domingo, 19 de outubro de 2014

O presente e o futuro

Afinal, o futuro é hoje e urgente.
"Quem sente não consente"
Apesar de nos quererem mentecaptos, de nos massacrarem com o défice, a dívida, a crise e mais alguns "palavrões" de um vocabulário cada vez mais redutor, ainda há quem pense, e diga, bem alto, o que lhe vai na alma e onde devemos colocar as fichas para que a aposta do futuro possa ser ganha.
Vale a pena ouvir, e registar, a lição de Sampaio da Nóvoa ...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Escola Rafael Bordalo Pinheiro

Hoje, nas notícias sobre o "caso BES" foi mostrada, uma vez mais, a fachada da sede do Banco em Lisboa, na Avenida da Liberdade.
Hoje passam 50 anos da abertura da "minha" Escola Rafael Bordalo Pinheiro e a associação de ideias que os "velhos" tanto gostam de ter trouxe-me à memória que, em 1965 ou 1966 (já não consigo precisar) estive naquele edifício, sede do então Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, integrado numa visita de estudo organizada pela Escola e que nos levou também ao Instituto Nacional de Estatística e à Casa da Moeda. Um dos professores era Jorge Amaro, que nos extasiou com as "modernices" do BESCL e nos explicou como funcionavam os cartões perfurados do computador do INE, que ocupava toda a cave e onde trabalhava um antigo aluno da Escola - o Queirós. Na Casa da Moeda, apenas vimos como eram cunhados os dez tostões, os vinte cinco tostões e os cinco paus.
Mal sabia eu, naquela altura, que um dia haveria de ser bancário (que nunca mais se reforma) e que o BES dava o "estoiro" que deu.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Palavras simples

Acabei de ler Alabardas, o único romance que, se não houver "arca", Saramago iniciou e não teve tempo de terminar. Vem acompanhado de alguns apontamentos dos Cadernos e de dois textos da autoria de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano, para além de ilustrações de Gunter Grass.
Descontando a clara estratégia comercial da nova editora da obra do Prémio Nobel, é sempre saboroso mesmo sabendo a pouco, ler Saramago "novo".
Como ele dizia e Saviano relembra no texto "É o que as palavras simples têm de simpático, não sabem enganar".
Uma pequena amostra, com o respeito integral da grafia publicada:
"(...) Estou a ouvir, Li em tempos, não recordo onde nem exactamente quando, que um caso idêntico sucedeu na mesma guerra de espanha, um obus que não explodiu tinha dentro um papel escrito em português que dizia Esta bomba não rebentará, Isso deve ter sido obra do pessoal da fábrica de braço de prata, eram todos mais ou menos comunistas, Nessa altura parece que havia poucos comunistas, E algum que não o fosse, seria anarquista, Também pode ter sido gente da tua fábrica, Não temos cá disso, Braço de prata ou braço de ouro, o gesto é idêntico, com a diferença importante de que neste caso ninguém terá sido fuzilado, ao menos que se tivesse sabido, Ao contrário do que pareces pensar, não reclamo fuzilamento para os culpados de crimes como esse, mas apelo para o sentido de responsabilidade das pessoas que trabalham nas fábricas de armas, aqui ou em qualquer outro lugar, disse artur paz semedo, Sim, o mesmo tipo de responsabilidade que fez com que nunca tivesse havido uma greve nessas fábricas,(...)
José Saramago
Alabardas
Porto Editora  2014

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Quotidiano

Mudanças profissionais em perspectiva: para melhor, para pior, para tudo ficar na mesma?
Veremos!
Parafraseando o CEO do meu Banco:
- Não me peçam para ser adivinho nem perguntem o que vai acontecer no futuro. Nas condições actuais, três meses já é médio prazo.

Vai "melhorá", só pode, diz o povão brasileiro, com a visão optimista da vida, que eu corroboro.
Amanhã é outro dia, positivo pela certa.
Hoje foi o Dia Mundial da Música e o Dia Internacional do Idoso.
Coincidências ...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pois é, nem mais, se fosse só isso

Ler a Visão é um ritual das quintas-feiras, com o prazer acrescido na semana da crónica de António Lobo Antunes, que nela escreve (apenas) quinzenalmente. É pena, porque as suas crónicas são sempre uma delícia pelo tema, pela forma, pela beleza da escrita. 

"Pois é!"
(...) e porque me horroriza a ideia de gramar audiências semanais com o Presidente da República, que também só diz
          - Pois é
mas de maneiras compridíssimas, que é para isso que lhes pagam. Aliás pode lidar-se com as pessoas só com estas três frases e garanto, a quem as usar, um futuro de perpétua paz e permanente concórdia. Tive um tio que levou uma vida difícil por desconhecimento destes princípios simples. O que lhe saía da boca, em vez de 
          - Pois é
          - Nem mais
e
          - Se fosse só isso
era um fatal
          - O problema não é bem esse
que é a expressão ideal para uma existência atormentada.
          - O problema não é bem esse
até é capaz de ser verdade, mas os humanos, que detestam a verdade, preferem o que consideram ter razão, que é uma coisa que não existe porque ninguém tem razão e, aqui entre nós, o que custa dar-lhes essa prenda inestimável e útil? A mim não me custa nada, ter razão não me interessa um pito, quero lá saber da razão. No fundo gosto muito mais de não ter razão nenhuma, adoro enganar-me, estar errado, passar ao lado das coisas, porque, no fundo, ter ou não ter razão que importância tem?(...?

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Palavras bonitas

20-1-1933

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quando a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há ou não há o mesmo resta.
(...)
Fernando Pessoa
Novas Poesias Inéditas
Edições Ática - 1973

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Palavras ... sábias

(...)
- Quando a juventude sai de ti, tu sais dela. Quero dizer, sais da vida. Até esse momento, limitas-te a viver, depois disso, ficas consciente do que é viver e viver torna-se um processo consciente. Tal como o acto de pensar também se torna consciente com o tempo, sabes. Tornas-te consciente do que pensas, e depois começas a pensar em palavras. É assim que te apercebes, não tens pensamento nenhum na cabeça, só tens palavras. Mas quando és jovem, limitas-te a ser. Depois chegas a uma fase onde fazes. Depois a uma fase onde pensas e, por fim, onde te lembras. Ou tentas fazê-lo. (...)
William Faulkner
Mosquitos

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Férias (final)

Acabaram!
Depois do fim de semana, prolongado, que já está em curso, eis-me de volta às madrugadas, às gravatas, à estrada e ... estamos quase no fim de mais um ano!
Foram muitos banhos, muitos livros, muita música, encontros de amigos, conversa em dia e ... os netos.
Um quer a mão para o levar aos carrinhos, que adora, outro já joga matraquilhos e quer experimentar o sabor da vitória sobre o avô e o do meio, observador, a constatar:
- Tens a ba'iga gande! Pa'ece bébé!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Férias

Há alguns anos passei oito dias de férias num "resort" da República Dominicana, com praia de águas calmas e tépidas, piscina com bar aberto, comida e bebida "à grande e à francesa". Não fiquei cliente e não conto voltar a repetir. Num dos dias resolvi passear pela orla da praia e, percorridos cerca de 200 metros, fui abordado por um soldado, de metralhadora em punho, que me advertiu não poder garantir a minha segurança a partir daquele ponto. Agradeci, voltei ao ponto de partida, e não voltei a infringir as regras.
Hoje, contrariando o hábito e o gosto, voltei à Foz no final da tarde. A maré estava vazia, o mar continuava óptimo, a bandeira mantinha-se "sportinguista", o tempo convidava a mais um mergulho e a um bom passeio até às rochas.
A meio caminho da passeata, fui interpelado não por um soldado de metralhadora aperrada mas por um jovem de walkie-talkie na mão que, com toda a delicadeza, me pediu que não avançasse mais, por estarem a decorrer as gravações da telenovela "Água de Mar". Ainda argumentei que estava na "minha" praia (pública), que não me parecia justo, que não queria fazer parte do elenco nem aparecer na televisão, que iria pelo mar sem interferir nas gravações mas ... voltei para trás.
Tomei mais um grande banho em mar aberto e às rochas, talvez amanhã, se não houver gravações!

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Memórias

“podia ser só uma Avó... mas ela era (é) o cheiro do sabão azul e branco, a água que escorria dos tanques públicos para a calha, os carreiros de formigas, os lagartos saídos da seringa de madeira para a mesa, o cheiro das couves cozidas misturadas com as sêmeas, as flores violeta rebentadas se lhes tapássemos os topos, o andar em bicos de pés para chegar aos ovos, o som do motor do poço, as molas encaixadas como comboios no terraço, a cafeteira deformada usada como regador, os pegamassos, o açafate com uma bola de madeira e mil botões, o pente molhado no lavatório antes de alisar o cabelo, os bifes fritos em lume lento, as mãos calejadas, o cheiro das cascas das sementes dos pássaros sopradas para fora dos comedouros, as urtigas arrancadas à mão... podia ser só uma Avó e já era muito, mas foi (é) grande parte das memórias impregnadas na matriz quase por estrear que era o meu cérebro infantil e, por isso, mais marcantes e intensas... e a prova de que não é o dinheiro, nem a instrução, nem a quantidade de brinquedos, que garantem uma infância feliz. os afectos (ou a falta deles) é que condicionam tudo o resto daí para a frente...”

A minha filha vai-me perdoar a apropriação e divulgação do texto que escreveu e publicou no seu blogue, partindo do filme que André Raposo realizou, tendo por base uma crónica de José Saramago.
O retrato é perfeito, as palavras certas, a descrição genial.
Nos arquivos da minha memória está cada vez mais presente, com mais pormenor, a personalidade, a calma, o carinho, os ensinamentos que cada vez valorizo mais.
O tempo é outro e mais urgente. 
Os meus netos nunca dirão de mim nada parecido com o que a minha filha hoje me ofereceu sobre a minha mãe.
E as lágrimas não param ...