sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Egoísmo

Nas notícias que abundam sobre o coronavírus, normalmente "abrilhantadas" com grandes filmes de agulhas e seringas e/ou fotografias do acto de inocular o antídoto para o malfadado bicho, soube-se que haverá um clube, lá para o distante Dubai, que garante aos seus associados(?) as duas doses da vacina em troca de uma estadia de, pelo menos, três semanas em ambiente de lazer e de luxo. Para pertencer ao dito clube é necessário pagar uma quota anual, quase simbólica, de cerca de 20.000 € por ano, a que acrescerá o custo das férias paradisíacas. Face a um custo tão irrelevante, a procura deve ser imensa, da Europa aos Estados Unidos, do Brasil ao Quénia, do México às Filipinas, do Iraque a Moçambique, das favelas aos bairros de lata, de novos ou velhos, doentes ou saudáveis.

O ser humano no seu melhor, no sublimar do egoísmo, na ideia confirmada de que o dinheiro tudo consegue, que os princípios são coisas da ralé, que o desrespeito só existe quando sou eu a vítima, e que só sendo parvo não se consegue usufruir disto. A esperteza é uma qualidade adquirida com grandes sacrifícios, que poucos conseguem cultivar e menos ainda colher ...

Nesta época de guerra, quando a solidariedade e a colaboração deveriam ser presença assídua nas relações entre pessoas e países, a sociedade do "safe-se quem puder" cavalga, cultiva e colhe frutos muito rapidamente. Deve ser do adubo a que se acede desde pequeno ...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Servos

Telefonava sempre a dizer quando vinha, a que horas vinha e ao que vinha. Era uma cliente antiga, solteira, obesa, já entrada na idade, e com óculos "fundo de garrafa". Tinha propriedades agrícolas na região, que explorava directamente e uma pequena parte que arrendava a pequenos produtores. Fazia questão de se afirmar agricultora e os olhos riam-se por debaixo dos óculos sempre que alguém manifestava apreço pela actividade.

Chegava de táxi, entrava e dirigia-se de imediato ao gabinete, sabendo que a "sala" lhe estava reservada. Era pontualíssima. O motorista acompanhava-a até à entrada, depois de lhe abrir a porta, de seguida ia arrumar o carro e voltava, ficando no balcão até receber o recado de algum de nós, transmitindo que a senhora estava despachada e podia ir buscar a viatura.

Vinha ao banco, normalmente, de quinze em quinze dias. Fazia depósitos, controlava as contas a prazo e os movimentos à ordem, levantava dinheiro quando necessitava e sempre a quantia que tinha referido na véspera. Tratava toda a gente por "tu", com excepção do gerente.

O cheque para levantar já vinha preenchido, mas a assinatura era feita no momento.

- Diz lá ao caixa que quero notas pequenas, de 50 e de 100, e um pacote de moedas de 5$00. E olha que não quero notas novas. É para pagar aos servos ...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A voar

"Quarta passada, semana acabada".

Frase muito dita e ouvida nos tempos do trabalho, para transmitir que a não concretização das tarefas, em tempo útil, traz como consequência o atraso, e que a preocupação deve ser sempre o "não guardes para amanhã o que podes fazer hoje".

Agora, o significado da frase alterou-se radicalmente:

- Já é quarta-feira. Mais uma semana a acabar ...

O tempo voa, propulsionado por motores potentíssimos e sem dar oportunidade de escolha do itinerário. Ainda ontem começou o ano e já estamos quase na Páscoa. Daqui a pouco é noite, o escuro entorpece os músculos, a televisão cansa o cérebro, os livros não resolvem tudo ... mas ajudam muito. Está na hora de fechar os estores, desligar do mundo da rua e ligar o alarme. As mesmas notícias, as mesmas rotinas e, mal se fecham os olhos, já é quinta-feira, o mês está a chegar ao fim e tudo fica na mesma: "nem o pai vem nem a gente almoça".

Apesar de alguns sinais de abrandamento, o malfadado bicho parece sentir-se bem com o clima e com as pessoas. Se fosse educado e compincha, podia apanhar uma boleia de uma qualquer sonda das que por aí navegam e ia para Marte, de férias ... definitivas.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Carnaval

A ideia era ir a Veneza, depois planeou-se Rio de Janeiro, a seguir ponderou-se Sesimbra e, à cautela, pensou-se também na Mealhada, ou Ovar, ou Estarreja. E um salto ao Algarve? O tempo estará melhor e o Carnaval também é muito divertido por lá. Não, Carnaval a sério é em Torres Vedras e até é perto e bom caminho. Tantas hipóteses e, afinal, todo o planeamento foi por água abaixo. Não há Carnaval ... em lado nenhum.

A Foz é sempre uma caixinha de surpresas, de Verão ou de Inverno, com sol ou nevoeiro, com vírus ou sem ele (para quando?). Violando um pouco as regras, a voltinha higiénica foi até lá, com máscara, pela borda da Lagoa, sem encontros pessoais ou policiais, mas com uma descoberta: o dono do barco será, pelo menos, sexagenário. Não lhe perguntei por não o ter visto, mas é fácil adivinhar. Só gente dessa idade se lembrará da artista, alguns ainda dela recordarão canções e poucos se lembrarão das sardas. Hoje, septuagenária, talvez já as não tenha, que a maquilhagem faz milagres e os anos, acentuando muitas coisas, disfarçam outras. A música, essa, já quase ninguém ouve, mas o nome ainda domina a pesca na Lagoa.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Sonhos

Cada vez convivo mais com sonhos. Não aqueles que se têm acordado - esses são de tempos passados - mas os que fazem companhia ao descanso, criando cenários inverosímeis, tarefas incongruentes, viagens fantasmagóricas. Quando acordo, normalmente lembro-me do que aconteceu, verifico o que a mente me mostra e fico perante uma chusma de disparates, sem qualquer nexo, ordem ou razoabilidade. Fui procurar saber os contactos e a morada de Sigmund Freud mas, até ao momento, nem Google, nem Facebook nem Instagram me deram quaisquer notícias  de como lhe chegar, muito embora todos o conheçam e sobre ele falem muito. Vou persistindo e talvez a sorte um dia me chegue, mesmo que aconteça daqui a muitos anos. É sempre tempo de aprender e de ouvir explicações, por mais irracional que pareça o tema.

Nesta noite sonhei que tinha ido à Medicina no Trabalho. Que coisa mais estúpida! A Medicina está toda dedicada ao Corona e o Trabalho já não me perturba nem me tira o sono. Estava a trabalhar , vejam bem, na Baixa de Lisboa e a consulta era no Largo do Calhariz. Dei por mim no carro, a subir a Rua do Alecrim. Em branco ficou o sítio onde a viatura estaria estacionada e o percurso feito até ali. Não cortei à esquerda, para a Rua do Loreto, nem olhei para o Camões e muito menos para o Chiado, vi de relance o cauteleiro da Misericórdia, e cheguei ao Príncipe Real. Parei junto ao pequeno mercado que por lá se faz aos sábados, de manhã, mas não consegui lugar para estacionar.  Os legumes biológicos ficaram para os clientes reais, até porque só era sábado no sonho. Percorri a Rua da Escola Politécnica, devagar e com alguns sobressaltos, e cheguei ao Rato. Virei à esquerda e, num abrir e fechar de olhos, já estava no Jardim da Estrela. 

De novo uma branca no caminho e eis que me apanho estacionado no Largo do Calhariz, onde é proibido parar, quanto mais estacionar. Mas foi lá que estacionei o carrinho, fechei a porta e depois me dirigi ao edifício alaranjado, enorme, onde iniciei, há muitos, muitos anos, a minha actividade na banca. As grandes portas estavam abertas e havia um segurança sentado à secretária, com um computador virado de costas para mim. Identifiquei-me, disse ao que vinha, aguardei o tempo da consulta no computador e ouvi:

- Tem aqui 250,00 € de multa para pagar. Devia ter vindo de manhã, para fazer o electrocardiograma e as análises.

- Mas ninguém me disse ...

- E era preciso? Não está farto de fazer isto? Tem de pagar e pronto!

- Olhe, vá receber ao Totta, retorqui de imediato e ... acordei!

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Lascarino

Era "rodas baixas", de olhos azuis, felinos. Nunca parava quieto e o seu lugar era sempre o pior, sendo o melhor o do outro. Ninguém lhe reconhecia o valor e esse valor era imenso. Irrequieto, perguntava tudo a todos, para não perder nada e impedir que alguma coisa lhe escapasse, por ínfima que fosse. 

Preocupava-se se o chefe não dizia nada, ralava-se se chamava a atenção, comentava "entre dentes" se falava para todos. "Cusco", como convém aos "leva e traz", era descarado a perguntar e conciso na pergunta. A resposta, ele se encarregaria de apimentar e de florear, acrescentando na transmissão a sua verve, o seu parecer, sempre acompanhado do seu pedido ao interlocutor para que não dissesse nada a ninguém. "É segredo!".

Sabia tudo e, quando não sabia, inventava. A única coisa que, verdadeiramente, o preocupava, era a certeza de que os outros o consideravam a única fonte do conhecimento dos bastidores, das cusquices, dos enredos, do que aí vinha, do que já não viria, de tudo e de nada.

A sua propensão para transportar e transmitir era utilizada por quem, antes de tomar decisões, queria saber o que pensavam os destinatários. E ele fazia-o na perfeição, saltando e correndo para que não houvesse ninguém fora do inquérito, sem nunca se esquecer de referir o carácter secreto da pergunta e o arquivamento tumular da resposta.

Um lascarino, diria a minha mãe.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

O Largo

Não há ninguém sentado nos bancos. Todos têm uma fita vermelha e branca, para marcar a proibição e a impossibilidade de, sequer, descansar as pernas. Passam despercebidos ou já ninguém lhes liga, nem sequer os dois ou três cães que por ali vagueiam.

A churrasqueira terá dez/doze clientes a aguardar o franguinho, dispersos, com a distância social e a máscara (ou máscaras) bem colocada. Quem chega, retira a senha do dispensador e aguarda que, através da instalação sonora, gritem o número que possui. No silêncio, o som do chamamento soa mal, roufenho, perturba. Leva a outras paragens, imaginadas, de feiras e romarias, de cobertores e peúgas, de carrosséis e pistas, do poço da morte ao circo. É uma boa maneira de manter os clientes afastados uns dos outros e os chicos-espertos longe. As conversas não acontecem. Cada um vive consigo e quanto mais longe, melhor.

Dos três cafés, apenas um está aberto e só até às 13 horas. Não vende a bebida que lhe dá o nome nem outra qualquer. Vende pão, sopa, jornais, tabaco, raspadinhas e toda a parafernália de jogos da Santa Casa. Tem a fila tradicional, com apenas duas pessoas a aguardar o gong que indica a permissão de entrar. Apenas uma pessoa no estabelecimento, lê-se no cartaz da montra, que também indica o uso obrigatório de máscara. Dos quatro empregados, apenas um está ao serviço e acompanha o dono, no (pouco) trabalho que há para fazer. Apenas, apenas, a penas que não se vêem ...

- É só para manter a chama. Não dá para a luz.

Trago a sopa, encomendada a meio da manhã quando fui buscar o Expresso e trouxe pão. Para manter a chama do óptimo café que lá bebia.

Quando voltará?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Escrita de ouro, que exige redobrada atenção e ... dicionário à mão.

(...) Hipólita herdara bem aquele orgulho da humildade, que se repercutia em toda a sua corte de caseiras e mulheres de recados para quem uma blusa nova era má recomendação, a não ser que se tratasse de festa pascal ou dia de noivado. No Domingo de Páscoa, Hipólita contemplava as suas afilhadas, que eram numerosas, com cortes de chita para que elas próprias executassem blusas, e não esquecia nunca de elogiar o feio resultado, uma espécie de camisões floridos copiados de modas antiquadas.

É certo que em casas como a de Arnaldo Conceição, por exemplo, ninguém se vestia por padrões modernos; e quando suas tias, ainda mulheres novas, apareciam na missa, parecia que o circo estava na aldeia, tanto elas se mostravam completamente ridículas com os seus "corsages" de Verão de organdi com fitas de veludo preto e que tinham sido elegantes quarenta anos atrás. Mas mesmo Rosamaria tinha com ela essa desenvoltura patronal que convida a imitar o que se tem por virtude, incluindo o que a virtude tem de belicoso. As coisas só eram um pouco diferentes com o ramo da família que se aparentara com estrangeiros, com o conde de Wiesel mais exactamente, e que produzira uma geração de gente elegante, "blasée", como Camila Wiesel e César, e Alice, todos estranhos às origens da Casa de Cales. Tinham propriedades bastante importantes que conservavam por uma espécie de humor veneziano ou florentino e que mantinham a peso de ouro. Esses Wiesel eram vistos como exemplo de desordem, mas, ao todo, concediam-lhes um mérito heráldico substancial, porque todo o grande nome tem necessidade da sua excentricidade e mesmo da sua mancha, para assegurar a grandeza que nem só a boa reputação fomenta.

Não se sabe até que ponto a pomposa honestidade dos Alba Pereira se tornou para José uma causa de íntima exasperação. Quando Rosamaria lhe escrevia (cartas que ele adivinhava serem ditadas por qualquer dos amigos comuns, dissidentes da primeira aura política), ele sentia uma extraordinária revolta. Como se uma espécie de traição fosse visível naquele estilo epistolar um pouco balofo e, sobretudo, desusado em Rosamaria. Parecia que ela compunha aquelas cartas como se fosse música sinfónica, orquestrando uma peça musical para um número certo de violas e contrabaixos.

- Para que me escreve ela? - perguntava José, irado. - Parece uma carpideira que deixa à porta da câmara-ardente os sapatos e o coração.

Os meninos de ouro
Agustina Bessa-Luís
Relógio d'Água 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

E se?

E se chove? E se está muito trânsito? E se chegamos atrasados? E se está muita gente? E se não há bilhetes? E se ... E se ..., só desculpas de mau pagador, como diria o outro.

O "malvado" reflexo condiciona tudo e todos e é cada vez mais utilizado para salvaguardar as imponderabilidades que sempre acontecem e as incertezas que, cada vez mais, se acentuam. Também serve para salvaguardar a incompetência ou a pouca atenção dada a um assunto. Isto só não acontecerá se surgir algum imprevisto ...

A economia portuguesa vai crescer este ano menos do que estava previsto. O cenário pode agravar-se se a pandemia continuar, se o turismo não regressar, se o investimento público não acontecer, se ...

E se não se fizessem previsões? Viria mal ao mundo? Fariam falta? Claro que sim! É importante pensar sobre o futuro, sobre o que acontecerá se as premissas de hoje se mantiverem, se não houver nada que altere a situação actual. Mas apresentar previsões como verdades absolutas que depois são desmentidas, não parece racional. E, na maior parte das vezes, com aquele ar enfático de certezas tão evidentes e tão óbvias que, se não acontecer assim, foi por alguma coisa do outro mundo o ter impedido e nunca por deficiente análise de quem debitou o arrazoado. 

São sempre as circunstâncias que, variando, alteraram aquilo que era um trabalho de ciência certa, não passível de discussão nem de dúvida. Se alguém adivinhasse que ia acontecer, outro galo cantaria ...

"O programa pode ser alterado por qualquer motivo imprevisto"

ou, adaptando, talvez seja melhor dizer que "O imprevisto pode ser programa por qualquer motivo alterado".

E se chove?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Passeio confinado

Ainda voltaremos a ter uma cidade agradável, apetecível, espaçosa, arrumada e aberta? 

As obras nas ruas circundantes continuam e parecem trazer alguma coisa mais do que a simples substituição das canalizações. Um pouco mais abaixo, começou a ser delineado o que irá ser um espaço de lazer, que ligará a zona habitacional à zona desportiva, sem "arranha-céus" pelo meio, permitindo que toda a gente possa por ali andar, correr, brincar, desfrutar.

Por enquanto ainda está só no início, lento como convém, e pouco mais tem que os caminhos principais abertos e cobertos de saibro. Já convida a passear e, nesta altura em que as saídas se devem circunscrever aos espaços em volta do local da habitação, sabe bem poder passear por perto e em espaço agradável.

Veremos se fica concluído antes das autárquicas ...