quarta-feira, 27 de março de 2019

Livros lidos (ou em vias disso)

O meu amigo ADS, preocupado com a hipótese de eu ter poucos (?) livros para ler, resolveu enviar-me 2, de José Rodrigues Miguéis, para que eu me deleitasse com a escrita de um homem nascido no início do século XX (1901). 
"Léah e outras histórias" é um deles, o outro é o romance "A escola do paraíso". Comecei pelo primeiro, porque é sempre pelo primeiro que se começa, seja ele qual for. Já não consigo precisar se tinha apenas a ideia do título ou se, em tempos idos, o teria chegado a ler. Dúvidas que a memória, cada vez mais diluída, vai deixando em aberto como que esburacando a parede que até parecia ter reboco de boa qualidade. Gaba-te cesto ...
Deixemo-nos de metáforas e vamos ao que interessa: a história da francesa Léah (que dá nome ao livro) é divertida, bem contada e com pormenores deliciosos; contudo, "Uma viagem na nossa terra" é, para mim, ainda mais conseguida e retrata o que éramos nos anos 50/60 do século passado (o livro foi editado pela primeira vez em 1958) mas, por estranho que possa parecer, o retrato está cheio de actualidade, apenas diferindo nos meios de transporte e nas vias de comunicação. O comportamento das personagens mantém-se intacto ...
(...)
Quando saí para ir enfim dormir, ainda ela me gritou do quarto andar, pelo caracol da escada: "Então sem falta, Artur! Esteja cá em sendo um quarto para as sete! Olhe que a gente não espera!" E eu, descendo nos bicos dos pés, agarrado cá em baixo ao corrimão, num sopro, num silvo, com este meu horror burguês de incomodar os vizinhos que dormem: "Sch, sch! Já sei, já sei ... Vão para dentro. Boa noite!" E comigo:"Não esperam? Mas que desfaçatez!" A porta dos Fonsecas bateu, abalando o prédio até aos alicerces. (...)
"Ora que necessidade tenho eu", pensei, "de ir agora para o Porto, para Paredes ou lá o que é, não me dirão? Com um sossego destes aqui!" (...)
Mas ainda é cedo, seis horas, tenho tempo. É só saltar da cama abaixo, enfiar os chinelos, correr à banheira e zás. Dez minutos para a barba, enquanto no fogão chia a água para o café - meia hora, três quartos de hora, e estou pronto. (...)
Aconcheguei-me melhor nos lençóis (...) "Diacho, dez para as sete! Caramba! então não tornei eu a adormecer? Já estava a sonhar que ia pela escada abaixo de chapéu na cabeça!" (...)

E a vontade de transcrever é enorme ... mas fico por aqui. A viagem, que estava prevista terminar no 
Porto ou melhor, em Paredes, com o jantar em casa dos amigos anfitriões, começou cerca das dez e meia da manhã, apesar dos avisos de que se não esperaria por ninguém.

(...) Já tínhamos engolido Óbidos e trespassado as Caldas, e o Fonseca, sem consultar ninguém, resolveu que fôssemos almoçar em Alcobaça. (...)
Chegámos pela meia tarde à quintarola de Paredes, depois de termos andado às apalpadelas por aqueles caminhos que o Fonseca conhecia "de olhos fechados". (...) Esfomeados, empoeirados e sinistros, abancámos para devorar os restos lautos do jantar da véspera, contando todos ao mesmo tempo os pormenores e as maravilhas da excursão: "Nem um pneu rebentado! Nem um desvio!! Tínhamos vindo pelo nosso vagar, explicou o Fonseca, pela fresca, parando, gozando, admirando "esta nossa paisagem tão linda, e tão mal empregada, este nosso Portugal que não tem nada que se lhe compare lá fora!". Enfim, cá estávamos. Só então apareceu uma garota descalça e com olhos de fome, trazendo o telegrama expedido na véspera à noite do Porto, e de que nos tínhamos esquecido completamente.
A redacção era do mano Arnaldo:

                             Retidos Porto desarranjo motor
                             passamos noite hotel arrasados via-
                             gem chegamos amanhã hora almoço
                             sendo possível.

José Rodrigues Miguéis
Léah e outras histórias
Editorial Estampa (6ª Edição) 

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia do Pai

Dia do Pai.
O meu, se ainda por cá estivesse, faria hoje 97 anos.

CLARO - ESCURO

Dia da vida,
Noite da morte ...
O verso
E o reverso
Da medalha.
E não há desespero que nos valha,
Nem crença,
Nem descrença,
Nem filosofia.
Esta brutalidade, e nada mais:
Sol e sombra - o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro,
E a sombra depois ...
E à luz do sol é tudo o que sabemos:
Juventude,
Beleza,
Poesia,
E amor
- Amargo fruto que na sepultura,
Em vez de apodrecer, ganha doçura

Miguel Torga
Orfeu Rebelde
Coimbra Editora (1992)

sábado, 16 de março de 2019

16 de Março

Há 45 anos, um jovem militar de 21 anos (faria 22 no dia 25 de Abril de 1974) veio passar o fim de semana a casa e estava dormindo descansado, esperando que a tranquilidade da manhã só fosse interrompida lá pela hora de almoço, quando minha mãe achasse que já chegava. Porém, ainda não eram 10 da "madrugada" e a porta do quarto abriu-se:

     - Há qualquer coisa no quartel!

Saltei da cama. Afinal o quartel tinha sido meu no ano anterior (Abril a Junho/1973), enquanto instruendo da 4ª. Companhia comandada pelo (então) Tenente Virgílio Canísio Vieira da Luz Varela. Nessa altura já se vislumbrava a contestação que viria a culminar na revolução de Abril. Servi de dactilógrafo ao meu Comandante de Companhia para uns artigos que se destinavam à revista Observador dirigida, se bem me lembro, por Artur Anselmo, e que procuravam refutar os "escritos" que o General Sá Viana Rebelo, antigo Ministro do Exército, por lá publicava. Durante a estadia no RI5, entrei à civil em várias manhãs de sábado, sentei-me à máquina de escrever (Messa?) da secretaria da Companhia e dactilografei o que me ia sendo ditado, com uma pronúncia madeirense bem acentuada e, de quando em vez:

     - Despacha-te "mecerico", que não temos o dia todo!

Voltando ao meu 16 de Março: depois de várias tentativas, pelo Moinho Saloio e pelo Avenal, consegui chegar quase à frente do quartel, ainda a tempo de ouvir a voz de "cana rachada" do Brigadeiro Pedro Serrano, do alto da sua pequena estatura, a pedir ao gritos a rendição.
(...)
     - Abra o portão, em nome da autoridade!
     - Autoridade talvez tenha, mas na nossa terra a autoridade está muito mal constituída!
     - Tem um quarto de hora para abrir o portão, sob pena de haver sangue!
     - Não é o senhor que me leva a abrir o portão. Só recebemos ordens do nosso general Spínola!
(...)
O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril
Avelino Rodrigues, Cesário Borga e Mário Cardoso
Moraes Editores (Novembro, 1974)

No final do dia e durante a noite, todos os graduados envolvidos foram levados para presídios militares.
As notícias que deram conta (?) ao país do acontecido ficaram para a história e podem ser vistas aqui e aqui.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Quotidiano

As notícias trazem-nos a morte de quarenta e nove pessoas, assassinadas em dois templos da Nova Zelândia.
Referem "um caso de violência gratuita" e a minha ignorância interroga-se: Gratuita? Caríssima, de valor incalculável, sem preço e sem nada que a possa desculpar. Um bandalho pega numa arma, liquida quase meia centena de seres humanos, filma-se e filma o seu crime, e "justifica-se" com a "supremacia branca" de tão má memória.
Como se alguma supremacia, se existisse, pudesse branquear crimes contra qualquer cidadão do mundo!

sábado, 2 de março de 2019

Mãe

Já lá vão 15 anos e parece que foi ontem ...

DIA DE HOJE

Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.

Sophia de Mello Breyer Andresen
Dia do Mar
Caminho

sexta-feira, 1 de março de 2019

Palavras bonitas

A NECESSÁRIA COMPLEXIDADE DA SEMENTE

Este mar que nos divide
constrói-se no pensamento
que tudo sabe mas finge
ser a paisagem que ignora
num porto que não atinge.

Unir o mar que divide
só com desentendimento:
almas opostas que ponho
na causa duma harmonia
se tem de nascer o sonho
para ter de haver poesia
e o que no sonho anuncia
muito mais do que nomeio.
A natureza a transpor-se
com dor sentida no meio.

Natália Correia
O sol nas nas noites e o luar nos dias
Círculo de Leitores (1993)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Netos

O meu "homem" mais novo faz hoje 3 anos!
Dotado de uma forte personalidade (teimoso é o avô) tem, em simultâneo, um "mel" na voz e nas atitudes que encanta qualquer um, mesmo o mais insensível. Adora carros, sabe as marcas todas, questiona para que servem botões e comandos, senta-se ao colo, "conduz" a saída da garagem e sorri, matreiro, quando lhe digo que tem de acabar.
E, logo a seguir, ei-lo que sobe as escadas, corre lesto ao quarto, e pega no carro que, esse sim, domina sem dificuldade e conduz por toda a casa. 
O meu Miguel regista, para que se saiba: "tês anos e não tenho falda nem chucha!"

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Balanço 2018

A tradição é, nesta altura, um tema dúbio, que promove discórdia e é tratado consoante os interesses de quem mais procura protagonismo, populismo ou parvoíce. 
Uns, como os "Bolsonaros" brasileiros, clamam que "menino veste azul e menina cor-de-rosa; outros pretendem que "atirei o pau ao gato ou matar dois coelhos com uma cajadada" são adágios que vão contra o respeito devido aos animais; outros, felizmente poucos, acham que o Botas devia voltar, para gáudio de alguns marialvas que por aí ainda pululam. Tradições ...
Por aqui, a tradição mantém-se no balanço dos livros lidos no ano anterior, para que os "meus homens", já todos falantes mas ainda nem todos leitores, possam amanhã ver quais foram os livros que o avô foi lendo enquanto eles cresciam.




quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

"Quanto mais sei, maior é a minha ignorância" foi uma frase que fixei na década de setenta do século  passado (estranho) e me acompanha desde essa altura. Foi-me transmitida por um Professor (assim mesmo, com letra grande) do ISCAL chamado Dragomir Knapic, refugiado da (nessa altura) Jugoslávia e que leccionava Geografia Geral e Económica. Lembro-me dela amiúde e procuro que me desafie sempre. Correndo o risco de ser o "chato de serviço" ilustrei-a para os meus filhos em tempos idos e, mais recentemente, para o meu neto grande. Espero conseguir ainda transmiti-la aos outros três.
Vem isto a propósito de um livro que estou a acabar de ler: numa das suas crónicas do Expresso, Miguel Sousa Tavares referia, "en passant", que Milton Hatoum era um dos grandes escritores brasileiros da actualidade e que Dois Irmãos era um romance genial. Desconhecia o autor e, naturalmente, também o livro. Nestas alturas, a minha impaciência e o meu gosto por livros não me deixam hesitar e pronto, mandei vir ... está quase no fim e é, sem dúvida, um livro "enorme" que não chega às trezentas páginas, escrito em português "do Brasil" sem acordo ortográfico!

" (...) A cada mês, na noite de um sábado, a casa de Estelita virava um cassino, explodia de tanta luz, só eles na rua tinham gerador. Os vizinhos não eram convidados a entrar no palacete iluminado, ficavam na janela, intocados na escuridão, admirando aquele chafariz de lâmpadas, tentando adivinhar quem eram os convidados. Naquelas noites, Estelita tinha a audácia de pedir a Zana baldes cheios de gelo. Certa vez pediu um rolo de gaze. Fui levar o gelo e a gaze, e fiquei curioso de saber quem estava ferido no palácio dos Reinoso. Antes de voltar, dei uma espiadela na sala onde iam jantar antes da jogatina. O rolo de gaze havia se transformado em trouxinhas que os convidados usavam para espremer o limão sobre o peixe. Contei a cena a Halim. "São finíssimos, pertencem à nossa aristocracia", disse ele, "por isso adoram aqueles macacos enjaulados no quintal." Um dia encasquetei: me recusei a ser mensageiro dos Reinoso. Minha mãe não tinha coragem de dizer a Zana que eu não era um empregado dos outros. Eu mesmo disse, exagerando um pouco, contando que Estelita atrapalhava a minha vida, que eu não tinha tempo para trabalhar em casa. Halim concordou comigo. E muitos anos depois, quando Zana expulsou brutalmente Estelita de casa, dei umas gargalhadas na cara daquela megera.(...)"
Milton Hatoum
Dois Irmãos
Companhia das Letras