O tempero está garantido! E a comida, estará? E a paz, chegará?
A arte, o humor e a clareza de António fazem parte da rotina obrigatória no Expresso semanal. Em papel, claro!
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
O tempero está garantido! E a comida, estará? E a paz, chegará?
A arte, o humor e a clareza de António fazem parte da rotina obrigatória no Expresso semanal. Em papel, claro!
"(...) Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa em casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso, a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos iriam gostar de melão?
A palma de uma das mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca laser corta até a vida!
Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até à hora da descida. (...)"
Já não bebia água há uma hora e, de acordo com os sábios conselhos expressos pelas entidades que detêm os conhecimentos sobre a matéria, era importante fazê-lo.
Estava distraído a ouvir música e tratando de colocar uma parte dos selos na devida e legível ordem, de forma a facilitar a tarefa de quem os irá cuidar, vender ou mandar para o lixo quando me lembrei dos importantes avisos. Resolvi suspender as tarefas (ouvir música é uma tarefa tão ou mais importante do que tratar dos selos), ir comer qualquer coisa e beber água, muita, que o calor aperta lá fora. Aqui 'tá-se bem!
Liguei a televisão para aproveitar e actualizar as notícias. No estado em que isto está, nunca se sabe o que está a acontecer, o que já aconteceu e aquilo que irá acontecer, para gáudio dos inúmeros e doutos analistas que enxameiam os diversos canais.
Surpresa. Não havia análises, mas antes o debate quinzenal na Assembleia da República.
Enquanto comia e bebia fui ouvindo Luís Montenegro e José Luís Carneiro discorrerem sobre números da saúde, dos combustíveis, dos impostos e dos descontos, com um a identificar a incógnita "x" e outro a contrapor a "Y", com os mesmos números na base.
Amaldiçoei, entre comas, os excelentes professores que tive a Matemática, porque concluí, brilhantemente, que dois e dois afinal não são quatro e que a Matemática está longe de ser uma ciência exacta.
- "Pi"
É apenas uma aproximação!
"(...) Estamos em 2066 e tenho sessenta e seis anos. (...)
Para compreendermos mais depressa o que nos propõe Ava Carina, porque se lembrou disto agora, deveríamos todos ter aprendido com a moda.
Se observássemos como cada vestuário com rasgo de futuro trazia agarrado uma nostalgia, teríamos visto mais cedo como tudo se repete.
A alta-costura foi das primeiras evidências. Imaginação ao serviço de um eterno retorno. Evocações de passados tornaram-se indústrias. Ouçam como cada anúncio de progresso nos diz que isto ou aquilo está de volta. Saudades da pinta das calças e casacos de antigamente, dos cozinhados das avós, dos Natais, das férias da infância com o mesmo grupo de amigos. Os relógios que inventámos andam às voltas. Estamos destinados a tocar como um disco de vinil, que vai por ali fora até termos de o virar. E quando começa o lado de lá, é o mesmo disco que recomeça.
Por isso, quando Ava Carina explicou
- Chamei-as porque sou toda a favor da resiliência, e não aceito que os livros morram
percebi que fomos convocadas por ela como velhos mecânicos aposentados o seriam por um jovem que levanta o capô do carro e não faz ideia do que se passa ali.
Os regressos, as nostalgias. Porque lhes escapariam os regimes políticos? Ava Carina é apenas uma das testas-de-ferro de um novo tempo, e um novo tempo começa sempre por destruições selectivas no edifício que está em vigor.
No entanto (e é nisto que a humanidade é teimosa como a criança que volta ao fogo depois de se queimar) um novo tempo vai sempre beber ao passado, desde que seja longínquo. É um tão clássico quanto esquecido mecanismo de falta de memória, ou melhor, de apagamento progressivo da memória, que costumava durar muitas décadas, mas tende a ficar mais curto.
Nos anos dois mil e picos, era eu uma criança, mais ou menos setenta anos após a exposição ao mundo dos horrores dos campos nazis, começaram a surgir os primeiros arranhões nas juras de que nunca se poderia repetir.
Vocês lembram-se. Surgiram e multiplicaram-se vozes a questionar se teria sido mesmo assim, esse Holocausto de que tanto falam. Se não haveria um folclore exagerado. Chegou a ouvir-se que o sofrimento dos judeus foi pura e simplesmente inventado por uma geração para condicionar as seguintes. (...)"
Dou por mim muito, mas mesmo muito, preocupado!
Como não utilizo nem frequento regularmente as redes ditas sociais e nem sequer sou subscritor da que o "homem da melena" faz uso diário, corro o risco de me tornar mentecapto, com a redução da capacidade intelectual que a ausência dessas fontes de "informação" altamente fidedignas vai certamente provocar.
"A culpa deve ser do Sol"! Tenho de ir atrás da banda ou vê-la passar, ouvindo Chico Buarque!
Não pretendo, longe disso, transformar o blog num obituário ou criar nele uma página da necrologia como, em tempos idos, existia nos jornais. No entanto, perdas há que não resisto a registar, por razões, as mais diversas, que me dizem muito e me dispenso de enumerar.
João Abel Manta ficou a "dois passos" do centenário, mas a sua obra permanecerá por muito tempo, com actualidade e como documento histórico.
Foi há precisamente 20 anos que isto começou!
Numa altura em que tudo foi, e continua a ser, efémero, toda a gente apostaria, singelo contra dobrado, que o projecto (!!!) desapareceria a breve trecho, sem ninguém ter conseguido entender a sua utilidade. Todos os que assim pensaram tinham razão e, volvidas duas dezenas de anos, continuam a ter.
As cinco interrogações que constavam no primeiro post mantêm-se, mostrando que a resiliência (palavrão da moda, importante e chique) não passa de teimosia exacerbada, sem nexo, causa ou justificação.
E por aqui me fico, no dia em que, antigamente, era da festa do "pau caiado" e hoje, muito bem, é o Dia da Cidade.
Quando anoitecer, sentar-nos-emos na Praça 25 de Abril, a ouvir a Banda Comércio e Indústria e Paulo de Carvalho, tal como na noite de ontem presenciámos a banda Némanus e o habitual fogo de artifício, excelente, diga-se.
Haja cadeiras suficientes, que os joelhos (e não só) já têm muita dificuldade ...
Imagens "roubadas" no blog "Duas ou três coisas", do Embaixador Seixas da Costa, sem qualquer autorização. A justificação para a falta de respeito e para o acto em si reside "apenas" no facto de elas serem tão elucidativas do que a guerra faz, ou melhor, do que fazem os homens. E nós cá vamos ... cantando e rindo, como no tempo da "outra senhora"!
POEMA DO HOMEM NOVONiels Armstrong pôs os pés na Luae a Humanidade inteira saudou neleo Homem NovoNo calendário da História sublinhou-secom espesso traço o memorável feito.Tudo nele era novo.Vestia quinze fatos sobrepostos.Primeiro, sobre a pele, cobrindo-a de alto a baixo,um colante poroso de rede tricotadapara ventilação e temperatura próprias.Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,catorze no total,de película de nylone borracha sintética.Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,na cabeça e nos braços,confusíssima trama de canaispara circulação dos fluidos necessários,da água e do oxigénio.A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,um envólucro soprado de tela de alumínio.Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,auscultadores e microfones,e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,luvas com luz nos dedos.Numa cama de rede, penduradada parede do módulo,na majestade augusta do silêncio,dormia o Homem Novo a caminho da Lua.Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,bocas de espanto e olhos de humidade,todos se interpelavam e falavamdo Homem Novo,do Homem Novo,do Homem Novo.Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.Caminhava hesitante e cauteloso,pé aqui,pé ali,as pernas afastadas,os braços insuflados como balões pneumáticos,o tronco debruçado sobre o solo.Lá vai ele.Lá vai o Homem Novomedindo e calculando cada passo,puxando pelo corpo como bloco emperrado.Mais um passo.Mais outro.Num sobrehumano esforçolevanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.Com redobrado alento avança mais um passo,e a Humanidade inteira,com o coração pequeno e ressequido,viu, com os olhos que a terra há-de comer,o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,exactamente como faria o Homem Velho.Novos poemas póstumosAntónio GedeãoEdições João Sá da Costa (1998)
Hoje, sim, é o Dia da Mãe. Da minha!
Nascida há 103 anos, no rescaldo da Primeira Grande Guerra, viveu as grandes dificuldades da Segunda, da qual recordava, muitas vezes, as senhas de racionamento e as necessidades de coser roupa até ao limite. Sofreu, entre muitas outras, as agruras antecipadas de ver um filho na guerra (colonial), o que o 25 de Abril, felizmente, lhe evitou.
Partiu, satisfeita com o que tinha conseguido fazer pelos dois filhos que, por enquanto, ainda a vão recordando e mantendo viva. Teve uma vida difícil, sem um queixume e sempre com agulhas, alfinetes e linhas por perto!
Numa época em que, em profusão, se ouvem atentados à nossa língua "mascarados" de erudição e conhecimento, nada melhor do que ir à estante e pegar num livro antigo, na data, na edição e na beleza.
Foi como poeta que conquistou um lugar cimeiro entre os falantes da língua portuguesa em todo o mundo. A sua modéstia e a "mesquinhez da outra senhora" impediram voos bem mais largos. Também na prosa se revelou enorme, dando-nos livros maravilhosos, dos Bichos à Vindima, do qual se deixa um belíssimo excerto.
"(...) Quando a noite caiu sobre a Cavadinha, espessa e desolada, é que a ausência de Alberto passou a ser um pesadelo.
- Aconteceu-lhe alguma coisa! Ah, isso é que aconteceu! ... - era agora o estribilho da D. Maria Jorge.
Por debaixo da crosta insensível e ressequida, o instinto de mãe irrompia ansioso e vaticinador.
- Que é que lhe havia de acontecer?! - iludia-se o Lopes, a querer ter mão em mais desgraças. - Apanhou uma carga de água, e está-se a enxugar em qualquer parte. Mas há-de ouvir-me! ...
Dizia isto sem convicção nenhuma, apenas para sossegar a mulher e não acordar as forças do mal que tão obstinadamente o perseguiam.
- Não costuma demorar-se tanto ... De mais a mais num dia destes, sabendo que a gente está aqui aflita ...
Foi ainda a Gertrudes que deu a resposta decidida a estas reticências:
- O menino, se não veio até agora, já não vem!
A afirmação tinha tal dureza e tal verosimilhança, que o Lopes assanhou-se de indignação:
- Tu não me faças perder a cabeça, rapariga! Cala-te de uma vez!
Toda a tarde a criada resmungara a pedir socorro para o rapaz. E o Lopes, ao verificar que teria sido melhor mandar procurar o filho a tempo e horas, reagia com violência, sem querer reconhecer o erro.
- Não vem! E nós havemos de ver!
Forte na dedicação, segura nas conjecturas, a moça não se dobrava aos berros do patrão. E este acabou por ceder, numa resposta contemporizadora:
- Tu não estás mais aflita do que nós. Por isso ...
Não era, porém, com frases que a nuvem pesada se desfazia.
- E se mandássemos alguém a Vilela saber se o tinham visto? - propôs a D. Maria Jorge.
- Pode ir. Mas é tolice. Antes de o portador lá chegar, já ele cá está ...
Tentava iludir-se e iludir o destino.
- Deus te ouvisse ...
Pressurosa, a Gertrudes saiu a chamar dois homens à cardenha, e acompanhou-os até ao fim do terreiro a recomendar-lhes pressa e zelo. Naquela incerteza, o seu coração feminino era uma dobadoira de ternura.
- Se eu fosse mulher, ia também! (...)"
Sentou-se na cadeira indicada no bilhete, verificando a correcção antes. Era ali, sem dúvida. Telemóvel na mão, a companheira sentada na cadeira ao lado, cenho franzido, nenhuma outra manifestação de prazer ou repulsa.
Acabadinho de aliviar as pernas, o indicador começou a percorrer o ecran e, com som ou sem ele, os sorrisos passaram a suceder-se. As luzes, intermitentes, davam sinal de que o início do espectáculo estava para breve. E a voz off avisava:
- O espectáculo vai começar dentro de momentos. Por favor, desliguem os telemóveis. É proibido fotografar ou gravar. Bom concerto.
A ordem era inequívoca, mas o aparelho continuou na mão. Vai desligar quando a música começar, pensei. Não aconteceu. Mexi-me na cadeira, deitei descaradamente os mirones. Nenhuma reacção. E o scroll continuava, apesar de a música ser contagiante e apelativa. Tudo na mesma, como a lesma. Impassível na cadeira, nem uma única vez bateu palmas. A companheira, ao lado, ainda ia aquecendo as mãos, de vez em quando. No final, o público aplaudiu de pé, pediu mais, acentuou os aplausos até obter a confirmação de que ainda havia, pelo menos, mais uma.
Permaneceu impassível. Continuou os movimentos com o dedinho e sorria de satisfação.
O "artista", seguramente com mais de 50 anos, assistiu com este desinteresse a um excelente espectáculo musical, integrado no 29º. Festival de Jazz do Valado.
Comprou bilhete para quê? Podia ter ficado em casa e dava lugar a outro ...
Comemoração? Nada melhor do que o "retrato" desse trabalhador incansável que, vinte e quatro horas por dia (mais a noite, diria ele) não se cansa de contribuir para a melhoria do (seu) mundo.
A arte de António, no Expresso de hoje!