sábado, 11 de novembro de 2017

Livros (lidos ou em vias disso)

António Lobo Antunes de novo na guerra colonial, para mais um excelente livro que se lê, ou melhor, se esmiuça e digere com paciência, muito prazer e a certeza de que escrever tão bem e tão claro deve ser tão difícil ...

(...) - Calado  
      porque as ervas se agitaram perto do relevo onde a primeira perdiz ia surgir finalmente, voltando a cabeça para nós sem nos ver, nem sequer às orelhas da cadela que principiavam a inchar da mesma forma que a ponta de dois dentes ao léu enquanto o corpo da minha irmã vibrava, de boca a comer-se a si mesma consoante comia o suor do nariz e da testa, eu para a minha irmã e para a nespereira que se amparavam uma à outra, as duas com tantos braços, qual de vocês vai secar mais depressa, inclinar-se, cair, se ao menos relâmpagos no Mussuma incendiando o capim que a electricidade ajuda, se ao menos nesta horta uma liambazita que amansasse as cólicas, não conheço ninguém na vila excepto o empregado da oficina, chegamos lá e perguntamos a quem, diz-me, aos velhos de samarra que não falam sequer, a única resposta que dão, enquanto afiam um pau com a navalhinha, é chuparem o cuspo das mortalhas apagadas, numa rua próxima à capela a anunciar o domingo, ninguém se parece tanto com o outono como os sinos, quando morre uma pessoa, mesmo em junho, outubro sempre e a luz, logo de manhã, com saudades, e depois o homem que me leva às cavalitas não pára, não irá parar nunca para fugir à tropa, ao helicanhão, às gê três 
       - Mata mata
       a minha irmã para mim
       - Vamos a Lisboa por favor (...)

António Lobo Antunes
Até que as pedras se tornem mais leves que a água
D. Quixote (2017)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Legionella

Afinal não há razão para alarme nem para preocupação!

Leitão Amaro garantiu ontem, na TV, que o Governo anterior tinha proibido a legionella, o que nos leva a pensar que a malfadada bactéria já deverá estar a ser procurada pela Polícia Judiciária e a ser alvo de inquérito do Ministério Público, com vista ao julgamento, justo, de que será alvo, como é próprio de um estado de direito. Sem haver dúvidas de que, face aos crimes cometidos, terá condenação exemplar, faltará apenas confirmar se a prisão será efectiva ou com pulseira electrónica.

A pérola poderá ser confirmada no endereço abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=4kn45brCFZg

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Palavras bonitas

CONTA E TEMPO

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo ...

Frei António das Chagas
Escrito no séc. XVII

(Soneto publicado no caderno de Economia do semanário Expresso, de 21.10.2017, ilustrando, como é costume, o artigo de fundo de Nicolau Santos.)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Língua Portuguesa

Primeira página do Público de hoje!

O revisor foi despedido ou já só sabe inglês?


Só beneficiam
de insenção no
IRS salários até

aos 669 euros

😜😜😜😜😞😞😞😞

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Felicidade

O meu neto Gil termina um trabalho da Escola com a seguinte pérola: 

"(...) Lembro-me muito bem, há seis anos, de ir ao hospital com a minha avó e ver o meu irmão muito pequenino deitado na cama do hospital ao lado da minha mãe. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida."

A professora anotou: "Tão lindo, Gil!"

E o avô "babou-se" de orgulho por ter um neto tão GRANDE!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Teatro

O Teatro Municipal Joaquim Benite, de Almada, vai levar à cena a História do Cerco de Lisboa, adaptando o romance homónimo que José Saramago escreveu em 1989. Conto lá ir, não logo na estreia - irá acontecer em 12 do próximo mês - mas, de acordo com a disponibilidade da agenda, talvez na semana seguinte.
Entretanto e porque já não (re)lia Saramago há uns tempos, fui à estante e, como sempre "gente fina é outra coisa": a forma de escrever, as voltas que o texto dá, os adágios, as opiniões, o humor, o "diz que disse", a descrição minuciosa, tudo evidencia o grande trabalho e o prazer de escrever, sendo certo que este não deve ser tão grande como o prazer de reler passados tantos anos.
Entretanto, e por falar em Teatro, o Teatro da Rainha estreia um novo trabalho a 5 de Outubro - Play House, de Martin Crimp -  e, nesta, lá estarei como de costume.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Palavras bonitas

(Passam hoje 2 anos sobre a partida do meu pai.)

PERENIDADE

Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
Uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.

Miguel Torga 
Libertação
Coimbra (4ªEdição)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Cidadania

Leio, no JL que me chegou há poucos dias, crónicas de Anabela Mota Ribeiro e de Kalaf Epalanga sobre o Festival Literário Internacional de Paraty. Em ambas é referida e exaltada a intervenção de uma Professora - Diva Guimarães - no espaço reservado ao público presente numa das mesas daquele Festival.
A forma como ambos adjectivam, nessas crónicas, a D. Diva, "obrigou-me" a ir "à pesca". Encontrei, sem grande esforço, um exemplo de coragem, de cidadania, de alerta, de chamamento, de força, contra as injustiças que já foram, as que se mantêm e as que irão continuar, se a grande maioria não se capacitar que o mundo é de todos e para todos, e não de "meia dúzia" de iluminados que traçam os caminhos para os outros e as grandes vias para eles próprios.
Uma intervenção que excedeu, em muito, as expectativas que me tinham sido criadas.

sábado, 12 de agosto de 2017

Livros lidos (ou em vias disso)

Numa altura em que, um anormal norte americano, de madeixas lacadas e dedinho apontado, qual boneco animado, e outro anormal, norte coreano, sem madeixas e de cabelo rapado, qual boneco articulado, disputam o primeiro lugar no campeonato da asneira e da fanfarronice, sabe bem ler:

"(...) A sua autoridade era de uma eficácia sem limites e, para quem visse, era ainda acentuada por, tantas vezes, o coronel ter flores no cabelo. Em certas ocasiões era ele que as punha atrás da orelha, mas noutras alturas eram as próprias flores que procuravam o cabelo do coronel. A flor e a autoridade, uma aparente contradição, acentuavam-se mutuamente e mostravam que a lei, o rigor e o poder devem ser acompanhados pela beleza estética e pela sensibilidade.
     O mordomo, por seu lado, não se mostrava consternado com a situação nem com o nervosismo de Kopecky e, ao sair da sala, ainda repetiu:
     - Que cheiro a chucrute!
     O coronel, mesmo reconhecendo a utilidade das armas, nunca as teria em casa como faziam os outros oficiais seus amigos, que tinham as paredes enfeitadas com pistolas e espingardas. Uma arma nunca poderá ser um objecto de decoração. As paredes são coisas que servem a nossa intimidade e impedem o frio, mantêm o calor, mas também são o esqueleto da cultura: é nas paredes que estão as estantes dos livros e os quadros pendurados. Wilhelm, o filho do coronel Moller, dizia mesmo que essa era a função principal de uma parede: servir a cultura. Para o frio há casacos. (...)

Afonso Cruz
O pintor debaixo do lava-loiças
Editorial Caminho

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Transmissões

Transmissões de estabelecimento na Portugal Telecom, que implicam a agregação de trabalhadores a uma nova empresa, para continuarem a desempenhar as mesmas funções!
Tudo dentro da legislação em vigor e sem quaisquer hipóteses de recusa ou de aceitação prévia.
A lei é sempre feita para o bem de todos e desta, não há dúvida, alguns aproveitam muito ...
" E têm muita sorte porque, assim, continuam a ter o ordenado."
Estarei a sonhar ou já passei por isto?