sábado, 11 de abril de 2020

Quotidiano

O confinamento "obriga" a uma maior atenção ao que se passa em casa e no jardim. 
Os olhos estão mais abertos e qualquer alteração salta de imediato.
Os limoeiros estão carregados e a laranjeira cheia de flor. A glicínia já mostra os seus grandes cachos violeta e o seu aroma peculiar começa a sentir-se. As strelitzias mantêm a sua beleza durante todo o ano mas, nesta altura, ainda se apresentam mais bonitas, para não perderem a corrida primaveril. 
O hibisco mantém disputa acesa com a cameleira e as roseiras, embora rindo-se ainda pouco, já vão dando um ar da sua graça, que é muita. 
Mais prosaicos, os tomateiros, a salsa, os coentros, as alfaces, os pimentos e os morangueiros, uns mais do que outros, aprestam-se ou já vão indo para a mesa, para serem saboreados sem companhia, que o tempo não vai para refeições com mais de duas presenças.
O bonsai está entusiasmado e o jasmim já trepa, verdinho, pelo algeroz. Há mais flores, arbustos, árvores de pequeno porte, e a excepção jacarandá, enorme, mas ainda sem flores.
Apesar disto tudo, há surpresas agradáveis, que agora chegam sempre que o Sol aparece. 
As abelhas invadem o escovilhão, limpa-garrafas ou, mais cientificamente, o(a) Callistemon Rigidus. Está lindo, de um vermelho único. As abelhas trabalham nele que nem desalmadas, sugando o pólen das suas flores. Pacíficas, não nos ligam nada, mesmo quando nos encostamos à árvore. Aparecem de repente, assim  que o Sol descobre e abalam tão depressa como chegaram. 
Não faço ideia se estão "domesticadas" por algum apicultor ou se são livres de tutela. Mas que são bem-vindas, são!

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Estórias

Antes de chegarem ao trabalho já tinham passado pela tasca e bebido, de um trago, um copinho de aguardente, ou melhor, de bagaço, como toda a gente dizia.
- Bom dia, já mataste o bicho?
Era o cumprimento para os que aguardavam a chegada do caseiro, a quem cabia determinar o trabalho do dia. Enxada às costas, botas gastas, camisa de cor indefinida pela sujidade, boné enfiado na cabeça, atilho de cordão a segurar as calças, aguardavam a escolha, sempre com a esperança de não serem rejeitados.
Esperava-os um dia a cavar vinha, a semear trigo ou a ceifá-lo, a plantar bacelo, a sachar milho, e tantas outras tarefas agrícolas que caíram em desuso e foram (ainda bem) substituídas pela maquinaria.
A jorna, parca, era paga no final do dia de sábado e correspondia, apenas, aos dias de trabalho ou a parte deles, se o tempo obrigasse o rancho a levantar. Podiam ganhar um, dois ou três quartéis. Se a chuva só obrigasse a acabar na última parte do dia, o pagamento era integral. Daí que, muitas vezes, sob a chuva inclemente, ainda se ouvia:
- Quem aguentou meio dia, aguenta o resto! 
E o caseiro lá condescendia.
Podar e empar eram trabalhos especializados, feitos por aqueles que tinham aprendido e podiam exigir uma melhor paga, por serem poucos e os trabalhos terem um tempo próprio e urgente para serem realizados. A poda exigia conhecer bem as características da cepa ou da árvore, e saber quais os ramos a cortar, de modo a não comprometer a produção futura. A empa, nas vinhas, exigia ainda mais habilidade e aquela voltinha redonda obrigava a cuidado extremo, para não se partir. Tinha de ser regada com bom vinho e não com a a água-pé do rancho, e o dia, para estes especialistas, terminava antes do Sol se pôr, ainda a tempo de chegarem à tasca e, com o mesmo "comprimido" da manhã, confirmarem que o bicho estava morto e bem morto.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Quotidiano

Não há nada para dizer, não se passa nada, a paisagem mantém-se, o tempo está melhor que ontem, ninguém passeia na rua, os cães não ladram, a caravana não passa, a cidade circunscreve-se ao quintal e a ida ao café ao móvel onde está a máquina caseira. Os contactos virtuais e as respectivas conversas resumem-se ao trivial, como estão, não há novidades, por aqui está tudo bem, felizmente, por enquanto, vá-se lá saber, mas espera-se que não nos/vos aconteça nada, tenham cuidado, distanciem-se, falem ao longe, fechem-se em casa, e os números, que horror, não param de subir, mas nos outros países é bem pior, vejam a Espanha, e a Itália?!, e os Estados Unidos, tanto que o Trump "gozou" com o vírus chinês e agora, olha, até o do Reino Unido, o Boris loirinho, está internado e, no Brasil, viste, a miséria nas favelas, e na Venezuela, a mesma coisa, já há muita gente a passar fome, de certeza, mas tenhamos esperança, tudo vai passar e ficar bem.
O carteiro vem cedo, diz bom dia ao longe e deposita o correio em cima do muro, que não vale a pena colocá-lo na respectiva caixa, se estou ali. Traz a correspondência, pouca, que já lá vai o tempo em que tudo era tratado por carta, até os namoros. Ao dar a volta à motinha, eléctrica, diz que volta amanhã, que é dia da Visão e a da Gazeta.
"O carteiro não tem culpa, é a sua profissão", cantava o Conjunto António Mafra lá pelos idos de sessenta, do século passado, numa canção que viria a ser "roubada" pelo Sérgio Godinho já quase no fim desse mesmo século.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Quotidiano

Uma mudança no visual do blogue, que fica agora carregado de verde, simbolizando a esperança de que isto acabará em breve e que a nossa vida, "escada sem corrimão", volta à normalidade.

Abril é, há 46 anos, o mês da Liberdade. Se, em 2020, não nos trouxer novidades a 25, ao menos que traga a 30. Mais cinco menos cinco pouco importa!

ESCADA SEM CORRIMÃO

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos, 
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão-Ferreira
Obra Poética
Editorial Presença (1988)

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Quotidiano

Furei a quarentena e ninguém deu por isso!
Não comprei bilhete, não pus combustível no carro, não paguei portagens nem tive dificuldade em arranjar lugar para o carro.
Na A8 não havia trânsito algum. Ponte de Frielas e a Calçada de Carriche estavam escancaradas. O Eixo Norte-Sul estava limpo e arejado e a chegada à Praça de Espanha deu-se num instante.
Como em tantas outras vezes (a última foi em Fevereiro, para ver Luísa Cruz na Criada Zerlina), o Teatro Aberto estava à minha espera. 
Desci a escadaria, como sempre. Desta vez não sabia se a peça era na Sala Azul ou na Sala Vermelha, mas as indicações eram claras.
Liguei o botão, aguardei um pouco, abri a página, coloquei os auscultadores, ajeitei-me na cadeira e vi o teatro, aqui.
Não teve o mesmo sabor, mas vale sempre a pena ir ao Teatro.
P.S. - A peça chama-se Vermelho, foi escrita por John Logan e, aqui, teve encenação de João Lourenço e interpretação de António Fonseca e João Vicente.


domingo, 5 de abril de 2020

Quotidiano

Hoje era dia de ir à Foz, mas o homem ainda não está a alugar barracas, estava a chover e não me apeteceu. Tudo razões válidas para ficar em casa, sossegadinho, bem comportado e cumpridor!
A quarentena assim o determina, mas que gostava de lá ter ido, lá isso gostava. Só para tirar uma dúvida: a gaivota ainda por lá estará?


sábado, 4 de abril de 2020

Quotidiano

O sábado caminha para o fim, num início de fim de semana cinzento, como o dia a dia que vamos vivendo. Nuvens, alguns pingos de chuva e os números da nossa angústia, que chegaram pela hora do almoço, repetidos até à exaustão.
Amanhã teremos nova estatística oficial, agravada pela certa, e com mais um passo para o esgotamento de quem trabalha "de sol a sol" e de "noite a noite" para que os doentes sobrevivam e se curem.
Entretanto, ouviremos debates, divagações, certezas, dissertações, sobre a necessidade de conhecer o dia do fim com exactidão, talvez para ser possível programar o directo com antecedência, registando as opiniões sabedoras de "eu não vi, mas disseram-me".
Valha-nos a poesia, que lava o espírito e até serve de alimentação, como dizia a grande Natália Correia.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Humildade

"Eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos... E se alguma coisa há é a obrigação de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que vai ser ultrapassado. Nós, os velhos, vamos dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos sistematicamente aos cuidados que nos são indicados e quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos".
General Ramalho Eanes
Entrevista à RTP 1 - 01.04.2020


E não foi mentira, apesar de ser o dia delas. Eu vi e os olhos quase que me "deram banho".
Bastava esta frase para valer a pena ouvir, mas ainda disse muitas mais coisas que arrepiaram, de entre elas uma  que me recordou tempos idos: "O militar está sempre de serviço. Se for preciso, dorme no seu posto."

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Quotidiano

(...)
Ai socorro
Ai que eu morro
Livra que nos fomos logo a pique
E subitamente ao fundo
Com um negro pela mão
Tão pasmado e caladinho
Mas lá por dentro a cantar o cantochão.

Por mais que se ouça e se veja, por mais que opinem e divirjam os "sabões", a esperança de que tudo vai passar mantém-se viva, tal como a confiança naqueles que, sem alardes, trabalham todos os dias para que nos mantenhamos à tona e o amanhã seja melhor que o ontem.

E havemos de cantar/contar "de um miserável naufrágio que passámos".

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Melros

Passa todos os dias pelo jardim.
Primeiro, pousa no telhado fronteiro, averigua os perigos e, de repente, ei-lo que pousa na relva, ciranda, debica, saltita, sempre de olhar atento não vá surgir algo ou alguém que o possa colocar em perigo, real ou imaginado.
Ao mínimo som ou aparição, ei-lo que parte, com o silvo habitual e o voar inconfundível, bem distinto de todas as outras aves.
É o melro que é um "melro". Esperto, frio, atento, desconfiado. Arrisca sem medo, com cuidados metódicos e quase sempre sozinho.
Ao contrário do que acontecia dantes, os melros tornaram-se habitantes da cidade e, tal como os pardais, já fazem parte da "mobília" citadina. Não se agrupam e os convívios sociais são reduzidos ao mínimo. Vivem quase em permanente quarentena, mas não consta que possam ser contagiados pelo coronavírus nem obrigados ao confinamento. Gozam de liberdade plena e sem receio que a autoridade os possa interpelar para saber se vão para o trabalho, para a mercearia ou para a farmácia.
Com toda esta liberdade de movimentos, espera-se que da sua habituação e integração na cidade, não resulte a transmissão dos seus defeitos e que os humanos não se tornem uns "melros" mais desconfiados, mais frios, mais individualistas, mais calculistas, e que sejam solidários, agora e no futuro, se e quando as coisas se complicarem ainda mais.
E que, tal como o melro, os "melros" deixem de cuspir para o chão ...