Casa da Ginja
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 14 de março de 2026
quinta-feira, 12 de março de 2026
Mário Zambujal
Partiu hoje, aos 90 anos, mais um cujos livros fazem parte da estante há muitos anos. Até "O último a sair", o mais recente, já lá está arrumado e foi lido de um fôlego, tal como todos os outros. São dezanove!
Mário Zambujal faz parte das memórias do jornalismo, do Mundo Desportivo à RTP, do Diário de Notícias ao Sete e ao Tal e Qual. Mas o seu primeiro livro foi, é e será sempre um maravilhoso retrato deste povo que somos nós. E que se lê sempre!
"(...) Tinha havido uma queixa. Dois cidadãos, pessoas de respeito, como muito bem se verificava no trajar e nos documentos exibidos, haviam solicitado à autoridade a detenção de duas mulheres, <<às vinte e três e trinta e cinco do dia 9 de Março, no Campo Mártires da Pátria, sob a acusação de lhes terem furtado, dois dias antes, 7 de Março, um alfinete de gravata e um isqueiro, tudo avaliado em seiscentos e cinquenta escudos>>, assim rezava o relatório.
<<Foram elas!>>, afirmaram, peremptórios, os dois, sem dúvida nenhuma. O subchefe da Polícia fitou as presas e ficou à espera. Então, Lina Despachada voltou a abrir a mala preta de plástico, tirou um alfinete e um isqueiro, mostrou-os bem na mão espalmada e desafiou:
<<São estes?>>
Aparvalhados, os queixosos mais não fizeram do que sim com as cabeças e já a acusada se virava para o subchefe da Polícia, cada vez mais desgostado da cruzada que escolhera na vida.
quarta-feira, 11 de março de 2026
Vivências
Ainda bem que está "arrumada" bem lá no fundo da gaveta da memória histórica e já só "meia dúzia" dela se lembram. O 11 de Março de 1975 é uma data só recordada por alguns "antigos" que a viveram por dentro e não a esquecem.
Acabou por ser pouco mais do que uma brincadeira - vista com os olhos de hoje -, mas por cá ficou. Imagine-se o que acontecerá na cabeça daqueles que, hoje, continuam a ser sobrevoados, bombardeados, "dronados", minados, atormentados sem apelo nem agravo e sem dó nem piedade.
- O Spínola 'tá maluco! Nem uma pistola tenho ...
terça-feira, 10 de março de 2026
Dúvidas
Acabam dentro em pouco!
Estão quase resolvidas!
Os objectivos estão em vias de ser alcançados!
Foi praticamente destruída a capacidade de resistência dos inimigos!
A vitória está mesmo muito próxima!
Morrem muitos, morrem poucos? Apenas pormenores despiciendos!
Se não existissem as guerras, o que seria da indústria das ditas?
E quanto sofreria o PIB de alguns países?
E as contas bancárias de algumas "trutas"?
Dúvida existencial: orçamento rectificativo ou aumento de impostos?
Não há razões para alarme. O mundo está sossegado, tranquilo, a paz garantida. O Conselho de Segurança da ONU foi presidido pela elegante, esforçada e diligente esposa do homem da melena!!!
segunda-feira, 9 de março de 2026
"Ontem"
A informática era pequenininha, a grande maioria dos carros tinha direcção assistida "a braço", a televisão aguardava ansiosamente pela cor e pela proliferação de canais, a auto-estrada começava em Vila Franca de Xira para quem se deslocava à Capital e nos Carvalhos para quem se dirigia à Invicta. Tudo era urgente, imperioso, importante e fundamental. Ninguém falava em partos assistidos pelos papás, licenças parentais ou de amamentação.
O dia de trabalho foi tenso, antecedido pela "entrega" da mãe no Montepio, com a ânsia e o desejo de uma "boa hora". À hora do almoço tudo permanecia idêntico, apenas com o conforto da visita do médico e a quase confirmação da inevitabilidade da cesariana.
O expediente encerrou e uma autorização, especial, permitiu uma saída antecipada e a deslocação em corrida - era perto e bom caminho. O telemóvel nem em sonhos ...
Tinha acabado de nascer o meu primeiro rebento, era uma menina e a mãe ainda dormia, recuperando da intervenção.
- É linda!
Estava ali, a pouco mais de um metro, embora com o vidro do berçário a separar-nos.
Quarenta e oito anos decorridos, nem o vidro nos separa!
PS - Uma vez mais, um Presidente da República toma posse no dia do aniversário da minha "menina". Que Seguro seja um bom Presidente ... tem muito trabalho pela frente.
sábado, 7 de março de 2026
Palavras bonitas
A minha irmã cumpre hoje a sétima capicua e, como eu ainda por cá não estava, no dia seguinte Torga publicou no seu Diário um poema a saudar a sua vinda ao mundo.
Coimbra, 8 de Março de 1949
DEPOIS DA CHUVA
Abre a janela e olha!Tudo o que vires é teu.A seiva que lutou em cada folha,E a fé que teve medo e se perdeu.Abre a janela e colhe!É o que quiser a tua mão atenta:Água barrenta,Água que molhe,Água que mate a sede ...Para que haja um sorriso na parede!Diário IVMiguel TorgaCoimbra (1973 - 3ª. Ed.)
Exactamente um mês depois, salvaguardando o excesso de optimismo que podia transparecer do primeiro, deixou-lhe um aviso para a vida que estava a iniciar ... e nem sequer a conhecia.
Coimbra, 7 de Abril de 1949
EXAME DE CONSCIÊNCIA
Por tudo passa o artista:Primeiro, pela alegriaDe se julgar criadorNo seio da natureza;Depois, por esta tristezaDe ver morrer o que fez,Sem ter nas mãos a certezaDe erguer o sonho outra vez.Diário VMiguel TorgaCoimbra (1974 - 3ª. Ed.)
sexta-feira, 6 de março de 2026
De caras ...
(Ainda) vale a pena estar atento ao que, fora da caixa, se vai produzindo por aí.
Os Cara de Espelho já passaram cá pelo Oeste, como ficou aqui registado. Ontem, foi a Culturgest a dar esse privilégio ou, talvez melhor dito, a proporcionar um grande espectáculo a todos os que encheram aquele lindo auditório.
quinta-feira, 5 de março de 2026
ALA
ALA já cá não está.
Morreu um dos maiores escritores de língua portuguesa, que (me) deixou livros incontornáveis e lições de vida extraordinárias. A partir de hoje, António Lobo Antunes estará sempre à mão na "biblioteca" e na memória, enquanto esta tiver capacidade.
Do primeiro ...
"(...) As ruas cá fora seguiam como um passeio ao sol e outro à sombra como coxos em sapatos desiguais, e o médico demorou-se à porta do consultório a palpar as mandíbulas doridas para se certificar de que continuava a existir dos olhos para baixo: desde que vira em África órbitas de crocodilo à deriva no rio, em busca dos corpos que perderam, que temia soltar-se de si próprio para flutuar, sem lastro de intestinos, em torno dos cegos que desafinam as esquinas com os seus acordeões reumáticos de Chopins em pasodoble. Esta cidade que era a sua oferecia-lhe sempre, através das suas avenidas e das suas praças, o rosto infinitamente variável de uma amante caprichosa que as árvores escureciam do cone de sombra dos remorsos melancólicos, e acontecia-lhe tropeçar nos Neptunos dos lagos como um bêbedo se encontra, ao sair de um candeeiro, com o queixo feroz de um polícia sem humor, culturalmente alimentado pelos erros de gramática do cabo da esquadra. (...)"
- O que se passa aqui?
caminhando ao acaso na horta, sem entenderem, espantados
- Continuarei vivo eu?
ou seja a viúva que morava a seguir a nós e o coxo da bengala
(mestre Esteves)
que se aleijou na guerra em África, puxando a perna postiça com a palma
- Raios partam os pretos
às vezes à noite continuo a ouvi-lo, batendo no soalho o seu coto de pau ou sentado a um canto
(começo a conhecê-lo)
na sua cadeira, quase à janela, se inclina a olhar o baloiçozeco parado, embora dentro da água a
- São sempre assim os teus sonhos? (...)"
terça-feira, 3 de março de 2026
Visitas
A rotina prega-nos partidas e evidencia-nos a displicência com que, quase sempre, olhamos aquilo que nos rodeia e que bem conhecemos.
Ontem recebi a agradável visita do meu amigo ADS, vindo da capital do "império", com todos os sentidos bem despertos, carregado com o saco de marcadores e pacotes de açúcar e, no bolso, a companhia, pequenina, que lhe permite registar para a posteridade situações, acontecimentos, paisagens, em fotos sempre bonitas e de fazerem inveja, muita, a quem mal consegue carregar no botão sem tremer e, normalmente, corta uma parte ou deixa muito longe o objectivo.
Para que a visita ficasse plasmada (que raio de palavrão agora tão em moda), mostrou a sua resiliência (outra bonita!) e conseguiu registar algumas florinhas novas que o jardim, orgulhoso, já exibe e que o dono nem sequer tinha valorizado.
Muito obrigado pela visita e apareça sempre que queira, nem que seja para a revisão da matéria. O Oeste fica muito "inchado"!
segunda-feira, 2 de março de 2026
Palavras bonitas
Continua a parecer que foi ontem, mas já lá vão 22 anos. A capicua fica assinalada com a ligação poética entre o mês em que partiste e aquele em que me pariste.
ENTRE MARÇO E ABRILQue cheiro doce e fresco,por entre a chuva,me traz o sol,me traz o rosto,entre março e abril,o rosto que foi meu.o únicoque foi afago e festa e primavera?Oh cheiro puro e só da terra!Não das mimosas,que já tinham floridono meio dos pinheiros;não dos lilases,pois era cedo aindapara mostraremo coração às rosas;mas das tímidas, dóceis floresde cor difícil,entre limão e vinho,entre marfim e mel,abertas no canteiro junto ao tanque.Frésias,ó pura memóriade ter cantado -pálidas, fragrantes,entre chuva e sole chuva- que mãos vos colhem,agora que estão mortasas mãos que foram minhas?PoesiaEugénio de AndradeFundação Eugénio de Andrade(2000)

