terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Livros lidos (ou em vias disso)

Terminei ontem a leitura de um livro que o meu amigo ADS me emprestou, para que eu (re)lembrasse como era a vida no campo no século passado. Um conjunto de doze contos de José Amaro, publicados em 1973 sob o título genérico de Contos do Ribatejo.
Não conhecia o autor mas lembrei-me muitas vezes de estórias idênticas a que assisti ou tive conhecimento e que ele tão bem relata, procurando que esse relato seja pormenorizado e suficientemente descritivo, e que o leitor imagine a cena, o cenário e tenha pressa de chegar ao epílogo. Uma linguagem clara para quem é do século passado mas cuja clareza já será difícil de entender pelos jovens de hoje. A vida descrita, felizmente, alterou-se completamente e hoje já muito pouco do descrito acontece.
Fica por aqui um excerto do conto "O milagre da cabaça", no qual a "filosofia" de um bêbado é contada com um humor e um detalhe que vale a pena transcrever:
"(...)
- Eh Quirós, hoje é domingo, já foste à missa?
- Ninguém precisa d'ir à missa p'ra falar com Deus ... Se ele tá im toda a parte p'ra qu'é c'uma pessoa anda à prècura Dele?
- Mas na igreja o padre também dá conselhos.
- Mas p'ra qu'é que servem os conselhos se não há fé pr'ós seguir? De que há falta é de Deus não é de cunversa ... Lá na igreja o padre dizia-me logo ... Ó Quirós, tens de dêxar de ser bêbado! Obrigado! ... Isso já ê sabia antes dele me dezêri! ...Mas s'ê gosto mai do vinho que de Deus ... nã pode ser nada ... O qu'era preciso era ele pôr-me a amar a Deus acima de todas as coisas ... e tamém do vinho ... mas lá isso é c'o padre não é capaz ... e eu sê lá se Deus nã quer qu'ê seja bêbado? ... Ele tá a ouvir-me, tá sempre ò pé de mim e nunca me disse nada ... se calhar é por que no mundo tem que haver bêbados e calhou-me a mim ... fui escolhido por Deus ... ê valo mais c'àqueles que são iguais òs outros ... nim Deus s'alembrou deles pr'ós fazer diferentes ... Quando os gatunos vão roubar as caixas das esmolas às igrejas amam mais à melhér e òs filhos que tão com fome, do que amam os padres! ... E atão? Deus é que sabe quim precisa!...
E o Quirós ficava a dissertar horas e horas sobre o mesmo tema:
Dos que passavam uns diziam:
- Já tás como hades ir!
Mas outros guardavam para si:
- Quem sabe se tens razão! ...
Toda a gente na terra tinha ouvido dissertações do Quirós sobre a origem do Mundo, o dia do Juízo e a Paz Universal, mas um dia o Quirós deixou de se ouvir dos púlpitos populares, estava doente, já nem saía ...
O médico tinha dito que ele tinha o fígado queimado e "a barriga de água" e por isso já quase em coma queria continuar a beber vinho. Pudera, a água e o vinho sempre se misturaram bem ...
Desapareceu o Quirós das ruas da amargura, estava muito mal.
- Coitado ... Era assim mas nunca fez mal a ninguém ...
(...)

terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco

Partiu hoje mais um ... a pouco e pouco, os que viveram, e lutaram, contra a noite que nos apagou as luzes, nos cortou horizontes, nos quis fazer crer que o destino estava traçado, que era assim ... ou assim, nos vão deixando.
Fica a homenagem, singela mas sentida, e o desejo de que os meus netos nunca deixem de ter a possibilidade e a liberdade de fazer o que lhes aprouver.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Centenário

Passam hoje 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyer Andresen.
Sophia, que tem tido lugar neste espaço por tudo e por nada, deixou uma obra ímpar, da poesia ao conto, sintetizando a beleza da paisagem, da terra, do amor, da realidade, da liberdade, da vida.
Fui à estante, peguei num dos vários livros que lá estão, abri sem olhar e surgiu esta maravilha, idêntica à que estará na página anterior e semelhante à que encontraria na página seguinte.
Que bom é ler Sophia sempre e quando nos apetece.

AS FONTES

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Poesia (5ª edição)
Caminho

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Actualidade em verso

Sigo o Blog "Duas ou três coisas", do Embaixador Francisco Seixas da Costa, e hoje fui surpreendido com um soneto de Luís Filipe Castro Mendes, antigo Ministro da Cultura no governo de António Costa, adaptando um soneto de Camões que, nos meus tempos idos de estudante, era dado como exemplo da cacofonia.
Aqui fica o soneto de saudação à "morte" da geringonça, que não produz cacofonia e se "rouba" com a devida vénia. O outro, o antigo, já não precisa de vénia por estar no domínio público e fazer parte daqueles que ainda sei de cor.

Alma minha gentil que te partiste                                  Geringonça infiel que te partiste
tão cedo desta vida descontente,                                    tão cedo desta vida, de repente,
repousa lá no Céu eternamente,                                     faz reviver em nós o amor ardente
e viva eu cá na terra sempre triste.                                do fulgor que nos deste e a que fugiste.


Se lá no assento etéreo onde subiste,                             Se dos paços perdidos que correste
memória desta vida se consente,                                    os passos refizeres, novos, frementes,
não te esqueças daquele amor ardente                           não esqueças que a nós já não consentes
que já nos olhos meus tão puro viste.                             o calor da esp’rança que acendeste.

E se vires que pode merecer-te                                       E se achas que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou                                   alguma coisa o eco que ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te                            desta voz que pudemos of’recer-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,                             vê que tudo o que o teu brilho nos deixou
que tão cedo de cá me leve a ver-te,                               durará mais que o tempo de perder-te,
quão cedo de meus olhos te levou.                                  pois no nosso futuro já pousou.

Luís Vaz de Camões                                                                              Luís Filipe Castro Mendes
(Séc. XVI)                                                                                              (Séc. XXI)

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Eleições e abstenções

No passado domingo, como sempre fiz em todas as eleições desde que "a liberdade está a passar por aqui", cumpri o meu dever e exerci o meu direito de ir votar.
Pouco passava das onze da manhã e, no caminho, não me pareceu que o movimento fosse mais do que o habitual em situações idênticas nos últimos anos. 
Longe vai o tempo em que as ruas estavam cheias de gente ...
Chegado à escola do Bairro da Ponte, verifiquei que a minha mesa não estava, pela primeira vez, no primeiro andar e que, com ela, todas as outras tinham sido deslocadas para o rés-do-chão. Excelente medida, não por as escadas serem um obstáculo para mim (por enquanto) mas já o mesmo não poderão dizer muitos outros.
Lá me encaminhei para o novo local e confirmei: a fila era enorme. Pensei: talvez haja mais gente a votar, por ter sido sensível aos apelos, nomeadamente do Presidente da República. 
Quando já estava com o local da votação no horizonte, pareceu-me que a descarga nos cadernos demorava mais do que o habitual. Confirmei quando chegou a minha vez: tive tempo para verificar que havia  apenas três eleitores com o primeiro nome igual ao meu mas, mesmo assim, a "descoberta" do meu demorou uma "eternidade". Se era assim com um nome "invulgar", o que seria com os "Zés" e as "Marias".
No final da votação confirmou-se que a abstenção permanece muito elevada e que as filas não resultavam de maior número de pessoas a votar. A dificuldade está na prática do alfabeto ...

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Livros lidos (ou em vias disso)

Ninguém escreve como António Lobo Antunes!
E, para quem gosta, é um prazer enorme ter mais um livro para saborear. Editado este mês, chegou à Casa na passada terça-feira e já leva umas boas dezenas de páginas lidas.
A beleza da forma como Lobo Antunes descreve uma paisagem, uma personalidade, um acto, é deliciosa e única.

(...) não assim, ao contrário, Larouco primeiro Falperra depois, por favor não me troquem a ordem das recordações na prateleira da memória que depois me vejo grego para alinhá-las como deve ser, qual o sítio do meu pai, qual o sítio do sarampo que me dão ideia de faltarem, mesmo antes da primeira pequena com quem estive o incisivo quebrado por uma diferença de opinião aos dezasseis anos, a amiga do general de ligas pretas e anéis a brilharem pertíssimo de mim quando me prendeu o queixo
      - Maroto
      comigo a segurar-me sabe Deus com que dificuldade, no caso da minha mulher demoro séculos a pegar fogo, com a amiga do general nem risquei o fósforo e já ardo que é uma beleza, estávamos nesta vidinha quando principiaram as maçadas na Baixa do Cassange, os pretos e os plantadores de algodão às turras e desafios e ameaças e pontes destruídas e sanzalas desertas e os armazéns em chamas e os brancos a amontoarem-se em Malanje, a seguir à serra da Falperra a serra do Gerês, o professor
      - E depois e depois?
       eu vazio a folhear a memória enquanto a trégua crescia (...)

António Lobo Antunes
A outra margem do mar
Dom Quixote (Set. 2019)

domingo, 22 de setembro de 2019

Música

Hoje apeteceu-me colocar aqui esta maravilha, feita por um ENORME que, já septuagenário, mantém viva a chama que me acompanha desde que "a banda passou", em 1966.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Palavras bonitas

VOZ

Era uma voz que doía, 
Mas ensinava.
Descobria,
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.

Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia,
Lá na terra onde morava.

E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.

Miguel Torga
Libertação (4ª Edição)
Coimbra 1978

Já passam hoje 4 anos da partida do meu pai e ainda parece que foi ontem.

sábado, 20 de julho de 2019

Netos

Esta semana foi mais pródiga em visita de netos, que por cá passaram mais algum tempo do que é normal, com direito a almoço e tudo.
Num dos dias, à chegada, cumprimentei:

- Olh'ós meus netos!
Com o ar malandro que o caracteriza e a ironia costumeira, recebi o troco:

- My name is Vasco.

Faz hoje 8 anos e por isso, happy birthday for him.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Estórias

Há finais de dia em que o Sol tem aquela cor indefinível, muito bela, que nos obriga a prestar atenção e a tecer elogios com todo o vocabulário que sabemos e se adequa à situação.
- É um vermelho maravilhoso! Ou será amarelo torrado, doirado, mistura de todo o arco-íris, castanho-avermelhado, cor de mel com laivos de framboesa, lindo!
A incapacidade para a definição matemática da cor que o Sol apresenta trouxe-me à memória uma história que não recordo se foi lida, ouvida ou contada. 
Aclarou-se-me a memória: era uma história que meu pai contava, à laia de adivinha ...
A gaveta memorialística, por vezes e sem razão aparente, abre-se  e deita cá para fora algo que, se o nosso cérebro funcionasse como uma máquina insensível, nem à porta assomaria.

"Era uma vez um rei com uma grande barriguinha ..."
Nada disso. O rei era um homem de grande porte, elegante, venerado e considerado pelos seus súbditos, que não se cansavam de elogiar o seu carácter e a sua inteligência.
Acontece que o rei apenas tinha uma filha, o que não agradava à corte, que preferia um varão que assegurasse a sucessão com clareza e sem intervenções terceiras.
A princesa era de uma beleza ímpar (como são todas as princesas) e todos os nobres, novos e velhos, ambicionavam com ela casar. Todavia, os seus olhos de esmeralda não se fixavam na nobreza, antes se perdiam na vastidão da corte.
Nas suas deambulações, a princesa percorria todas as terras e contactava com toda a gente do reino e, consequência inevitável, os amores surgiram e chegaram aos ouvidos da preocupada rainha, que já se apercebera do alheamento que a princesa devotava à vida na corte.
Confrontada pela mãe, a princesa confirmou que só tinha olhos para um plebeu, de seu nome Afonso, que descreveu como belo, meigo, inteligente, terno e bonito, e que só a ele uniria o seu destino.
A rainha pensou, pensou, e resolveu aproveitar um momento mais íntimo para partilhar as suas preocupações com o rei e pedir-lhe que recebesse o plebeu e desse o seu consentimento ao noivado.
- Está bem, fidelíssima rainha. Mas só com três condições cumpridas, que me permitirão medir a inteligência desse tal Afonso e aquilatar se tem condições para integrar a casa real. Ele que se apresente amanhã no castelo mas:

      - Nem de noite nem de dia;
      - Nem a pé nem a cavalo;
      - Nem nu nem vestido.

A rainha ficou em pânico por não conseguir imaginar como poderia Afonso cumprir as ordens do rei. Apesar disso, chamou a aia de confiança e ordenou-lhe que transmitisse ao pretendente as exigências do rei.

No dia seguinte, Afonso apresentou-se na corte após o Sol ter desaparecido no horizonte mas antes de a noite ter caído; vinha com um pé num estribo do cavalo e o outro mancando pela estrada de acesso ao castelo; trazia uma rede que lhe cobria todo o corpo, sem uma única peça de vestuário.

Moral da história: não há problema sem solução!