segunda-feira, 30 de março de 2026

Redacções

Isto de ter (muitos) livros em casa cria problemas de espaço, de arrumação, de procura, de "norte"

Onde estará? É melhor ver no computador se é um dos que está registado ...

mas, vezes sem conta, traz surpresas tão inesperadas quanto agradáveis.

Olha as Redacções da Guidinha. Há quanto tempo ...

Luís de Sttau Monteiro foi jornalista e escritor cuja irreverência foi muito "admirada" pela PIDE, a qual, pelo muito "amor" que lhe tinha, lhe dispensou bastos "mimos" e o levou várias vezes para a sua companhia. Outros tempos ... 

Nos anos de 1969 e 1970, Sttau Monteiro publicou, no Diário de Lisboa, deliciosas crónicas de crítica social e de costumes que, na sua aparente simplicidade, procuravam iludir a vigilância da censura e ser mordazes ao quotidiano. Ao deparar com o livro, não resisti e (re)li as Redacções. Por parecer actual, com as devidas adaptações, deixo esta por aqui ... para memória futura.

Carta Aberta ao Presidente da América 

Ando mesmo à brocha com falta de pilim é que ando mesmo à brocha o que vale é que tive uma ideia bestial que me vai dar pilim em barda para comer sorvetes durante o Verão todo e ainda me vai sobrar algum para comprar um helicóptero e um transistor pequenino daqueles que parecem carteiras a ideia que eu tive foi escrever ao presidente da América a pedir pilim todo o pilim que lhe pedirmos é pouco porque não lhe faz falta nenhuma mas o melhor é eu contar como é que tive esta ideia sim porque a ideia não foi minha eu só a copiei quem a teve primeiro foi um do Salgueiros a coisa foi assim o meu Pai leu o MUNDO DESPORTIVO e deixou-o na sala e vai eu levei-o para a retrete mas não para o ler sim porque eu não leio jornais da bola agora que já ando no liceu levei-o mas foi para outra coisa porque a gente cá em casa anda agora em economias para comprarmos um perú lá para o Natal ora quando eu estava a fazer o que tinha a fazer pus-me a lê-lo porque é sabido que uma coisa puxa a outra toda a gente sabe como as coisas são a carta escrita pelo tal do Salgueiros que é um clube da bola é assim <<Excelência: Aceite senhor Presidente os respeitos desta Comissão Pró-Estádio do Sport Comércio e Salgueiros. Os dias que antecederam a amaração da Apolo-13 no Oceano Pacífico foram autênticos dias de preces. Todos os portugueses imploravam a Deus pedindo o salvamento desses geniais cosmonautas.

Deus atendeu os portugueses. De todo o mundo surgiram pedidos ao Divino Salvador para que acompanhasse os cosmonautas da Apolo-13 mas as orações mais febris partiam do povo português, esses portugueses que sempre têm Richard Nixon no seu coração. Esses portugueses que oram no seu altar Fátima - Altar do mundo. Pedimos e fomos atendidos. Os cosmonautas regressaram à terra vivos e sãos, cheios de contentamento, cheios de felicidades, orgulhosos do seu êxito. E assim tudo acabou em bem, felizmente para os cosmonautas e para o mundo civilizado. Sentimo-nos muito honrados com mais uma vitória dos nossos amigos americanos. Senhor Presidente: Quem como nós acompanhou a difícil campanha eleitoral que conduziu em boa hora Richard Nixon à Casa Branca passámos a partir do momento em que Vossa Excelência aparecia nas câmaras de televisão e nas páginas dos jornais a ser fervorosos simpatizantes de Vossa Excelência. Foram muitas as vezes, sempre que Vossa Excelência surgia junto do seu povo, chorámos de alegria ao depararmos com a figura de Vossa Excelência, Senhor Presidente: Que Deus nos ajude também a construirmos o nosso estádio. Somos um clube desportivo dos mais pobre em Portugal, mas também, nos honramos muito por sermos um dos mais populares clubes deste país. Precisamos de construir o nosso Estádio, tarefa em que todos nos encontramos empenhados e a braços com o mais grave problema, que é o arranjo de dinheiros para custear a sua construção. Que Deus nos oiça e que Richard Nixon nos escute, e que os cosmonautas por quem muito pedimos a Deus, passem agora a pedir eles por nós para conseguirmos dinheiro para a construção do nosso Estádio. Senhor Presidente: O respeitável nome de V. Excelência, ficará perpetuamente na História da América e pelo decorrer dos anos jamais o mundo se esquecerá de Richard Nixon. Aceite senhor Presidente, a admiração de todos nós e fazemos votos ardentes para que V. Excelência continue com a ajuda de Deus, a mostrar ao mundo, que é o povo amigo da América. Muito honrosamente assinamos, António Fonseca Zenha, Presidente.>> Então é bestial ou não é está-se mesmo a ver que é e eu disse à Guidinha que sou eu estás a ver ó Guidinha como isto é que este sabe-a toda e tu se não fores parva também escreves ao tal Presidente da América a ver se apanhas algum e vai escrevi <<excelentíssimo senhor presidente da América o senhor recebeu uma carta do senhor do Salgueiros a pedir pilim porque a gente rezou muito quando aqueles foram à Lua e voltaram sem lá terem ido o que eu quero dizer ao senhor é que rezei que nem uma danada olhe que a gente lá em casa rezou tanto que até os vizinhos reclamaram contra o barulho cá por mim ninguém me tira que aquilo tudo aconteceu por causa das minhas rezas nunca tinha rezado tanto na minha vida rezei tanto que fiquei nervosa e vi-me doida para conseguir parar se não me tivessem dado uma Água das Pedras ainda agora estava a rezar aquilo foi uma tara era capaz de jurar que rezei mais dos que o senhor da bola e se o senhor Presidente quiser fazer uma justiça esquece esse senhor e manda-me o pilim a mim isso é que era uma grande justiça eu moro na Graça quem trouxer o pilim que pergunte onde eu moro porque toda a gente sabe o que era bom era que o pilim viesse depressa porque eu estou mesmo à brocha e prometo que se vier um pilim assim que se veja mando algum ao senhor da bola com as honras da Guidinha

Redacções da Guidinha
Luís de Sttau Monteiro
Areal Editores (2002)

sábado, 28 de março de 2026

Teatro a sério

A Primavera chegou, fez florir as ginjeiras, limpou o céu, deu luz aos olhos, algum vento para arejar as humidades e, pasme-se, uma constipaçãozinha para limpar o nariz das mucosidades invernais.

Mesmo combalido, era obrigatório ir ao teatro ver, em último dia, "A árvore que sangra", pelo Teatro da Rainha. Das três vezes anteriores que a ida esteve agendada, gorou-se sempre. Os afazeres com os netos em visita são, foram e serão sempre mais importantes (é a verdade, verdadinha) do que o Teatro. 

Quando tudo parecia indicar que a disponibilidade de calendário era um facto, a constipação também queria fazer das suas. Enganou-se! Era um "crime" perder a peça. 

Perto da hora, carrinho no parque de estacionamento, subida no elevador e regresso da mesma forma, mal acabaram os aplausos, bem justos, diga-se. O "nosso" conterrâneo que exerce as mais altas funções do Estado esteve lá, e pareceu-me que também gostou. Mas deve ser muito "chato" ter de andar com o segurança atrás até para ir ao teatro ...

sexta-feira, 27 de março de 2026

Teatro

A bola não rebenta e o jogo continua, retrata, com a qualidade de sempre, o cartoon de António no Expresso de hoje.

O Teatro, que hoje comemora o seu Dia Mundial, traz a lucidez que os líderes mundiais deviam ter para conseguirem dominar aquelas farripas loirinhas que enfeitam a cabecinha louca do homem da melena.

terça-feira, 24 de março de 2026

Diálogos

O homem da melena está prestes a conseguir, uma vez mais, atingir os objectivos que o levaram, conjuntamente com o Bibi, a desencadear o conflito no Médio Oriente.

De acordo com o que declarou aos jornalistas, em mais uma das suas esclarecedoras conferências de imprensa, os iranianos estão de rastos e, por isso, ligaram-lhe para o informar de que estão disponíveis para o diálogo em encontro a realizar em breve. 

Resta apenas saber onde esse diálogo se vai concretizar e como, dado que o de cá não fala iraniano e os de lá devem ter grandes dificuldades em entender o inglês americanado. Na dúvida, talvez o nosso MNE possa dar uma ajuda ...

sábado, 21 de março de 2026

A poesia e o mundo

Retirados da estante, abertos "ao calhas", deles surgem sempre surpresas vindas de quem retratou um mundo simultaneamente belo e perverso. E são apenas pequenos exemplos!

as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis, 
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente

Servidões
Herberto Helder
Assírio & Alvim (2013) 

NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!

<<Ninguém se mexa! Mãos ao ar!>> disse o histérico
e frívolo homenzinho com mais medo
da arma que empunhava que de nós.
<<Mãos ao ar!>>, repetiu para convencer-se.

Mas ninguém se mexeu, como ele queria ...
Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,
escaqueirou o espelho biselado
que tinha as Boas-Festas da gerência

escritas a sabão. Todos baixámos,
medrosos, a cabeça. Se era um louco,
melhor deixá-lo. (O barman escondera-se
por detrás do balcão). Ali estivemos

um ror de medo, até que o rabioso
virou a arma à boca e disparou.

Tomai lá do O'Neill!
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

UM DIA

Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais,
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

quinta-feira, 19 de março de 2026

Dia do Pai

Hoje é o dia de todos os pais, incluindo um especial: o meu! Se (ainda) por cá estivesse, comemoraria o seu 104º. aniversário. Nas palavras de Torga, sempre actuais, fica a homenagem devida. 

VOZ DE COMANDO

Amanhece.
Erguei-vos, corpo e alma, combatei!
Juntos, como num rio
Águas da planície e da montanha,
Aliados, correi
à batalha do mundo, que se ganha
No mundo.

Mundo cruel e duro, mas que eu amo,
Apaixonado pelos seus encantos.
Visito-lhe os recantos,
Sonho um abraço que o abarque todo.
De vez em quando há lodo
Nos baixios,
Mas olho os montes, limpos, preservados
Na sua altura.
E renasce-me a esperança ao vê-los debruados
De rebanhos e neve - a máxima brancura.

Penas do Purgatório
Miguel Torga
Coimbra (1954)

segunda-feira, 16 de março de 2026

16 de Março de 1974

Cada vez mais são as recordações antigas que emergem à memória, trazidas com muito mais nitidez do que aquilo que foi feito há momentos.

- O que queria eu daqui? Não consigo lembrar-me! Não deve ser nada importante ...

E passa-se adiante.

As memórias do sábado 16 de Março de 1974 permanecem bem vivas em quem tinha umas "luzes" sobre o que, inevitavelmente, iria acontecer mas não era esperado para aquele dia. Ainda por cima, sábado!

Aconteceu e a pressa custou uns bons dias de grelha a quem, decidido, arriscou. Não foi possível, não deu nada, "reinava a ordem em todo o país", mas estava escrito nas estrelas ...

Contado agora aos mais novos, até parece que foi uma brincadeira. Não foi! Custaria caríssimo aos intervenientes se a "liberdade não passasse por aqui" no mês seguinte.

A viagem das Caldas para a capital abriu portas. Cinquenta e dois anos depois, espera-se que o Presidente da República, que a repete diariamente, seja Seguro e assegure que elas se mantêm abertas. 

domingo, 15 de março de 2026

Palavras bonitas

O meu amigo Lino Sebastião resolveu, agora que as suas Primaveras já ultrapassaram as oitenta, publicar em livro os poemas que lhe vão na alma, no coração e na memória.

Quatro livros já estão acessíveis a quem gosta de poesia e há mais na forja. A mim, que sou um privilegiado, chegam-me em mão mal saem da editora, oferecidos e com dedicatória para a posteridade.

Perdido de um tempo antigo
Fico submerso na saudade,
Palavra que digo
Como se em mim dissesse
Pássaro, flor, eternidade
E todo o tempo contivesse,
Nesse espaço,
Inicial e puro,
O côncavo maduro
De um abraço.

Palavra a subir por mim
Os caminhos pedregosos dos dias
E feita clarim
A anunciar 
O despertar
De antigas nostalgias.

Do longe e da ferida
Lino Sebastião

quinta-feira, 12 de março de 2026

Mário Zambujal

Não quero que isto se transforme num obituário, mas ...

Partiu hoje, aos 90 anos, mais um cujos livros fazem parte da estante há muitos anos. Até "O último a sair", o mais recente, já lá está arrumado e foi lido de um fôlego, tal como todos os outros. São dezanove!

Mário Zambujal faz parte das memórias do jornalismo, do Mundo Desportivo à RTP, do Diário de Notícias ao Sete e ao Tal e Qual. Mas o seu primeiro livro foi, é e será sempre um maravilhoso retrato deste povo que somos nós. E que se lê sempre!

"(...) Tinha havido uma queixa. Dois cidadãos, pessoas de respeito, como muito bem se verificava no trajar e nos documentos exibidos, haviam solicitado à autoridade a detenção de duas mulheres, <<às vinte e três e trinta e cinco do dia 9 de Março, no Campo Mártires da Pátria, sob a acusação de lhes terem furtado, dois dias antes, 7 de Março, um alfinete de gravata e um isqueiro, tudo avaliado em seiscentos e cinquenta escudos>>, assim rezava o relatório.

<<Foram elas!>>, afirmaram, peremptórios, os dois, sem dúvida nenhuma. O subchefe da Polícia fitou as presas e ficou à espera. Então, Lina Despachada voltou a abrir a mala preta de plástico, tirou um alfinete e um isqueiro, mostrou-os bem na mão espalmada e desafiou:

<<São estes?>>

Aparvalhados, os queixosos mais não fizeram do que sim com as cabeças e já a acusada se virava para o subchefe da Polícia, cada vez mais desgostado da cruzada que escolhera na vida.

<<Para já, senhor subchefe, aqui a miúda não tem nada que ver com o caso. Ela nem soube que eu guardei esta porcaria. Guardei, disse bem. Guardei de penhor - de penhor, ouviu? - porque esses grandes filhos da puta, peço desculpa senhor subchefe, filhos de meretriz, queria eu dizer, serviram-se e não pagaram. Os grandes vigaristas! Ainda por cima umas tristezas na cama, um frete, um desconsolo, ai senhor subchefe só queria que visse. Então eu saquei-lhes isto de penhor: têm de nos dar os sessenta paus a cada uma, mais os setenta da pensão. Se quiserem, está claro. Se não quiserem vou direitinha pedir a massa às mulheres deles, já descobri as moradas. Ai queridos, tenham paciência: vou cobrar lá a casa, eu não dê mais um passo! Ando há vinte e seis anos nesta vida e ainda não houve um filho da puta, perdão senhor subchefe, de meretriz, que se ficasse a rir da Lina Despachada. Agora vocês resolvam ...>> (...)"

Crónica dos bons malandros
(da palma da mão à ponta da unha)
Mário Zambujal
Livraria Bertrand (1980)