sábado, 22 de agosto de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Por vezes, pergunto-me como cheguei aqui? Vivo como tantos outros, sem crença. Subi na vida, arranjei um emprego estável, de grande responsabilidade que pode contribuir em boa medida para uma Europa mais coesa e mais unida e não vejo resultados concretos de nenhuma das estatísticas que compilei, de nenhum dos dossiês de consultadoria que preparei, sobre arte e cultura, sobre cidadania, imigração, sociedade, associações juvenis ... Todos os anos ganho um prémio e sou aplaudida pelos meus esforços e todos os anos me sinto um pouco mais fundamental na manutenção de uma máquina de locomoção que se alimenta e se põe a brilhar para se manter parada. Nada se move. Tudo se transforma. Lá fora. Sem mim. Sem nós. E, nós, adaptamo-nos a esta vida de museu. Habituamo-nos a tolerar as pequenas frustações quotidianas e a engolir sapos. Isolados para evitar o confronto com a apatia diária. Falamos muito, fazemos pouco e, com o tempo, vamos negando também as ideias que temos, esquecendo, devagarinho, cada qualidade que já tivemos e em tempos reconhecemos como fundamentais nos outros. Abraçamos a desilusão, porque agasalhados.

Vivo como se o desencanto fosse um xarope que me permite aguentar cada dia como uma tormenta à qual assisto da janela com vidros duplos. Sou um desequilíbrio entre o meu sentido da realidade, e não tardarei muito em esquecer-me por completo de quem já fui. Já dou por mim a usar frases como: <<É sempre assim, toda a gente faz o mesmo, de que estavas à espera? Não te chateies que ninguém dá por nada, para quê pensar nisso? Vai-se andando.>>

Por vezes, pergunto-me se alguma vez fui inteira. Decente. Será que só temos princípios quando não precisamos de os praticar? Quando os dilemas estão tão distantes que não causam qualquer desconforto? Vivo numa época que oscila entre aqueles que, para manterem o poder, impedem a mudança e aqueles que aceleram a mudança para garantirem que, um dia, é a sua vez de ascenderem ao poder. E, no meio, responsável pela permanente instabilidade dos pratos da justiça, estou eu, parte integrante de uma minoria privilegiada que passa o seu tempo livre fechada em salas com reposteiros de veludo vermelho a discutir questões geopolíticas de taça de champanhe na mão, exibindo uma inquestionável confiança nas suas opiniões, enquanto lá fora, a Terra treme, treme, treme, num terramoto que começou em Lisboa, em 1755, e nunca mais parou. (...)"

Hoje, 3 de Maio
Patrícia Portela
Caminho (2026)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Salt(e)ador

Sabe muito bem, semanalmente, abrir o Expresso e surgir a capacidade artística e crítica de António!

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Recantos

A esta hora, os patos já estarão a caminho do Paul de Tornada, onde têm "hotel" fixo e vitalício. Os flamingos encostam-se por aqui, lá bem ao fundo, resguardando-se do vento e da humidade nocturna.

Amanhã continuarão o amigável convívio, sem perturbação humana e congratulando-se por habitarem um sítio que (ainda) se mantém discreto e pouco conhecido das "massas".




terça-feira, 18 de agosto de 2026

Nostalgia

Numa época em que a conversa caminha, inexoravelmente, para a extinção qual lince da serra da Malcata, surgem uns "teimosos" na praia que se vão esforçando por mantê-la, seja recordando tempos idos seja comentando o que por aí vai, "mercadoria" que é tanta que nem um atrelado chegaria para lhe dar o acondicionamento devido.

Cada vez é mais difícil consegui-lo mas vamos tentando ...

- Lembras-te de ... espera aí que tenho uma mensagem no "telélé".

Daí a pouco, com o assunto tratado e a resolução a aguardar por tempo oportuno (não há pressa), volta o tema das lembranças.

- E os gelados do Ti Pacheco? E os barquilhos? Já não recordo como se chamava o homem ... girava-se uma roleta ...

- Mas isso foi há mais de 60 anos!

- E depois? Não é bom a gente recordar. Lembro-me como se fosse hoje. Melhor, bem melhor, que o que fiz há bocado já se varreu ...

- Este ano nem parece a Foz! Não me lembro de um ano assim tão bom ...

E tem sido, de facto. Ou a memória já varreu os outros?

A caminhada continua pela areia, única, até à aberta. A ponta do mastro do barco afundado está à vista, mas não se consegue lá ir.

- Este ano não conseguimos a foto junto dele ...

A maré está a vazar e a corrente é forte. Inicia-se o caminho inverso, colocam-se os chapéus e os óculos junto das cadeiras e ... vamos ao mergulho. Já não é como antigamente mas, este ano, já foram muitos com água "algarvia". Melhorou a água, diminuiu a elasticidade.

É a vida!!!

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) No Bairro Alto, a lua vislumbra-se entre edifícios altos que, ininterruptamente, rasgam o céu. Em certas ruas, mais amplas, é até possível decifrá-la, solitária, sem estrelas à volta, que nas cidades com gente e luz em excesso não se dá conta do brilho dos outros astros. Os pequenos pontos que, em terras de ruralidade, dão graça ao céu negro não se permitem ver nas urbes, sempre bastante alumiadas. Nuvens também não as há. A noite é de lua cheia.

Nas vielas que encobrem a ténue luz municipal apenas se avistam sombras que passam apressadas. Outras, menos atrasadas para os seus boémios encontros, seguem com mais vagar. Todas, porém, transportam um copo na mão, quase sempre de cerveja, aqui e acolá um gin tónico, escolha de uma personalidade mais excêntrica. Talvez o diretor criativo de uma agência de publicidade ou uma atriz. Por vezes, arrisca-se um copo de vinho. Que elegante! As delicadas mãos que o seguram deverão ser de uma pintora. Ou de um dramaturgo, quem sabe. De uma cardiologista, não? Cabe o mundo no Bairro Alto. Cabe todo o álcool do mundo no Bairro Alto. E cabe ainda quase todo o ódio do mundo no Bairro Alto.

Não só a lua cheia se fez convidada naquela amena noite na capital. Um grupo de jovens carecas vestidos de preto e munidos de tacos de basebol, soqueiras e navalhas movimenta-se, ruidosamente e em matilha, rua abaixo, rua acima, estacando apenas quando o depósito de combustível acende a luz da reserva. Aí, enchem-no com cerveja, desaparecendo a luz do tanque vazio, permanecendo acesa aquela que sinaliza o ódio que vive confortavelmente nos seus corações.

Ouvem-se ao longe. As botas que calçam fazem estremecer a já matraqueada calçada alfacinha. Quem os vê aproximar muda de faixa. Os que não têm tempo para o fazer encostam-se à parede, fingindo nada ver e até apreciar a marcha. Alguns impropérios - bastante tímidos - são arremessados, mas ao longe, com pouca se não nenhuma eficácia. O bando de jovens carecas não lhes dá importância, ignoram, procuram caça grossa, não um grupo de bêbados com ar de quem habita as melhores casas da Estrela e da Lapa.

Betos!

Grita um dos carecas, revelando os seus bonitos e saudáveis dentes, orgulhoso de verbalizar perante o grupo informação que destapa o seu conhecimento relativo à demografia lisboeta. Como se exige a um feroz nacionalista nascido na capital. Outro, de discurso não tão elevado, ou pouco importado com a riqueza lexical àquela hora da noite, prefere identificar o alvo, excluindo o resto da existência humana:

Hoje é só pretos! (...)"

Foi o preto
Ângelo Delgado
Oficina do Livro (2026)

domingo, 9 de agosto de 2026

Flagrante

"A vergonha passei-a eu", não por ter ficado com as calças na mão como o Zambujo quando canta as palavras de Maria do Rosário Pedreira, mas por ter partido a cadeira, emprestada, e caído na areia lustrosa, e quente, da praia do Porto Santo. 

E como é difícil a um velho, desajeitado, "sobreviver" ao riso que dele se apodera quando se vê esparramado, sem força nem jeito para se levantar, apesar do apoio de quem, solícito, se apressa e dispõe a dar uma ajuda benfeitora, redentora e remissiva dos eventuais pecados cometidos.

Valeu que não havia câmaras por perto e, pelo menos que se tenha dado por isso, não há registos nas redes ditas sociais nem na CMTV. Mas ninguém pode garantir que um qualquer "repórter" desses que inundam a via pública não tenha já dado publicidade ao acontecido.

A coitada da senhora, que se condoeu com as dificuldades "colunais" de um ancião leitor sem cadeira na praia, confirmou que os ditados populares são verdades insofismáveis: "Quem empresta nunca melhora!" 

sábado, 1 de agosto de 2026

A caminho ...

E vão cinquenta!

A partir de agora, é só ter paciência e aguardar por mais meio século.

Até lá, os influencers descobrirão a nomenclatura das bodas, homenageando o metal que, nessa altura, terá substituído o oiro.

Cá estaremos para ver!!!

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Autoridade e sapiência

Registe-se que Julho está a chegar ao fim, depois de ter proporcionado uns belos dias de sol na Foz, com banhos de água tépida e mar calmo, elementos fundamentais para quem já leva muitos "quilómetros".

Talvez o Oeste tenha sido empoderado (palavrão "roubado" ao discurso justificativo do Ministro) pelas correntes algarvias (ou odemirenses) e se torne um paraíso ainda melhor. Veremos ...

Tal como o céu oestino, também ontem ficou "clarinha" a problemática do tanque que virou piscina, do atrelado "armazenado" de borla, em nome da solidariedade para com o país, justificado pela falta de cabimento orçamental para as despesas. Afinal, ainda há portugueses que se preocupam com a nação e a sua capacidade financeira!

Com tudo isto, constata-se que há necessidade imperiosa de deixar de pensar, devendo toda a gente dedicar-se a ver diariamente os "Big Brother". São muito mais eficientes no "cultivo" das massas e trarão resultados incríveis a curto prazo.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Palavras bonitas

Há um dizer ainda não dito,
Uma mensagem secreta que não se cala,
Um escondido e encriptado segredo
No voo das aves num voo aflito
E no arrastar da voz na minha fala
Como pio crente rezando o credo.
Um sinal, um novo astro no firmamento,
Augúrios que sempre estão presentes
Quando se esperam tempestades e inquietações,
Um esquivo felino deslizando lento
Por dentro do silêncio e noites quentes
E abafantes angústias de todos os Verões.
E o dizer que dizer preciso
É um dizer cercado de urgências,
Antes que no pântano reste lodo apenas
E se dissolva de vez o eco desse riso
E os negros corvos com asas de demências
Escorrendo vivas das negras penas.

Onde ondeiam as ondinas
Lino Sebastião
cordel d'prata (2026)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Nevoeiro

Ainda não é tempo de chuva, muito menos de geada ou de neve nas terras altas. E esta coisa de não ser tempo de algo tem que se lhe diga. É muito importante e deveria estar na cabeça, e nas atitudes, de todos nós, mas não é fácil.

Realizar tudo no tempo devido permitir-nos-ia ser impecáveis, sem erros nem omissões, criaturas perfeitas, dignas de figurar nos anais e de ser invejados pelos vindouros.

Porém ... quem nunca fez nada errado que "atire a primeira pedra", não sem antes rever, segundo a segundo, toda a sua "exemplar" vidinha para evitar que a pedrinha lhe parta a cachimónia. Se "errar é humano", qual é a dificuldade de achar o tempo próprio para confessar o erro, pedir a desculpa devida, clarificar a causa e a justificação, e garantir que vai tentar não repetir o mesmo.

Começa-se em criança, prossegue-se em jovem, repete-se em adulto e, velho, idoso ou ancião, sabe-se que, de vez em quando, "arroz queimado".

Tudo parece simples, sem necessidade de um qualquer workshop ou mentor de autoajuda. Quando muito, dorme-se uma noite sobre o assunto e, no dia seguinte, explicita-se, clarinho, a asneira feita, esteja sol radioso ou chovam picaretas.

Mães, pais e outros educadores sempre ensinaram isto, mesmo no tempo em que a "galheta" servia para memória futura. 

Os tempos são outros e, por isso, o país vai aguardando (ansiosamente ou talvez não) que o tempo da explicação da piscina e do atrelado do senhor Ministro da Administração Interna surja nem que seja numa manhã de nevoeiro com a que hoje estava na Foz.