segunda-feira, 24 de junho de 2019

Netos

O neto Duarte faz hoje 7 anos, já anda na escola a sério, já faz testes de matemática e estudo do meio e lê muito bem!

- Ó vô, quantas páginas tem esse livro?
- Vê o número da última e ficas a saber.
- 468! São muitas! Não sou capaz de ler isso tudo, demora muito tempo.
- Vais ler qualquer dia.

Será?

domingo, 26 de maio de 2019

Futuro

" ... e livres habitamos a substância do tempo."


Nesta semana, a "substância do tempo" trouxe-me mais três razões para que eu sinta sempre saudades do futuro e nunca mais do que recordações de um passado que é bom de lembrar para não ser esquecido. Vamos a elas, às razões que me levam a hoje, em dia de eleições para a Europa e depois de cumprido o meu direito / dever, vir por aqui deixar umas notas tão agradáveis quanto garantias de que as novas gerações trarão e terão um mundo melhor, mais solidário, mais amigo e, quero eu, mais justo.

Primeira: Na sexta-feira, logo pela manhã, os netos mais novos - Duarte e Miguel - brindaram-me com um vídeo contendo uma lição de reciclagem, que evidencia preocupação e saber, e me dá a convicção que, talvez já na geração deles, se deixe de cuspir para o chão;
Segunda: Na tarde do mesmo dia fui convidado para a festa dos avós, promovida pela escola do Vasco e assisti a uma peça teatral na qual o meu neto fazia de mim, que digo eu, fazia de avô e dizia para a avó, a propósito do queixume desta sobre as suas rugas:
- ... Não digas isso! A tua pele é como uma noz maravilhosa! ...
Terceira: Ontem, o neto mais velho colocou a cereja em cima do bolo: ele e um colega fizeram um trabalho sobre o 16 de Março de 1974 que me encheu de orgulho e me mostrou como a nova geração tem capacidades infinitamente maiores do que as dos velhos do Restelo que ainda dizem "no meu tempo".

O Gil e o colega ainda não têm 13 anos e fizeram isto:




quarta-feira, 8 de maio de 2019

Dia da Mãe

Hoje é (era) o Dia da minha mãe. 
Faria 96 anos, se ainda por cá estivesse,

CANTO ROUCO

Antes que perca a memória
das pedras do adro,
antes do corpo ser
um sopro e quebrado
ramo sem água,
devolvei-me o canto
rouco
e desamparado
do harmónio da noite.

Mãe!,
desamparado na noite.

Eugénio de Andrade
Poesia
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Coisas de velho ...

Já estou sentado a aguardar o início do espectáculo. A senhora, vistosa, chega acompanhada pelo puto, que parece ser seu filho e ter doze, treze anos. Tem cabelos loiros, bonitos, com a raiz pintada de castanho (ou será o contrário?). O puto traz uns auscultadores, enormes, nas orelhas, e um telemóvel na mão. De vez em quando liberta uma das orelhas e ouve o que a mãe diz. Volta a colocar o auscultador no lugar e não retira os olhos do telemóvel, que exibe o que me parece ser um combate de boxe.
A minha ignorância garantia que aqueles afazeres terminariam quando começasse o espectáculo, afinal a razão única que tinha levado à sala as pessoas que enchiam por completo a plateia. 
Ilusão minha! O puto permanecia deliciado a ver o boxe, auscultadores nas orelhas e um desprezo olímpico por tudo quanto se passava à sua volta.
O espectáculo terminou, o público aplaudiu de pé e o puto, continuou, sereno, sentado na cadeira que lhe coubera em sorte cerca de duas horas antes.
Quando os aplausos cessaram e o público começou a abandonar a sala, a mãe pegou-lhe na mão e fez-lhe sinal que eram horas de partir.
E lá foram ambos, ela com os cabelos loiros de raiz castanha, ele de auscultadores vermelhos unidos por uma correia preta, de telefone na mão e concentrado em absoluto no combate de boxe.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de Abril

REVOLUÇÃO

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

27 de Abril de 1974

Sophia de Mello Breyer Andresen
O Nome das Coisas
Editorial Caminho

terça-feira, 23 de abril de 2019

Dia Mundial do Livro

Hoje celebra-se o Dia Mundial do Livro. 
Quem puder vá à manifestação referida aqui, mas sobretudo leiam, não pelo dia em si mas porque faz bem à saúde, e dizem até que mantém a linha.
Pelo sim, pelo não, eu continuo a ler, cada vez com mais prazer e com a certeza de que o tempo não me chegará para ler tudo quanto gostaria.
Hoje terminarei o último de Mário de Carvalho - O que eu ouvi na barrica dos maçãs - e tem sido uma delícia ler (nalguns casos, reler) crónicas cheias de humor e de actualidade.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Carnaval em Torres Vedras

Ao Presidente da Câmara Municipal da capital do Carnaval - Torres Vedras - foi retirado o doutoramento, por a Universidade que o tinha outorgado ter confirmado que a respectiva tese continha várias dezenas de plágios.
E o homem não se demitiu! 
Sendo legítimo concluir que os cidadãos torreenses o terão eleito com base nas suas ideias,  não será difícil especular que estas também poderão ter sido plagiadas.
Viva o Carnaval, sem populismos ou demagogias, e apenas a pedir algum decoro. 
Que diabo, todos temos direito a alguns devaneios, mas há limites ...
  

domingo, 21 de abril de 2019

Dia Mundial do Livro

Na próxima terça-feira celebra-se o Dia Mundial do Livro!
Não posso estar na manifestação, mas serei solidário, lendo, diariamente, como faço há mais de 50 anos. Parabéns aos promotores da iniciativa, sempre importante para se valorizar o livro.


sexta-feira, 19 de abril de 2019

Quotidiano

Hoje plantei uma árvore!
Num sítio público, onde muitas vezes brinquei quando não havia calçada e se jogava ao berlinde e ao pião, para além da bola de meia e da bilharda.
Com o calcetamento da zona, foi criado um espaço, redondo, regado, que recebeu uma bem bonita magnólia, que por ali deu flores lindas durante algum tempo.
Uma festa de "comes e bebes" queimou as folhas e as flores da bonita planta e sentenciou-lhe a morte, há já uns bons anos. O espaço por lá permanecia sem ocupação ...
Hoje transpirei para retirar a raiz da magnólia, bem enterrada e bem grande e, no seu lugar, plantei um limoeiro que, espero, consiga viver o tempo suficiente para dar limões a quem deles gostar e não os tenha em sua casa.
Importante: obtive a autorização, verbal, de quem superintende no espaço público e suei com os exercícios ditados pela enxada.
Coisas de velhos ... 

quarta-feira, 27 de março de 2019

Livros lidos (ou em vias disso)

O meu amigo ADS, preocupado com a hipótese de eu ter poucos (?) livros para ler, resolveu enviar-me 2, de José Rodrigues Miguéis, para que eu me deleitasse com a escrita de um homem nascido no início do século XX (1901). 
"Léah e outras histórias" é um deles, o outro é o romance "A escola do paraíso". Comecei pelo primeiro, porque é sempre pelo primeiro que se começa, seja ele qual for. Já não consigo precisar se tinha apenas a ideia do título ou se, em tempos idos, o teria chegado a ler. Dúvidas que a memória, cada vez mais diluída, vai deixando em aberto como que esburacando a parede que até parecia ter reboco de boa qualidade. Gaba-te cesto ...
Deixemo-nos de metáforas e vamos ao que interessa: a história da francesa Léah (que dá nome ao livro) é divertida, bem contada e com pormenores deliciosos; contudo, "Uma viagem na nossa terra" é, para mim, ainda mais conseguida e retrata o que éramos nos anos 50/60 do século passado (o livro foi editado pela primeira vez em 1958) mas, por estranho que possa parecer, o retrato está cheio de actualidade, apenas diferindo nos meios de transporte e nas vias de comunicação. O comportamento das personagens mantém-se intacto ...
(...)
Quando saí para ir enfim dormir, ainda ela me gritou do quarto andar, pelo caracol da escada: "Então sem falta, Artur! Esteja cá em sendo um quarto para as sete! Olhe que a gente não espera!" E eu, descendo nos bicos dos pés, agarrado cá em baixo ao corrimão, num sopro, num silvo, com este meu horror burguês de incomodar os vizinhos que dormem: "Sch, sch! Já sei, já sei ... Vão para dentro. Boa noite!" E comigo:"Não esperam? Mas que desfaçatez!" A porta dos Fonsecas bateu, abalando o prédio até aos alicerces. (...)
"Ora que necessidade tenho eu", pensei, "de ir agora para o Porto, para Paredes ou lá o que é, não me dirão? Com um sossego destes aqui!" (...)
Mas ainda é cedo, seis horas, tenho tempo. É só saltar da cama abaixo, enfiar os chinelos, correr à banheira e zás. Dez minutos para a barba, enquanto no fogão chia a água para o café - meia hora, três quartos de hora, e estou pronto. (...)
Aconcheguei-me melhor nos lençóis (...) "Diacho, dez para as sete! Caramba! então não tornei eu a adormecer? Já estava a sonhar que ia pela escada abaixo de chapéu na cabeça!" (...)

E a vontade de transcrever é enorme ... mas fico por aqui. A viagem, que estava prevista terminar no 
Porto ou melhor, em Paredes, com o jantar em casa dos amigos anfitriões, começou cerca das dez e meia da manhã, apesar dos avisos de que se não esperaria por ninguém.

(...) Já tínhamos engolido Óbidos e trespassado as Caldas, e o Fonseca, sem consultar ninguém, resolveu que fôssemos almoçar em Alcobaça. (...)
Chegámos pela meia tarde à quintarola de Paredes, depois de termos andado às apalpadelas por aqueles caminhos que o Fonseca conhecia "de olhos fechados". (...) Esfomeados, empoeirados e sinistros, abancámos para devorar os restos lautos do jantar da véspera, contando todos ao mesmo tempo os pormenores e as maravilhas da excursão: "Nem um pneu rebentado! Nem um desvio!! Tínhamos vindo pelo nosso vagar, explicou o Fonseca, pela fresca, parando, gozando, admirando "esta nossa paisagem tão linda, e tão mal empregada, este nosso Portugal que não tem nada que se lhe compare lá fora!". Enfim, cá estávamos. Só então apareceu uma garota descalça e com olhos de fome, trazendo o telegrama expedido na véspera à noite do Porto, e de que nos tínhamos esquecido completamente.
A redacção era do mano Arnaldo:

                             Retidos Porto desarranjo motor
                             passamos noite hotel arrasados via-
                             gem chegamos amanhã hora almoço
                             sendo possível.

José Rodrigues Miguéis
Léah e outras histórias
Editorial Estampa (6ª Edição)