quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Pirilampos

Pode ter sido um diário, a reunião de um conjunto de crónicas, uma amostra de que a prosa também contém poesia, um exercício de liberdade e de opinião, uma forma de, usando as metáforas, retratar e deixar escrito o que lhe vai na alma. É um livro "eterno", ao qual se volta sempre e sempre com grande prazer e actualidade.

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O BICHANO REACCIONÁRIO

O grande gato não partiu para a grande guerra. Quedou-se em casa. Aceitou de mau grado o racionamento do leite, a escassez do carapau, as hipérboles dos títulos dos jornais; aceitou, até (ele que há muito deixara de ser um caçador!), a magreza dos ratos. Conformou-se, foi-se conformando com a crescente dureza óssea do regaço da dona. Mas, sob as águas estagnadas do dia-a-dia, quem estaria a torpedear-lhe a barquinha da vida?

E, assim, com seu guizo e juízo, o grande gato foi, aos poucos, aprontando-se para entrar numa quotidiana eternidade em que a mera sobrevivência já seria grande conforto. E não perdeu as maneiras - o grande gato! Mesmo quando certos deveres cívicos passaram a mobilizar colectivamente homens e bichos, o grande gato soube encontrar, com desencanto e pachorra, a figura certa na hora própria. Impunha-se quadricular as vidraças das janelas para evitar, em caso de bombardeamento, o voo rufião dos estilhaços? Lá estava o gato, de língua de fora, a ajudar a dona a espalhar, nas tiras de papel de embrulho ou de pano cru, a cola de preparação caseira. Nos exercícios de ocultação de luzes, ele, que há anos não trepava a um telhado, acabou por rondar, corajosamente, o seu quarto pelos inclinados caminhos de telha, mau grado a secura que a vertigem, o medo da vertigem, sempre lhe deixava no céu da boca. E a atenção concentrada por ele nessa vigilância era tanta que, uma escuríssima noite, vislumbrou algo. Preveniu a Central da existência, embora incerta, a umas centenas de metros do seu posto, dum tremeluzir suspeito. Distracção do locatário ou morse de espião para o inimigo? Acorrida ao local detectado pelo grande gato a brigada móvel, verificou-se, com alívio e gáudio para todos os diligentes vigias, que a ténue fonte de luz era ... um pirilampo! E o grande gato sofreu, nessa altura, a vertigem do primeiro louvor. Mas logo se recompôs na fleuma e no cepticismo. A sua dona, com algum sacrifício pessoal, aumentou-lhe, por dois dias, a ração de carapau e de leite. A filosofia de vida do grande gato não consentiu que ele ficasse, no seu foro íntimo, muito grato à bondosa senhora por este melhoramento (aliás, aumento) temporário do rancho.

A questão, para o gato, era sobreviver. Se não fosse debaixo de telha, seria sobre telha; se não pudesse ser ao pé do calorífero a serradura, teria de ser ao Sete-Estrelo, ao calor da ilusão de dias melhores ou ao sol quadriculado de guerra; se carapau, para tanto, faltasse, moscas haveria, que há sempre moscas (e gordas!) quando os mortos se demoram, um pouco por toda a parte, ao ar livre. O que o grande gato queria era levar por diante o seu plano de sobrevivência, mas sem paixão, de cabeça fria. O pelo deslustrara-se-lhe, a orelha tornara-se-lhe quebradiça, o seu rabo já quase não era capaz de um ponto de interrogação, duma simples vírgula. No entanto, o grande bichano, que conhecera dias de rei, aceitava com resignação a decrepitude que o ameaçava.

Para ter um pouco menos vazio o saquitel do dia-a-dia, prontificava-se a fazer recados às senhoras da vizinhança. Por conta doutrem, aguentou, a pata firme, horas e horas nas bichas do azeite, do açúcar, do arroz, das batatas. E quando alguém se surpreendia com a sua estirada paciência, ele respondia: <<Para que serve, nos dias de hoje, um gato, senão para isto?>>.

Com seu guizo e juízo, lá foi chegando o grande gato ao fim da grande guerra que parecera não mais ter fim. 

No dia da vitória, quando, no peitoril da janela, a cabeça encostada ao ossudo cotovelo da dona, contemplava, quase indiferente, as multidões que se entregavam à desordenada alegria de quem julga que venceu, o grande gato, pensou, repentinamente, num carapau tão grande e tão prateado quanto um dirigível. E, de gozo, adormeceu.

Uma coisa em forma de assim
Alexandre O'Neill
Editorial Presença (1985)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Música para os meus ouvidos

Estou farto de notícias!

Repetidas, repisadas, com ecrãs divididos em partes, análises profundas e perfeitamente inócuas, directos sem qualquer interesse a não ser ouvir a opinião, fundada, de quem acabou de pagar mais pelo litro de gasolina, jornalistas do faz de conta e da encomenda, jornais e televisões "vendidos" à verdade absoluta das redes ditas sociais, tudo com raras e cada vez menos honrosas excepções.

"Voltamos já a seguir a um pequeno intervalo". Dez minutos depois, quando não mais, e a repetição acontece como se fora novidade, de novo com o ecrã partido e a imagem de ontem, sem que disso se dê conta ao incauto.

Ora, notícia importante é o que se passa no meu jardim, que toda a gente desconhece, não tem acesso e, por isso, nem inveja consegue ter e está livre de reportagem televisiva. Sou um privilegiado!

O grilo ocupou uma parte do jardim, sem pedir e muito menos obter qualquer autorização, e sem pagar uma renda mesmo que simbólica. Está por ali, nem eu sei bem onde. Ouço as suas bonitas sinfonias, interrompidas mal abro a janela ou me aproximo do local de onde vem a bela sonoridade. Deve pensar lá para ele:

- Olha-me este! Ouve música de borla e ainda queria renda! Era o que faltava. Por aqui, a lei protege os inquilinos ...contente-se em ouvir o que não é para todos!

Dou por mim a pensar: o grilo tem razão. Não o devo perturbar e a minha preocupação deve ser a de arranjar forma de ele por ali permanecer muito tempo, mesmo não sabendo o local exacto onde pernoita e passa o dia. É um artista, não pesa, se calhar até se alimenta de alguns insectos indesejáveis e toca tão bem! Mesmo com a lei das rendas alterada, vou permitir-lhe a permanência sem cobrar um tostão. Sou um magnânimo, passe a imodéstia!

Afinal de contas, música de grilo não tem preço e só é acessível a alguns. Concluí depressa que, quanto mais música ouço, mais adoro os grilos! 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

República

No dia de aniversário da República impõe-se, sem pretensiosismos nem manias pseudointelectuais, uma pequena reflexão sobre o mundo que os horizontes, curtos, me permitem descortinar, avaliar e, fundamentalmente, temer, não por mim mas por aqueles que me seguem e por cá ficarão em condições que nunca pensei pudessem repetir-se.

Ontem houve eleições no Brasil e, em Espanha, foram antecipadas para o próximo mês de Novembro. No primeiro, Lula ainda irá disputar a segunda volta, embora tudo pareça indicar que acontecerá o regresso ao "bolsonarismo", agora representado pelo filho do pai, acolitado pela restante família, santificado pelos evangélicos e com o apoio declarado dos doláres e da melena. Aqui ao lado, também o "barril" se está a entornar para a direita, com a "pólvora" a preparar-se para ditar leis e comportamentos.

Por cá, o "justiceiro" brande a sua "espada", inunda o país de cartazes, fomenta o ódio e a desconfiança, instala uma nova linguagem mentirosa e cada vez mais tabernal.

Lá mais ao longe (ou será perto?), o homem da melena continua a fazer das suas, fazendo do azul preto e do verde amarelo, com a mesma facilidade com que se misturam guaches, sustentando o Bibi e querendo eliminar tudo o que lhe possa fazer frente, incluindo uma civilização milenar.

Na fronteira da Europa, a guerra continua a semear desgraça, com o general da "operação especial" a fazer o que quer, borrifando-se nas sanções europeias e nas reprimendas, terríveis, da senhora Ursula.

Ainda bem que se deu a bronca entre Jesus e o Cristiano. Há tema assegurado até ao Natal  ...

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

MÚSICA

Ontem, no CCC, aconteceu mais uma noite de encher os olhos, os ouvidos e toda a "mioleira", com um espectáculo extraordinário de beleza musical, de profissionalismo e de comunicação brilhantes.

Schönbrunn Palace Orchestra

E ver, e ouvir, um violinista português radicado na Áustria, ouvir um maestro austríaco a dirigir-se ao público num português quase perfeito e a orquestra a tocar Coimbra com as vozes do público, foram cerejas no topo de um bolo lindo e saboroso.

Duas sessões esgotadas levaram, entre as 19H00 e as 23H30, bem mais de um milhar de pessoas à nossa excelente sala. Tenho dúvidas se houve alguma que saísse defraudada!

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Preocupação

Foi, há 52 anos, um dia que marcou um corte, tornando claro ser impensável e impossível o regresso ao antes, a volta à lei da rolha, a manutenção do Portugal do Minho a Timor, tantas vezes apregoado pelo "Botas" e seus apaniguados.

Para aqueles que, na época, se intitularam "maioria silenciosa", com um pseudo-silêncio dos "inocentes", foi a demonstração inequívoca de que os tempos estavam a mudar e que as vozes caladas tantas vezes à força podiam agora gritar pela justiça, pelo elevador e por um mundo novo.

Meio século passado, com tanta mudança conquistada e uma incomparável melhoria nas condições de vida, surge uma quase maioria expressa nas urnas, não silenciosa, antes ruidosa e malcriada que, através dos seus representantes, cria um ambiente de reles tasca na casa da Democracia. Preocupante!

domingo, 27 de setembro de 2026

Actualidade

"Coimbra, 27 de Setembro de 1991 - Um dia lavado de corpo e alma. Dores ainda, mas aliviadas pelo bálsamo de palavras desusadas, nem ditas nem ouvidas antes. Viciados num quotidiano de banalidades, banalizamos a vida, a nossa e a dos outros, a repetir lugares-comuns. E só lá de tempos a tempos conseguimos, quando conseguimos, realizar o milagre de nos merecermos, a ser inéditos."

Diário XVI
Miguel Torga
Coimbra (1993)

Se Torga ainda por cá estivesse, escreveria hoje o mesmo, ainda que por outras palavras. Ao contrário do que vamos assistindo por aí, a ele não faltava vocabulário nem coragem para exprimir as suas ideias.

sábado, 26 de setembro de 2026

Água na fervura

Quando tudo indicava que entre Guerra e Cabreiro nunca haveria animosidade, eis que o Ministério Público faz buscas na Judiciária e vasculha intensamente tudo de uma ponta à outra, incluindo o computador do Director. Dizem as más línguas que se pretende confirmar a existência de um "animal" que se tresmalhou do "rebanho" e colocou a "boca no trombone" da orquestra informativa dos escândalos.

O rigoroso inquérito que o tempo há-de resolver, juntar-se-á, provavelmente, a tantos outros que nem o tempo resolve.

"Malhas que o império tece" e para as quais há que ter paciência. Os recursos humanos são escassos e muitos estão empenhados em descobrir quem invadiu a casa da democracia e provocou aquela destruição maciça num gabinete onde se guardavam segredos importantíssimos, e da qual, por milagre, apenas se salvou a moldura da Virgem Maria e o terço que a circundava.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

"Página em branco"

 

Deixa-me rir, no Lado errado da noite, onde a minha Imaginação foi ao Frágil, Só, dando uns passos em busca do Bairro do amor e À espera do fim.
Partiu hoje! Dá-me lume para a Viagem! A gente vai continuar pela Terra dos sonhos.