"(...) Por vezes, pergunto-me como cheguei aqui? Vivo como tantos outros, sem crença. Subi na vida, arranjei um emprego estável, de grande responsabilidade que pode contribuir em boa medida para uma Europa mais coesa e mais unida e não vejo resultados concretos de nenhuma das estatísticas que compilei, de nenhum dos dossiês de consultadoria que preparei, sobre arte e cultura, sobre cidadania, imigração, sociedade, associações juvenis ... Todos os anos ganho um prémio e sou aplaudida pelos meus esforços e todos os anos me sinto um pouco mais fundamental na manutenção de uma máquina de locomoção que se alimenta e se põe a brilhar para se manter parada. Nada se move. Tudo se transforma. Lá fora. Sem mim. Sem nós. E, nós, adaptamo-nos a esta vida de museu. Habituamo-nos a tolerar as pequenas frustações quotidianas e a engolir sapos. Isolados para evitar o confronto com a apatia diária. Falamos muito, fazemos pouco e, com o tempo, vamos negando também as ideias que temos, esquecendo, devagarinho, cada qualidade que já tivemos e em tempos reconhecemos como fundamentais nos outros. Abraçamos a desilusão, porque agasalhados.
Vivo como se o desencanto fosse um xarope que me permite aguentar cada dia como uma tormenta à qual assisto da janela com vidros duplos. Sou um desequilíbrio entre o meu sentido da realidade, e não tardarei muito em esquecer-me por completo de quem já fui. Já dou por mim a usar frases como: <<É sempre assim, toda a gente faz o mesmo, de que estavas à espera? Não te chateies que ninguém dá por nada, para quê pensar nisso? Vai-se andando.>>
Por vezes, pergunto-me se alguma vez fui inteira. Decente. Será que só temos princípios quando não precisamos de os praticar? Quando os dilemas estão tão distantes que não causam qualquer desconforto? Vivo numa época que oscila entre aqueles que, para manterem o poder, impedem a mudança e aqueles que aceleram a mudança para garantirem que, um dia, é a sua vez de ascenderem ao poder. E, no meio, responsável pela permanente instabilidade dos pratos da justiça, estou eu, parte integrante de uma minoria privilegiada que passa o seu tempo livre fechada em salas com reposteiros de veludo vermelho a discutir questões geopolíticas de taça de champanhe na mão, exibindo uma inquestionável confiança nas suas opiniões, enquanto lá fora, a Terra treme, treme, treme, num terramoto que começou em Lisboa, em 1755, e nunca mais parou. (...)"


