quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Bento da Cruz

Não conhecia, nem sequer de nome. A notícia da sua morte, no passado mês de Agosto, despertou-me a curiosidade e confirmou que "quanto mais sei, maior é a minha ignorância".
Estou a ler "O Lobo guerrilheiro", romance que retrata a realidade das Terras do Barroso, da primeira República à ditadura, passando pela influência da guerra civil espanhola na raia transmontana, utilizando a beleza da nossa língua e demonstrando que a sua riqueza é muito maior do que a "meia dúzia" de palavras que, hoje em dia, fazem parte do vocabulário quotidiano, acompanhadas de alguns "estrangeirismos", porque parece bem ...
"(...)
- Não arme em esperto comigo, velhote!
O lavrador coçou a cabeça com manápulas terrosas e ar súplice de garoto apanhado em flagrante.
- Não é meu hábito prevaricar. Mas tenho a patroa na cama ...com um fastio de morte ... pediu-me uns peixinhos do "nosso rio" ...
- Está bem, homem. Governe lá a sua vida.
- Nunca a saúde lhe falte, amigo! Deus o acompanhe!
Entre o dilúculo e a aurora, outros vultos sorrateiros surpreendeu Lobo a esgueirarem-se por detrás dos cômoros. Horinha de os clandestinos levantarem os galritos nas rincolheiras das trutas e as armadilhas nos tourais dos coelhos.
Mas já o astro-rei, com o seu chicote de luz, expulsava da terra as últimas sombras, e os seres viventes, desde o homem ao verme, saíam da toca. (...)
O Lobo guerrilheiro
Bento Cruz (1992)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Palavras bonitas

o António Ramos Rosa estava deitado na cama
                                                   contra a parede
e deu meia volta sobre si mesmo
e ficou de cara voltada contra a parede
e fechou os olhos
e fechou a boca
e ficou todo fechado
e então morreu todo
fundo e completo de uma só vez
e apenas ele no tempo e no espaço
e só agora passado ano e meio eu compreendo
como era preciso ser assim tão íntimo para sempre
tão compacto
mais que o mundo inteiro
- e ele sou eu

Herberto Helder
Poemas Canhotos

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Pai

N. 19.03.1922 F. 23.08.2015

Passados mais de 11 anos, juntou-se hoje, de novo, à companheira de sempre.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Férias

Acabaram as férias, regressaram as rotinas: acordar bem cedo e sem despertador, que o sono foi saltitando durante a noite; trocar os calções pelas calças compridas, a t-shirt pela camisa, os chinelos pelos sapatos mas, antes destes, as peúgas, que são essenciais para compor o "boneco".
Pego no carro, o sol ainda não se levantou e há poucas companhias na estrada. Mesmo na capital, o trânsito é reduzido e permite concluir que ainda há muita gente a banhos!
O final do dia chega, com a irritação na garganta,  hibernada durante 3 semanas, e que voltou com o reencontro com o ar condicionado.
A cervical também se queixou, talvez por ter estranhado não haver mergulho na Foz nem passeio à beira-mar, "tormentos" trocados pelo prazer de várias horas frente ao "écran".
Valha que a semana está quase no fim: já só faltam 4 dias!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Férias

Finalmente chegaram!
Até ao dia 17 de Agosto, não quero ouvir falar mais de "transmissões" nem olhar para o calendário e para o relógio!
Vou preguiçar, ler, nadar, andar e dormir!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ontem, hoje e amanhã

"Começar de novo e contar comigo,
Vai valer a pena ter amanhecido." 
(Ivan Lins/Vitor Martins)

Ontem soube que, no início do próximo ano, chegará mais um elemento à família. Por enquanto ainda não é possível determinar se será a menina para fazer o contraponto com os rapazes ou se será mais um destes. Aguardemos com a ansiedade que, apesar das experiências anteriores, uma notícia destas sempre traz. Passarão a ser quatro, cada um diferente do outro, todos motivo de orgulho e alegria para o avô babado.
Hoje fez quatro anos o neto Vasco. Fala "pelos cotovelos", quando lhe apetece; finge que não é nada com ele, quando o assunto não lhe convém; argumenta, de forma convincente, quando o tentam contrariar. Está um "homem", o meu Vasco!
Amanhã encerra-se um capítulo (mais um) da minha vida profissional. Deixo de ser bancário e passo a trabalhar para um Banco. Um pequeno pormenor que faz toda a diferença. É o progresso, estúpido!
Há 52 anos, curiosamente neste mesmo mês de Julho, recebi a minha primeira remuneração: 20$00 (hoje 10 cêntimos) por uma semana de trabalho, a anotar os valores dos contadores das bombas nas mudanças de turno, a fazer as contas dos litros de combustível vendidos e do respectivo valor, a passar as facturas mais simples, a anotar a ordem de chegada dos clientes para a estação de serviço, etc. O posto de abastecimento ainda existe, mas já não é Mobil. A nota de 20$00 era um "Santo António", novinho, que a patroa me entregou na segunda-feira, referindo que eu o tinha merecido e que, se assim  continuasse, talvez pudesse haver aumento lá mais para a frente. Entreguei a nota em casa, tal qual como a tinha recebido: sem uma ruga.
Nestes muitos anos que já levo, mudei várias vezes de emprego, fiz coisas diferentes, gostei mais de umas, apeteceu-me fugir de outras, procurei sempre ter brio, ser profissional, ainda que, por vezes, não tenha sido fácil. Em todas as mudanças, decidi sempre pela minha cabeça, recorrendo à opinião dos mais próximos mas reservando para mim a decisão final. Até para cumprir o serviço militar obrigatório, a decisão foi exclusivamente minha, uma vez que ponderei a deserção.
Desta vez e fruto dos tempos, alguém decidiu que eu era "transmitido", em conjunto com os computadores, os telefones, as secretárias, tudo de acordo com o Código do Trabalho e sem alternativa.
A decisão poderia levar ao mesmo resultado, mas gostava de ter tido opinião!
Dispensaram-me a gravata, o que, com este calor, não é de somenos importância.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Maria Barroso

Há uma dezena de anos, o jornal Público editou uma colecção de livros, que intitulou "Os poemas da minha vida", livros esses que continham a poesia escolhida por diversas personalidades da vida pública portuguesa.
Ao ver e ouvir, nas reportagens de hoje do funeral de Maria Barroso (1925-2015), a leitura de um dos poemas que lhe eram queridos - "Floriam por engano as rosas bravas", de Camilo Pessanha - fui à estante e lá estava o livro com a poesia que, na altura, a Grande Senhora considerou como a da sua vida.
Para recordar o seu amor pela poesia e pela liberdade, "roubei-lhe" um outro dos poemas desse livro, que aqui deixo, como pequena homenagem à sua memória.

LIBERDADE

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.

Armindo Rodrigues (1904-1993)

P.S. - Hélia Correia dedicou o seu Prémio Camões à Grécia, "de onde vem a poesia, sem ela não seríamos nada e sem ela não teríamos nada".

domingo, 5 de julho de 2015

Netos

Hoje é um dia especial no calendário da Casa.
Parece que foi ontem e o meu neto Gil já faz 9 anos!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Cavaco versus La Palice

A Visão, que mudou esta semana de direcção mas continua na senda da qualidade, abre com (mais) uma extraordinária crónica familiar de António Lobo Antunes e finaliza com a habitual Boca do Inferno, de Ricardo Araújo Pereira. O título é "Introdução ao estudo da cavacada" e, num texto hilariante e inteligente, RAP discorre sobre as lapalissadas em contraste com as cavacadas, a propósito da confirmação aritmética de que 19 menos 1 são 18.
Numa semana em que, profissionalmente, deixei de ser o que fui mais de 40 anos para não saber aquilo que sou numa simples tramitação legal, sabe bem ao ego ler um texto deste nível.

"O pobre senhor de La Palice nunca terá proferido uma lapalissada. O que se passa é que o seu epitáfio dizia qualquer coisa como: <> Alguém tresleu maldosamente a palavra <<envie>> (inveja) e tomou-a por <<en vie>>, o que transformava o epitáfio no seguinte truísmo: <<Aqui jazz o senhor de La Palice, que se não estivesse morto estaria ainda vivo.>> Cavaco não tem a desculpa do epitáfio. Há, neste momento, um razoável consenso entre especialistas no sentido de considerar que o Presidente se encontra ainda vivo. As cavacadas distinguem-se, por isso, das lapalissadas, na medida em que o seu autor é verdadeiramente responsável por elas. A cavacada é genuína, ao passo que a lapalissada não passa de um logro. A cavacada é a única que reúne condições, designadamente ao nível da certificação e da origem demarcada, para se candidatar a património imaterial da UNESCO, e no entanto, é diariamente ultrapassada pela lapalissada em popularidade e prestígio. Talvez as coisas estejam a mudar. Esta semana, Cavaco Silva disse: <> Estive a fazer contas e obtive o mesmo resultado. Esta cavacada não é, porém, uma cavacada qualquer. Trata-se de uma banalidade que banaliza, o que constitui uma inovação na história das platitudes. Uma coisa é dizer: <<O Carlinhos tem 19 maçãs. Se perder uma fica com 18 maçãs.>> É apenas uma banalidade. Mas, se a maçã que o Carlinhos perder conseguir bichar as outras 18 maçãs, ou transformar as outras 18 maçãs em maçãs mais pequeninas, ou em 17 maçãs, a mera aritmética não consegue explicar a catástrofe que se abaterá sobre a fruteira do Carlinhos.
É possível que se torne mais claro o efeito da fria utilização de uma subtracção simples para descrever perdas na zona euro se a aplicarmos, digamos, num velório. Imagino que Cavaco se aproxime de um familiar enlutado e diga: <<Soube que um dos seus progenitores morreu. De acordo com as minhas contas, ainda lhe sobra um.>> 
É verdade, mas acaba por confortar pouco. Proferida a cavacada, o Presidente acrescentou ainda: <<Eu penso que o euro não vai fracassar.>> Uma vez que se trata do mesmo vidente que profetizou que os portugueses podiam confiar no BES, gostaria de comunicar ao sector bancário que, a partir deste momento, estou comprador de dólares."