quinta-feira, 19 de março de 2026

Dia do Pai

Hoje é o dia de todos os pais, incluindo um especial: o meu! Se (ainda) por cá estivesse, comemoraria o seu 104º. aniversário. Nas palavras de Torga, sempre actuais, fica a homenagem devida. 

VOZ DE COMANDO

Amanhece.
Erguei-vos, corpo e alma, combatei!
Juntos, como num rio
Águas da planície e da montanha,
Aliados, correi
à batalha do mundo, que se ganha
No mundo.

Mundo cruel e duro, mas que eu amo,
Apaixonado pelos seus encantos.
Visito-lhe os recantos,
Sonho um abraço que o abarque todo.
De vez em quando há lodo
Nos baixios,
Mas olho os montes, limpos, preservados
Na sua altura.
E renasce-me a esperança ao vê-los debruados
De rebanhos e neve - a máxima brancura.

Penas do Purgatório
Miguel Torga
Coimbra (1954)

segunda-feira, 16 de março de 2026

16 de Março de 1974

Cada vez mais são as recordações antigas que emergem à memória, trazidas com muito mais nitidez do que aquilo que foi feito há momentos.

- O que queria eu daqui? Não consigo lembrar-me! Não deve ser nada importante ...

E passa-se adiante.

As memórias do sábado 16 de Março de 1974 permanecem bem vivas em quem tinha umas "luzes" sobre o que, inevitavelmente, iria acontecer mas não era esperado para aquele dia. Ainda por cima, sábado!

Aconteceu e a pressa custou uns bons dias de grelha a quem, decidido, arriscou. Não foi possível, não deu nada, "reinava a ordem em todo o país", mas estava escrito nas estrelas ...

Contado agora aos mais novos, até parece que foi uma brincadeira. Não foi! Custaria caríssimo aos intervenientes se a "liberdade não passasse por aqui" no mês seguinte.

A viagem das Caldas para a capital abriu portas. Cinquenta e dois anos depois, espera-se que o Presidente da República, que a repete diariamente, seja Seguro e assegure que elas se mantêm abertas. 

domingo, 15 de março de 2026

Palavras bonitas

O meu amigo Lino Sebastião resolveu, agora que as suas Primaveras já ultrapassaram as oitenta, publicar em livro os poemas que lhe vão na alma, no coração e na memória.

Quatro livros já estão acessíveis a quem gosta de poesia e há mais na forja. A mim, que sou um privilegiado, chegam-me em mão mal saem da editora, oferecidos e com dedicatória para a posteridade.

Perdido de um tempo antigo
Fico submerso na saudade,
Palavra que digo
Como se em mim dissesse
Pássaro, flor, eternidade
E todo o tempo contivesse,
Nesse espaço,
Inicial e puro,
O côncavo maduro
De um abraço.

Palavra a subir por mim
Os caminhos pedregosos dos dias
E feita clarim
A anunciar 
O despertar
De antigas nostalgias.

Do longe e da ferida
Lino Sebastião

quinta-feira, 12 de março de 2026

Mário Zambujal

Não quero que isto se transforme num obituário, mas ...

Partiu hoje, aos 90 anos, mais um cujos livros fazem parte da estante há muitos anos. Até "O último a sair", o mais recente, já lá está arrumado e foi lido de um fôlego, tal como todos os outros. São dezanove!

Mário Zambujal faz parte das memórias do jornalismo, do Mundo Desportivo à RTP, do Diário de Notícias ao Sete e ao Tal e Qual. Mas o seu primeiro livro foi, é e será sempre um maravilhoso retrato deste povo que somos nós. E que se lê sempre!

"(...) Tinha havido uma queixa. Dois cidadãos, pessoas de respeito, como muito bem se verificava no trajar e nos documentos exibidos, haviam solicitado à autoridade a detenção de duas mulheres, <<às vinte e três e trinta e cinco do dia 9 de Março, no Campo Mártires da Pátria, sob a acusação de lhes terem furtado, dois dias antes, 7 de Março, um alfinete de gravata e um isqueiro, tudo avaliado em seiscentos e cinquenta escudos>>, assim rezava o relatório.

<<Foram elas!>>, afirmaram, peremptórios, os dois, sem dúvida nenhuma. O subchefe da Polícia fitou as presas e ficou à espera. Então, Lina Despachada voltou a abrir a mala preta de plástico, tirou um alfinete e um isqueiro, mostrou-os bem na mão espalmada e desafiou:

<<São estes?>>

Aparvalhados, os queixosos mais não fizeram do que sim com as cabeças e já a acusada se virava para o subchefe da Polícia, cada vez mais desgostado da cruzada que escolhera na vida.

<<Para já, senhor subchefe, aqui a miúda não tem nada que ver com o caso. Ela nem soube que eu guardei esta porcaria. Guardei, disse bem. Guardei de penhor - de penhor, ouviu? - porque esses grandes filhos da puta, peço desculpa senhor subchefe, filhos de meretriz, queria eu dizer, serviram-se e não pagaram. Os grandes vigaristas! Ainda por cima umas tristezas na cama, um frete, um desconsolo, ai senhor subchefe só queria que visse. Então eu saquei-lhes isto de penhor: têm de nos dar os sessenta paus a cada uma, mais os setenta da pensão. Se quiserem, está claro. Se não quiserem vou direitinha pedir a massa às mulheres deles, já descobri as moradas. Ai queridos, tenham paciência: vou cobrar lá a casa, eu não dê mais um passo! Ando há vinte e seis anos nesta vida e ainda não houve um filho da puta, perdão senhor subchefe, de meretriz, que se ficasse a rir da Lina Despachada. Agora vocês resolvam ...>> (...)"

Crónica dos bons malandros
(da palma da mão à ponta da unha)
Mário Zambujal
Livraria Bertrand (1980)

quarta-feira, 11 de março de 2026

Vivências

Ainda bem que está "arrumada" bem lá no fundo da gaveta da memória histórica e já só "meia dúzia" dela se lembram. O 11 de Março de 1975 é uma data só recordada por alguns "antigos" que a viveram por dentro e não a esquecem.

Acabou por ser pouco mais do que uma brincadeira - vista com os olhos de hoje -, mas por cá ficou. Imagine-se o que acontecerá na cabeça daqueles que, hoje, continuam a ser sobrevoados, bombardeados, "dronados", minados, atormentados sem apelo nem agravo e sem dó nem piedade.

- O Spínola 'tá maluco! Nem uma pistola tenho ...

terça-feira, 10 de março de 2026

Dúvidas

Acabam dentro em pouco!

Estão quase resolvidas!

Os objectivos estão em vias de ser alcançados!

Foi praticamente destruída a capacidade de resistência dos inimigos!

A vitória está mesmo muito próxima!

Morrem muitos, morrem poucos? Apenas pormenores despiciendos!

Se não existissem as guerras, o que seria da indústria das ditas?

E quanto sofreria o PIB de alguns países?

E as contas bancárias de algumas "trutas"?

Dúvida existencial: orçamento rectificativo ou aumento de impostos?

Não há razões para alarme. O mundo está sossegado, tranquilo, a paz garantida. O Conselho de Segurança da ONU foi presidido pela elegante, esforçada e diligente esposa do homem da melena!!!  

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Ontem"

Os tempos eram outros, muito, mas mesmo muito, diferentes. Vivia-se a utopia, o sonho, a vontade de fazer e de mudar, a esperança dos dias melhores a chegar, com o "escadote" acessível a todos os pés.

A informática era pequenininha, a grande maioria dos carros tinha direcção assistida "a braço", a televisão aguardava ansiosamente pela cor e pela proliferação de canais, a auto-estrada começava em Vila Franca de Xira para quem se deslocava à Capital e nos Carvalhos para quem se dirigia à Invicta. Tudo era urgente, imperioso, importante e fundamental. Ninguém falava em partos assistidos pelos papás, licenças parentais ou de amamentação.

O dia de trabalho foi tenso, antecedido pela "entrega" da mãe no Montepio, com a ânsia e o desejo de uma "boa hora". À hora do almoço tudo permanecia idêntico, apenas com o conforto da visita do médico e a quase confirmação da inevitabilidade da cesariana.

O expediente encerrou e uma autorização, especial, permitiu uma saída antecipada e a deslocação em corrida - era perto e bom caminho. O telemóvel nem em sonhos ...

Tinha acabado de nascer o meu primeiro rebento, era uma menina e a mãe ainda dormia, recuperando da intervenção.

- É linda!

Estava ali, a pouco mais de um metro, embora com o vidro do berçário a separar-nos.

Quarenta e oito anos decorridos, nem o vidro nos separa!

PS - Uma vez mais, um Presidente da República toma posse no dia do aniversário da minha "menina". Que Seguro seja um bom Presidente ... tem muito trabalho pela frente.

sábado, 7 de março de 2026

Palavras bonitas

A minha irmã cumpre hoje a sétima capicua e, como eu ainda por cá não estava, no dia seguinte Torga publicou no seu Diário um poema a saudar a sua vinda ao mundo.

Coimbra, 8 de Março de 1949

DEPOIS DA CHUVA

Abre a janela e olha!
Tudo o que vires é teu.
A seiva que lutou em cada folha,
E a fé que teve medo e se perdeu.

Abre a janela e colhe!
É o que quiser a tua mão atenta:
Água barrenta,
Água que molhe,
Água que mate a sede ...
Para que haja um sorriso na parede!

Diário IV
Miguel Torga
Coimbra (1973 - 3ª. Ed.)

Exactamente um mês depois, salvaguardando o excesso de optimismo que podia transparecer do primeiro, deixou-lhe um aviso para a vida que estava a iniciar ... e nem sequer a conhecia.

Coimbra, 7 de Abril de 1949

EXAME DE CONSCIÊNCIA

Por tudo passa o artista:
Primeiro, pela alegria
De se julgar criador
No seio da natureza;
Depois, por esta tristeza
De ver morrer o que fez,
Sem ter nas mãos a certeza
De erguer o sonho outra vez.

Diário V
Miguel Torga
Coimbra (1974 - 3ª. Ed.)

sexta-feira, 6 de março de 2026

De caras ...

(Ainda) vale a pena estar atento ao que, fora da caixa, se vai produzindo por aí.

Os Cara de Espelho já passaram cá pelo Oeste, como ficou aqui registado. Ontem, foi a Culturgest a dar esse privilégio ou, talvez melhor dito, a proporcionar um grande espectáculo a todos os que encheram aquele lindo auditório.