quinta-feira, 14 de maio de 2026

Barbárie

Imagens "roubadas" no blog "Duas ou três coisas", do Embaixador Seixas da Costa, sem qualquer autorização. A justificação para a falta de respeito e para o acto em si reside "apenas" no facto de elas serem tão elucidativas do que a guerra faz, ou melhor, do que fazem os homens. E nós cá vamos ... cantando e rindo, como no tempo da "outra senhora"!


terça-feira, 12 de maio de 2026

Palavras bonitas

POEMA DO HOMEM NOVO

Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade inteira saudou nele
o Homem Novo
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-a de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze no total, 
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.
Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.

Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.

Mais um passo.
Mais outro.
Num sobrehumano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.

Novos poemas póstumos
António Gedeão
Edições João Sá da Costa (1998)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Mãe

 Hoje, sim, é o Dia da Mãe. Da minha!

Nascida há 103 anos, no rescaldo da Primeira Grande Guerra, viveu as grandes dificuldades da Segunda, da qual recordava, muitas vezes, as senhas de racionamento e as necessidades de coser roupa até ao limite. Sofreu, entre muitas outras, as agruras antecipadas de ver um filho na guerra (colonial), o que o 25 de Abril, felizmente, lhe evitou.

Partiu, satisfeita com o que tinha conseguido fazer pelos dois filhos que, por enquanto, ainda a vão recordando e mantendo viva. Teve uma vida difícil, sem um queixume e sempre com agulhas, alfinetes e linhas por perto!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Português

Numa época em que, em profusão, se ouvem atentados à nossa língua "mascarados" de erudição e conhecimento, nada melhor do que ir à estante e pegar num livro antigo, na data, na edição e na beleza.

Foi como poeta que conquistou um lugar cimeiro entre os falantes da língua portuguesa em todo o mundo. A sua modéstia e a "mesquinhez da outra senhora" impediram voos bem mais largos. Também na prosa se revelou enorme, dando-nos livros maravilhosos, dos Bichos à Vindima, do qual se deixa um belíssimo excerto.

"(...) Quando a noite caiu sobre a Cavadinha, espessa e desolada, é que a ausência de Alberto passou a ser um pesadelo.

- Aconteceu-lhe alguma coisa! Ah, isso é que aconteceu! ... - era agora o estribilho da D. Maria Jorge.

Por debaixo da crosta insensível e ressequida, o instinto de mãe irrompia ansioso e vaticinador.

- Que é que lhe havia de acontecer?! - iludia-se o Lopes, a querer ter mão em mais desgraças. - Apanhou uma carga de água, e está-se a enxugar em qualquer parte. Mas há-de ouvir-me! ...

Dizia isto sem convicção nenhuma, apenas para sossegar a mulher e não acordar as forças do mal que tão obstinadamente o perseguiam.

- Não costuma demorar-se tanto ... De mais a mais num dia destes, sabendo que a gente está aqui aflita ... 

Foi ainda a Gertrudes que deu a resposta decidida a estas reticências:

 - O menino, se não veio até agora, já não vem!

A afirmação tinha tal dureza e tal verosimilhança, que o Lopes assanhou-se de indignação:

- Tu não me faças perder a cabeça, rapariga! Cala-te de uma vez!

Toda a tarde a criada resmungara a pedir socorro para o rapaz. E o Lopes, ao verificar que teria sido melhor mandar procurar o filho a tempo e horas, reagia com violência, sem querer reconhecer o erro.

- Não vem! E nós havemos de ver!

Forte na dedicação, segura nas conjecturas, a moça não se dobrava aos berros do patrão. E este acabou por ceder, numa resposta contemporizadora:

- Tu não estás mais aflita do que nós. Por isso ...

Não era, porém, com frases que a nuvem pesada se desfazia.

- E se mandássemos alguém a Vilela saber se o tinham visto? - propôs a D. Maria Jorge.

- Pode ir. Mas é tolice. Antes de o portador lá chegar, já ele cá está ...

Tentava iludir-se e iludir o destino.

- Deus te ouvisse ...

Pressurosa, a Gertrudes saiu a chamar dois homens à cardenha, e acompanhou-os até ao fim do terreiro a recomendar-lhes pressa e zelo. Naquela incerteza, o seu coração feminino era uma dobadoira de ternura.

- Se eu fosse mulher, ia também! (...)"

Vindima
Miguel Torga
Coimbra (1997)

domingo, 3 de maio de 2026

Tecnologias e dependências

Sentou-se na cadeira indicada no bilhete, verificando a correcção antes. Era ali, sem dúvida. Telemóvel na mão, a companheira sentada na cadeira ao lado, cenho franzido, nenhuma outra manifestação de prazer ou repulsa.

Acabadinho de aliviar as pernas, o indicador começou a percorrer o ecran e, com som ou sem ele, os sorrisos passaram a suceder-se. As luzes, intermitentes, davam sinal de que o início do espectáculo estava para breve. E a voz off  avisava:

- O espectáculo vai começar dentro de momentos. Por favor, desliguem os telemóveis. É proibido fotografar ou gravar. Bom concerto.

A ordem era inequívoca, mas o aparelho continuou na mão. Vai desligar quando a música começar, pensei. Não aconteceu. Mexi-me na cadeira, deitei descaradamente os mirones. Nenhuma reacção. E o scroll continuava, apesar de a música ser contagiante e apelativa. Tudo na mesma, como a lesma. Impassível na cadeira, nem uma única vez bateu palmas. A companheira, ao lado, ainda ia aquecendo as mãos, de vez em quando. No final, o público aplaudiu de pé, pediu mais, acentuou os aplausos até obter a confirmação de que ainda havia, pelo menos, mais uma.

Permaneceu impassível. Continuou os movimentos com o dedinho e sorria de satisfação.

O "artista", seguramente com mais de 50 anos, assistiu com este desinteresse a um excelente espectáculo musical, integrado no 29º. Festival de Jazz do Valado

Comprou bilhete para quê? Podia ter ficado em casa e dava lugar a outro ... 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia do Trabalhador

Comemoração? Nada melhor do que o "retrato" desse trabalhador incansável que, vinte e quatro horas por dia (mais a noite, diria ele) não se cansa de contribuir para a melhoria do (seu) mundo.

A arte de António, no Expresso de hoje!

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Lixos

Há um caixote a cinquenta, sessenta metros, se tanto. Uma embalagem de papel onde deve ter estado um hamburguer da marca famosa. Ao lado, um recipiente de yogurt, duas garrafas de cerveja, uma de litro e outra média.

Generalizo: as pessoas são tão porcas!

A senhora deita um papel para o chão.

- Deixou cair um papel ...

- Não tem importância. É lixo!

- Mas não custa nada apanhar e pôr ali no caixote.

- Quem quiser que apanhe. Era o que faltava!

E seguiu a sua vidinha, que o tempo urge ...

 Talvez na próxima geração ...

quarta-feira, 29 de abril de 2026

sábado, 25 de abril de 2026

Liberdade


UMA LIÇÃO DE SOLDADO

Ó meu alferes?!
Porra, isso é um suicídio!
Não se brinca com as nossas vidas!
Já viu meu alferes
que podemos lerpar
quase no fim desta merda?! ...
Desculpe mas isso é inconsciência!
Quase no fim desta porcaria
sem mortos
e ir meia dúzia d'homens por aí fora

... E se rebentamos uma "marmita"?

Não, meu alferes
tenha paciência!

Aquele soldado Taborda
era lixado
sempre a refilar
a contestar
a apontar.
E tinha quase sempre razão!
(Hoje reconheço que a teve sempre)
- Só na bisca de nove
nem sempre levava a melhor


APELO                                                               

Que tudo quanto vimos                                        
Que tudo quanto vivemos                                    
Que tudo quanto agredimos                                
Que tudo quanto sofremos

Se grite bem alto
aos quatro ventos
para que o Povo acorde

e todos nos libertemos!

Trinta facadas de raiva
Capitão Calvinho
Edição da ADFA (1976)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Dia Mundial do Livro

Ler é uma das actividades que (ainda) vou conseguindo desenvolver. E sempre com muito prazer!

Comecei a ler bem menino, à custa da paciência da minha irmã, três anos mais antiga, que, nessa altura, iniciou a "profissão" à qual, alguns anos mais tarde, haveria de retirar as aspas. Descobrir o que os livros da escola diziam naquele amontoado de "hieróglifos" era uma aventura. Ouvir quem já sabia causava uma inveja medonha e obrigava a um esforço para memorizar e "ler" sem ainda perceber o que estava impresso. Lembro a história dos bois do Geirinhas (livro da 3ª. classe?) que, trocados, não conseguiam ou não queriam puxar o carro, por mais que o dono insistisse. Foi decorada na totalidade antes ainda de saber juntar as letras ou soletrar palavras.

Depois, o Jornal de Notícias, - enorme, que entrava em casa com alguma regularidade e era lido no chão da cozinha, de joelhos-, proporcionou alguma abertura sobre o que ia acontecendo no país e no mundo e que a censura autorizava saber. Vem dessa época e desse grande jornal o gosto pelo cartoon pelas Palavras Cruzadas que ainda hoje conservo.

Não faço ideia de quantos livros já li. Foram, e continuam a ser, muitos. Mesmo quando já se conhece o autor, até já se leu uma crítica ou o resumo, ler o livro é sempre uma aventura entusiasmante: colocar-se do lado de lá, tentar perceber o que o autor escondeu, o significado da palavra, a metáfora contida na frase é, ao mesmo tempo, um desafio e um prazer enormes.

Os livros estão caros, mas o "vício" de comprar até isso ultrapassa. Hoje, a caixa do correio electrónico foi inundada de descontos oferecidos pelas editoras. Não cedi. Lá para o dia 25, como é costume, vão aparecer mais alguns ... e cada vez há menos espaço!