António Lobo Antunes é um escritor muito querido por aqui, há muitos, muitos anos. Voltar aos seus livros e à sua forma de escrever é um "desporto" que pratico com regularidade e sempre com uma satisfação enorme.
Nasceu num dia especial, ontem, e teria feito 84 anos se a sua partida não tivesse acontecido em Março deste ano, por sinal um mês também significativo cá por casa.
As obras de ALA estão todas à "mão de semear" e, de quando em vez, abrem-se ao acaso e lê-se um qualquer trecho. Continuam a ser sempre surpreendentes e deliciosos!
Ontem foi isto:
"(...) larguei o carrinho de mão nas traseiras por não necessitarmos dele, para quê, da mesma forma que não necessitamos do comboio da França porque além de apenas significar duas sílabas não se volta de lá, uma cama articulada entre camas articuladas numa sala onde o pai do cego não vive, se demora urinando na fralda, o canito estendeu-se de focinho na terra encostando-se-me à palma numa humildade cansada, um vitelo cruzou a ponte lá em baixo, um cabrito fitou-me com insolência de uma rocha, os rapazes passaram na vinha como se não dessem por nós, alguém que não localizei
- Foi depois do sarampo
levantei-me do cepo para me ir embora porque o relógio sem ponteiros marcava a hora certa, isto há vinte, trinta anos e a hora certa sempre, quem afirma que o tempo avança engana-se, somos sós que avançamos e nos tornamos idosos, não ele, tenho notado isso comigo, as pedras iguais, um bocadinho de musgo talvez e eu decrépito, como será a vila hoje, ruínas, meia dúzia de cercas que os arbustos comeram ou vivendas de emigrantes a regarem jardins, ao chegar a casa em Lisboa percebi que gente por uma mudança no ar embora nenhum ruído, nenhuma lâmpada e as janelas fechadas, o cartão do frigorífico no lugar em que o deixaram, os chinelos que ninguém me calça à cabeceira da cama, o esquerdo a necessitar de um reforço na biqueira (...)"


