sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril

As minhas amigas Liberdade e Democracia festejam o seu aniversário no mesmo dia que eu, com vinte e dois anos de diferença, tempo que me desfavorece em termos matemáticos.
Hoje procurei-as para um balanço destes 40 anos que partilhamos, tentando, nessa visita, perceber se os três mantínhamos a mesma vitalidade para transformar, alterar, progredir, inovar, melhorar, consolidar e, supremo, tentar sempre que todos possam viver melhor amanhã do que viveram hoje.
Não as senti animadas.
A Liberdade sente-se atropelada, vilipendiada, enxovalhada e faz um esforço grande para subsistir. Diz que não a deixam dar igualdade de oportunidades a todos e que, sem isso, a sua função não existe. A preocupação quanto ao futuro mina-lhe a saúde, cria-lhe ansiedade, tira-lhe o sono. Tem receio de ser de novo engavetada no quarto do obscurantismo que tão bem conhece e do qual não tem quaisquer saudades. Sente-se triste por ser só de alguns e que esses alguns procurem, a todo o custo, que ela ignore os muitos que lhe deram vida há quarenta anos.
A Democracia lastima-se também.
- Ainda só tenho 40 anos e já me querem colocar na redoma, controlar-me, deixar-me aparecer de quando em vez, apenas para legitimar quem fica a mandar e, depois, não se preocuparem mais comigo. Confesso que, há 40 anos, estava longe de imaginar que iria ser assim.
Não alimentei mais conversa. Seria contribuir para que as minhas amigas se deprimissem ainda mais porque, também eu, estou farto de ouvir falar de mercados, juros, dívida, défice, sacrifícios, imposições, troika, austeridade, cortes, reduções e outros palavrões.
"Eu sou parvo ou quê?", como dizia Zé Mário Branco.
Falam de cátedra, pregam sermões, dizem como foi, como é e como vai ser, e eu ... sou limitado, mentecapto, inútil, estúpido, ignorante, débil, incapaz de fazer o que quer que seja sem a sua (deles) sapiência, que determina, manda, ordena, sem apelo nem agravo.
Fiz 22 anos em 25/04/1974 e até chegar esse dia já tinha comido muito pão que "o diabo amassou".
Sobra-me, ainda, vontade para mudar, mas falta-me paciência para os aturar!

EU SOU PORTUGUÊS AQUI
Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português 
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem 
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do caso
campeão do improviso,
trago as mãos sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português 
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito

JOSÉ FANHA

terça-feira, 22 de abril de 2014

Emprego

Foi realizado em 2008, mas só recentemente mão amiga mo fez chegar.
Ainda assim, vale a pena utilizar cerca de 6 minutos do tempo que é precioso para todos e apreciar a mensagem para o futuro.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel García Márquez

Desapareceu ontem, aos 87 anos, um grande vulto da literatura mundial.
Gabriel García Márquez ou Gabo, como era tratado pelos íntimos, escritor colombiano galardoado com o Nobel da Literatura em 1982, deixa-nos uma obra genial, que continuará a despertar em muitos o gosto pela leitura e noutros o prazer de a ela sempre voltar.
"(...) 
- Dormi muito - bocejou o senhor Herbert.
- Séculos - disse o velho Jacob.
- Estou morto de fome.
- Toda a gente está assim - disse o velho Jacob. - Não tem outro remédio senão ir à praia desenterrar caranguejos.
Tobías encontrou-o a escavar na areia, com a boca cheia de espuma, e espantou-se de que os ricos com fome se parecessem tanto com os pobres. O senhor Herbert não encontrou caranguejos suficientes. Ao entardecer, convidou Tobías a procurar algo de comer no fundo do mar.
- Oiça - preveniu-o Tobías. - Só os mortos sabem o que há lá dentro.
- Também os cientistas o sabem - disse o senhor Herbert. - Mais abaixo do mar dos naufrágios há tartarugas de carne requintada. Dispa-se e vamos.
Foram. Nadaram primeiro em linha recta e depois para baixo, muito fundo, até onde se acabou a luz do Sol, e depois a do mar, e as coisas eram só visíveis pela sua própria luz. (...)"

Gabriel García Márquez
O mar do tempo perdido

terça-feira, 8 de abril de 2014

A gravata

Permitam-me que me apresente: sou jovem,bonita, vaidosa, convencida, tenho cerca de um metro de comprimento, mais larga na base do que no início, e ando na rua, como muita boa gente, sempre com um nó.
Vivo numa "assoalhada", um espaço preenchido com dezenas como eu mas, indiscutivelmente, sou a mais bonita de todas. Sou vermelha, não o vermelho benfica nem o vermelhão da moda, mas um vermelho belo, salpicado de pintinhas cor de cinza, na parte mais larga de mim. Sem falsas modéstias, tenho muito orgulho na minha beleza e sei bem o que isso contribui para o meu sucesso e o de quem me usa.
Ontem ouvi uma conversa cá em casa - não que eu seja coscuvilheira, mas calhou, e não rejeitei a oportunidade - e convenci-me logo que, no dia seguinte, iria haver passeio, andar na rua, ver pessoas, ouvir vozes, sentir o calor do sol este ano ainda tão arredio ou apanhar chuva (ouvi a conversa mas não escutei as previsões metereológicas), em suma, sair e contribuir com os meus préstimos para mais um dia de progresso do país de onde sou natural, onde cresci e onde vivo. Imaginei logo que iria entregar-me a uma camisa de um esplendoroso branco e que o fato seria o antracite das grandes ocasiões.
Desilusão!
De manhã, o meu dono não me pegou para fazer o nó e percebi que, afinal, ele iria com uma camisita vulgar, de colarinho aberto, sem qualquer nível no atavio.
No regresso, o semblante vinha carregado e a voz não trazia a doçura do costume. 
-  Esperei uma eternidade, ouvi coisas incríveis, respostas que não lembram ao diabo, gente tratada "à pedrada", fui mal atendido mas, quase por favor, lá me resolveram o problema, recebendo o que eu queria pagar.
Bem feito, disse para comigo. Se me tivesses levado, eras tratado com todo o requinte, porque eu assim o determino e, no fim, terias direito a uma vénia, um grande agradecimento e um "foi um prazer", porque o "hábito faz o monge" e a indumentária deve ser a padronizada para se ser tratado como gente.
Com gravata, naturalmente...  

sexta-feira, 28 de março de 2014

Palavras bonitas

Uma consulta ao Youtube por força de um mail enviado e eis que surge Bethânia a dizer o Cântico Negro, de José Régio, sublime como sempre, na divulgação da poesia e dos poetas de língua portuguesa.


E já agora, o mesmo poema (aqui completo) com a força da voz de João Villaret.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia

Dia do Mar

A minha esperança mora
no vento e nas sereias -
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias

Sophia de Mello Breyner Andresen

Trova

Beira da serra da Estrela
Onde o sol finge de lua ...
Soturna e magra courela
Que lã de ovelhas debrua ...

Miguel Torga

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.

Natália Correia


domingo, 16 de março de 2014

16 de Março

Faz hoje 40 anos, era sábado, estava um dia de sol lindo e o céu indiciava que em breve chegaria a luz da liberdade e da esperança. O Regimento de Infantaria 5, sob o comando do meu antigo comandante de companhia Virgílio Varela, esteve cercado por tropas do exército e por militares da GNR, armados de espingardas Mauser, que já ninguém utilizava. Os GNR montaram um segundo cordão de segurança, lá bem no cimo do Moinho Saloio, procurando, com todo o cuidado, arranjar o sítio para se deitarem com o quartel na mira. 
Porque "reina a ordem em todo o país" e hoje houve comemorações nas Caldas, não digo mais nada...

Estórias

O almoço tinha sido animado pela cavaqueira habitual, pela "escrita em dia", pelas novidades nos cortes nas pensões de todas eles (só eu ainda trabalho), pelos netos, pelos achaques, a conversa habitual de quando nos juntamos para isto, sobre o pretexto de almoçarmos.
Desta vez ficamos pela cidade e, porque era sábado, havia cozido à portuguesa, que a todos apeteceu e deliciou. O Sr. Júlio, sempre delicado, preocupado em saber se estava tudo bem, se chegava, se queríamos mais hortaliça, ou carne, ou enchidos, inexcedível, como é seu costume. Conheço-o há bem trinta anos, e sempre foi assim.
No final, recolhi as notas dos dois outros amigos, nas "contas à moda do Porto" e fiquei em último, para pagar. A brincar, disse:
- Sr. Júlio, cuidado com esses dois ... são capazes de sair sem pagar!
- Convosco estou descansado, mas olhe que há cerca de 15 dias ... fiquei sem mais de 60 euros.
- ???
- Não tinha o multibanco a funcionar e pai, mãe e dois filhos foram levantar o dinheiro à máquina. Até hoje ... esqueceram-se de voltar cá! Fico aborrecido, zangado mesmo, por não ter recebido o que é meu, mas revolta-me muito mais a explicação que aqueles pais deram aos miúdos e os valores que lhes transmitem!

sábado, 15 de março de 2014

A dívida, a Pátria e o futuro

Apetecia-me transcrever, na íntegra, a crónica que Miguel Sousa Tavares publica no Expresso de hoje, mas vou ficar pela transcrição parcial, por uma questão de espaço e de respeito pelo autor.
Já por diversas vezes reproduzi aqui opiniões de Miguel Sousa Tavares, pessoa que apenas conheço por ser figura pública, como escritor e como filho de uma grande poetisa (Sophia de Mello Breyner Andersen, de quem gosto muito, como é fácil perceber) e de um advogado de "antes quebrar que torcer" (Francisco Sousa Tavares). 
Tenho a convicção firme de que MST não beneficia nada como as minhas citações, mas hoje a crónica é, mais uma vez, certeira, actual e mortífera. Vale a pena lê-la toda e aqui fica o aguçar do apetite para que isso aconteça e a esperança de que os meus netos um dia a leiam e fiquem com a certeza de que "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não" (Manuel Alegre) e que "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar" (Sophia).

"Segundo percebi, o senhor Presidente da República, autoprefaciando-se, explicou ao país, de calculadora em punho, que a dívida do Estado, depois de atingido o estratosférico número de 129% da riqueza produzida anualmente em Portugal, só era sustentável se aceitássemos viver na miséria durante uma geração inteira - e, mesmo assim, se durante 25 anos se repetisse um milagre económico que até hoje não aconteceu em nenhum dos 40 anos que levamos de democracia. Ou seja, naquela sua função de sirene de alarme que tanto cultiva, Cavaco Silva declarou a República oficialmente falida e a dívida pública impagável.
Devo dizer que concordo inteiramente com as contas e o diagnóstico do Presidente, pois que outra coisa não venho escrevendo aqui, de há anos a esta parte - e não sou professor de Finanças Públicas. Apenas duas coisas me surpreendem: que, após sete anos de mandato presidencial ( e dez como primeiro-ministro) só agora e desta forma "nonchalante", Sua Excelência nos faça esta revelação. E que, tendo meticulosamente feito as suas contas e não podendo ignorar a inevitável conclusão delas resultante, não lhe tenha ocorrido uma palavra, uma sugestão, um conselho amigo, um afago, para nos dizer como é que agora iremos viver durante a próxima geração. 
E isto, justamente no momento em que soavam trombetas de júbilo com o "milagre" da nossa retoma económica e o ambiente, ajudado pelo sol da Primavera, parecia enfim desanuviar-se um pouco. O "timing" de Cavaco Silva foi o pior possível. Foi uma desfeita.
(...)
Podemos, é claro, acabar com o SNS para pagar a dívida. Ou acabar com a escola pública. Ou com as Forças Armadas. Ou com qualquer pensão de reforma. Ou, como sugere o Presidente, passar uma geração inteira a trabalhar mais, receber menos e viver como há 50 anos, apenas para pagar aos credores.
Nenhum destes caminhos é a solução: nem a miséria garantida nem a bravata isolada. O caminho é procurar conjurados para uma revolta. Juntar tantas forças dos fracos que elas se transformem numa força face aos fortes. E exigir a mutualização da dívida, ao menos parcialmente. A União Bancária. A uniformização fiscal e o fim das "off-shores". A redução da taxa de juro da dívida institucional e dos empréstimos futuros concedidos aos Estados a 1% - o mesmo que os bancos pagam junto do BCE. O serviço da dívida limitado a um referente do crescimento económico - porque não se pode pagar sem criar riqueza sobejante e, se o custo da dívida é sufocante, não é possível criá-la.
Mas, para seguir este caminho, precisamos, à partida, de outra maioria no Parlamento Europeu, de outro governo e de outro primeiro-ministro em Portugal. De alguém que não tenha vergonha de nos representar no Conselho Europeu, que não ande de mão estendida a vender vistos de residência a chineses e quintas no Douro a angolanos. Que não venda a língua, através de um Acordo Ortográfico que, além de tudo o resto que nos envergonha, é um acto de prostituição diplomática. Que não venda, a troco de petróleo ou de esmolas para o Banif, um lugar na CPLP a um país de bandidos como a Guiné Equatorial. E que, consequentemente, não tenha o dr. Machete como ministro dos Estrangeiros.
Era disso que precisávamos agora: de um manifesto por um governo e um Presidente capazes de defenderem Portugal. (...)

Como eu gostava de ter sido o autor desta prosa...

sábado, 8 de março de 2014

Palavras bonitas

DE TARDE

N'aquelle "pic-nic" de burguezas,
Houve um cousa simplesmente bella,
E que, sem ter historia nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo purpuro a sahir da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde
O livro de Cesário Verde
Fac-simile da 1ª. edição (1887), editada pelo jornal Público