quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Quotidiano

A chuva e o vento não davam tréguas, o estômago recomendava aconchego, a cautela determinava viagem curta, apesar do guarda-chuva e da gabardina.
A casa tem um serviço ligeiro, acessível e rápido. Vou lá quando não me apetece comer "de faca e garfo" e o tempo não é muito. Fica ao fundo da rua e isso facilita, principalmente em dias de temporal.

Não havia ninguém no estabelecimento. Sou atendido, como sempre, de forma simpática e afável.  Surge o comentário sobre o tempo e a crise, causas que determinam a ausência de clientes. A falta de trabalho e o não haver mais ninguém por perto dá a oportunidade do desabafo e, no mais eloquente vernáculo, os governantes, antigos e actuais, são trucidados com a atribuição, inteira, da responsabilidade do que está a acontecer aos pequenos comércios.

Enquanto aguardava pela canja de ga_______ e pelo SLB (sumo de laranja e banana) - grafados exactamente assim no anúncio respectivo - tomo nota, num guardanapo, dos escritos que figuram nas ardósias fixadas à parede, a giz e com letras bem desenhadas:

"Coma hoje, para sobreviver. Amanhã pode não poder!"

" A receita ancestral dos produtos da Nova Pombalina é o culminar de uma alquimia de sabores e de saberes transmitidos ao longo de vários anos."

"Os nossos sumos são uma sinfonia de sabores orquestrados por quem sabe."

"O profundo conhecimento das matérias primas e educação no sentido do gosto traduzem-se numa experiência de sabores."

Proeza, nos dias de hoje: nenhuma das mensagens tem erros ortográficos e não há "inglesismos".

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Quotidiano

A "velha dos pombos" continua por lá, ora sentada num dos bancos da Rua da Vitória ora na soleira da porta de um prédio da Rua Augusta (a tal que, a par do Cais da Ribeira, no Porto, deve ser visitada pelo menos uma vez na vida), indiferente à chuva e ao frio, sempre rodeada pelos pombos, a fazer anotações no bloco que retira da saia, juntamente com o lápis, grosso, com que escreve. Ralha consigo, com os pombos, com os transeuntes que caminham indiferentes, com o tempo, com a vida. Ser-lhe-á indiferente, a vida, como a sua presença é aos caminhantes apressados? Que irá naquela cabeça quando, de manhã, arrasta as malas e se desloca do "alojamento" nocturno para o(s) sítio(s) onde irá passar o dia? Deve preocupar-se pouco e manter-se alheia a todas as polémicas que, tal qual o temporal, têm assolado o país nestes últimos tempos.
Dos quadros de Miró, que o homem do BPN comprou, decerto com grande sacrifício, para figurarem no balanço do Banco dando-lhe o toque chique que é sempre útil, às declarações sem nexo do Primeiro-Ministro e do seu "ajudante" para a Cultura, Barreto de sua graça, às trapalhadas com os investigadores (aqui não sou "tocador" de ouvido) agora culminadas com os vistos "gold" oferecidos a  quem vier para este cantinho solarengo tomar o lugar dos que foram forçados a abandoná-lo, passando pelos discursos inócuos e vazios de sentido de toda a classe política, oposição incluída, dos números do desemprego que provam ser a estatística a única ciência exacta, das praxes e do Meco, da chuva e do vento, dos alertas e suas cores, do mar e das marés, tudo surge em catadupa, "mastigado" e "deglutido", para ser consumido de forma rápida e usando apenas os olhos e os ouvidos, desprezando o potencial que a cabeça guarda no seu interior (às vezes tenho dúvidas se isso não será só para alguns).
Não é fácil ser "padre nesta freguesia", mas faz-se um esforço … lê-se a última crónica de António Lobo Antunes na Visão e fica-se fascinado com a forma, sublime, como se descreve a amizade por um irmão que partiu; no cinema, vê-se Steve McQueen recordar que a escravatura existiu até há bem pouco tempo (não existirá ainda?) em "12 anos escravo", Brian Percival relembrar os horrores da guerra, os crimes do nazismo e a importância de aprender a pensar, na adaptação do romance de Markus Zusak "A rapariga que roubava livros" e, para quem ainda tivesse dúvidas, Martin Scorsese ilustrar, com base numa história verídica, ao que leva a ambição desmedida e a falta de valores, em "O Lobo de Wall Street".
Mantendo sempre as rotinas, está quase no fim o romance de Mário Ventura, "Évora e os dias da guerra", passado após a restauração da independência, na tomada da cidade alentejana pelos castelhanos comandados pelo filho de Filipe IV, que culmina na batalha do Ameixial, já no reinado de D. Afonso VI  e, do Expresso desta semana, reter a crónica de Miguel Sousa Tavares e o inconformismo de Nicolau Santos, demonstrando que ainda vai havendo teimosos, tal qual o meu pai que tem quase 92 anos e o meu neto, do meio, que ainda não fez 3.
E por aqui me quedo!

sábado, 25 de janeiro de 2014

E a noite roda

Confesso que a expectativa não era muito grande, embora a contracapa despertasse curiosidade e a distinção com o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores fosse garantia de obra que valia a pena ler.
Duas pessoas conhecem-se em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat e … a partir daí, desenrola-se uma história de amor em tempo de guerra, em viagem constante, sítios perigosos, com SMS, mails, notícias, telemóveis, miséria, guerra, amor, contradições, ansiedades, pressas, angústias.
Uma grande história, onde é difícil distinguir a realidade da ficção, um excelente livro, este primeiro romance de Alexandra Lucas Coelho.

domingo, 5 de janeiro de 2014

EUSÉBIO

Faleceu hoje um dos ídolos da minha juventude, que tinha cerca de dez anos mais do que eu.
Lembro-me, como se fosse hoje, dos grandes jogos do Benfica e da Selecção Nacional, quer pelos relatos que, nessa época, eram a fonte quase única da informação ao momento, quer pela televisão, que dava os primeiros passos nas transmissões directas, quer pelas presenças, poucas, no velho Estádio da Luz.
O Portugal-Coreia do Norte, disputado no Campeonato do Mundo de 1966, apanhou-me com 14 anos feitos há muito pouco tempo e em situação complicada da vida. Por tudo isso, é um marco, um hino ao futebol e uma recordação inesquecível.
Obrigado, Eusébio.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Balanço ou estatística

No final de cada ano é uso e costume fazerem-se os mais variados balanços, com gente de todas as especialidades a elencar o que de mais importante se passou no que está a terminar, dando lugar a um novo, no exacto momento em que, cumprindo a tradição, se comem as passas e se formulam os desejos.
As novas tecnologias permitem registos e análises, as mais diversas, proporcionando-nos evidências que, sem elas, dificilmente nos conseguiríamos lembrar. Contribuem para que os balanços sejam fiáveis e possíveis para qualquer tema ou acontecimento.
Tenho (quase) todos os meus livros numa base de dados (congeminada pelo meu filho, diga-se em abono da justiça), que me permite registar, para além do autor, do título, da imagem da capa, da edição, da colecção, o sítio onde está colocado, a data da compra e a data da leitura. 
Utilizando esse arquivo, posso fazer as mais variadas consultas e, por isso, ontem resolvi verificar quantos livros tinha lido em 2013. O "boneco" respondeu: 38
São muitos, são poucos, foram … milhões de palavras que passaram pelo crivo do meu cérebro, exprimindo ideias, relatando factos, contando histórias, evidenciando sentimentos. Ficarão guardadas nas gavetas da memória, à espreita de uma oportunidade de se exibirem e ganharem vida ou, o que é mais provável, a adormecerem num sono justo sem darem mais sinais de vida.
Um livro deixa sempre uma marca, maior ou menor, não importa. No conjunto deste ano, há vários que têm lugar mais destacado nas tais "gavetas" e não as deixam fechar. Um deles está ainda bem em cima do "móvel": As luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, mais de 1.000 páginas que acabei de ler em Maio e às quais voltarei um dia destes, para saborear.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Natal

NATAL CHIQUE


Percorro o dia, que esmorece
nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo
dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
e o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
a quem dão coroas no meio disto,
um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As voltas do mar




A "aberta" fechou!

No final da tarde de Domingo, foi possível chegar ao Gronho sem quase molhar as sapatilhas.

E agora?

Respondam os técnicos …

sábado, 14 de dezembro de 2013

Palavras bonitas

À BELEZA

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
o que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
o sorriso das pedras,
e a candura do instinto.
És aquele alimento
de quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
ou em arte,
ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
ou a moça do espelho, que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
uma linha sem traço …
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
tudo repousa em paz no teu regaço!

Miguel Torga
Odes

domingo, 8 de dezembro de 2013

Nelson Mandela

"Luto contra a dominação, branca ou negra. Bato-me por uma sociedade livre e democrática e estou disposto a morrer por esse ideal."

" Não há poder na Terra que possa impedir um povo determinado de conquistar a liberdade."

"Não se trata do que se pode fazer pela África mas sim do que se pode fazer com ela."

"Este Nobel da Paz (1993) é um tributo aos que lutaram contra o apharteid. Aceito-o em nome deles!.

Já foi tudo dito sobre a morte de Nelson Mandela, ocorrida na passada quinta-feira, dia 5, após 95 anos de uma vida dura e cheia.
Nasceu a 18 de Julho de 1918, esteve preso pelo regime abominável do apartheid da África do Sul desde 1963 a 1990, depois de ter sido condenado a prisão perpétua.
O Expresso desta semana dedica-lhe um caderno especial e exclusivo, que vale a pena ler e conservar, e onde várias pessoas escrevem sobre a maneira de ser, de pensar e sobre a sua vida, dedicada, toda a ela a um ideal de igualdade, de humanidade e de paz.

"(…) Infelizmente, Mandela não deixa seguidores. Nem em África nem noutros pontos do mundo. E é por isso que só uma coisa não se lhe perdoa: o facto de, através do seu exemplo, nos demonstrar todos os dias quão pouco inspiradores são a esmagadora maioria dos líderes que actualmente governam o mundo e como a mediocridade vai campeando um pouco por todo o lado nas elites dirigentes. E como seria diferente o mundo e infinitamente melhor se houvesse um Mandela em cada um dos cinco continentes.(…)"
Nicolau Santos (jornalista do Expresso)

"…) Sem Mandela, e sem a sua bondade, o seu sacrifício e a sua insubmissão, a África do Sul teria sido um território de extermínio depois do apharteid, depois de ter sido o da crueldade durante o apharteid. Sem a sua grandeza moral, intelectual, política, metafísica, não haveria África do Sul, nem esta nem outra. Seria mais um Estado falhado, com uma guerra civil que se arrastaria até à exaustão dos guerreiros, muitos anos e muitos cadáveres mais tarde.(…)"
Clara Ferreira Alves (jornalista do Expresso)

"Conheci Nelson Mandela no dia 7 de Maio de 1973. Na famosa prisão de Robben Island estavam 368 presos políticos - 33 dos quais cumpriam pena de prisão perpétua, a começar pelo próprio Mandela. Foi uma visita de quatro dias, a primeira que fiz à Africa do Sul na qualidade de delegado-geral da CVI para África.
(…) dirigi-me à secção B, a das celas individuais, onde estavam Mandela e outros 27 líderes do ANC.  Eram todas idênticas, com uma área de 2,5x2,2 metros e uma janela para o exterior, de vidro e grades. Não tinham cama mas uma simples esteira de sisal e outra de feltro e, no inverno, cinco cobertores por prisioneiro. Todos se queixavam de que a esteira não os isolava suficientemente do chão de betão.(…)
Jacques Moreillon (Delegado da Cruz Vermelha Internacional para África)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Palavras bonitas

Badini disse que as coisas mortas vão com a água, naturalmente, seguem a corrente do rio, é isso que fazem os paus, as pedras, as folhas, os cadáveres, todos são empurrados para a foz, todos eles, enquanto os sábios e os salmões procuram a nascente, as causas das coisas, e, assim, tudo o que contraria a corrente está vivo, e a educação também é isso, é ir contra tantas coisas, não nos deixarmos arrastar para não nos tornarmos um pau seco a boiar nas águas. 

Afonso Cruz
Para onde vão os guarda-chuvas