terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Netos

O meu "homem" mais novo faz hoje 3 anos!
Dotado de uma forte personalidade (teimoso é o avô) tem, em simultâneo, um "mel" na voz e nas atitudes que encanta qualquer um, mesmo o mais insensível. Adora carros, sabe as marcas todas, questiona para que servem botões e comandos, senta-se ao colo, "conduz" a saída da garagem e sorri, matreiro, quando lhe digo que tem de acabar.
E, logo a seguir, ei-lo que sobe as escadas, corre lesto ao quarto, e pega no carro que, esse sim, domina sem dificuldade e conduz por toda a casa. 
O meu Miguel regista, para que se saiba: "tês anos e não tenho falda nem chucha!"

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Balanço 2018

A tradição é, nesta altura, um tema dúbio, que promove discórdia e é tratado consoante os interesses de quem mais procura protagonismo, populismo ou parvoíce. 
Uns, como os "Bolsonaros" brasileiros, clamam que "menino veste azul e menina cor-de-rosa; outros pretendem que "atirei o pau ao gato ou matar dois coelhos com uma cajadada" são adágios que vão contra o respeito devido aos animais; outros, felizmente poucos, acham que o Botas devia voltar, para gáudio de alguns marialvas que por aí ainda pululam. Tradições ...
Por aqui, a tradição mantém-se no balanço dos livros lidos no ano anterior, para que os "meus homens", já todos falantes mas ainda nem todos leitores, possam amanhã ver quais foram os livros que o avô foi lendo enquanto eles cresciam.




quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

"Quanto mais sei, maior é a minha ignorância" foi uma frase que fixei na década de setenta do século  passado (estranho) e me acompanha desde essa altura. Foi-me transmitida por um Professor (assim mesmo, com letra grande) do ISCAL chamado Dragomir Knapic, refugiado da (nessa altura) Jugoslávia e que leccionava Geografia Geral e Económica. Lembro-me dela amiúde e procuro que me desafie sempre. Correndo o risco de ser o "chato de serviço" ilustrei-a para os meus filhos em tempos idos e, mais recentemente, para o meu neto grande. Espero conseguir ainda transmiti-la aos outros três.
Vem isto a propósito de um livro que estou a acabar de ler: numa das suas crónicas do Expresso, Miguel Sousa Tavares referia, "en passant", que Milton Hatoum era um dos grandes escritores brasileiros da actualidade e que Dois Irmãos era um romance genial. Desconhecia o autor e, naturalmente, também o livro. Nestas alturas, a minha impaciência e o meu gosto por livros não me deixam hesitar e pronto, mandei vir ... está quase no fim e é, sem dúvida, um livro "enorme" que não chega às trezentas páginas, escrito em português "do Brasil" sem acordo ortográfico!

" (...) A cada mês, na noite de um sábado, a casa de Estelita virava um cassino, explodia de tanta luz, só eles na rua tinham gerador. Os vizinhos não eram convidados a entrar no palacete iluminado, ficavam na janela, intocados na escuridão, admirando aquele chafariz de lâmpadas, tentando adivinhar quem eram os convidados. Naquelas noites, Estelita tinha a audácia de pedir a Zana baldes cheios de gelo. Certa vez pediu um rolo de gaze. Fui levar o gelo e a gaze, e fiquei curioso de saber quem estava ferido no palácio dos Reinoso. Antes de voltar, dei uma espiadela na sala onde iam jantar antes da jogatina. O rolo de gaze havia se transformado em trouxinhas que os convidados usavam para espremer o limão sobre o peixe. Contei a cena a Halim. "São finíssimos, pertencem à nossa aristocracia", disse ele, "por isso adoram aqueles macacos enjaulados no quintal." Um dia encasquetei: me recusei a ser mensageiro dos Reinoso. Minha mãe não tinha coragem de dizer a Zana que eu não era um empregado dos outros. Eu mesmo disse, exagerando um pouco, contando que Estelita atrapalhava a minha vida, que eu não tinha tempo para trabalhar em casa. Halim concordou comigo. E muitos anos depois, quando Zana expulsou brutalmente Estelita de casa, dei umas gargalhadas na cara daquela megera.(...)"
Milton Hatoum
Dois Irmãos
Companhia das Letras

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Palavras bonitas

TRAJECTO NA ESCRITA

Vou entrançando
o traçado
do meu trajecto na escrita

Consulto os mapas da alma
o júbilo, a assombração
do coração a desdita

os atlas da insubmissão
as cartas dos oceanos
os versos, a alegoria

Vou navegando à bolina
por entre ventos contrários
e ondas enraivecidas

com a bússola da transgressão
os astrolábios dos dias
e as palavras da poesia

Vou atando e desatando
o destino e a desdita
misturando os nós dos mares

com o anelo da paixão
o alvoroço da vida
as dúvidas da harmonia

e a minha melancolia

Maria Teresa Horta
Estranhezas
D. Quixote - 2018


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Teatro A Barraca

E já estamos a chegar ao mês do Natal, o que significa mais um ano a finar-se e outro a nascer, cheio de votos de que "se não for melhor, seja pelo menos igual".
O tempo corre a uma velocidade estonteante, qual carro de Fórmula Um e, com esta velocidade, nem há tempo para escrever meia dúzia de linhas por aqui.
Um mês sem nada, francamente ...
Para memória futura, fica o registo de mais uma ida ao teatro, ver a peça que está em cena n'A Barraca - À volta o mar, no meio o inferno. E, como é normal, foi mais uma noite de grande Teatro, com a particularidade de o espectáculo ter o seu início às, pouco habituais, 19H00. Nunca me tinha acontecido ir ao teatro a esta hora. No final, Maria do Céu Guerra (que me tinha atendido o telefone para a reserva) explicou aos presentes que a alteração do horário era uma experiência, por terem recebido sugestões nesse sentido e por lhes parecer que, no Inverno, talvez trouxesse mais gente. 
Não estavam muitos espectadores. O espectáculo, todo ele, do texto aos actores, vale a pena e merece ser visto. A Barraca ainda não é um oásis, mas quase ...
Ainda por cima, cheguei a casa pouco passava das 23H00, depois de duas horas e meia de bom teatro.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

Depois do crime o remorso a pesar, o pensamento sem sossego, as noites sem sono, os dias, as coisas, as pessoas, as memórias, a vida ... de quem se dedica a cobranças difíceis e, nos intervalos, joga bilhar.

(...) Precisava de concentrar-me antes de começar a partida mas a cabeça fugia-me sempre para o homem, o doutor, o ervanário e os outros, a moer tudo aquilo que se tem passado nos últimos tempos enquanto um pedaço de cesto, meio submerso, se afastava de mim rio abaixo, detendo-se por vezes a observar-me sobre a asa de plástico, igualzinho a essas pessoas, já distantes, que de repente nos olham por cima do ombro antes de desaparecerem de vez comigo a pensar
     - Conheço-te?
     porque com o meu tipo de trabalho temos de ser atentos, nunca se sabe de onde vem uma ameaça, um problema, não há maneira dos outros compreenderem que apenas faço o que me compete, também necessito de comer, interessa-me lá a vidinha deles e como se trata de um encargo somente até podíamos, palavra de honra, ficar amigos depois, de quando em quando, por exemplo, aparecem-me inclusive caras com as quais simpatizo mas que me vejo obrigado a amarrotar um bocadinho, com elas já de gatas, até conseguir o dinheiro e gostava que percebessem que o sofrimento alheio não me dá prazer, resolvida a questão deixo-os na paz do Senhor, numa ou duas ocasiões ajudei-os a levantarem-se e cheguei a indicar onde fica a farmácia mais próxima onde além de tratar os dói dóis podem verificar na balança de cursor
     (são giros os cursores)
     se o peso aumentou ou tirar as medidas ao colesterol evitando tromboses, se calhar, vai na volta, salvei vidas e portanto até não foi mau de todo conhecerem-me, no que diz respeito a gratidão, não haja infelizmente muitas pessoas que a sintam e é pena, (...)

António Lobo Antunes
A última porta antes da noite

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

Apesar do grande poder que a vida lhe ofertou (ou ele tomou), de ter sempre uma multidão a seus pés, de lhe bastar um mero olhar para ser obedecido e venerado, o presidente morreu e, em vez do funeral de estado que se preparava, vai ser escondido na lixeira. Apesar de bem morto e bem pregado no caixão, ele ainda filosofa:

(...) Vão me enterrar numa lixeira. Um presidente soterrado por lixo, deve ser uma metáfora que não entendo, com as faculdades já diminuídas.
Mas adivinho as piadas a surgir se me descobrirem o caixão aqui no meio da merda. O que pode acontecer por causa do desespero. Ninguém sabe quanto cava uma pessoa quase morta de fome e que espera encontrar qualquer coisa para comer, mesmo podre, ou para vender, mesmo estragada. Algum jornal satírico põe logo em título: <>, o que deve ter mesmo piada, porque não estou propriamente enterrado, mas sim, enlixado mesmo. E bem lixado. Talvez não tenha sido a melhor ideia dos meus familiares e amigos, mas até compreendo, a rapidez da manobra não permitia olhar ao sítio, este era o melhor entre os próximos. Ou o menos mau. Como se tivessem a intenção de me impedirem de pensar com os meus botões de punho em ouro puro, atiraram mais entulho para cima, o qual foi abafando todo o som do mundo vivo e do inerte, se este tem alguma voz.
O manto do silêncio me cobria finalmente. (...)

Pepetela
Sua Excelência, de corpo presente
D. Quixote (2018)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Estórias

Era M. da Nazaré, revelando o apelido a origem da vila piscatória a que voltava, duas, três vezes por semana, sempre que lhe "cheirava" haver peixe. Utilizava o burro para fazer cerca de trinta quilómetros e trazia a mercadoria nos dois alforges que o asinino carregava, para além do peso do dono. O peixe era adquirido vá lá saber-se como porque, na altura, não havia lota nem ASAE.
Chegado ao poiso, enchia duas canastras ligadas por um pau grosso, que lhe permitia carregá-las ao ombro, sem grande esforço aparente. O peixe maiorzinho - chicharro, carapau, talvez um goraz - ficava na canastra da frente; a da traseira era cheia com as petingas, os carapaus do gato, as cavalas, algumas sardas. 
E. a pé, lá corria ele toda a aldeia, bem cedo, anunciando a sua presença com o roncar de um búzio, enorme, que se ouvia bem longe. Vendido o peixe, era tempo de desfrutar dos lucros. Arrumado o "veículo", a corrida para a taberna era imediata, que os cobres ganhos já pesavam na algibeira e chegavam para a bebedeira que começava à hora a que havia de almoçar e se prolongava até àquela a que devia jantar.
A companheira aguardava-o na soleira da casa (barraco) e, à distância, avaliava se havia condições para ali permanecer ou era melhor arranjar onde passar a noite, para que a tempestade de estalo e pontapé não lhe fizesse mais negras do que as que trazia sempre. 
Os vizinhos, mais afoitos, questionavam de vez em quando:

- Você, quando está são, até nem é má pessoa, mas bêbado ... até a desgraçada da mulher tem de fugir para não comer pela medida grossa.

- Desgraçada?! Tem sorte em estar comigo. Não presta para nada ... até lhe faltam bocados.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Crónica de uma morte anunciada

Provecto sexagenário, o poste tem os seus dias contados desde Julho. No início, teve alguma amargura com a notícia, por não se ter preparado com o devido tempo, como convém a quem vai contando os anos sabendo que a eternidade é apenas uma miragem.
Custa, sabemos que custa, chegar ao fim quando ainda damos luz, iluminamos, criamos sombras, mas ... chegou a altura de ser substituído por um outro, melhor colocado e, sobretudo, posto em lugar público porque a este se destina o serviço prestado.
O poste concluiu, assim, que o melhor era sair, tendo consciência que a sua hora chegara! E aguarda, serenamente, que os "gatos pingados" lhe prestem as devidas homenagens de forma digna, sem presunções nem discursos, mas condizentes com a luz que a todos deu, de forma desinteressada e sem olhar a estatuto, credo, cor ou género, como agora soe dizer-se. Mesmo nos anos do breu, procurou aclarar sempre as vistas a quem o visitava ou por ali viajava.
Eis senão quando se verifica que o A não o pode retirar sem o B; o B necessita de autorização do C, que está em reunião; o D garante que esta semana é que é e o E, que conhece o problema e já esteve no local, tem vontade de o resolver mas aguarda a decisão sobre a requalificação (bonita palavra) do local.
E o poste, periclitante, pensa um pouco e desabafa:

- Porque não caio eu do pedestal, já tão reduzido, sem intervenção destas mentes brilhantes?

Não, responde o bom senso. Vamos aguardar que a solução não tarda! É só uma questão de tempo!