sábado, 25 de maio de 2013

Quotidiano

Ontem, perdi o metro por pouco.
Começava a descer a escada quando o silvo anunciou o fecho das portas e ... foi-se!
Vou no próximo. O aviso informa que faltam apenas quatro minutos.
Do saquinho retiro o último livro de Manuel Alegre - Tudo é e Não é - e continuo a leitura, suspensa desde a manhã, bem cedinho, na viagem inversa.
Chega a "cobra subterrânea".
Sai gente, muita, e no gesto há muito automatizado, entro,  quando o turbilhão de apressados me permite. Consigo encostar-me à porta do lado oposto, que é o sítio onde mais gosto de viajar e que, normalmente, me permite ler sem problemas. 
Não ouço nada do barulho ensurdecedor que existe à minha volta. Tão pouco vejo ou reparo em quem quer que seja. Concentração absoluta, que o fim do capítulo está mesmo a chegar.
Acabou.
Levanto os olhos e ouço duas jovens (trinta, trinta e cinco anos):
- Ainda não me habituei bem, mas já consigo ler no ipad.
- Eu não sou capaz. Preciso de folhear o livro, sentir o papel...
- Mas é muito prático e muito mais barato. Estou a ler um, bem sei que é inglês, mas custou 3 Euros. Se fosse em papel, não custaria menos de 15.
Pois é! E o cheiro do livro? E o ritmo das folhas? E a capa? E o ritual da compra? 
Na próxima semana vou à Feira do Livro. Só ainda não sei o dia!


terça-feira, 14 de maio de 2013

A redenção das águas

O final da tarde do passado domingo foi passado no CCC, a assistir ao lançamento do livro "A redenção das águas - As peregrinações de D. João V à vila das Caldas", de Carlos Querido. 
Romance histórico, bem escrito (posso testemunhar porque já o li), o livro relata as vindas do Rei magnânimo às Caldas, na procura de remédio para as suas maleitas nas águas sulfurosas, e conduz-nos numa viagem pelos costumes, privilégios, subjugações, amor e intrigas da época, deixando-nos, nalguns casos, a dúvida sobre se estamos no século XVIII ou no XXI.
A apresentação foi precedida de uma lição de história das Caldas, da minha amiga Isabel Castanheira, que, socorrendo-se de muitas páginas da literatura, traçou paralelos entre o ontem e o hoje que devem ter feito corar muita gente.
Do livro, cuja leitura se recomenda vivamente, um pequeno excerto:
"O povo sabe que não pode aspirar ao luxo e ao conforto do rei e da corte que o rodeia, mas essa impossibilidade não lhe traz qualquer sofrimento. Cada um conhece o lugar que lhe foi destinado na vida terrena. À Igreja incumbe a tarefa de dizer ao povo, do alto dos seus púlpitos, que, se aceitar com resignação e sem revolta a condição desta vida efémera, alcançará o único desígnio que verdadeiramente interessa, a eternidade abençoada, um lugar no céu, no tempo sem limite. Abençoados clérigos que sossegam os espíritos simples e mantêm tranquila a multidão. Bem merecem os privilégios, as mercês e as dádivas que recebem das mãos generosas e reconhecidas do soberano. O rei não poderia ser feliz com um povo revoltado contra a sua condição. E a felicidade do rei é a felicidade do povo."

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Palavras bonitas

Para a minha mãe, que faria hoje 90 anos, se por cá ainda permanecesse, como era justo.

REMINISCÊNCIA

Prossegue o pesadelo.
Feliz o tempo, que não tem memória!
É só dos homens esta outra vida
Da recordação.
E tão inúteis certas agonias
Que o passado distila no presente!
Tão inúteis os dias
Que o espírito refaz e o corpo já não sente!
Continua a lembrança dolorosa
Nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais
E permanecem verdes, vegetais,
No silêncio profundo das raízes.

Miguel Torga
Penas do Purgatório

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lagoa de Óbidos

Há cerca de três anos Contente conquistou lugar aqui, apesar de se apresentar cansado e, aparentemente, sem qualquer utilidade.
Todavia, quem passear à beira da Lagoa poderá verificar que Contente voltou às lides, remoçado e com boa companhia.
Talvez tenha sido a crise que o obrigou a voltar, à procura de um pouco mais de sustento para a mesa, talvez as companhias tenham ajudado, talvez, talvez ...
O facto é que o Contente voltou a navegar nas águas calmas da Lagoa, na companhia do Feliz e de muitos outros, alguns com nomes bonitos de mulheres ou nomes de mulheres bonitas, vá-se lá saber.
A Maria Alice está de pernas para o ar. Um destes dias volta-se ... e vai também navegar e pescar. 



segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quotidiano

Ocupam todo o espaço da escada rolante, em amena cavaqueira sobre o dia de labuta que já acabou.
Devem trabalhar na mesma empresa, porém em secções diferentes. Não se encontraram e estão, agora, a colocar a "escrita em dia". Falam (alto) sobre o que fizeram, completamente alheias ao que se passa à sua volta.
Habitualmente o espaço da esquerda da escada rolante é deixado vago para quem tem pressa ou gosta de descer os degraus, apesar de eles nos levarem até às profundezas, sem necessidade de qualquer esforço.
Tenho alguma pressa e sou dos que gostam de descer. 
Atrás de mim já surgem alguns suspiros de enfado.
- Quer passar?
- Se não se importa ...
- Se tivesse pedido, já tinha passado! É preciso pedir licença, sabia?!
- Pois ... não pedi, desculpe.
E lá fui, escada abaixo, à procura da serpente subterrânea que me levará ao autocarro.
Para a próxima, peço logo licença!
É a minha obrigação e ... eu não sabia!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Prevaricando ...

No dia da Liberdade, um pequeno passeio pelas infra estruturas de lazer que estão quase concluídas nas arribas da Foz do Arelho, violando, com cuidado, os sinais proibitivos que lá se encontram.
E surgiu isto, feito com essa máquina que nos permite contactar e fazer tantas outras coisas, entre as quais estas fotos, com a qualidade que um fotógrafo de "meia-tigela" pode ter.




quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril

No ano passado fiz aqui um matemático trocadilho com o meu aniversário redondo, cuja comemoração coincide, há trinta e oito anos, com a da liberdade em boa hora restaurada pelos militares de Abril, em 1974.
Os tempos de esperança apanharam-me com pouco mais de 20 anos, a cumprir serviço militar, ávido de fruir, de aprender, de crescer, de viver, com uma vontade indómita de contribuir para um país melhor, mais justo, onde o respeito pelas gentes fosse o lema, onde a arrogância do poder, qualquer um, não existisse, onde as portas do saber e da saúde fossem franqueadas a todos, independentemente do berço, do credo ou da cor.
Ainda não perdi os valores, já me vai escasseando a capacidade de conviver com a arrogância, a má educação, o desprezo com que, diariamente, convivo, "submetido" a gente eivada de convencimento da detenção da verdade absoluta, de argumentação fácil mas desprovida de lastro, que mascara ignorância e cheira a mofo.
Os anos trazem-nos comichão, irritabilidade, diminuem-nos a paciência e dão-nos a presunção, perigosa, de já não valer a pena ouvi-los, porque não sabem o que dizem nem dizem o pouco que sabem. 
Ao contrário do que esperava, temos uma nova geração com medo de exprimir ideias, de contraditar opiniões de outrem, a remeter-se ao silêncio, a ser subserviente, a ceder (e a pisar) com facilidade, a ser usada e abusada, a não ter futuro à vista.
Voltamos a ter uns quantos "iluminados", agora pela cola, que detêm a sapiência e, com ela, decidem e determinam hoje, o branco, amanhã, o preto, com a mesma ligeireza com que bebem o sumo e mastigam o croquete.
E o país, com oito séculos de história, a assistir e a achar normal!

sábado, 13 de abril de 2013

(In)dependência nacional

Uma imagem vale mais que mil palavras ...

Quotidiano laboral

Todos os dias a encontro.
Manhã cedo, lá está ela no banco da paragem do autocarro, na soleira da porta de um prédio, no passeio, no sítio onde por certo passou a noite, com os cartões que transporta juntamente com as duas malas de viagem que arrasta.
Andrajosa, suja, com vários vestidos uns em cima dos outros (por causa do frio ou por falta de móvel para os guardar?), cabelos desgrenhados e sebentos, por vezes fumando um cigarro, talvez antes uma beata, paira pelas ruas da Baixa pombalina, normalmente na esquina da Rua do Comércio com a da Prata, sempre rodeada de pombos.
Grita com ela, com quem passa e com os pombos, que debicam da mesma caixa de onde os seus dedos sujos retiram qualquer coisa que não distingo que seja e levam à sua boca. Não tem dentes, pelo menos que se vejam. Move os lábios de forma impressionante, e mastiga. A mão, quando vai à caixa, enxota os pombos.
Pragueja. Insulta. Diz palavrões, que entendo pela terminação.
Ao almoço e no final da tarde já não a vejo. 
Amanhã lá estará, pela manhã, bem cedo. 
Terá nome? É a velha dos pombos ...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Finalmente!

Hoje estou deprimido!
O Relvas já não é ministro e vai perder a licenciatura que tanto trabalho lhe deu a arranjar. Consta que a licenciatura andava a passear pelo jardim do Campo Grande e um dos homens que tratam das flores viu-a e guardou-a no bolso. Está com esperanças de chegar a ministro ou pelo menos a secretário de estado. Experiência tem, faltava só o canudo. Já o achou.

Voltando ao início: como é que o homem vai subsistir, ainda por cima agora que está para casar e com a vida difícil como está ... tenho pena e vejo o futuro do senhor com muita dificuldade.
Talvez possa tentar a vida artística, quem sabe. Voz não tem muita mas arte sobra-lhe! A experiência da Grândola não foi feliz, por desconhecimento da letra e falta de voz, por culpa do Zeca que fez aquilo muito puxado.
É melhor começar por esta, do Sérgio Godinho, que tem mais aliciantes e pode dar resultados imediatos.