sexta-feira, 6 de março de 2026

De caras ...

(Ainda) vale a pena estar atento ao que, fora da caixa, se vai produzindo por aí.

Os Cara de Espelho já passaram cá pelo Oeste, como ficou aqui registado. Ontem, foi a Culturgest a dar esse privilégio ou, talvez melhor dito, a proporcionar um grande espectáculo a todos os que encheram aquele lindo auditório.

quinta-feira, 5 de março de 2026

ALA

ALA já cá não está.

Morreu um dos maiores escritores de língua portuguesa, que (me) deixou livros incontornáveis e lições de vida extraordinárias. A partir de hoje, António Lobo Antunes estará sempre à mão na "biblioteca" e na memória, enquanto esta tiver capacidade.

Do primeiro ...

"(...) As ruas cá fora seguiam como um passeio ao sol e outro à sombra como coxos em sapatos desiguais, e o médico demorou-se à porta do consultório a palpar as mandíbulas doridas para se certificar de que continuava a existir dos olhos para baixo: desde que vira em África órbitas de crocodilo à deriva no rio, em busca dos corpos que perderam, que temia soltar-se de si próprio para flutuar, sem lastro de intestinos, em torno dos cegos que desafinam as esquinas com os seus acordeões reumáticos de Chopins em pasodoble. Esta cidade que era a sua oferecia-lhe sempre, através das suas avenidas e das suas praças, o rosto infinitamente variável de uma amante caprichosa que as árvores escureciam do cone de sombra dos remorsos melancólicos, e acontecia-lhe tropeçar nos Neptunos dos lagos como um bêbedo se encontra, ao sair de um candeeiro, com o queixo feroz de um polícia sem humor, culturalmente alimentado pelos erros de gramática do cabo da esquadra. (...)"

Memória de elefante
António Lobo Antunes
Dom Quixote (1979)

... até ao último:

"(...) A minha vida antes de conhecer o senhor está quase toda no fundo da barragem que engoliu a vila, olho para cima e encontro um céu de água, talvez sobre ele exista um outro, não sei, porque à noite vagas constelações de luzes trémulas e uma manchazita mil vezes reflectida que pode ser a lua, às vezes presa na sombra de uma árvore vejo o que parece ser o meu pai, o que parece ser o meu avô, o que parecem ser os afogados do poço que subiram lá do fundo numa lentidão ensonada
- O que se passa aqui?
caminhando ao acaso na horta, sem entenderem, espantados
- Continuarei vivo eu?
ou seja a viúva que morava a seguir a nós e o coxo da bengala
(mestre Esteves)
que se aleijou na guerra em África, puxando a perna postiça com a palma
- Raios partam os pretos 
 às vezes à noite continuo a ouvi-lo, batendo no soalho o seu coto de pau ou sentado a um canto
a lamber a mortalha do cigarro entre os estalos dos móveis enquanto o senhor
(começo a conhecê-lo)
na sua cadeira, quase à janela, se inclina a olhar o baloiçozeco parado, embora dentro da água a
a claridade esverdeada e as coisas menos nítidas, mas um baloiço sem dúvida e a mão dele a pensar, que é aquilo que os dedos fazem devagarinho quando coçam a orelha, o coxo, sempre a transportar o móvel pesadíssimo de si mesmo, sentava-se às vezes num degrau, ao lado da maçada do próprio corpo, a soprar as bolhinhas do cansaço pela boca aberta, se por acaso o senhor o olhasse agora, da sua cadeira, dava logo com ele, não é o gordo a enrolar o cigarro, esse é o mau pai, é o outro mais pequeno, magrinho, a ver os milhafres ao longe que a água da barragem não dissolveu ainda, o advogado para mim, deitado na cama, com um braço em cima dos olhos, no hotelzito onde a gente se encontrava
- São sempre assim os teus sonhos? (...)"

O tamanho do mundo
António Lobo Antunes
Dom Quixote (2022) 

terça-feira, 3 de março de 2026

Visitas

A rotina prega-nos partidas e evidencia-nos a displicência com que, quase sempre, olhamos aquilo que nos rodeia e que bem conhecemos.

Ontem recebi a agradável visita do meu amigo ADS, vindo da capital do "império", com todos os sentidos bem despertos, carregado com o saco de marcadores e pacotes de açúcar e, no bolso, a companhia, pequenina, que lhe permite registar para a posteridade situações, acontecimentos, paisagens, em fotos sempre bonitas e de fazerem inveja, muita, a quem mal consegue carregar no botão sem tremer e, normalmente, corta uma parte ou deixa muito longe o objectivo.

Para que a visita ficasse plasmada (que raio de palavrão agora tão em moda), mostrou a sua resiliência (outra bonita!) e conseguiu registar algumas florinhas novas que o jardim, orgulhoso, já exibe e que o dono nem sequer tinha valorizado.

Muito obrigado pela visita e apareça sempre que queira, nem que seja para a revisão da matéria. O Oeste fica muito "inchado"!



segunda-feira, 2 de março de 2026

Palavras bonitas

Continua a parecer que foi ontem, mas já lá vão 22 anos. A capicua fica assinalada com a ligação poética entre o mês em que partiste e aquele em que me pariste.

ENTRE MARÇO E ABRIL

Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto, 
entre março e abril,
o rosto que foi meu.
o único
que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem 
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado -
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
- que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade(2000) 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Esperança

Tudo indica que as máquinas estão a conseguir controlar - não vencer - as marés.

Na próxima semana já deverá aparecer, como que por milagre, uma "nova aberta". Entretanto, os surfistas do ar quiseram aproveitar o vento em excesso e a água em abundância. 


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Lutas

Mantém-se a guerra entre a água e a terra, as marés e as máquinas, os técnicos e os empíricos, a natureza e a ciência.

Teremos praia?


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Leste

Esta noite ou amanhã, é irrelevante, passam quatro anos de mortandade de ucranianos e russos, sem que se vislumbre fim à vista. E razões para isto ter acontecido e continuar, ainda são menos tangíveis ou identificáveis.

Por vezes parece haver deleite com o sofrimento e, pasme-se, há gente que ignora, ou finge ignorar, o poder da bala, do míssil, do canhão, da mina, do drone, do avião, do helicóptero, etc., etc..

Milhares de mortos e de estropiados, famílias destroçadas, crianças que não mais esquecerão as sirenes de aviso das bombas que vão cair e a corrida para os abrigos. E, como sempre, "gente" a enriquecer à custa da desgraça.

Até quando?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Palavras bonitas

COISAS

As coisas escondem-se nas coisas
ficam por baixo ou no fundo
às vezes umas nas outras.
Escondem-se de quê
as coisas?
Delas próprias ou de quem
tenta apanhá-las à mão?
Os óculos fogem e escondem-se 
às vezes nos próprios olhos
relógio nunca se sabe
talvez debaixo da cama
ou na metáfora das horas.
Telemóvel é conforme
ora fica em outro bolso
ora está onde não está.
O casaco no cabide
de repente é invisível
da caneta já não falo
cai no buraco mais próximo.
Cada coisa tem seus quês
seus recônditos refúgios
são tuas mas não as vês
estão contigo e não encontras.
Coisas de coisas
ou de homem?
Coisas que das mãos se somem
coisas em coisas escondidas
coisas que são mais nossas
quanto mais de nós perdidas.

Balada do corsário dos sete mares
Manuel Alegre
D. Quixote (2026)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carnaval

Sem máscaras, sem desfiles, sem sol, sem chuva, sem vento e, por aqui, sem qualquer talento.

É Carnaval, nada parece mal!

Três semanas de notícias tristes, de promessas solenes e eloquentes, de muito trabalho de muitos, de aproveitamento de alguns, de sacrifícios e desgraças de tantos, ainda hoje a surgirem, apesar das melhorias "decretadas" pelo S. Pedro.

Conseguir-se-á, desta vez, ter capacidade para resolver e dizer não, quando for caso disso?

Talvez Seguro consiga fazer com que impere o bom senso e impedir o costumeiro desleixo ... até à próxima.