sexta-feira, 26 de julho de 2013

Foz do Arelho

A Foz não pára de nos surpreender, mesmo quando estamos convencidos que conhecemos bem todos os seus recantos.
Para além da surpresa diária que nos reserva quando, de manhã, verificamos que o mar não pára nem sequer para dormitar um pouco, trabalhando com afinco no transporte da areia de um para outro lado, deixando um monte onde ontem estava planura, que faz as delícias dos amantes do deslize na areia com as carícias das ondas, tapando rochas que antes tinham os percebes na montra, empurrando a aberta um pouco mais para o Gronho, cobrindo ou desnudando o pedaço de barco que, em tempos, sinalizava o centro da ligação com o mar (hoje fomos lá pôr o pé, sem qualquer dificuldade).
Hoje o passeio matinal às rochas revelou mais uma obra de arte, a juntar à que, no ano passado, se fez referência aqui.
Um novo "cão" surgiu, bem verdinho das algas e quase perfeito:


Amanhã não há Foz e domingo também não deverá haver.
Na segunda, volto ... para ser surpreendido!

sábado, 20 de julho de 2013

Os meus netos

Num espaço inferior a um mês, os meus três netos festejam os respectivos aniversários.
Começa o caçula, Duarte, que, fazendo jus à ascendência nortenha, nasceu no dia de S. João e comemorou o seu primeiro aniversário no dia 24 de Junho passado.
Corre tudo, gatinhando e andando pela mão, responde a qualquer chamada e está sempre disponível para comer. Já fez muitos quilómetros pelo ar e, daqui a alguns dias, voltará a voar, desta vez para uma permanência mais prolongada na capital da cultura clássica, acompanhando os pais em mais um ano de Grécia. 
É especialista no Skype e isso vai servir para encurtar a distância, não para a remediar.
A seguir, a 5 de Julho, faz a festa o mais velho, que completou 7 anos e já está um homem.
Compenetrado, responsável, o Gil sorri quando lhe digo que para o ano já fará a barba, perdoando-me a insensatez ou, talvez melhor, a parvoíce. 
Hoje foi a vez do do meio, que completou 2 anos, malandrecos, cheios de vivacidade mas "niquentos" com a comida e sempre com o "não" bem vincado na ponta da língua.
Já tem um grande (para a idade) vocabulário, mas não corrige a forma como começou a dizer o seu nome. Mantém o "Caco" em vez de Vasco, sendo claro que o faz de propósito e não por ter dificuldade na palavra.
Os três são tão diferentes entre si que não se admitem comparações.
E dão-se bem, manos e primo.
E eu a vê-los crescer ... a babar-me a escrever e a pensar como eles se irão rir se, daqui a uns anos, perderem algum tempo a ler isto. 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Palavras bonitas

(...) Além disso nós éramos a "família do Porto", gente sem precisão de gastar o corpo nos trabalhos do campo, ainda por cima com autoridade e paga pelo Estado. Éramos também a sua ligação com o sonho. E o sonho era tudo o que ficava para lá da serra de Bornes: as cidades que nunca veriam, as paisagens viçosas das províncias férteis da beira-mar, o oceano que lhes dizíamos ser imenso.
      - Imenso, como o céu? - perguntavam eles.
      - Não. Diferente - respondíamos nós.
Carinhosos, sorriam a perdoar-nos a tolice. Se não era como o céu, como poderia ser imenso?

Ernestina
J. Rentes de Carvalho

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Crise

Afinal, parece que acabou este mas vai surgir outro, bem melhor, mas feito do mesmo material.
A decisão irrevogável foi revogada e Portas fechou a de saída, sem ruído e com toda a precaução, para que ninguém se assustasse.

De fininho, tudo indica que vai voltar a entrar, para bem do país e dos portugueses e para descanso de Cavaco. Os portugueses verificaram que o naufrágio foi evitado por quem abriu as comportas, o que demonstra saber e competência e nos enche de satisfação.
Tudo indica que o divórcio não se consumará e que a birra passará com uma conversa esclarecedora, no conforto do sofá e com a benção de Belém.

Na próxima semana teremos um novo Governo, cheio de força, vontade e saber para, desta vez, resolver todos os problemas com soluções novas, imaginativas e audazes.
Esperemos que, depois das férias e das autárquicas, os meninos não se zanguem de novo e forcem as eleições que agora rejeitam.

Razão tem o Jorge Jesus:
- Se fossem treinadores de futebol, há muito que tinham saído de cena e nem treinavam uma equipa dos distritais.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Crise

Acabou!
Dois anos decorridos, o Governo "morreu", mesmo que o "médico" de Belém não desligue a máquina.
Com a saúde periclitante há vários meses, não resistiu à saída de Gaspar, que escreveu uma carta onde assume que a folha de excel não produziu os resultados esperados, por erros de dados ou má introdução das fórmulas.
Calculista, Portas bateu com a porta, zangado com a promoção da Secretária de Estado do Tesouro (e dos "swaps") a Ministra das Finanças, apesar de ter sido propalado que passaria a número dois ...
Resta, agora, saber se Belém tem coragem para marcar legislativas e autárquicas para a mesma data ou se vai ceder aos mesquinhos interesses dos partidos que receiam a dimensão da previsível derrota.

domingo, 23 de junho de 2013

Palavras bonitas

POEMA

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

Maria Teresa Horta

PS - Ontem a Universidade de Coimbra foi declarada Património da Humanidade pela Unesco e, nesta decisão, é toda a cultura portuguesa que é reconhecida. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Actualidade

Vítor Gaspar e Passos Coelho têm razão: para quê pagar os subsídios de férias em Junho se o Verão só chega em Novembro!
E mais: este ano ainda não tive férias e, de acordo com a última do nosso inquilino de Belém, ainda não as fiz, não sei se as faço ou se as "façarei".
É obra! Depois do plural de cidadão ter passado a "cidadões", parece que o verbo fazer ainda tem mais uma irregularidade.
Puna-se o verbo, que não divulgou esta sua forma a todos os seus "concidadões" e assim contribuiu para a ignorância de muitos.
Cá para mim, o Professor Lindley Cintra deu uma volta no túmulo, ajeitou-se e riu ...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Santo António

No dia em que se comemora o Santo António na capital, a recordação de um dos enormes divulgadores    da poesia, senhor de uma voz extraordinária, que aqui fica, num registo cantado, com João Villaret a dar largas à ironia, retratando, em simultâneo com o Santo, o outro António que, na altura, ocupava S. Bento.

sábado, 8 de junho de 2013

Quotidiano

O autocarro está preparado para mais uma viagem a caminho da capital. O motorista já fechou as portas de entrada e da bagageira, colocou os óculos de sol na testa, ainda que o tempo esteja "manhoso" (choveu bem, nesta noite do mês de Santo António), a instalação sonora já deu a informação da partida.
À saída, um automóvel (mal) estacionado em cima do passeio não permite efectuar a manobra. Tem os "piscas" ligados e o seu condutor deve ter ido, num "pulinho", tomar um café. 
Estou a colocar os "phones" nos ouvidos, o saco que traz o livro, a maçã e as bolachas já ocupou o lugar à minha beira, que não teve pretendente. 
O autocarro deve levar 25/30 pessoas em silêncio. Não há qualquer comentário em relação ao "simpático" que nos impede o início da viagem.
Normal!
Eis senão quando surge um casal, já entrado nos anos (dois "idosos sexagenários"), com a mulher a gesticular para o motorista. Percebe-se, pelo movimento dos lábios, que pergunta se vai para Lisboa e pede a abertura da porta.
- Viessem mais cedo ...
Ouço o comentário e apetece-me responder. Contenho-me. Afinal são só 06H30 da manhã, ouço música, tenho o dia todo pela frente para me aborrecer ...
- Não sabem o horário!?
- Há gente que acha que os outros podem sempre esperar pelos atrasados ...
O motorista abriu a porta e o casal entrou.
- Bom dia a todos, ouviu-se da voz masculina, bem rasgada.
Poucos responderam.
- Obrigada por abrir a porta. O senhor dos bilhetes disse-nos que já tinha partido ... mas como estava aqui ... desculpe, falou a mulher.
- Sentem-se, que vamos avançar.
O tipo do automóvel voltou do café, sentou-se ao volante e acelerou, sem um aceno de desculpa. Foi à vida, descansado, e não teve direito, ao menos, a uma criticazinha.
Passaram junto a mim, ele com o boné característico de quem vive e trabalha no campo. À cautela, um guarda-chuva enorme na mão, não vá o S. Pedro da capital fazer das dele, num sítio onde ninguém nos acolhe nem oferece tecto, mesmo que chova "a cântaros". Ela leva um saco, também grande, que não parece pesado. Talvez tenha lá dentro o aviamento para o dia, que a vida não está para comer em restaurantes e, mesmo havendo dinheiro, não se conhece ninguém ...
Iriam ao médico?
Talvez, mas chegaram atrasados ao autocarro. 
Se não fosse aquele senhor ter vontade de beber a sua bica matinal e teriam ido no outro, a seguir.
Há dias de sorte!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Efeméride

Passam hoje 50 anos da morte de Mestre Aquilino Ribeiro, o escritor que ainda agora me obriga a ler, reler e a ter o dicionário por perto, para aprender mais uma, duas, três, muitas palavras novas que sempre surgem, demonstrando que a língua portuguesa é muito mais rica do que aparenta, pelo cada vez mais reduzido vocabulário que vamos usando.
Aquilino foi grande na "Casa Grande de Romarigães", nas "Terras do Demo", no "Malhadinhas", em "Quando os lobos uivam" ou no "Um escritor confessa-se", e em tantos outros, nas mais de seis dezenas de livros que publicou.
O excerto abaixo é da "Geografia Sentimental", livro escrito em 1951 e reeditado pela Bertrand em 2008, que retrata o Portugal profundo e as suas formas de viver, sofrer e trabalhar.
"(...) salvo que o menino, o Quinzinho, viera ao mundo muito enfezado, muito raquítico, velhinho de todo. Ninguém dava nada por ele. Em pequeno era um rolho de bichas, que a mãe ajoujava com um rosário de dentes de alho e escapulários ao pescoço. Depois com a infância, sempre amarelo, sempre a tremer as maleitas, umas enfermidades a seguir às outras, escarlatina, sarampo, dizem que as bexigas negras, que não deitam para fora, e deixam o picado por dentro, só estava bem detrás dos potes da vianda. O homem desesperava-se:
- De que vale tanta labuta, mulher? O nosso menino nunca há-de ser gente!
- Quem sabe lá! Olha, homem, pode ser que Deus Nosso Senhor se amerceie da gente. Chamemo-nos a Santo Antão, se até às sortes o nosso Quim enrijar e estiver em condições de deitar as correias às costas, prometemos-lhe ... prometemos-lhe o quê?
- Dize lá tu?
- Prometemos-lhe a cera que se possa comprar com o dinheiro duma vaca, a melhor vaca, que a essa altura, a gente tenha na loja. Combinado?
- Caramba, o Santo Antão tem para se alumiar à tripa-forra uns dois ou três anos! Será muito prometer, mulher! - foi proferindo ele.
(...) Aos dezanove anos o Quim lidava rijo e fero. Tanto era capaz de rachar um carro de cavacos em meia manhã como dar uma beirada nas malhas, de rópia com as mais valentes mangueiras. À porta da igreja apareceu colado finalmente o rol dos mancebos em idade militar que haviam de ir à inspecção, e o pai veio ter com a mulher coçando a nuca:
- Agora, arrota!
- Arrota o quê?
- A promessa a Santo Antão!
(...) Ataviaram-se com andainas de ver a Deus para ir à feira e, que remédio, tiveram de advertir o moço da obrigação inelutável. Quando tal soube o Quim deu por paus e pedras, não se cansando de censurar à mãe que se tivesse abalançado a tão desorbitado voto, sendo certo que uma avé-maria, dita com unção, vale aos olhos de Deus tanto como a embaixada que D. Manuel mandou ao Papa. (...) - Traga também um galo! - disse o Quim no momento de despegar para a feira com a vaquinha presa já por uma corda, em cruz de ponta para ponta.
(...) - Para que quer dois galos? Para as pitas que tem, chega-lhe um. Ou pagam-lhe para galar as galinhas cá da terra? (...)
- Quanto a germela?
- Uma libra ... (...) 
- Palavra de rei: custa uma libra! (...)
- Está castigado! A vaca é minha.
- Mas alto ...! - exclamou o Quim. - Ainda não disse a palavra derradeira ...
(...) - Quem levar a vaca tem de levar o galo. Senhora mãe mostre cá o frangão ...
(...) - Se é isso, também levo o galo. Quanto?
- Vinte libras. (...)