sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Quotidiano

Ágil, subiu o muro e correu para a relva. O barulho do estore a abrir tolheu-lhe o passo. Escondeu-se, atento a tudo quanto se passava à sua volta. A presença de um humano à janela incomodou-o ainda mais e fê-lo encolher até deixar de ser visível. Os arbustos garantem um bom esconderijo.

O destino, claro, era o WC verde, mas os velhos levantam-se cedo e contrariam as vontades, por mais naturais que sejam. 

Daí a pouco, não resisti. Um espreitar de "cusco" e, pasme-se, já lá estava o presente matinal. O autor tinha desaparecido sem esperar pelos agradecimentos.

Aqui há gato!? Não, houve!

A mangueira fez o trabalho de remoção, a relva riu-se e comentou para si, num sorriso verdejante: estão tontos! Choveu tanto esta noite e já me estão a regar de novo ...

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Palavras bonitas

Nicolau Santos, jornalista e poeta, vem declamando quase diariamente, no Instagram, versos de diversos autores, na sua grande maioria portugueses. Sou "visita", ouço com muito agrado alguns que já conhecia e muitos outros que são novidade. São sempre momentos agradáveis, quer pelos poemas quer pela qualidade da voz que os recita.

Hoje ouvi, de Fernando Assis Pacheco, um belo poema sobre o desaparecimento de Ruy Belo, outro grande poeta, natural de aqui bem perto - S. João da Ribeira.

Tenho aquele livro, disse para mim.

Fui à estante e lá estava ele.

PRESO POLÍTICO

1

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite são iguais por dentro.
Não há papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros tão tranquila;
tão tranquila que já nem desespera
de ser apenas voz, não uma guerra.

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
Não há papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta mão estendida
por sobre os muros só de medo e pedra.

2

Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que farás da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
São de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade
Não me esqueças, amigo, não me esqueças.
                                                              1966
A musa irregular
Fernando Assis Pacheco
Edições Asa (1997)

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Ofensivo

Apetecia-me escrever que é imoral, absurdo, loucura, insensatez, vergonha, disparate, parvoíce, ofensa, e mais todos os adjectivos possíveis de aplicar ao "exílio" do ex-rei de Espanha nos Emirados Árabes Unidos, acomodado numa suite que custa "apenas" 11.000 Euros por noite. Uma grande parte da população mundial não consegue ganhar isso num ano. 

Situações como esta não são muito comuns neste espaço, mas há coisas que ultrapassam os limites e a capacidade de entendimento, por mais liberal e desligado que se seja. 

Interrogo-me como foi elaborado o estudo económico aquando da construção dum hotel deste nível. Os autores devem ter "pescado à linha" os potenciais clientes, garantindo, à partida, a sua presença e, desta forma, a rentabilidade do investimento. O estudo estendeu-se, pela certa, ao mundo inteiro e criou logo expectativas aos que foram identificados e alertados para o que de fenomenal aí vinha. A chatice é que, agora, toda essa gente fica impedida de usufruir da suite, ocupada por tempo indeterminado e sem data provável para a reserva.

Não deve ser nada fácil lidar com o sonho de dormir numa cama pela certa com lençóis de ouro, ou de penas animadas, para além de companhia incluída, esfregação das costas, exercício físico com suadoiro, refeições de carapaus alimados e petingas de escabeche, e, por decisão de um caprichoso monarca aposentado, não lhe ter acesso. 

Criada esta situação, corre-se o risco de as depressões aumentarem exponencialmente e trazerem mais preocupações para os SNS de cada país.

Esta gente com muito dinheiro tem privações que não lembram ao diabo nem ao comum dos mortais e são, por isso, fonte de preocupação de todos.

Percebi, agora, porque é que o homem não veio para Cascais. Não há, naquela zona, um hotel com a dignidade que ele merece. 

Talvez se possa arranjar um cantinho na Cova da Moura, com vista para o Tejo e para o Castelo, ou no Bairro do Aleixo, mirando o Douro e a Torre dos Clérigos.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Barbeiro

Sempre fui ao barbeiro, mas agora, quando preciso de cortar o cabelo, vou à "Barber Shop". O homem é o mesmo, o sítio é o mesmo, as tesouras iguais, as máquinas e o secador, a toalha e o resto não tiveram qualquer alteração, mas soa melhor, e é mais chique: vou à "Barber Shop", que já tem uma coluna à porta, com luzes a rodar de cima para baixo, ou será de baixo para cima?

Marcação efectuada via telefone, como acontece desde há alguns meses. Pude escolher a hora e optei pelas cinco da tarde, não para tomar chá, mas por ter adivinhado uma manhã de sonho, como aconteceu. A tarde também deve ter sido excelente, como se adivinhava quando de lá saí. Continuo a preferir a primeira parte do dia, correndo sempre o risco de o sol estar ausente, por atraso, e, muitas vezes, por falta de comparência. Não foi o caso de hoje. Quando o interior não está a "queimar", o oeste fica sem nevoeiro e com temperatura óptima.

- Boa tarde. Vamos ao costume?

- Pode cortar mais um pouco, para não demorar a secar, que é tempo de praia. Veja lá se hoje consegue cortar os brancos e deixar os pretos. Das outras vezes, isso nunca acontece. Com tantas mudanças, talvez seja possível ...

- Nem pense. Ficava com tão poucos que a cabeça torrava no sol da Foz.

Não há mais clientes. O seguinte só chegará depois de eu ter saído e de tudo ser desinfectado. Ao contrário do que acontecia antes, não há conversas com terceiros, não há jornais na mesa, o único interlocutor é o homem da tesoura, com o ruído de fundo da televisão.

Falámos do Benfica, do futebol sem público, do Jesus e do Cavani, do Bayern e dos oito ao Barcelona, dos cinco do Inter e dos cabelos brancos, que são cada vez mais.

- Dê-se por satisfeito. Olhe que há muita gente que nem brancos tem.

E, como sempre, o barbeiro tem razão, perdão, "the man of Barber Shop". 

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Palavras bonitas

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
ao luar e ao sonho, na estrada deserta.
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
mas quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida ...
(...)

Poesias de Álvaro de Campos
Obras completas de Fernando Pessoa
Edições Ática (1980)

domingo, 16 de agosto de 2020

A vida

O eufemismo, neste caso concreto, corresponde à realidade. A Ivone faleceu hoje, de doença prolongada, após um sofrimento enorme, que se acentuou nos últimos três meses, nos quais conheceu dois hospitais, a sala de operações, os cuidados intensivos, uma dor que lhe deve ter reduzido ao zero o optimismo que irradiava, principalmente para ajudar a resolver o problema dos outros.

Éramos do mesmo ano, ela dois meses mais nova, frequentámos a mesma escola, fomos colegas de trabalho no mesmo local, durante vários anos, mas éramos, tão só, amigos.

Conhecíamo-nos bem. Uma simples troca de olhares dizia ao outro o que nos ia na alma e o que pensávamos sobre qualquer assunto. O trabalho deu-nos muitas horas de convívio, de pressão, de desespero, algumas alegrias, também dissabores, e, que me lembre, nunca tivemos qualquer desentendimento. Sempre leal, sempre querida, sempre disponível, sempre amiga, desejosa do melhor para mim e sempre a torcer para que isso acontecesse. 

Adeus, Ivone. Um beijo.

sábado, 15 de agosto de 2020

Quotidiano

Se hoje não fosse feriado, escreveria por aqui alguma coisa de palpável, quiçá até de substancialmente lírico ou prosaico, que me entusiasmasse a mim e aos, poucos, leitores destas "maluqueiras".

Porém, como nos dias feriado e, principalmente, num dia santo, não se deve trabalhar, não faço nada. Estou cansado de emoções fortes.

De manhã, a praia deu-me trabalho com força, violando as regras atrás referidas. As toneladas de água que me massajaram o corpo cansaram-me deveras.

À tarde, tive a visita de uns amigos, que me ofereceram, um, uma peça de artesanato lindíssima, e o outro, uma fotografia emoldurada muito bonita. Ambos os trabalhos de produção própria, em artes nas quais eu sou um nabo completo.

Com toda esta agitação, vou dormir que nem um santo. O que vale é que amanhã é domingo e no dia seguinte permaneço de férias.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

No meu tempo ...

 Na instrução primária, lembro-me bem, o texto sobre o dia de hoje dizia que "A 14 de Agosto de 1385, quando o Sol raiava, as tropas portuguesas sob o comando do Condestável D. Nuno Álvares Pereira ...", seguido de um relambório explicativo da grande vitória sobre os castelhanos à custa dessa extraordinária táctica do quadrado inventada pelo Condestável e executada pela Ala dos Namorados. 

No caminho para a praia fui, já não sei a propósito de quê, a debitar as matrículas dos carros que já tive e de muitos outros que conduzi ou conheci. 

Já na praia, a conversa descambou para o Ramal da Amieira que vai (ou ia), lembro-me bem, de Alfarelos à Amieira, das serras - Suajo, Peneda, Gerês ... -, dos rios - Minho, Lima, Cávado, Ave ... -, dos casos notáveis da multiplicação, do princípio de Arquimedes, do teorema do Pitágoras, e tantas outras coisas que eram decoradas e ocupam, agora, o espaço profundo das "gavetas", sempre disponíveis para virem à tona.

Falou-se também da nanotecnologia, dos jogos de telemóvel, dos comandos e duma "geringonça" que transportava um "artista" passeando-se no mar, a uns bons trinta centímetros acima da água, - aprendi agora, na Net, que se chama "prancha voadora"-, factos que já vão passando despercebidos  ou já não cabem, na "gaveta" do entendimento, por serem de todo estranhos ou não estarem acessíveis ao "sistema operativo" do computador cerebral que me integra.

A propósito: o que foi o meu almoço?

Já não me lembro bem, mas acho que foi peixe. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Enjoo

Andam por aí alguns saudosos do antigamente, sem vergonha nem pudor pelo que fizeram durante quase meio século.

São poucos, mas batem latas e gritam muito, como é próprio de quem não tem a razão pelo seu lado. E, pasme-se, têm a desfaçatez de invocar a democracia para se fazerem ouvir e terem tempo de antena.

Por mim, dou-lhes a importância que merecem: zero, para não utilizar números negativos.

Já me excedi. Eles não valem nem uma linha!

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Liga dos Campeões

Por força da pandemia que nos assola há vários meses, as competições de futebol sofreram grandes alterações, que não se resumiram, apenas, à ausência do público.

As meias-finais da Liga dos Campeões são disputadas em apenas um jogo, em campo neutro. Tanto estas como a final terão lugar em Lisboa, nos Estádios da Luz e Alvalade, com o jogo inicial - Atalanta/PSG - a acontecer hoje.

Se, para estes jogos sem público, a PSP montou uma "mega-operação" de segurança e disso deu conta em pormenorizada conferência de imprensa, qual seria a denominação correcta para "segurar", se houvesse público apaixonado para assistir aos jogos? Talvez a expressão "operação do outro mundo" fosse ajustada e não fosse despiciendo pedir a intervenção de agentes marcianos, usando as influências possíveis junto do ET.

Valha-nos a sede de protagonismo e os "cinco minutos de fama" tão importantes para que o vizinho reconheça o nosso poder. E abriram telejornais, em farda número um, e foram notícia em todos os jornais. Faltou apenas o alerta de uma cor qualquer, para gáudio dos daltónicos!