quarta-feira, 17 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Não identifica uma altura exacta em que a banca começou a mudar para ele, sempre esteve em mudança, desde as fichas e fichinhas, passando pelos computadores de 256K ou as fitas de banda magnética com três pistas (que mais tarde dariam origem aos terminais de POS) e chegando, nos séculos XX e XXI, à digitalização, às comunicações, aos chipes e à inteligência artificial. Diz que a banca conseguiu fazer o aproveitamento da tecnologia, especialmente do avanço das comunicações: <<Foi como passar de um caminho de cabras para uma autoestrada. No resto, a banca é como tudo, vivia sob regras, listas de antiguidade, espírito de equipa, mas sem carneirismo. Havia um lado humano, protetor, mas sem ter o pastor lá do sítio. Alguns colegas atravessavam dificuldades e havia sempre maneira de ajudar. Tinha-se mais vida social. A maior parte do pessoal estudava à noite e por isso cruzavam-se em sítios distintos, no banco e na escola. A partir dos anos 2000, isso perdeu-se.>>

 (...) Conheço-a há muitos anos, somos amigos de longa data. Convidei-a para dar o seu testemunho, certo de que as suas palavras acrescentariam luz e verdade a estas páginas. Respondeu-me pelo WhatsApp. Li a mensagem de um fôlego, e soube logo que não poderia existir melhor forma de terminar este livro. Não porque fale, mas precisamente porque recusa falar. Porque a recusa, com todas as feridas e silêncios que arrasta, é também um retrato fiel daquilo que aconteceu a uma geração inteira de bancários neste país.

<<Eu não sei se quero participar, Luís ... Optei por fechar este capítulo em definitivo, o mais possível, porque em absoluto não é possível. Voltar a "abrir" não é algo que tenha vontade. E de que é que nos vale ou adianta a exposição? Vale zero!  Nunca ninguém se interessou por nós, pela hecatombe que foi nas vidas de muitos de nós. Eu, para viver com dignidade mínima e pagar as minhas contas, trabalho numa actividade que está na base da pirâmide social, com tudo o que acarreta. Não é "vergonha" nenhuma, mas não era a minha expectativa de vida, não foi a minha projeção de vida nem para o que trabalhei. Não tendo estabilidade no rendimento mensal, tive de antecipar o pedido de reforma ao abrigo do desemprego de longa duração. Do Fundo de Pensões recebo 330 euros e da Segurança Social 506 euros, para 38 anos de carreira contributiva, no total. Eu não quero falar da banca, nem do banco, nem de despedimentos, nem do que seja. Não fiques aborrecido comigo, mas a única interação que tenho com o banco é o pagamento da casa no dia 23. E, agora, os 330 euros que me pagam por 25 anos de trabalho. Ninguém quis saber. Ninguém quer saber. O modelo de cálculo das reformas é algo de tão surreal! É um roubo autorizado e legalizado. É o lançar para os parâmetros da pobreza quem sempre trabalhou, produziu e contribuiu, quem educou filhos e investiu na formação das gerações mais bem preparadas que este país alguma vez teve. Não há um tribunal que nos dê razão, que nos oiça, que nos valorize e devolva a possibilidade de uma velhice digna. Para se sobreviver a isto, só "arrumando" o assunto. É o que tento fazer, pelo menos de há uns dois anos a esta parte. E não quero reabrir essa "gaveta" ...>>

Bancários
Luís Bento
Fundação Manuel Francisco dos Santos (2026)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cinismo

O que qualquer pessoa de bom senso desejaria e esperaria era que OMAR ARTAN fosse o árbitro da final do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026, que ontem se iniciou no México, Estados Unidos e Canadá.

Vindo de um país situado nos degraus mais baixos da escada (em tempo apelidado de lixo por essa inteligência rara que manda nos USA), foi considerado o melhor árbitro de África em 2025. A sua participação seria um espelho onde toda a gente que por lá nasceu decerto se reveria com muito orgulho e com a certeza de que o local de nascimento não é um ferrete indelével.

Não aconteceu! O homem da melena impediu-o de entrar por vir da miséria e não pertencer ao escol do "cacau". Imagine-se o risco que ele correria se o homem desse uma lição de arbitragem e mostrasse que, afinal, o berço impede muita coisa mas não trava tudo.

Esperar-se-ia uma reacção forte das entidades responsáveis e dos colegas de profissão. Nada! Toda a gente se calou, a bem do "desporto" e do "cacau"!!!

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cansaço

Apetecia-me tanto escrever sobre guerra, drones, carros de combate, ordem unida, pista de obstáculos, pórtico, detentor do cão, rancho, formatura, divisas e galões, aviões, balas normais e tracejantes, mísseis, pára-quedas, corvetas, cornetas, porta-aviões, defesa anti-aérea, granadas, metralhadoras, continências e manejo de armas, tiro, valas, trincheiras, minas, mas estou cansado ... e convencido que sou um nabo azucrinado pelo homem da melena e pela corte de apaniguados que religiosamente o segue.

Reduz-te à tua insignificância e aguarda, serenamente, que te peçam umas "lecas" para comprar os imprescindíveis F-35!

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

É por estas e por outras que continuo a ler, mantendo a teimosia de há tantos, mas tantos anos. E continua a valer a pena ...

"(...) Depois de decidir que deveria conquistar o segurança mudo através da narração dum conto, minimizando o gesto impulsivo e suspeito que tive com a porcaria do plano dos caroços de pêssego - que me dá esperança na mesma medida em que me oferece desespero - e tentando ir mais longe e sensibilizá-lo para a minha causa revolucionária, este foi o passo que dei no sentido de seduzir um inimigo que à partida deveria estar do meu lado, pois ambos sofremos, e de que maneira, com a ditadura e com a esquálida potestade.

Estando ele no seu posto, estaquei à sua frente antes de me dirigir para a bancada e pegar na faca serrilhada.

Comecemos, silencioso Dimitar, por cortar o pão em treze fatias:

O pão, prima fatia, é o alimento básico por excelência. <<O pão nosso de cada dia>> tornou-se sinónimo de vivência. É símbolo do que é necessário, do mínimo vital.

O pão, segunda fatia, é fruto do labor: semear, colher, moer, amassar, cozer. É metáfora do esforço, da fadiga e da dignidade do trabalho. Receberás o pão com o suor do teu rosto. A primeira troca comercial foi feita assim: pão em troca de suor.

O pão, terceira fatia, sendo facilmente repartido, simboliza fraternidade. Partir o pão é gesto de união. <<Companheiro>> vem do latim cum panis, aquele com quem se partilha o pão.

Quarta fatia: oferecer pão é acolher. Na Bíblia, nas epopeias clássicas, no mundo camponês, o pão é o sinal do hóspede recebido.

Aliança com o divino é a quinta fatia. No Antigo Testamento, havia o <<pão da proposição>>, no Templo de Jerusalém. No cristianismo, o pão da Eucaristia é o corpo de Cristo, alimento sagrado que une humanos a Deus.

Simplicidade e humildade são a sexta fatia. O pão é alimento dos pobres, básico, a descrição da ausência de qualquer tipo de luxo. Por isso, simboliza a humildade, a sobriedade, a essência. Até Deus se esconde no pão, pois não há nada mais humilde, mais comum, mais fundamental. É no formato de pão que ele se deixa devorar na Eucaristia.

O pão, sétima fatia, é justiça social. Falar de pão é falar de desigualdade e de fome. <<Pão e trabalho>> foi lema popular. O pão simboliza os direitos do povo.

Ressurreição e renovação compõem a oitava. O pão é feito de grão triturado e morto que, ao fermentar e ser cozido, se transforma em algo novo e nutritivo. (...)"

A cozinheira do ditador
Afonso Cruz

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Chapéus de praia

De acordo com o Público de hoje, a Herdade da Comenda intentou uma acção contra o Estado e a Agência Portuguesa do Ambiente, reclamando-se detentora de 5 (cinco!) praias da zona da Arrábida que "estão no domínio particular (privado) e não no domínio público marítimo", o que as torna, sem qualquer dúvida, sua propriedade.

Talvez por deficiência de capacidade intelectual, não consigo entender a necessidade de recorrer à Justiça, sempre inundada com trabalho, com um direito que todos deviam aceitar ter sido adquirido há séculos e não merecer qualquer contestação. O seu a seu dono ... e o Estado devia cuidar disso.

Difícil é compreender que o maralhal queira e se ache no direito de frequentar o mar, exibindo os seus dotes natatórios e os seus corpos curvilíneos, sem respeito pelo passado, pelas tradições e por quem manda.

Ironias à parte, não será isto o desencadear de um processo a estender por toda a costa, tornando cada vez mais o mergulho na água salgada um "objecto" de luxo, acessível apenas a quem detém o pedigree necessário? Esperemos que não! Já haverá por aí muita gentinha de sorriso aberto, aguardando tempos novos que lhe acabem com o castigo de ser incomodada no seu merecido lazer.

- Cala-te, palerma! Chapéus há muitos!

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Rotina semanal

O tempero está garantido! E a comida, estará? E a paz, chegará?

A arte, o humor e a clareza de António fazem parte da rotina obrigatória no Expresso semanal. Em papel, claro!

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa em casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso, a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos iriam gostar de melão?

A palma de uma das mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca laser corta até a vida!

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até à hora da descida. (...)"

Olhos d'água
Conceição Evaristo

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Aproximação

Já não bebia água há uma hora e, de acordo com os sábios conselhos expressos pelas entidades que detêm os conhecimentos sobre a matéria, era importante fazê-lo.

Estava distraído a ouvir música e tratando de colocar uma parte dos selos na devida e legível ordem, de forma a facilitar a tarefa de quem os irá cuidar, vender ou mandar para o lixo quando me lembrei dos importantes avisos. Resolvi suspender as tarefas (ouvir música é uma tarefa tão ou mais importante do que tratar dos selos), ir comer qualquer coisa e beber água, muita, que o calor aperta lá fora. Aqui 'tá-se bem!

Liguei a televisão para aproveitar e actualizar as notícias. No estado em que isto está, nunca se sabe o que está a acontecer, o que já aconteceu e aquilo que irá acontecer, para gáudio dos inúmeros e doutos analistas que enxameiam os diversos canais.

Surpresa. Não havia análises, mas antes o debate quinzenal na Assembleia da República. 

Enquanto comia e bebia fui ouvindo Luís Montenegro e José Luís Carneiro discorrerem sobre números da saúde, dos combustíveis, dos impostos e dos descontos, com um a identificar a incógnita "x" e outro a contrapor a "Y", com os mesmos números na base.

Amaldiçoei, entre comas, os excelentes professores que tive a Matemática, porque concluí, brilhantemente, que dois e dois afinal não são quatro e que a Matemática está longe de ser uma ciência exacta.

- "Pi"

É apenas uma aproximação! 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Mentirinhas

P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade!

António Aleixo

  • Afinal, a União Europeia rejeitou quaisquer responsabilidades no caos que se instalou nas entradas dos aeroportos portugueses, por mau funcionamento do sistema de controlo biométrico;
  • Afinal, Portugal autorizou "de cruz" a utilização da Base das Lages, conforme afirmou o Secretário de Estado americano Rubio ... sem corar;
  • Afinal, por muito que custe a Paulo Rangel, a terra é redonda e a mentira, tal como ele, tem perna curta!