terça-feira, 12 de novembro de 2013

Recordando

Partiu hoje, após longo tempo de sofrimento, o meu amigo Zé Marques Paulo.
Companheiro de muitas lides, das noites de king aos rallys paper, das viagens pela Europa às experiências nas rádio "pirata", no futebol ou no vólei, nas histórias vividas e inventadas, ou nas recordações do Porto da sua meninice.
Amigo sempre preocupado com os outros, descuidando-se muitas vezes de si próprio, adorava os meus filhos e … "quem meus filhos beija, minha boca adoça".
De pensamento livre, a puxar para a anarquia, amante da Pátria, que venerava, dono de uma cultura invulgar, que não exibia.
Era … diferente!
Fico a dever-lhe muitos e bons momentos e guardá-lo-ei na memória como ele gostava: vivo, franco, amigo, alegre e … meio tonto!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Quotidiano ou a falta de imaginação

Na passada quarta-feira, Paulo Portas debitou uma quantidade apreciável de palavras vazias de conteúdo, que deram a sensação de se estar perante uma "mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma" nas cem páginas (Marques Mendes apostou em 90 e falhou) que demoraram quase um ano a vir à luz e trouxeram a certeza de que, concluo eu, a reforma do Estado está tão perto de acontecer quanto a minha.

Ontem, como sempre, uma espreitadela apressada na Visão (a leitura vai ser no fim de semana) para ver/ler a crónica habitual de António Lobo Antunes - Um Dó Li Tá, uma delícia:
"(...) Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro
- Eh pá embora usar um pin?
que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey
- Embora pôr o Rato Mickey?
mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu
- Mete-se antes a bandeira como o Obama
e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente
- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, comem a sopa toda em lugar de verem os Simpsons. No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin
- Ponha que é curtido, tio
para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta.
Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tnho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal. (...)

Vale a pena ler a crónica completa mas, para isso, comprem a Visão.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A sopa dos pobres

Hoje observei, uma vez mais, a distribuição de alimentos que equipas de voluntários fazem diariamente em vários pontos de Lisboa.
Desta vez foi junto a Santa Apolónia que presenciei umas dezenas de pessoas, de idades várias, andrajosas ou razoavelmente vestidas, em fila ordeira, aguardando a sua vez de receber a embalagem de plástico com alguma coisa de comer, talvez, para muitos, a primeira e única refeição do dia.
No ritual do costume e após ter jantado à mesa, abri o computador para ver o correio virtual que, todos os dias, sem "carteiro a tocar sempre duas vezes", chega à minha caixa. Uma dessas "cartas", que o meu amigo M.V, me endereçou, trazia estas duas fotografias, que dispensam legenda ou comentário, pela eloquência que evidenciam.



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A desumanizaçao

Acabei de o ler há pouco, mas antes de o fazer ocupar o lugar que lhe cabe, por direito próprio, na "biblioteca" cá de casa, não resisti a transcrever o final:

"(...) Não soube nada acerca do que foram contar ao Einar nem de como o consolaram. Estaria ele agarrado à caçadeira, ganhando coragem, medindo o plano quando, subitamente, não havia o que decidir. Percebi absolutamente que o amava. E levava dúvida nenhuma de ser amada. Teria a vida inteira para lidar com esse sentimento. Sabia que me perdoaria. Pensei. Quem não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas."

A desumanização

terça-feira, 8 de outubro de 2013

José Saramago

O Blog tem andado em estado vegetativo, em hibernação, em descanso, a ver onde chega a desfaçatez, a apreciar as voltas, reviravoltas e cambalhotas do mundo político, a deliciar-se com a nova dinâmica das autarquias, a apreciar os conselhos e as opiniões de Belém e a preparar-se para um novo ano, resignado, condenado à crise e aos ditames de quem, com muito sacrifício, vela por nós.
Hoje regressa apenas para assinalar que a atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago foi há 15 anos e deixar aqui expresso, uma vez mais, o apreço por toda a obra do grande escritor e vincada a falta que faz o seu comentário certeiro, arguto e sem peias.

domingo, 22 de setembro de 2013

Leituras de fim de semana

EXPRESSO
Um sol enganador - Miguel Sousa Tavares


Em lugar de agregar municípios ou freguesias dos grandes centros urbanos, o Governo extingue freguesias do interior que, em muitos casos representam o último resquício da função social e política do Estado. Assistindo, sem nada fazer, ao contínuo despovoamento do país interior, fecha mais linhas férreas, tribunais, centros de saúde e escolas, invocando razões orçamentais e demográficas tornadas então inevitáveis. E, a troco de 600 milhões de euros, avança para nos tornar o único país do mundo sem correios públicos, dando aos felizes vencedores da privatização dos CTT uma licença bancária de bónus, que eles irão acrescentar às poupanças geradas com o encerramento de inúmeras estações de correios, gerindo um serviço público essencial à unidade territorial do país com uma irrebatível lógica de mercearia. Aos CTT, irá, em próximas oportunidades, acrescentar a TAP, as Águas e a Caixa, a parte rentável da CP e os Estaleiros de Viana (deliberadamente inviabilizados pelo senhor Ministro da Defesa). E a juntar ainda ao que já privatizou por completo: aeroportos, produção e distribuição de energia eléctrica. Privatiza-se o que dá dinheiro, mantém-se público e financiado por swaps e PPP o que perde dinheiro.
E enquanto assim desmantela o que demorou décadas ou séculos a construir, enquanto dá ordem de expulsão ao interior e entrega as terras abandonadas às celuloses e aos incêndios, que depois piedosamente lamenta, o "Governo de Portugal" (como eles gostam de ostentar nos pins das lapelas) trata de liquidar também qualquer veleidade de futuro, enquanto nação independente.(...)

A escola pública - valter hugo mãe
(...) Torna-se cada vez mais insuportável a notícia diária da paulatina destruição da escola em Portugal. O nosso país de pobres a aumentar está a assistir à sua lenta estupidificação. Tudo se prepara para que as gerações seguintes se bastem a trabalhos braçais, regressem talvez à lavoura, depois de tanta Europa nos ter pago para acabar com a agricultura, e se deixem governar cordeiramente, sem capacidade de contraditório, sem sequer autoestima para se considerarem incluídos na grande equação da cidadania e da escassa felicidade.
Tudo se prepara para que os nossos alunos aprendam mais e mais inglês pasra que se fitem na abstracção do imenso estrangeiro e partam. Nunca, como agora, se procurou tão avidamente produzir receita com as divisas dos emigrantes. Importa que todos saiam do país, produzam riqueza fora daqui e enviem o que puderem, para que seja o extra gratificante para a política de desmantelamento que cá dentro se opera. É muito fácil, num Portugal sempre desvitalizado, em que o povo foi menorizado durante décadas a fio de ditadura, levantar de novo o desapego e até a repulsa. Os jovens licenciados que hoje emigram fazem-no revoltados, sem vontade de respeitar uma país que claramente os rejeita. E um país tem de servir exactamente para o contrário disto. A verdadeira escola serve exactamente para o contrário disto.
Há uma euforia bizarra na recondução da escola pública ao terceiro mundo. As turmas outra vez enormes, notoriamente imprestáveis para garantir qualidade a cada um dos seus elementos, tornando o professor mais uma espécie de ama de luxo do que alguém a quem dão e exigem a oportunidade da instrução. A seguir assim, a escola pública servirá apenas como gigante ATL nacional. Em muitos casos, ela já é um ATL gigante, sem meios para mais do que tomar conta dos miúdos durante o período de trabalho dos pais.(...)

domingo, 15 de setembro de 2013

Palavras bonitas

AUSÊNCIA

Num deserto sem água
numa noite sem lua
num país sem nome
ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar Novo

sábado, 7 de setembro de 2013

Estórias

- Grande negócio!
A alegria era evidente e o entusiasmo contagiante. O sorriso de "orelha a orelha" denunciava que algo de muito importante tinha acontecido naquele dia. Era sexta-feira e, como habitualmente, fazia-se a reunião de balanço da semana e de preparação da seguinte. 
Era o tempo em que a debulha do trigo se fazia numa eira de circunstância, normalmente instalada numa terra de pousio cedida por um agricultor da região.
Já se ouviam rumores de que, na América, o trigo era colhido e de imediato debulhado pelas grandes ceifeiras debulhadoras. Dizia-se que, com apenas um homem e em um dia, se ceifava mais na América do que em Portugal na época toda. As máquinas ceifavam, debulhavam, ensacavam e enrolavam a palha, tudo automático e sem outra intervenção que não a do condutor.
Dizia-se ... mas, por cá, continuava-se a ter grandes ranchos de homens e mulheres, que segavam o trigo e o atavam em rolheiros, que as galeras, as carroças e os poucos tractores transportavam para as eiras.
Nesse ano, a debulhadora estava instalada na Foz, ali a dois passos de uma das quintas, onde se tinha semeado bastante e a colheita parecia ir ser boa. Faziam-se palpites e acreditava-se não ter menos de quinze sementes.
A máquina era enorme, deslocava-se por si, de forma muito vagarosa, levando acoplada a enfardadeira.
Os atados do trigo eram colocados em grandes medas e o dia da debulha marcado pelo encarregado, de acordo com a ordem de chegada e com o "peso" do agricultor. O custo do trabalho era pago em cereal, com retenção da maquia ajustada, logo no início da debulha.
Na eira, a azáfama era enorme e o pó insuportável. O trigo era ensacado em sacas de serapilheira, atadas com o barbante que o homem a quem competia esse trabalho tinha cortado previamente do rolo e que lhe enchia os bolsos.
Da enfardadeira, colocada na traseira da debulhadora, saía o fardo de palha, um paralelepípedo atado com três arames.
- Vendi 1.000 fardos de palha a 4$50 cada! E na eira! O homem vai carregá-los amanhã e já me deu o cheque!
Cheques, na época, circulavam pouco e não eram usados habitualmente em negócios de ocasião, como este tinha sido. Só aos clientes habituais se autorizava este luxo.
Ficou o cheque no cofre, para no sábado, de manhã, se ir "rebater" ao Banco Lisboa & Açores. Na ida semanal ao Banco, levavam-se todos os cheques recebidos na semana e trocavam-se pelo dinheiro necessário para pagar as jornas, depositando-se a diferença na conta. Se a receita da semana não chegava, o patrão, na reunião da sexta-feira, entregava um cheque, para reforço da caixa.
A pasta transportava o dinheiro necessário, bem trocado em notas e moedas, para ser fácil pagar a cada um o (pouco) salário que lhe cabia na semana, de acordo com as presenças anotadas nas folhas de férias, até sexta-feira, e completadas no sábado, antes de se proceder ao pagamento. 
- Esta semana tem cinco dias e um quartel!
- Na segunda-feira fui ao enterro dum tio ...
A lista do desdobramento da verba era entregue em conjunto com os cheques, e o Sr. M. ia ao interior do banco e voltava com tudo muito bem organizado, as moedas em rolinhos, as notas em macetes.
Na semana seguinte, a entrada no banco teve uma saudação especial.
- Tenho um presente para ti!
- ??
- Um cheque devolvido por falta de "chapéu".
Nunca tinha acontecido, mas a surpresa não foi grande ao confirmar que era o cheque da palha.
Tínhamos feito um grande negócio na venda. O preço e as condições tinham sido extraordinárias. Só nos faltou receber o dinheiro ... mas isso foi apenas um pequeno pormenor.

Férias e mobilidade

Exactamente um mês de férias teve o Blog.
Também tem direito, coitado, sempre aqui fechado, sem sair do pequeno écran, sem ver o mar, sentir a força das ondas, o calor do sol, o vento da Foz. 
Espero que se tenha divertido e descansado!
O "escritor" já voltou ao ritmo normal, deitando-se quase "com as galinhas" e levantando-se ao "cantar do galo". 
No regresso, descobri que os meus netos decerto já poderão inscrever-se na licenciatura em presidências de câmara e que terão grandes possibilidades de correr o país todo, concorrendo, em cada quatro anos, a um concelho diferente.
Assim vai a mobilidade ...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Dúvida, dilema ou reflexão de um jovem aluno

A escola é uma casa onde nos sentamos e a professora fala por nós. Na escola as palavras da professora chegam ao mesmo tempo aos ouvidos de todos e os que estão na sala com a professora aprendem as mesmas coisas. Se eu quiser dizer ao Roberto qual é o maior rio do mundo, ele já sabe porque aprendemos juntos, de igual modo para os planetas e as montanhas e os animais da savana, por isso no recreio todos correm e fazem jogos ou ficam calados a comer pão com geleia.
Na escola aprende-se a ler mas não há livros a sério. Há um cartaz grande com as letras lá impressas e vão-se aprendendo uma a uma, depois duas a duas, depois as palavras pequenas e as maiores, tudo sem livros para ler. Já começámos a aprender algumas frases, mas a professora não nos disse de que histórias vêm.
Ontem repetimos várias vezes que "O Pedro pegou na pá do papá", mas não nos foi dito para que queria o Pedro a pá nem se o acto foi feito à revelia do pai ou com o seu consentimento. Em resposta às minhas perguntas, a professora ameaçou-me com castigos se eu não ficasse calado e quieto. Todos os meus colegas se riram e o Rudolf disse que o Pedro pegou na pá para me dar com ela na cabeça.
Acredito que aprenderia mais com a minha mãe do que na escola, mas ela diz-me que devo fazer o que fazem os outros meninos e saber as coisas que eles sabem. Eu perguntei-lhe até quando tem de ser assim, até quando tenho de saber o que os outros sabem e porque é que os livros têm histórias de outras avós. A minha mãe diz-me que os livros são para eu saber o que quiser para dentro, que posso lê-los e conversar com eles sobre todas as coisas de que não falo com os meus colegas.
Amanhã não há escola e sinto-me aliviado. Vou procurar livros complicados onde o Pedro pegue na pá para fazer um buraco enorme e enfiar lá a professora e o Rudolf. Só os meninos sem mãe deveriam ir à escola e, em vez da professora, deveria haver livros pelas paredes para cada um aprender as suas coisas. Assim eu podia chegar ao Roberto e contar-lhe do homem sozinho na ilha e ele falava-me de uma viagem até à lua numa bala de canhão. Não sei se vou conseguir ler os livros todos e gostava que alguém me contasse alguns.
O Roberto disse-me ontem que os livros não prestam, eu perguntei-lhe se tinha lido algum e ele disse-me que não porque não prestam. Na casa dele não há livros porque o pai e a mãe não sabem ler e por isso não precisam deles.

Nuno Camarneiro
No meu peito não cabem pássaros