terça-feira, 10 de março de 2026

Dúvidas

Acabam dentro em pouco!

Estão quase resolvidas!

Os objectivos estão em vias de ser alcançados!

Foi praticamente destruída a capacidade de resistência dos inimigos!

A vitória está mesmo muito próxima!

Morrem muitos, morrem poucos? Apenas pormenores despiciendos!

Se não existissem as guerras, o que seria da indústria das ditas?

E quanto sofreria o PIB de alguns países?

E as contas bancárias de algumas "trutas"?

Dúvida existencial: orçamento rectificativo ou aumento de impostos?

Não há razões para alarme. O mundo está sossegado, tranquilo, a paz garantida. O Conselho de Segurança da ONU foi presidido pela elegante, esforçada e diligente esposa do homem da melena!!!  

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Ontem"

Os tempos eram outros, muito, mas mesmo muito, diferentes. Vivia-se a utopia, o sonho, a vontade de fazer e de mudar, a esperança dos dias melhores a chegar, com o "escadote" acessível a todos os pés.

A informática era pequenininha, a grande maioria dos carros tinha direcção assistida "a braço", a televisão aguardava ansiosamente pela cor e pela proliferação de canais, a auto-estrada começava em Vila Franca de Xira para quem se deslocava à Capital e nos Carvalhos para quem se dirigia à Invicta. Tudo era urgente, imperioso, importante e fundamental. Ninguém falava em partos assistidos pelos papás, licenças parentais ou de amamentação.

O dia de trabalho foi tenso, antecedido pela "entrega" da mãe no Montepio, com a ânsia e o desejo de uma "boa hora". À hora do almoço tudo permanecia idêntico, apenas com o conforto da visita do médico e a quase confirmação da inevitabilidade da cesariana.

O expediente encerrou e uma autorização, especial, permitiu uma saída antecipada e a deslocação em corrida - era perto e bom caminho. O telemóvel nem em sonhos ...

Tinha acabado de nascer o meu primeiro rebento, era uma menina e a mãe ainda dormia, recuperando da intervenção.

- É linda!

Estava ali, a pouco mais de um metro, embora com o vidro do berçário a separar-nos.

Quarenta e oito anos decorridos, nem o vidro nos separa!

PS - Uma vez mais, um Presidente da República toma posse no dia do aniversário da minha "menina". Que Seguro seja um bom Presidente ... tem muito trabalho pela frente.

sábado, 7 de março de 2026

Palavras bonitas

A minha irmã cumpre hoje a sétima capicua e, como eu ainda por cá não estava, no dia seguinte Torga publicou no seu Diário um poema a saudar a sua vinda ao mundo.

Coimbra, 8 de Março de 1949

DEPOIS DA CHUVA

Abre a janela e olha!
Tudo o que vires é teu.
A seiva que lutou em cada folha,
E a fé que teve medo e se perdeu.

Abre a janela e colhe!
É o que quiser a tua mão atenta:
Água barrenta,
Água que molhe,
Água que mate a sede ...
Para que haja um sorriso na parede!

Diário IV
Miguel Torga
Coimbra (1973 - 3ª. Ed.)

Exactamente um mês depois, salvaguardando o excesso de optimismo que podia transparecer do primeiro, deixou-lhe um aviso para a vida que estava a iniciar ... e nem sequer a conhecia.

Coimbra, 7 de Abril de 1949

EXAME DE CONSCIÊNCIA

Por tudo passa o artista:
Primeiro, pela alegria
De se julgar criador
No seio da natureza;
Depois, por esta tristeza
De ver morrer o que fez,
Sem ter nas mãos a certeza
De erguer o sonho outra vez.

Diário V
Miguel Torga
Coimbra (1974 - 3ª. Ed.)

sexta-feira, 6 de março de 2026

De caras ...

(Ainda) vale a pena estar atento ao que, fora da caixa, se vai produzindo por aí.

Os Cara de Espelho já passaram cá pelo Oeste, como ficou aqui registado. Ontem, foi a Culturgest a dar esse privilégio ou, talvez melhor dito, a proporcionar um grande espectáculo a todos os que encheram aquele lindo auditório.

quinta-feira, 5 de março de 2026

ALA

ALA já cá não está.

Morreu um dos maiores escritores de língua portuguesa, que (me) deixou livros incontornáveis e lições de vida extraordinárias. A partir de hoje, António Lobo Antunes estará sempre à mão na "biblioteca" e na memória, enquanto esta tiver capacidade.

Do primeiro ...

"(...) As ruas cá fora seguiam como um passeio ao sol e outro à sombra como coxos em sapatos desiguais, e o médico demorou-se à porta do consultório a palpar as mandíbulas doridas para se certificar de que continuava a existir dos olhos para baixo: desde que vira em África órbitas de crocodilo à deriva no rio, em busca dos corpos que perderam, que temia soltar-se de si próprio para flutuar, sem lastro de intestinos, em torno dos cegos que desafinam as esquinas com os seus acordeões reumáticos de Chopins em pasodoble. Esta cidade que era a sua oferecia-lhe sempre, através das suas avenidas e das suas praças, o rosto infinitamente variável de uma amante caprichosa que as árvores escureciam do cone de sombra dos remorsos melancólicos, e acontecia-lhe tropeçar nos Neptunos dos lagos como um bêbedo se encontra, ao sair de um candeeiro, com o queixo feroz de um polícia sem humor, culturalmente alimentado pelos erros de gramática do cabo da esquadra. (...)"

Memória de elefante
António Lobo Antunes
Dom Quixote (1979)

... até ao último:

"(...) A minha vida antes de conhecer o senhor está quase toda no fundo da barragem que engoliu a vila, olho para cima e encontro um céu de água, talvez sobre ele exista um outro, não sei, porque à noite vagas constelações de luzes trémulas e uma manchazita mil vezes reflectida que pode ser a lua, às vezes presa na sombra de uma árvore vejo o que parece ser o meu pai, o que parece ser o meu avô, o que parecem ser os afogados do poço que subiram lá do fundo numa lentidão ensonada
- O que se passa aqui?
caminhando ao acaso na horta, sem entenderem, espantados
- Continuarei vivo eu?
ou seja a viúva que morava a seguir a nós e o coxo da bengala
(mestre Esteves)
que se aleijou na guerra em África, puxando a perna postiça com a palma
- Raios partam os pretos 
 às vezes à noite continuo a ouvi-lo, batendo no soalho o seu coto de pau ou sentado a um canto
a lamber a mortalha do cigarro entre os estalos dos móveis enquanto o senhor
(começo a conhecê-lo)
na sua cadeira, quase à janela, se inclina a olhar o baloiçozeco parado, embora dentro da água a
a claridade esverdeada e as coisas menos nítidas, mas um baloiço sem dúvida e a mão dele a pensar, que é aquilo que os dedos fazem devagarinho quando coçam a orelha, o coxo, sempre a transportar o móvel pesadíssimo de si mesmo, sentava-se às vezes num degrau, ao lado da maçada do próprio corpo, a soprar as bolhinhas do cansaço pela boca aberta, se por acaso o senhor o olhasse agora, da sua cadeira, dava logo com ele, não é o gordo a enrolar o cigarro, esse é o mau pai, é o outro mais pequeno, magrinho, a ver os milhafres ao longe que a água da barragem não dissolveu ainda, o advogado para mim, deitado na cama, com um braço em cima dos olhos, no hotelzito onde a gente se encontrava
- São sempre assim os teus sonhos? (...)"

O tamanho do mundo
António Lobo Antunes
Dom Quixote (2022) 

terça-feira, 3 de março de 2026

Visitas

A rotina prega-nos partidas e evidencia-nos a displicência com que, quase sempre, olhamos aquilo que nos rodeia e que bem conhecemos.

Ontem recebi a agradável visita do meu amigo ADS, vindo da capital do "império", com todos os sentidos bem despertos, carregado com o saco de marcadores e pacotes de açúcar e, no bolso, a companhia, pequenina, que lhe permite registar para a posteridade situações, acontecimentos, paisagens, em fotos sempre bonitas e de fazerem inveja, muita, a quem mal consegue carregar no botão sem tremer e, normalmente, corta uma parte ou deixa muito longe o objectivo.

Para que a visita ficasse plasmada (que raio de palavrão agora tão em moda), mostrou a sua resiliência (outra bonita!) e conseguiu registar algumas florinhas novas que o jardim, orgulhoso, já exibe e que o dono nem sequer tinha valorizado.

Muito obrigado pela visita e apareça sempre que queira, nem que seja para a revisão da matéria. O Oeste fica muito "inchado"!



segunda-feira, 2 de março de 2026

Palavras bonitas

Continua a parecer que foi ontem, mas já lá vão 22 anos. A capicua fica assinalada com a ligação poética entre o mês em que partiste e aquele em que me pariste.

ENTRE MARÇO E ABRIL

Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto, 
entre março e abril,
o rosto que foi meu.
o único
que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem 
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado -
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
- que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade(2000) 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Esperança

Tudo indica que as máquinas estão a conseguir controlar - não vencer - as marés.

Na próxima semana já deverá aparecer, como que por milagre, uma "nova aberta". Entretanto, os surfistas do ar quiseram aproveitar o vento em excesso e a água em abundância. 


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Lutas

Mantém-se a guerra entre a água e a terra, as marés e as máquinas, os técnicos e os empíricos, a natureza e a ciência.

Teremos praia?