Não quero que isto se transforme num obituário, mas ...
Partiu hoje, aos 90 anos, mais um cujos livros fazem parte da estante há muitos anos. Até "O último a sair", o mais recente, já lá está arrumado e foi lido de um fôlego, tal como todos os outros. São dezanove!
Mário Zambujal faz parte das memórias do jornalismo, do Mundo Desportivo à RTP, do Diário de Notícias ao Sete e ao Tal e Qual. Mas o seu primeiro livro foi, é e será sempre um maravilhoso retrato deste povo que somos nós. E que se lê sempre!
"(...) Tinha havido uma queixa. Dois cidadãos, pessoas de respeito, como muito bem se verificava no trajar e nos documentos exibidos, haviam solicitado à autoridade a detenção de duas mulheres, <<às vinte e três e trinta e cinco do dia 9 de Março, no Campo Mártires da Pátria, sob a acusação de lhes terem furtado, dois dias antes, 7 de Março, um alfinete de gravata e um isqueiro, tudo avaliado em seiscentos e cinquenta escudos>>, assim rezava o relatório.
<<Foram elas!>>, afirmaram, peremptórios, os dois, sem dúvida nenhuma. O subchefe da Polícia fitou as presas e ficou à espera. Então, Lina Despachada voltou a abrir a mala preta de plástico, tirou um alfinete e um isqueiro, mostrou-os bem na mão espalmada e desafiou:
<<São estes?>>
Aparvalhados, os queixosos mais não fizeram do que sim com as cabeças e já a acusada se virava para o subchefe da Polícia, cada vez mais desgostado da cruzada que escolhera na vida.
<<Para já, senhor subchefe, aqui a miúda não tem nada que ver com o caso. Ela nem soube que eu guardei esta porcaria. Guardei, disse bem. Guardei de penhor - de penhor, ouviu? - porque esses grandes filhos da puta, peço desculpa senhor subchefe, filhos de meretriz, queria eu dizer, serviram-se e não pagaram. Os grandes vigaristas! Ainda por cima umas tristezas na cama, um frete, um desconsolo, ai senhor subchefe só queria que visse. Então eu saquei-lhes isto de penhor: têm de nos dar os sessenta paus a cada uma, mais os setenta da pensão. Se quiserem, está claro. Se não quiserem vou direitinha pedir a massa às mulheres deles, já descobri as moradas. Ai queridos, tenham paciência: vou cobrar lá a casa, eu não dê mais um passo! Ando há vinte e seis anos nesta vida e ainda não houve um filho da puta, perdão senhor subchefe, de meretriz, que se ficasse a rir da Lina Despachada. Agora vocês resolvam ...>> (...)"
Crónica dos bons malandros
(da palma da mão à ponta da unha)
Mário Zambujal
Livraria Bertrand (1980)