sexta-feira, 10 de julho de 2026

História

Dêem as voltas que derem, omitam ou dediquem um pequeno rodapé, a história registará para sempre que, há dez anos, em Paris, Portugal venceu a França por 1-0, com um golo de Éder. Foi a primeira vez, e até agora, única, que a nossa selecção conseguiu o título de Campeão Europeu de Futebol. 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Estava a ser um verão duro. Não se podia sair da sombra, sair de casa, sair da cama, dos sonhos. O melhor era viver nos sonhos e nas noites, que também eram para sonhar. E a Pessivista perguntava: é verdade que o incrível Agilulfo não sonhava. Refazia a pergunta: conta-se que tinha noites como ausências, como se a alma e o corpo não coincidissem. Ele terá confessado que perdia a alma no sono, não sabia onde se guardaria, talvez prestasse serviço noutra dimensão absolutamente fechada ao conhecimento do corpo que esperava inerte, abandonado, na cama. Talvez as almas de uns prestem serviço a outros no lado oposto do mundo. Quando aqui é noite, é dia no planeta ao contrário. Talvez a alma de Agilulfo lhe fosse do corpo ao deitar para prestar serviço a alguém que justamente acordaria naquele instante. As mulheres riam discretas, para não fazer daquilo uma estupidez. Deixavam que fosse coisa poética. Uma ideia bonita muito bem ambientada entre os tons da salinha que ocupavam. E a Pasteleira, sempre agarrada à nova fé, dizia que não queria nada aceitar perder a alma à noite e que passaria a trancar a sete chaves as portas e as janelas, haveria de calafetar cada ínfimo buraco para não arriscar que a alma lhe fugisse nem que fosse mais magra do que um alfinete. Aprenderia a pôr-lhe cabresto, uma coleira, uma corrente de aço com uma bola de pedra na ponta, alguma coisa tão aprisionante, que não daria mais de uns milímetros de distância do coração. A alma que se levantasse mais de um milímetro do coração já deixaria saudade. Não queria. Era cobiçosa da alma e só lhe dava vontade de a aumentar, de a ter mais e mais. Brincavam. Estavam a brincar. Queriam comentar sobre os assassinos, mas ainda não ganhavam coragem. E a Marquesa, sem costumes humorísticos, apontando para as laranjas frescas que a Criada acabava de deixar num tabuleiro irrepreensível, dizia que o esposo não era de garantia. Tudo o que pode ter dito também podia significar o contrário. Era enigma de quem existiu diferente, como os génios. Agilulfo, com a graça de Deus, era como os génios. Não se comparava com a normalidade. Ao dizê-lo, outra vez se escutou a sineta e a Criada correu a buscar a Coveira, que era confiante de encontrar ali um figurino para um casamento da prima a acontecer no fim de Agosto. Deram-se boas tardes como já uma pequena multidão, e a Coveira perguntou: alguma coisa azul-celeste. Quero ir de azul-celeste, para me valorizar os olhos.(...)"

O século dos imbecis
Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Recordar

Por vezes, a ordem aleatória traz surpresas e recordações, sem necessidade de olhar o céu ou pró céu. E, de cada vez que esta voz surge, vem à memória uma noite velha, quente e bem estrelada no Alentejo profundo.

Foi há muitos, muitos anos, no Festival do Crato e nunca mais foi esquecida!

terça-feira, 7 de julho de 2026

Futebol irónico

Para quem não tem filhos dependentes da brilhante correcção digital dos exames, que está a acontecer e não se imagina quando irá terminar, já é possível ir de férias descansado ou passar os dias na praia sem preocupações.

O Mundial de futebol acabou ontem, para os devidos e legais efeitos, muito embora ainda haja alguns jogos para realizar até ao apuramento do campeão, coisa completamente irrelevante, diga-se. O Primeiro-Ministro poderá voltar ao sossego da sua caminha e deixar a obrigação de dormitar nos aviões que, apressadamente, o carregam de um lado para o outro. Não existirá mais abertura de telejornal ou primeira página de jornais com as notícias que, desde ontem, perderam todo e qualquer interesse. O gosto pela modalidade claramente sentido por 10 milhões de portugueses (ou serão onze?) eclipsou-se e vamos agora estar focados no nome do próximo seleccionador, nos reforços de jogadores "enormes" que todos os dias pisam a Portela e em saber se Cristiano Ronaldo vai levar Roberto Martinez para a Arábia.

Entretanto, dever-se-á dar início a uma campanha de recolha de assinaturas para exigir que a presidência da FIFA passe a ser ocupada pelo "homem da melena". Reúne todas as condições e será o homem certo no lugar certo, depois do seu brilhante desempenho neste Mundial: não deixou entrar o árbitro somali que tinha sido designado por quem de direito; obrigou a comitiva do Irão a dormir no México, para que não se corresse o risco de os lençóis americanos ficarem conspurcados; anulou o castigo correspondente a um cartão vermelho directo, que foi mostrado (e bem) a um jogador dos Estados Unidos. Só não conseguiu evitar a derrota destes frente à Bélgica, decerto por desconhecer que, por enquanto, no futebol ainda ganha quem marca mais golos ... mas isso vai acabar, podem ter a certeza!   

domingo, 5 de julho de 2026

Duas dezenas

Como o tempo passa ...

Há vinte anos, nasceu o meu neto primeiro de quatro na escala da idade, única que produz algumas diferenças. Enorme, forte, antevendo o tamanho que o passar dos dias viria a confirmar.

Nasceu grande, cresceu bem e vai continuar a ser enorme, por muitos e bons anos, dos quais eu ainda quero ver mais uns quantos.

A vida há-de sorrir-lhe, porque o merece, e ser clara como a água da sua predilecção, e também generosa, copiando uma das suas muitas qualidades.

Parabéns meu neto GRANDE!

Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.
Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2001)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"PRIMAS DE SAPUCAIA!

(...) Era à porta de uma igreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e Rosa tomassem água benta, para conduzi-las à nossa casa, onde estavam hospedadas. Tinham vindo de Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se dois meses na corte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas, teatros, rua do Ouvidor, porque minha mãe, com o seu reumático, mal podia mover-se dentro de casa, e elas não sabiam andar sós. Sapucaia era a nossa pátria comum. Embora todos os parentes estivessem dispersos, ali nasceu o tronco da família. Meu tio José Ribeiro, pai destas primas, foi o único, de cinco irmãos, que lá ficou lavrando a terra e figurando na política do lugar. Eu vim cedo para a corte, donde segui a estudar e bacharelar-me em São Paulo. Voltei uma só vez a Sapucaia, para pleitear uma eleição, que perdi.

Rigorosamente, todas estas notícias são desnecessárias para a compreensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma coisa, antes de entrar em matéria, para a qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a rédea à pena, e ela que vá andando, até achar entrada. Há de haver alguma; tudo depende das circunstâncias, regra que tanto serve para o estilo como para a vida; palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs as suas espécies.

Portanto, água benta e porta de igreja. Era a igreja de São José. A missa acabara; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo polegar, molhado na água benta e descalçado unicamente para esse gesto. Depois ajustaram os manteletes, enquanto eu, no portal, ia vendo as damas que saíam. De repente, estremeço, inclino-me para fora, chego mesmo a dar dois passos na direção da rua.

- Que foi, primo?

- Nada, nada.

Era uma senhora, que passara rentezinha com a igreja, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de sol; ia pela rua da Misericórdia acima. Para explicar a minha comoção, é preciso dizer que era a segunda vez que a via. (...)"

Singular ocorrência
e outras histórias de mulheres
Machado de Assis
Tinta da China (2026)

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Amanhã é um novo dia!

São 14 anos, a idade das confusões, dos anseios, da exigência, dos projectos, dos porquês, da afirmação da personalidade que se deseja bem vincada, com espírito crítico e respeito pelos outros, como tem sido até aqui e vai continuar, disso tenho a certeza.

O aniversariante de hoje - o meu DUDU- está bem longe, lá nos "confins" de um mundo em ebulição, com guerras "à porta" e uma cultura bem diferente, que lhe trouxe vivências e conhecimentos que não mais esquecerá.  Porém e felizmente, o mundo é cada vez mais pequenino, e amanhã já receberá aquele abraço apertado, assim que assomar à rampa do aeroporto. Estarei a aguardá-lo(s), deliciado, emocionado, exultante, sem palavras, para o(s) ver e sentir, com a certeza de que, aqui, no conforto da frescura do Oeste, apesar de tudo, "tá-se" melhor!

ERA O TEMPO

Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia.

O búzio de Cós e outros poemas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Futebóis

E, teimosamente, o Expresso continua a ser lido semanalmente em papel e, na benesse inerente à compra, diariamente em formato digital.

Na edição de hoje, Miguel Sousa Tavares põe o dedo nas várias feridas, nossas e do mundo, e António produz, como sempre, uma delícia. 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Não identifica uma altura exacta em que a banca começou a mudar para ele, sempre esteve em mudança, desde as fichas e fichinhas, passando pelos computadores de 256K ou as fitas de banda magnética com três pistas (que mais tarde dariam origem aos terminais de POS) e chegando, nos séculos XX e XXI, à digitalização, às comunicações, aos chipes e à inteligência artificial. Diz que a banca conseguiu fazer o aproveitamento da tecnologia, especialmente do avanço das comunicações: <<Foi como passar de um caminho de cabras para uma autoestrada. No resto, a banca é como tudo, vivia sob regras, listas de antiguidade, espírito de equipa, mas sem carneirismo. Havia um lado humano, protetor, mas sem ter o pastor lá do sítio. Alguns colegas atravessavam dificuldades e havia sempre maneira de ajudar. Tinha-se mais vida social. A maior parte do pessoal estudava à noite e por isso cruzavam-se em sítios distintos, no banco e na escola. A partir dos anos 2000, isso perdeu-se.>>

 (...) Conheço-a há muitos anos, somos amigos de longa data. Convidei-a para dar o seu testemunho, certo de que as suas palavras acrescentariam luz e verdade a estas páginas. Respondeu-me pelo WhatsApp. Li a mensagem de um fôlego, e soube logo que não poderia existir melhor forma de terminar este livro. Não porque fale, mas precisamente porque recusa falar. Porque a recusa, com todas as feridas e silêncios que arrasta, é também um retrato fiel daquilo que aconteceu a uma geração inteira de bancários neste país.

<<Eu não sei se quero participar, Luís ... Optei por fechar este capítulo em definitivo, o mais possível, porque em absoluto não é possível. Voltar a "abrir" não é algo que tenha vontade. E de que é que nos vale ou adianta a exposição? Vale zero!  Nunca ninguém se interessou por nós, pela hecatombe que foi nas vidas de muitos de nós. Eu, para viver com dignidade mínima e pagar as minhas contas, trabalho numa actividade que está na base da pirâmide social, com tudo o que acarreta. Não é "vergonha" nenhuma, mas não era a minha expectativa de vida, não foi a minha projeção de vida nem para o que trabalhei. Não tendo estabilidade no rendimento mensal, tive de antecipar o pedido de reforma ao abrigo do desemprego de longa duração. Do Fundo de Pensões recebo 330 euros e da Segurança Social 506 euros, para 38 anos de carreira contributiva, no total. Eu não quero falar da banca, nem do banco, nem de despedimentos, nem do que seja. Não fiques aborrecido comigo, mas a única interação que tenho com o banco é o pagamento da casa no dia 23. E, agora, os 330 euros que me pagam por 25 anos de trabalho. Ninguém quis saber. Ninguém quer saber. O modelo de cálculo das reformas é algo de tão surreal! É um roubo autorizado e legalizado. É o lançar para os parâmetros da pobreza quem sempre trabalhou, produziu e contribuiu, quem educou filhos e investiu na formação das gerações mais bem preparadas que este país alguma vez teve. Não há um tribunal que nos dê razão, que nos oiça, que nos valorize e devolva a possibilidade de uma velhice digna. Para se sobreviver a isto, só "arrumando" o assunto. É o que tento fazer, pelo menos de há uns dois anos a esta parte. E não quero reabrir essa "gaveta" ...>>

Bancários
Luís Bento
Fundação Manuel Francisco dos Santos (2026)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cinismo

O que qualquer pessoa de bom senso desejaria e esperaria era que OMAR ARTAN fosse o árbitro da final do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026, que ontem se iniciou no México, Estados Unidos e Canadá.

Vindo de um país situado nos degraus mais baixos da escada (em tempo apelidado de lixo por essa inteligência rara que manda nos USA), foi considerado o melhor árbitro de África em 2025. A sua participação seria um espelho onde toda a gente que por lá nasceu decerto se reveria com muito orgulho e com a certeza de que o local de nascimento não é um ferrete indelével.

Não aconteceu! O homem da melena impediu-o de entrar por vir da miséria e não pertencer ao escol do "cacau". Imagine-se o risco que ele correria se o homem desse uma lição de arbitragem e mostrasse que, afinal, o berço impede muita coisa mas não trava tudo.

Esperar-se-ia uma reacção forte das entidades responsáveis e dos colegas de profissão. Nada! Toda a gente se calou, a bem do "desporto" e do "cacau"!!!