"(...) As noites de espectáculo inevitavelmente terminavam com a contagem das patacas e dos tostões amealhados, aferindo-se tanto o resultado dos ingressos como o das pilhagens, com o safardanas a enfardelar a pecúnia na rafada escarcela de que nunca se separava, nem quando a natureza o chamava a dobrar os joelhos atrás das moitas.
Todavia, a maior humilhação a que fui sujeito - mas também aquela que garantiu a minha liberdade - aconteceu no dia em que me pintaram os quartos traseiros de branco e me decoraram a cachola com uma vistosa armação de chifres, alardeando aos ingénuos que eu era espécime raro e extravagante, proveniente de longínquas latitudes, das profundidades da tundra lapónica: enfim, uma rena.
Não vale a pena nomear a terra onde tamanha vergonha ocorreu, que até aos dias de hoje semelhante enxovalho e infâmia permanecem vivos na memória do povo, mas a verdade é que a galhada que me tinham montado na cabeça, composta por materiais de qualidade inferior, logo na primeira saída à arena, com o calor das luzes, o ruge-ruge das lantejoulas e o gingar dos costados, fez com que as portentosas armações descaíssem para o lado, revelando o capcioso embuste.
Entre a assistência, à laia de macaréu, gerou-se gigantesco bruaá. No instante em que se aperceberam do logro, os labregos da aldeia sentiram que os estrangeiros buliam com as suas virtudes intelectuais e o calibre do seu entendimento, chafurdando-lhes com a honra e a inocência; num ape, armaram-se de varapaus, estadulhos e todo o tipo de cacetes a que conseguiram deitar a mão, e trataram de escorraçar a trupe de pilantras, mais as suas moscambilhas, para longe de tais arrabaldes. Nem uma granizada de armas de Santo Estevão faltou para rematar tal ópera bufa.
Aproveitei a bagunçada e escamugi-me daquele opróbrio a fim de reconquistar a liberdade e o amor-próprio. Não mais me tomariam por enxovedo das suas chuchadeiras.



