sábado, 21 de março de 2020

Dia Mundial da Poesia

Da crónica de Pacheco Pereira, hoje no Público, respigo:
(...) Mas, resumindo e concluindo, três coisas contam nesta pandemia: vida, cultura e dinheiro. Infelizmente, estão todas muito mal distribuídas, em particular a última. Mas, pelo menos na cultura, sempre se pode combater a incultura que cresce perante a cobardia e a inércia de muitos que acham que esta é a "realidade" dos nossos tempos e não há nada a fazer. Há e muito. Não é remédio absoluto, mas ajuda. (...)

No Dia Mundial da Poesia, dois poemas de Eugénio de Andrade, para deleite de quem espera, e acredita, que virão melhores dias e que, apesar de tudo, o mundo não vai acabar. 
Mas vai ser diferente, vai, vai!

CONSELHO

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda com um fruto
ao passar o vento que a mereça.

OS AMANTES SEM DINHEIRO

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade
Fund.Engénio de Andrade (2000)

sexta-feira, 20 de março de 2020

Quotidiano

No sossego da emergência Coronavírus, os livros e a música são boa companhia e, espero eu, têm capacidade para nos dar os anticorpos necessários à manutenção de um estado de espírito positivo, e a esperança de que, uma vez mais, se cumprirá a regra: a seguir à maré vaza surgirá a maré cheia. 

A Fundação Gulbenkian disponibiliza, aqui, concertos de produção própria e alheia.

O YouTube é um manancial de boa música, para todos os gostos.

O Teatro Aberto disponibiliza, até ao final do próximo mês, várias peças de teatro que levou à cena.

O Instagram transmite, em directo, concertos de vários artistas. O programa pode ser consultado aqui

Felizmente, longe vão os tempos em que era utópico pensar ter acesso a tudo isto.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Dia do Pai

Apesar do que está a passar por aqui e pelo mundo, das incertezas e das esperanças, com coronavírus ou sem ele, com estado de emergência ou a emergência do estado de isolamento, "escondidos" em casa porque o risco é grande, sabemos que, algures, há sempre alguém a passar bem pior do que nós e sem casa para se esconder.
E também que muitos outros há já sem oportunidade de passar por isto.
O meu pai faria hoje 98 anos e, se ainda por cá estivesse, ficaria preocupadíssimo com o que se passaria ... com todos os outros.

SOL DE MENDIGO

Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira ...
Pela manhã acorda tonto de luz,
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre
Atira-se para o lado, 
dorme, dorme ...

Manuel da Fonseca
Poemas Completos
Forja (1978)

terça-feira, 17 de março de 2020

Pedro Barroso

Conheci-o em 1988, num espectáculo comemorativo dos 50 anos dos Pimpões, realizado no dia 12 de Março de 1988 (já lá vão mais de 30 anos, como é possível), que abrilhantou acompanhado dos seus músicos, numa noite inesquecível para todos os que dela usufruíram.
Voltou quatro anos depois, em 22 de Fevereiro de 1992, desta vez sozinho mas com a qualidade, o profissionalismo e a dedicação que guardarei enquanto a minha memória me não atraiçoar. Chegou bastante cedo, por volta das 15 horas e disse-me, baixinho: aquele meu amigo que esteve cá a tocar nos 50 anos, o do acordeão, morreu esta madrugada num acidente de automóvel, mas o espectáculo faz-se. 
No final, fui ter com ele ao camarim, chorava compulsivamente, abraçou-me, e, por entre lágrimas e soluços, disse: o espectáculo fez-se e ninguém notou nada.

Hoje partiu, após um sofrimento prolongado e num desfecho já aguardado há algum tempo.

Fico com as recordações, os discos, as músicas e a certeza de que, para além de um enorme poeta e músico, também conheci um grande homem.
Até sempre, António PEDRO Chora BARROSO.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Coronavírus

Quase toda a gente tem opinião sobre a epidemia que está a contaminar o mundo, sobre as suas causas e sobre a forma de a debelar. 
Todos esperamos que, no fim, seja menos maligna do que os estudos científicos e as opiniões de quem sabe apontam. 
E é apenas por isto - por quem sabe - que também quero deixar meia dúzia de linhas sobre o assunto.
Vivemos, felizmente, num país democrático, com liberdade de expressão plena, até para a asneira, a estupidez e a ignorância. Todavia, a situação actual parece evidenciar uma "guerra", na qual não se conhece o inimigo, a sua estratégia, a sua composição e muito menos as suas posições. Assim sendo, temos forçosamente de confiar em quem sabe e procurarmos seguir as suas determinações com disciplina, sem alarmismos e sem facilitar nada. Neste caso, sem servilismos, manda quem sabe e os outros obedecem, por muito que custe.
Na guerra, cada um tem a sua função, que deve executar com o maior rigor, confiando que a estratégia delineada resulta da análise, ponderada, de quem tem o conhecimento e domina as variáveis.
Dispensam-se perfeitamente as "opiniões" vindas não se sabe de onde, sempre cheias de "certezas" tais que, ainda ontem, chegou aqui a casa, via USA, a "notícia" de que havia centenas de mortos em Lisboa, de acordo com uma fonte que ninguém consegue identificar mas que "sabe" muito.
Deixem-se de publicações idênticas às do tipo da anedota:
"Paris é uma cidade muito bonita! Eu nunca lá estive, mas tenho um tio que tem um primo que já lá foi e gostou muito".

segunda-feira, 2 de março de 2020

Lembranças

Era um princípio de tarde igual a tantos outros que se vão repetindo quase em ritual. 
De repente, junto à tua morada actual, surgiu, branca, tímida, medrosa até, e parou. Dirigi-me para lá, deixou-se apanhar sem qualquer resistência. Tinha penas sedosas, maciinhas (como tu dirias), e os olhos agradeciam o contacto com as minhas mãos.
Veio para casa sem qualquer esforço ou aborrecimento. Arranjei-lhe uma morada, provisória, alimentei-a e dei-lhe de beber. Cantou, agradecida. Já não devia comer e beber há muito tempo, saciou-se com a alpista que por cá havia. 
Ainda nesse dia fui comprar uma casinha nova e alimentação apropriada para a sua espécie, de acordo com a informação de quem vendeu. Dessa mistura que lhe coloco à disposição, não gosta de algumas sementes e rejeita-as com vigor, sujando o chão e ouvindo as recriminações de quem manda no sítio.
Acorda cedo e canta, num arrulhar sereno que repete sempre que me aproximo.
Na semana passada comprei milho partido, que ainda tornei mais miúdo com o auxílio de uma maquineta de cozinha. Adorou e cantou, de alegria, julgo.
Já faz parte da casa, trazendo sempre à lembrança o sítio onde se disponibilizou para que eu a trouxesse.
Está comigo sempre (como tu). Não sei bem se é pomba se é rola, é branquinha como a neve e tranquila como a paz.
Perfazem hoje dezasseis anos que partiste para essa morada onde apareceu a ave branca e maciinha.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quotidiano

O meu amigo ADS deu-me a oportunidade de, ontem à noite, confraternizar com o grande (até na altura) escritor cabo-verdiano Germano Almeida, que não conhecia pessoalmente e com quem apenas havia estado nos seus livros que, há muito, me habituei a ler.
Foi uma noite bem passada, saboreando uma excelente cabidela de frango e provando um digestivo caseiro, oferecido e feito por um dos convivas presentes. Fomos catorze afortunados que se sentaram à mesa, com a companhia, extremamente agradável, do escritor e da irmã.
Para além de o físico de Germano Almeida impressionar (deve medir mais de um metro e noventa), surpreendeu-me a afabilidade do escritor - apesar da gripe, forte, que o afectava - e os autógrafos pessoais que fez o favor de colocar nos vários livros que comigo viajaram, alguns já com mais de vinte anos de "casa".
Foi um privilégio e uma noite para não esquecer.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Racismo

O que se passou há dias no Estádio do Guimarães com o futebolista Marega, do FCP, deu lugar a muitas conversas, debates, opiniões, comunicados, manifestos, tomadas de posição, aberturas de telejornal, editoriais, etc.
Com miseráveis excepções, todos consideram que os insultos proferidos naquele campo, como noutros, são racismo puro, execrável e do qual todos nós temos, também, alguma culpa. 
Acontece que, por estranho que possa parecer, não é um acto isolado nem fora do comum, e apenas teve este alarido pela coragem de Moussa Marega. Não fosse a sua saída do campo e não se teria passado nada ... houve gente que estava no estádio e não ouviu nadinha!
Hoje, no carro, ouvi alguém (que não identifiquei), dizer que toda a gente que profere este tipo de insultos, sob a cobertura de multidões ou em expressões "banais" como "trabalhar é bom pró preto" ou "vai para a tua terra", devia ter, para além da responsabilidade criminal que o acto implica, a obrigação de pedir, e pagar, a pesquisa do seu ADN, para poder verificar de onde vieram e por onde andaram os seus antepassados.
Lembrei-me! Em tempos idos, a minha filha ofereceu-me o historial dos meus, as origens e os percursos de quem me antecedeu, obtidos a partir da análise e estudo do meu ADN.
Fui à procura e encontrei: data de Agosto de 2008 (como o tempo passa) e lá está registado, para que conste, um percurso que vai da África do Sul ao norte de Moçambique, passa pela Turquia e pela Ucrânia, pelo Egipto e pelo Paquistão, entre muitas outras rotas.
Qual será, afinal, a minha terra?


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Netos

"... Fica a cepa a sonhar outra aventura ..."

- Vô, vamos lá abaixo à ga_agem!
- Cuidado com as escadas, é melhor dares-me a mão.
- Não p_eciso, já sou g_ande!

- P_imeiro vamos no teu, ao pa_que.
- V_um, V_um, V_um!

Liga o carro, mexe o volante, simula meter mudanças, apita ...

- P_onto! Ago_a vamos no da avó.

A mesma coisa, com a particularidade de, neste, o cuidado ter de ser maior. Ao contrário do outro, este trabalha só com o ligar da chave e sem necessidade de carregar na embraiagem.

- P_onto! Já chega! Podes ir pa_a cima que eu fico a b_incar aqui ...

O meu Miguel faz hoje 4 anos e está cheio de confiança.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Sem comentários porque o que por lá se passou foi tão mau, tão horrível, tão estúpido, tão cruel, que não merece outra coisa que não seja a lembrança bem viva e atenção redobrada para quaisquer instintos que possam ter a veleidade de branquear a memória. E não passaram (e ficaram) por lá apenas judeus.

(...) Correr. Ao longo do arame farpado. Não lhe tocar. As lâmpadas estão no encarnado.
Passar outra vez pelo portão para entrar. A passagem é estreita. É preciso correr ainda mais depressa. Não importa as que caem, são espezinhadas.
Correr. Schneller. Correr.
Voltar outra vez para diante dos homens que tornam a encher o avental de terra. 
Têm de fazê-lo depressa, estão a levar pancada. Pazadas bem cheias, batem-lhes, batem-nos.
Uma vez o avental cheio, pauladas. Schneller.
Correr para o portão, passar sob as correias e os chicotes, correr em cima da tábua que balança e se verga. Atenção à bengala do chefe SS na extremidade da tábua. Esvaziar o avental em cima de um ancinho, correr, atravessar o portão pela passagem cada vez mais estreita - é aí que os bastões se acumulam -, correr em direcção aos homens para voltar a apanhar duas pazadas de terra, correr para o portão, num circuito ininterrupto.
Querem fazer um jardim à entrada do campo.
Duas pazadas de terra até que não são muito pesadas. Mas vão-se tornando. Pesam mais e tornam o braço anquilosado. Atrevemo-nos a segurar mal os cantos do avental para deixar cair um bocado de terra. Se uma fúria vê, bate-nos. E, no entanto, fazêmo-lo, porque é peso de mais.
Há um francês. Aldrabamos e calculamos a corrida para ser ele a abastecer-nos. Tentamos trocar algumas palavras. Fala sem mexer os lábios, sem levantar os olhos, é assim que se aprende a falar na prisão. São precisas três voltas para uma frase.
A ronda não gira suficientemente depressa. As fúrias berram mais alto, batem com mais força. Há congestionamentos porque há mulheres a cair e porque as companheiras as ajudam a levantar, enquanto as outras, atrás, empurradas pela pancada, querem continuar a correr. (...)

Auschwitz e depois
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