segunda-feira, 23 de maio de 2016

Quotidiano

São onze e meia da noite de sábado para domingo.
No Parque D. Carlos I decorre o V Oeste Lusitano, com uma exibição de cavalos e cavaleiros, uma ginasta a mostrar quão belos podem ser os movimentos do corpo, feitos a uma altura que quase roça a folhagem dos plátanos, mais uma "sevilhana" elegante a "contracenar" com a elegância do equídeo.
As pessoas que assistem são muitas; a bancada provisória está completa e todos os espaços em volta do local das exibições estão repletos de público. Os mais baixos pouco vêem.
O miúdo terá quatro, cinco anos, no máximo. 
Agarrado às saias da mãe, reclama da injustiça de nada ver. Antes que as lágrimas disparem e os gritos aumentem, o pai, solícito, coloca-o às cavalitas. Os olhos riem-se e bate palmas de satisfação.
O pai, solícito:
     - Se te c_g_s, levas um estalo!
Brilhante!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Livros (lidos ou em vias disso)

Tinha lido algures, já não recordo onde, que o novo livro de Jaime Rocha versava a "Escola de Náufragos" da sua Nazaré.
Fiquei curioso e não descansei enquanto não o adquiri. 
Lê-se de um folgo - 86 páginas - e o retrato das agruras da vila e da sua população está sempre presente.
Acaba assim:

"O mecânico olha para ela com compaixão. Por qualquer razão ainda gosta daquela mulher, daquele corpo que uma vez o deixou entrar na sua cama como se fosse ele o verdadeiro amor, na sombra de uma única noite.

     O que vais fazer mulher, pergunta.

     Trata dele, é teu, responde ela, entre dentes.

O mecânico ainda lhe toca nas mãos, tenta segurá-la, mas ela afasta-se do beco quase em fuga. O mecânico vê-a sumir-se, devagar, como um fantasma. Quando Mateus chega, encontra-o à sua espera.

     A tua mãe foi-se embora para sempre, vai viver para o hospital.

Mateus não acredita e não diz nada. Sorriem um para o outro. O mecânico aponta para a casa.

     Entra, diz ele.

Jaime Rocha
Escola de Náufragos
Relógio d'Água (Março 2016)

domingo, 8 de maio de 2016

Palavras bonitas

A minha mãe faria hoje 93 anos.

Nunca mais
Caminharás os caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

Poesia
Sophia de Mello Breyer Andresen

sábado, 7 de maio de 2016

Livros (lidos ou em vias disso)

Um romance que discorre sobre a história da escravatura do século XIX ou uma alegoria dos tempos actuais?
Ainda não cheguei ao fim, mas estou a inclinar-me para a segunda hipótese ...

"(...) Criaturas mudas, já desistentes da vida, que olhavam o céu como se pedissem asas ou socorro a uma qualquer entidade altaneira. Seminus, lançavam-se ao comprido no chão, alguns a esconder o rosto daquelas multidões bizarras, brancas como os ossos dos urubus descarnados pelas formigas, com umas bocarras cheias de cuspo de onde saíam sons incompreensíveis e de arestas estridentes,
      entontecidos, assustadiços, ora com os altos brados dos capatazes, ora com os risos trocistas,
      se o velho arqueja, se no chão resvala,
ora com os horizontes apertados, onde as casas também tinham arestas e buracos como olhos
      (eram janelas)
e pálpebras
      (as cortinas)
monstruosos, que também os miravam do alto das colinas. Ninguém se entendia, as algaraviadas de vários tribos, tudo ao monte. O consenso geral é que estavam a ser escolhidos para banquete dos brancos. Por isso, iam os gordos primeiro. O casal por conta própria remexia na mercadoria, apalpava como que a separar a fruta bichada, reparava em sinais da tão virulenta varíola atrás das orelhas, procurava bubões debaixo dos braços, vestígios de escorbuto nas gengivas, (...) quando chegava a hora de apartá-los, desmantelar famílias, filhos para um lado e pais para outro, as mães acocoradas em cima das crias, entregando a carne das costas ao chicote para não as deixar levar, já a dupla de engordadores estava bem ciente do que pretendia. (...)"

Não se pode morar nos olhos de um gato
Ana Margarida de Carvalho
Teorema (Abril / 2016)

domingo, 1 de maio de 2016

Paulo Varela Gomes

"Passos Perdidos" foi o seu último livro e um dos que, há dias e por ocasião do meu aniversário, me foi oferecido (a meu pedido, refira-se). Ainda não o li e confesso que estou com alguma dificuldade em pegar-lhe.
Paulo Varela Gomes, de quem li "Hotel" e "Era uma vez em Goa", faleceu ontem, vítima de um cancro.
Nasceu no meu ano e escrevia maravilhosamente, na minha modesta opinião.
A Granta número 5, de Maio de 2015, publicou um texto seu, datado de 10 de Abril e intitulado "Morrer é mais difícil do que parece", que hoje fui reler.
Lembro-me perfeitamente de, na altura, ter ficado com a "pele arrepiada". Hoje não cheguei ao fim ... 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de Abril

FLOR DA LIBERDADE

Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós ... Também nós ... E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.
Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos 
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.

Miguel Torga
Orfeu Rebelde


domingo, 24 de abril de 2016

Livros (lidos ou em vias disso)

Terminada há pouco uma viagem pelo Porto do século XIX, caracterizando a nobreza decadente e a ascendência da burguesia, numa linguagem camiliana e uma eloquência cativantes.

"(...) Não pensem que um escritor consciencioso escreve uma linha só que seja com o intuito de encher papel; que invente um episódio para seu recreio: tudo aqui vem a propósito, desde o facto mais somenos ao pormenor de maior vulto, e os leitores que esquadrinham os fins e suspeitam uma ideia em cada palavra impressa acharão neste romance demonstrações de que os grandes acontecimentos da vida, que fazem pasmar o mundo, são como os nevões: um floco de neve que rola do cimo das montanhas ao chegar às fraldas destrói casas e plantios, embrulha vidas humanas e rompe o equilíbrio das coisas."(...)

Rio do esquecimento
Isabel Rio Novo
D. Quixote (Fev/2016)


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Quotidiano / Expresso

Um dia destes, como me parece que já por aqui escrevi, vou marcar uma entrevista com o Dr. Balsemão para lhe pedir um "agrado" pela publicidade que faço do seu (dele) Expresso, para além de ser seu leitor desde o número um, publicado no já longínquo ano de 1973.
Mas, honra lhe seja, o Expresso continua a merecer a minha preferência e a dar-me sempre razões para continuar a fidelidade. Agora, no online, dá "aulas", concisas e precisas, que são um encanto e, no caso concreto das duas que insiro abaixo, dizem muito a quem é (foi) "do ramo".