rua do Comércio com a da Prata, sempre rodeada de pombos.
Grita com ela, com quem passa e com os pombos, que debicam da mesma caixa de onde os seus dedos sujos retiram qualquer coisa que não distingo que seja e levam à sua boca. Não tem dentes, pelo menos que se vejam. Move os lábios de forma impressionante, e mastiga. A mão, quando vai à caixa, enxota os pombos.
Pragueja. Insulta. Diz palavrões, que entendo pela terminação.
Ao almoço e no final da tarde já não a vejo. 
Amanhã lá estará, pela manhã, bem cedo. 
Terá nome? É a velha dos pombos ...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Finalmente!

Hoje estou deprimido!
O Relvas já não é ministro e vai perder a licenciatura que tanto trabalho lhe deu a arranjar. Consta que a licenciatura andava a passear pelo jardim do Campo Grande e um dos homens que tratam das flores viu-a e guardou-a no bolso. Está com esperanças de chegar a ministro ou pelo menos a secretário de estado. Experiência tem, faltava só o canudo. Já o achou.

Voltando ao início: como é que o homem vai subsistir, ainda por cima agora que está para casar e com a vida difícil como está ... tenho pena e vejo o futuro do senhor com muita dificuldade.
Talvez possa tentar a vida artística, quem sabe. Voz não tem muita mas arte sobra-lhe! A experiência da Grândola não foi feliz, por desconhecimento da letra e falta de voz, por culpa do Zeca que fez aquilo muito puxado.
É melhor começar por esta, do Sérgio Godinho, que tem mais aliciantes e pode dar resultados imediatos.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Quotidiano

Muito embora tivessem aparecido alguns, preocupados com a crise, que queriam ficar no Banco na tarde de quinta-feira, não a trabalhar, que é coisa que só fazem em fogachos para chefe ver, mas a linguarar, a larachar, a engraxar, a serventuar e outras terminadas em "ar", esta ano a tarde de quinta ainda foi "santa".
O almoço foi no sítio do costume sem a barafunda do dito, por muita gente ter saído directamente do trabalho para a sopinha caseira.
O percurso entre a Baixa e Belém foi rápido e agradável. O novo Museu dos Coches deve estar quase acabado e é imponente. No Palácio cor de rosa, como de costume, não se via nem ouvia ninguém. Estará habitado?
Subida a Calçada da Ajuda (acho que já não passava por lá há perto de 40 anos, quando o serviço militar me lá levou por uns tempos), mais de meia hora na fila (a bicha apareceu na casa de banho, a compor o cabelo), algumas personalidades conhecidas e, finalmente, o acesso à exposição do momento. Joana Vasconcelos expõe algumas das suas monumentais obras, muito bem enquadradas na beleza das salas do Palácio, numa mistura perfeita e onde o par de sapatos se destaca pelo brilho, monumentalidade e ... singeleza.
Nas paredes do átrio da entrada, o Palácio tem várias estátuas, cada uma representando uma qualidade. Esta, que o telemóvel registou numa foto de má qualidade, representa a GENEROSIDADE e, curiosamente, perdeu a mão direita. 
Acidente do tempo ou maldição do mesmo?

terça-feira, 26 de março de 2013

Quotidiano

Hoje não me apeteceu ouvir rádio na viagem da manhã.
Liguei a "pen", mas tirei-lhe a escolha aleatória. 
Fiz a pesquisa e escolhi eu, bem, para o meu gosto!
Já há largos meses que não ouvia um album inteirinho do Zeca.
O "Cantares do Andarilho" tornou a viagem mais curta e bem mais agradável.

domingo, 17 de março de 2013

Futuro ou a eterna juventude


E foi isto que se construiu?
As consciências de quem "governa" este país e esta Europa estarão tranquilas?
Não há alternativa?
Vão bugiar ... antes que o espelho se parta!

sábado, 16 de março de 2013

Efemérides e actualidade

Passam hoje 20 anos da morte de Natália Correia e 39 do "levantamento das Caldas", que precedeu o 25 de Abril.




AUTO-RETRATO

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia - Poemas (1955)