Estou farto de notícias!
Repetidas, repisadas, com ecrãs divididos em partes, análises profundas e perfeitamente inócuas, directos sem qualquer interesse a não ser ouvir a opinião, fundada, de quem acabou de pagar mais pelo litro de gasolina, jornalistas do faz de conta e da encomenda, jornais e televisões "vendidos" à verdade absoluta das redes ditas sociais, tudo com raras e cada vez menos honrosas excepções.
"Voltamos já a seguir a um pequeno intervalo". Dez minutos depois, quando não mais, e a repetição acontece como se fora novidade, de novo com o ecrã partido e a imagem de ontem, sem que disso se dê conta ao incauto.
Ora, notícia importante é o que se passa no meu jardim, que toda a gente desconhece, não tem acesso e, por isso, nem inveja consegue ter e está livre de reportagem televisiva. Sou um privilegiado!
O grilo ocupou uma parte do jardim, sem pedir e muito menos obter qualquer autorização, e sem pagar uma renda mesmo que simbólica. Está por ali, nem eu sei bem onde. Ouço as suas bonitas sinfonias, interrompidas mal abro a janela ou me aproximo do local de onde vem a bela sonoridade. Deve pensar lá para ele:
- Olha-me este! Ouve música de borla e ainda queria renda! Era o que faltava. Por aqui, a lei protege os inquilinos ...contente-se em ouvir o que não é para todos!
Dou por mim a pensar: o grilo tem razão. Não o devo perturbar e a minha preocupação deve ser a de arranjar forma de ele por ali permanecer muito tempo, mesmo não sabendo o local exacto onde pernoita e passa o dia. É um artista, não pesa, se calhar até se alimenta de alguns insectos indesejáveis e toca tão bem! Mesmo com a lei das rendas alterada, vou permitir-lhe a permanência sem cobrar um tostão. Sou um magnânimo, passe a imodéstia!
Afinal de contas, música de grilo não tem preço e só é acessível a alguns. Concluí depressa que, quanto mais música ouço, mais adoro os grilos!


