sábado, 7 de novembro de 2026

Vícios

Passava pelo barbeiro de tempos a tempos, com uma guedelha enorme e uma barba de, pelo menos, uma semana. 

Chegada a sua vez, refastelava-se na cadeira, compunha a velha roupa, fixava o barbeiro e, olhos nos olhos, determinava:

- Cabelo e barba!

- Como vai ser o cabelo?

- Pente zero, como é costume.

Começava o desbaste. A máquina deslizava do pescoço à testa, abrindo grandes "avenidas" naquele "matagal" imenso. Finda a "tosquia" cabeçal, o barbeiro cortava a barba à tesoura e só depois ensaboava a cara e começava a deslizar a grande navalha por aquela velha face que os pêlos protegiam do sol dos campos. 

A barba feita, ou desfeita, como alguns diziam, a pele da face, bem mais branca do que a testa, aguardava o desinfectante habitual.

- Álcool ou sublimado?

- Álcool, claro!

As mãos do barbeiro chapinhavam todas as zonas barbeadas, incluindo a parte do pescoço a que a camisa não tinha permitido acesso à máquina zero. O álcool deslizava por toda a cara e a língua do cliente lambia, sofregamente, algumas gotas do líquido que, naquele momento, lhe sabia tão bem quanto o bagaço matinal.

sábado, 31 de outubro de 2026

Mudam-se os tempos ...

Por força da profissão que exerci durante quase 40 anos, aprendi, logo no início, que o 31 de Outubro era o Dia Mundial da Poupança. Já por aqui deixei a recordação do mealheiro que era oferecido para incentivar a poupança que, na altura, tinha juros atraentes quando comparados com os de agora.

- Mas a inflacção tudo devorava, retorquirão alguns, sempre com a resposta na ponta da língua.

- E agora?

Simplesmente igual, como se verifica quando se chega à caixa automática do supermercado ou à bomba de gasolina, onde o cliente executa as tarefas dos empregados que ... já foram.

Para cúmulo, os bancos "armadilharam" as renovações dos depósitos, na esperança de os clientes estarem desatentos e deixarem que, também aqui, o automatismo lhes trate de tudo. 

Há dias, o jornal Público chamava a isto, com alguma brandura de linguagem, a nova ratoeira, que visa aproveitar ao máximo o lucro, fácil, nem que seja por apenas um dia. O vencimento ocorre no final do dia previsto e não pela manhã, como outrora. Deve ser o computador ou a IA que entende dever esperar até ao  final do dia, não vá o diabo tecê-las!

Longe vão os tempos do primado do cliente e da clareza de procedimentos ...

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Brasil

Contra todas as previsões, na segunda volta das eleições presidenciais do lado de lá do Atlântico não houve lugar a desconstrução e a extrema direita ficou pelo caminho. Saiba, e consiga, Lula construir o caminho certo para que a sua saída seja pela merecida porta grande.

domingo, 25 de outubro de 2026

Direito(s)

Marcelo Rebelo de Sousa deve estar a viver momentos profundos de angústia e a consultar todos os seus conhecidos psicólogos, para decidir em qual dos divãs se irá deitar. O antigo Presidente da República saiu de Belém com uma enorme frustação por não ter conseguido acabar com os sem abrigo no país e, em especial, na capital. Foi uma das promessas da campanha que lhe deu o primeiro mandato, repetiu-a na segunda - desta vez é que vai ser - e não conseguiu.

Afinal, era facílimo e legal. E ele, um conceituado catedrático de Direito, não se apercebeu da Lei que permitia alcançar esse desiderato num instante. O Decreto-Lei 406/74, de 29 de Agosto do ano da Revolução, anterior à entrada em vigor da Constituição da República, mantém-se em vigor e permite/determina as condições da ocupação do espaço público, dando a respectiva interpretação às forças da ordem, como o acontecido na passada noite demonstrou.

A partir da meia noite e meia hora (nova ou velha), não é permitida a ocupação do espaço público, muito menos com tendas, é obrigatório o silêncio e proibido dormir na rua, mesmo em "conchinha". Lembrei-me do polícia de Peniche que, no "antigamente" dizia serem "proibidos os grupos agrupados e mais que dois a andar parados".

Fiquei preocupado com os negócios do Bairro Alto e do Cais do Sodré que, a partir de agora, correm o risco de caírem na falência, por não terem clientes; também os adeptos do Benfica (onde me incluo) terão de programar muito bem as comemorações dos títulos (se conseguidos) de forma a estarem concluídos a horas decentes e nada de garatujar a estátua do Sebastião. Ter sempre presente o velho ditado que "determina": deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer. Também garante que o bastão não actua.

Como em tudo, há também um lado positivo: ficámos todos mais descansados e garantidos: não faltam recursos humanos na polícia de choque nem nos técnicos de limpeza do Moedas.

Falta "apenas" decência!

Notas finais: os cães da polícia de choque precisam de ser mais bem treinados, para não perturbarem, com o seu ladrar, o silêncio que é exigido; fazem muita falta na rua jornalistas como Adelino Gomes ou Joaquim Furtado, entre muitos outros.

sábado, 24 de outubro de 2026

Diferenças

Adiei o que tinha em mente deixar aqui hoje para melhores dias e maior inspiração (?). Afinal de contas, a hora muda, a noite será maior, o descanso entre lençóis também e pode ser que mais tempo meditativo (o sono já não abunda)  clarifique a minha mente e também a de quem deve começar a resolver os problemas que nos afectam (só a alguns).

Outubro está a findar, o Natal já se anuncia pelas ruas, o vento sopra, a temperatura diminui, o sol baixa, as gripes surgem, as vacinas já cá cantam, para não ter surpresas desagradáveis e cumprir as ordens do SNS.

Tudo convida a ficar em casa, no quentinho. Para quem a tem, naturalmente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Palavras bonitas

FOLHINHA

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.

É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outra flor, 
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Coimbra (1992)

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Campismo

As "acampadas" em Lisboa e no Porto não podem continuar! A polícia será chamada a intervir, para garantir a ordem pública e a "paz do senhor"! Quando muito, tolera-se a permanência até à meia noite e meia, garantindo-se, assim, que o relento e a frialdade da noite não engripa os manifestantes, o que agravaria as esperas nas urgências e nos centros de saúde, e aumentaria os custos com o SNS, cujo orçamento é cada vez mais elevado e, paradoxo, mais curto.

A "malta" deve ficar em casa dos pais que, entretanto, vão envelhecendo, serão levados para os lares ou para o outro mundo, deixando completamente disponíveis as habitações às quais aquelas "crianças" já estão habituadas e afeiçoadas. 

Segundo dizem os "entendidos", a crise habitacional é consequência da "invasão" dos migrantes, que esgotaram todas as casas dos centros das cidades, principalmente aquelas que, pelo seu preço módico, se tornam acessíveis às carteiras recheadas dessa "trupe" que para aqui vem trabalhar. E quem duvida de que assim é, basta levantar-se cedinho ou estar atento ao final do dia, para vê-los surgirem aos magotes, bem "engravatados" de terra e tinta, saindo e entrando em casas minúsculas, algumas garagens e/ou arrecadações, como abelhas na colmeia.

Alguém ainda põe em dúvida de que são eles os grandes responsáveis?

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Habitação

A dificuldade de deixar por aqui alguma coisa que tenha algum préstimo futuro ou que, pelo menos, não seja aborrecido, é cada vez maior. E não é por falta de assuntos.

As notícias sucedem-se em catadupa, os acontecimentos diários são inúmeros, diversificados e terríveis, na maior parte dos casos, as preocupações imensas, o pessimismo acentuado.

Aliando-se à crise das alterações climáticas, às guerras e ao aumento dos combustíveis e, consequentemente, de todos os bens, saltou, finalmente, para a ribalta, a falta de habitações minimamente capazes e acessíveis, para pessoas viverem com alguma, ainda que pouca, dignidade.

Será desta que se coloca a resolução dum problema tão grande quanto urgente nas mãos de quem sabe e se deixam de "folclores" de "achistas"?

Ontem, no "Isto é gozar com quem trabalha", a arquitecta Helena Roseta pôs o dedo na ferida e, num programa de humor, deixou várias dicas sérias sobre o que por aí vai e o muito que é imperioso fazer.

sábado, 17 de outubro de 2026

Fólio 2026

Centenas de pessoas aguardavam a hipótese, remota, de conseguir um lugar, mesmo de pé, na tenda do Fólio onde Ricardo Araújo Pereira e Marco Neves iriam debater a língua portuguesa.

Entrar estava fora de causa mas admitiu-se a possibilidade de o som das colunas ser suficientemente forte para se ouvir, sentado no frio degrau da igreja de Santa Maria. Impossível. Ainda foram dados alguns passos até à "parede" da tenda mas o som estava lá longe, imperceptível.

Decisão: regresso a casa, com a informação do neto de que seria possível ver no YouTube desde o início. 

Bem sentado, com excelente imagem dos intervenientes, "papei" tudo e bem melhor do que se lá tivesse ficado, mesmo no interior da tenda.

Abençoado progresso tecnológico ...

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

"Férias"

Uns dias passados nos Algarves trouxeram excelentes banhos de mar, em água quentinha, a provar que as alterações climáticas sempre têm alguma coisa de positivo (estas palavras soam a sacrilégio), a calma costumeira e a melhoria, sensível, da habitual rinite outonal.

Proporcionaram, também, grandes caminhadas na areia, aproveitando a extensão da praia (quase tão grande como a Foz do Arelho), para a melhoria muscular e alívio das dores lombares. Como ainda continua a ser obrigatório comer, foi interessante o treino do inglês e a sua beleza escrita nas ementas de quase todos os restaurantes, bem como ouvir o agradável e musical sotaque brasileiro da grande maioria dos empregados.

Vantagens do turismo, essa grande indústria que o país venera e incrementa a cada dia que passa!