Imagens "roubadas" no blog "Duas ou três coisas", do Embaixador Seixas da Costa, sem qualquer autorização. A justificação para a falta de respeito e para o acto em si reside "apenas" no facto de elas serem tão elucidativas do que a guerra faz, ou melhor, do que fazem os homens. E nós cá vamos ... cantando e rindo, como no tempo da "outra senhora"!
Casa da Ginja
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
terça-feira, 12 de maio de 2026
Palavras bonitas
POEMA DO HOMEM NOVONiels Armstrong pôs os pés na Luae a Humanidade inteira saudou neleo Homem NovoNo calendário da História sublinhou-secom espesso traço o memorável feito.Tudo nele era novo.Vestia quinze fatos sobrepostos.Primeiro, sobre a pele, cobrindo-a de alto a baixo,um colante poroso de rede tricotadapara ventilação e temperatura próprias.Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,catorze no total,de película de nylone borracha sintética.Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,na cabeça e nos braços,confusíssima trama de canaispara circulação dos fluidos necessários,da água e do oxigénio.A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,um envólucro soprado de tela de alumínio.Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,auscultadores e microfones,e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,luvas com luz nos dedos.Numa cama de rede, penduradada parede do módulo,na majestade augusta do silêncio,dormia o Homem Novo a caminho da Lua.Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,bocas de espanto e olhos de humidade,todos se interpelavam e falavamdo Homem Novo,do Homem Novo,do Homem Novo.Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.Caminhava hesitante e cauteloso,pé aqui,pé ali,as pernas afastadas,os braços insuflados como balões pneumáticos,o tronco debruçado sobre o solo.Lá vai ele.Lá vai o Homem Novomedindo e calculando cada passo,puxando pelo corpo como bloco emperrado.Mais um passo.Mais outro.Num sobrehumano esforçolevanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.Com redobrado alento avança mais um passo,e a Humanidade inteira,com o coração pequeno e ressequido,viu, com os olhos que a terra há-de comer,o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,exactamente como faria o Homem Velho.Novos poemas póstumosAntónio GedeãoEdições João Sá da Costa (1998)
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Mãe
Hoje, sim, é o Dia da Mãe. Da minha!
Nascida há 103 anos, no rescaldo da Primeira Grande Guerra, viveu as grandes dificuldades da Segunda, da qual recordava, muitas vezes, as senhas de racionamento e as necessidades de coser roupa até ao limite. Sofreu, entre muitas outras, as agruras antecipadas de ver um filho na guerra (colonial), o que o 25 de Abril, felizmente, lhe evitou.
Partiu, satisfeita com o que tinha conseguido fazer pelos dois filhos que, por enquanto, ainda a vão recordando e mantendo viva. Teve uma vida difícil, sem um queixume e sempre com agulhas, alfinetes e linhas por perto!
terça-feira, 5 de maio de 2026
Português
Numa época em que, em profusão, se ouvem atentados à nossa língua "mascarados" de erudição e conhecimento, nada melhor do que ir à estante e pegar num livro antigo, na data, na edição e na beleza.
Foi como poeta que conquistou um lugar cimeiro entre os falantes da língua portuguesa em todo o mundo. A sua modéstia e a "mesquinhez da outra senhora" impediram voos bem mais largos. Também na prosa se revelou enorme, dando-nos livros maravilhosos, dos Bichos à Vindima, do qual se deixa um belíssimo excerto.
"(...) Quando a noite caiu sobre a Cavadinha, espessa e desolada, é que a ausência de Alberto passou a ser um pesadelo.
- Aconteceu-lhe alguma coisa! Ah, isso é que aconteceu! ... - era agora o estribilho da D. Maria Jorge.
Por debaixo da crosta insensível e ressequida, o instinto de mãe irrompia ansioso e vaticinador.
- Que é que lhe havia de acontecer?! - iludia-se o Lopes, a querer ter mão em mais desgraças. - Apanhou uma carga de água, e está-se a enxugar em qualquer parte. Mas há-de ouvir-me! ...
Dizia isto sem convicção nenhuma, apenas para sossegar a mulher e não acordar as forças do mal que tão obstinadamente o perseguiam.
- Não costuma demorar-se tanto ... De mais a mais num dia destes, sabendo que a gente está aqui aflita ...
Foi ainda a Gertrudes que deu a resposta decidida a estas reticências:
- O menino, se não veio até agora, já não vem!
A afirmação tinha tal dureza e tal verosimilhança, que o Lopes assanhou-se de indignação:
- Tu não me faças perder a cabeça, rapariga! Cala-te de uma vez!
Toda a tarde a criada resmungara a pedir socorro para o rapaz. E o Lopes, ao verificar que teria sido melhor mandar procurar o filho a tempo e horas, reagia com violência, sem querer reconhecer o erro.
- Não vem! E nós havemos de ver!
Forte na dedicação, segura nas conjecturas, a moça não se dobrava aos berros do patrão. E este acabou por ceder, numa resposta contemporizadora:
- Tu não estás mais aflita do que nós. Por isso ...
Não era, porém, com frases que a nuvem pesada se desfazia.
- E se mandássemos alguém a Vilela saber se o tinham visto? - propôs a D. Maria Jorge.
- Pode ir. Mas é tolice. Antes de o portador lá chegar, já ele cá está ...
Tentava iludir-se e iludir o destino.
- Deus te ouvisse ...
Pressurosa, a Gertrudes saiu a chamar dois homens à cardenha, e acompanhou-os até ao fim do terreiro a recomendar-lhes pressa e zelo. Naquela incerteza, o seu coração feminino era uma dobadoira de ternura.
- Se eu fosse mulher, ia também! (...)"
domingo, 3 de maio de 2026
Tecnologias e dependências
Sentou-se na cadeira indicada no bilhete, verificando a correcção antes. Era ali, sem dúvida. Telemóvel na mão, a companheira sentada na cadeira ao lado, cenho franzido, nenhuma outra manifestação de prazer ou repulsa.
Acabadinho de aliviar as pernas, o indicador começou a percorrer o ecran e, com som ou sem ele, os sorrisos passaram a suceder-se. As luzes, intermitentes, davam sinal de que o início do espectáculo estava para breve. E a voz off avisava:
- O espectáculo vai começar dentro de momentos. Por favor, desliguem os telemóveis. É proibido fotografar ou gravar. Bom concerto.
A ordem era inequívoca, mas o aparelho continuou na mão. Vai desligar quando a música começar, pensei. Não aconteceu. Mexi-me na cadeira, deitei descaradamente os mirones. Nenhuma reacção. E o scroll continuava, apesar de a música ser contagiante e apelativa. Tudo na mesma, como a lesma. Impassível na cadeira, nem uma única vez bateu palmas. A companheira, ao lado, ainda ia aquecendo as mãos, de vez em quando. No final, o público aplaudiu de pé, pediu mais, acentuou os aplausos até obter a confirmação de que ainda havia, pelo menos, mais uma.
Permaneceu impassível. Continuou os movimentos com o dedinho e sorria de satisfação.
O "artista", seguramente com mais de 50 anos, assistiu com este desinteresse a um excelente espectáculo musical, integrado no 29º. Festival de Jazz do Valado.
Comprou bilhete para quê? Podia ter ficado em casa e dava lugar a outro ...
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Dia do Trabalhador
Comemoração? Nada melhor do que o "retrato" desse trabalhador incansável que, vinte e quatro horas por dia (mais a noite, diria ele) não se cansa de contribuir para a melhoria do (seu) mundo.
A arte de António, no Expresso de hoje!
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Lixos
Há um caixote a cinquenta, sessenta metros, se tanto. Uma embalagem de papel onde deve ter estado um hamburguer da marca famosa. Ao lado, um recipiente de yogurt, duas garrafas de cerveja, uma de litro e outra média.
Generalizo: as pessoas são tão porcas!
A senhora deita um papel para o chão.
- Deixou cair um papel ...
- Não tem importância. É lixo!
- Mas não custa nada apanhar e pôr ali no caixote.
- Quem quiser que apanhe. Era o que faltava!
E seguiu a sua vidinha, que o tempo urge ...
Talvez na próxima geração ...
quarta-feira, 29 de abril de 2026
sábado, 25 de abril de 2026
Liberdade
Ó meu alferes?!
Porra, isso é um suicídio!
Não se brinca com as nossas vidas!
Já viu meu alferes
que podemos lerpar
quase no fim desta merda?! ...
Desculpe mas isso é inconsciência!
Quase no fim desta porcaria
sem mortos
e ir meia dúzia d'homens por aí fora
... E se rebentamos uma "marmita"?
Não, meu alferes
tenha paciência!
Aquele soldado Taborda
era lixado
sempre a refilar
a contestar
a apontar.
E tinha quase sempre razão!
(Hoje reconheço que a teve sempre)
- Só na bisca de nove
APELO
Que tudo quanto vimos
Que tudo quanto vivemos
Que tudo quanto agredimos
Que tudo quanto sofremos
Se grite bem alto
aos quatro ventospara que o Povo acordee todos nos libertemos!
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Dia Mundial do Livro
Ler é uma das actividades que (ainda) vou conseguindo desenvolver. E sempre com muito prazer!
Comecei a ler bem menino, à custa da paciência da minha irmã, três anos mais antiga, que, nessa altura, iniciou a "profissão" à qual, alguns anos mais tarde, haveria de retirar as aspas. Descobrir o que os livros da escola diziam naquele amontoado de "hieróglifos" era uma aventura. Ouvir quem já sabia causava uma inveja medonha e obrigava a um esforço para memorizar e "ler" sem ainda perceber o que estava impresso. Lembro a história dos bois do Geirinhas (livro da 3ª. classe?) que, trocados, não conseguiam ou não queriam puxar o carro, por mais que o dono insistisse. Foi decorada na totalidade antes ainda de saber juntar as letras ou soletrar palavras.
Depois, o Jornal de Notícias, - enorme, que entrava em casa com alguma regularidade e era lido no chão da cozinha, de joelhos-, proporcionou alguma abertura sobre o que ia acontecendo no país e no mundo e que a censura autorizava saber. Vem dessa época e desse grande jornal o gosto pelo cartoon pelas Palavras Cruzadas que ainda hoje conservo.
Não faço ideia de quantos livros já li. Foram, e continuam a ser, muitos. Mesmo quando já se conhece o autor, até já se leu uma crítica ou o resumo, ler o livro é sempre uma aventura entusiasmante: colocar-se do lado de lá, tentar perceber o que o autor escondeu, o significado da palavra, a metáfora contida na frase é, ao mesmo tempo, um desafio e um prazer enormes.
Os livros estão caros, mas o "vício" de comprar até isso ultrapassa. Hoje, a caixa do correio electrónico foi inundada de descontos oferecidos pelas editoras. Não cedi. Lá para o dia 25, como é costume, vão aparecer mais alguns ... e cada vez há menos espaço!



