domingo, 19 de abril de 2026

Óbidos e os livros

Está a decorrer em Óbidos - termina hoje - mais um evento dedicado aos livros, desta vez com enfoque na literatura de viagens: o Latitudes - Literatura & Viajantes.

Ontem, aproveitando um pouco do pouco tempo livre, a visita a Óbidos aconteceu, no meio de muita, muita gente que quase não usufrui da beleza e do sossego da bela vila medieval, limitando-se a galgar a Rua Direita, beber uma ginginha em cálice de chocolate e comprar um "bonequinho" para o frigorífico.

Como em todos os festivais literários, não foi, nunca é, possível assistir a todas as conversas, eventos, apresentações, mas o tempo foi bem aproveitado. Em quatro locais diferentes, tão agradáveis quanto inesperados, o actor Pedro Lamares disse poesia como muito bem sabe e mostrou aos que o ouviram um conjunto de poetas que, entre muitos outros, marcam a qualidade da nossa poesia. E como a poesia ainda se torna mais bela quando é bem dita! 

De Camões a Pessoa, passando por Al Berto, Nemésio, Herberto, O'Neill ou Natália, foi a esta última que coube o encerramento com dois poemas que fazem parte do "acervo" deste blogue: O coito do Morgado e A defesa do poeta.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Fúria épica

Se dúvidas houvera, ficaram definitivamente esclarecidas: o homem da melena é quem determina e ... como se dizia (ainda se dirá?) na tropa, manda publicar! E a Companhia tinha de ficar em sentido!

O Irão anunciou que iria reabrir o estreito de Ormuz e o manda-chuva apressou-se a publicar na sua rede "social" que isso só era feito por ter sido por ele ordenado e nas condições que, ele mesmo, tinha fixado; o Papa Leão XIV, americano, resolveu, no âmbito da sua actividade religiosa, opinar sobre o mundo que é de todos: se estivesse "à mão de semear", o chefe ter-lhe-ia dado umas "nalgadas" para aprender a ser submisso; a NATO não aceitou meter-se na guerra e recebeu um sério aviso para entrar na linha, sob pena de deixar de comer à mesa.

Enquanto tudo isto acontece, por mais inverosímil que possa parecer, na Ucrânia, no Médio Oriente, em África, todos os dias morre gente, muitos ficam sem casa, muitos outros fogem para nenhures, enquanto alguns enriquecem e outros fazem reuniões para definir estratégias ...

É o mundo dos loucos no seu esplendor!

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Brincar ... com coisas sérias

O homem da melena já deu ordem para que o Estreito de Ormuz seja bloqueado, sem sequer pedir a ajuda do nosso Afonso de Albuquerque, homem que tão bem conhece aquelas águas, onde navegou e mandou no início do século XVI. Afonso de Albuquerque poderia ser peça essencial para que os seus objectivos fossem atingidos.

Entretanto, o Papa Leão XIV deve ter reunido, de urgência, o seu estado-maior e ordenado a aquisição de baterias anti-aéreas aos USA, com vista a proteger o Vaticano de um possível ataque. O homem avisou que não gosta dele e nunca se sabe como ele acorda ...

Valha-nos que o nosso primeiro-ministro é bom rapaz e lhe faz todas as vontadinhas. Caso contrário, ainda ameaçava bombardear as Lajes, as Berlengas e até o Corvo, e obrigava o Nuno Melo a adquirir de imediato o material bélico fundamental para o nosso desenvolvimento ...

sábado, 11 de abril de 2026

Direitos de autor

Tenho a "autoridade" de quem o compra e lê, em papel, desde o longínquo ano de 1973. Só por isso, o Expresso deve perdoar-me o continuado abuso de alguns dos seus conteúdos.

Hoje não resisti a transcrever "meia dúzia" de linhas da excelente crónica de Miguel Sousa Tavares (passou a quinzenal, o que lamento) e a partilhar o cartoon de António, brilhante, como sempre. 

"O que une um governante, uns banqueiros e uns bispos?

(...) uma guerra, levada ao Iraque, ilegítima, à revelia da ONU e com pretextos inventados e provas falsificadas, que Durão Barroso declarou autênticas. Mas talvez na era contemporânea, nunca a nossa diplomacia tenha descido tão baixo como agora, em que as Lajes servem de tapete voador sobre o qual nos curvamos à passagem dos aviões e drones do louco perigoso que governa os Estados Unidos e que levou ao Irão uma guerra sem sombra de legitimidade e até de estratégia política e militar, e, por arrasto, ao mundo inteiro. Hoje, graças à diplomacia de Luís Montenegro e Paulo Rangel, tenho vergonha de ser português e só me consolo um pouco pensando que quem só faz o que sabe não é inteiramente responsável por toda a ignorância que carrega.

Porém, não se trata apenas de política ou de diplomacia. Trata-se também da segurança nacional. Colocando Portugal na primeira linha de apoio à linha da frente desta demência trumpiana-israelita, o Governo coloca-nos também na posição de alvo legítimo e natural de represálias iranianas. É possível que preclaro presidente do Governo Regional dos Açores ainda não tenha visto o assunto a esta luz e por isso declara não ter opinião sobre a legitimidade desta guerra e do apoio que lhe estamos a dar, preferindo, diz ele, confiar na justeza da decisão do Governo da República e do seu próprio partido. O homem ouve o desvairado narciso americano dizer que vai varrer uma civilização milenar numa noite, levando-a de volta à Idade da Pedra (pelo método Hiroxima-Nagasáqui, supõe-se), e não tem opinião sobre o assunto. Mas quando interrogado sobre se o nosso "aliado" americano não deveria ao menos pagar uns tostões, ou uns <<peanuts>>, pela utilização das Lajes, aí já José Manuel Bolieiro tem opinião própria e pronta. Sim, declara ele, atendendo à importância que agora se voltou a confirmar da Base das Lajes para as guerras dos Estados Unidos deste lado do mar, seria justo que, tal como sucedeu no passado, eles pagassem alguma coisa ... aos Açores. Ou seja, entendamo-lo: princípios, ele não tem nem o incomodam; mas uma esmolinha nunca fez mal a ninguém.(...)"

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Evolução

A ida ao(s) café(s) foi um ritual repetido várias vezes durante o dia (e durante muitos anos) por necessidade, acto de desligar, compromisso comercial ou porque sim ...

Das sete, oito, nove ou mais bicas por dia, o tempo reduziu-as a três e, dessas, normalmente, apenas a do almoço se concretiza externamente. Cada vez mais, ir tomar um café ao café, ainda por cima ao balcão, é um acto singular e praticado por poucos teimosos. O pagamento, na era da IA, já não passa por mãos humanas, sendo "digerido" pelo "anão" escondido na máquina que tudo entende e que, rápida, nunca se engana no troco nem admite notas falsas.

Com este "pequeno" progresso, há no café mais mão-de-obra disponível para atender os clientes do jogo, onde a raspadinha é rainha. Tenho para mim que muitos destes frequentadores nem imaginam que o estabelecimento, afinal, até vende café!

Evolução e mudança, que se há-de fazer ... também já ninguém pede um "copo de três" ou uma "ciganinha", como era vulgar quando era jovem!   

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Vagueando

Uma voltinha para desanuviar e calcorrear o Portugal profundo, sem pressas, com boa comida, pouco trânsito, sem aglomerações, muita água nos terrenos e bastantes toneladas de lenha por retirar. Faz bem! Descontrai, liberta, espreita-se o que está longe e, muitas vezes, esquecido. E há tanta coisa para ver, que não passa na televisão ...

No regresso, uma passagem pela Azinhaga do Ribatejo para ver as 100 oliveiras de Saramago e ler um trecho de As pequenas memórias (2006) "azulejado" junto a elas.



domingo, 5 de abril de 2026

Bodas

É Domingo de Páscoa e o sol não se esquece de acompanhar as festividades e de lhes trazer a alegria da luz. Na semana que vem, de acordo com as previsões, já desligará as luzes, talvez para poupar energia que não estamos em época de desperdícios.

O carro precisa de gasolina porque, teimoso, não anda sem isso e amanhã vai ter de trabalhar. Ainda é cedo e o posto de abastecimento não deve ter fila. O rádio vai ligado, como é sempre e, de repente, ouço uma voz já um pouco estafada como a minha:

Tinha 15 anos quando ouvi isto pela primeira vez, na casa de uns amigos onde nos juntávamos para tocar, cantar e ... beber uns copos. Na rádio, naquela época, era impensável.

Prestei atenção. Era isto, e eu ainda me lembrava da letra!

sábado, 4 de abril de 2026

Leitura necessária

Por enquanto, José Saramago é o único Prémio Nobel da Literatura que Portugal ostenta. Isso causa comichão a muita gente e inveja a outros tantos. Nada melhor do que "escondê-lo" e propagar a ideia de que é de muito difícil leitura. Vem-me à memória A Relíquia, de Eça de Queirós, que li com uma cinta vermelha à volta e graças à boa vontade do motorista da carrinha da Gulbenkian, que pediu para não dizer a ninguém. Pensando melhor, qual é o interesse em ler isto na escola? O Ministro tem razão! É uma trabalheira ...

"(...) Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica, nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais, tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive, escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talento para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar, ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra de tão escassos recursos e ainda menores necessidades. Contudo, não se devendo medir os méritos dos homens apenas pela bitola das suas competências profissionais, convém dizer que, apesar da sua pouca idade, é este José do mais piedoso e justo que em Nazaré se pode encontrar, exacto na sinagoga, pontual no cumprimento dos deveres, e não tendo sido a sua fortuna tanta que o tivesse dotado Deus duma facúndia capaz de o distinguir dos mortais comuns, sabe discorrer com propriedade e comentar com acerto, mormente se vem a propósito introduzir no discurso alguma imagem ou metáfora relacionadas com o seu ofício, por exemplo, a carpintaria do universo. (...)" 

O Evangelho segundo Jesus Cristo
José Saramago
Caminho (1992)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Notas

Se mais não houvesse - e há muito - a arte e a capacidade crítica de António justificavam, por si só, a compra do Expresso todas as sextas-feiras, incluindo a Santa.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Aniversário

Fiz hoje 50 anos! Meio século de vida que, como em todas as vidas, teve escolhos, mudanças, correcções, adaptações, novidades, acidentes, percursos sinuosos. Apesar de tudo isso, procurei que estivessem sempre presentes os princípios que nortearam o meu nascimento - liberdade e democracia.

Como muito bem frisou hoje o nosso Presidente da República, no discurso da minha festa, a função que me foi cometida é a de ser garante dos princípios e não executora de programas de governo.

Estou preparada e tenho genica para mais meio século, ainda que me aflijam alguns "badamecos" que, ou ainda não tinham nascido ou andavam de cueiros em 1976 e que querem, à viva força, que eu saia de cena e dê lugar a uma nova, talvez sonhando com a de 1933 ...