terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

8 de Fevereiro

O meu amigo e companheiro de escola ASF fez o favor de me enviar o aviso, não por duvidar da minha capacidade de discernimento mas para que conste e não haja qualquer dúvida do sítio onde é SEGURO colocar a cruzinha.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Dificuldades e soluções

Como qualquer bom portuga, tenho as melhores soluções e as extraordinárias capacidades para tudo resolver num abrir e fechar de olhos e bem melhor do que tem sido feito até aqui. E não sou excepção!

Somos sempre muito críticos, muito solidários e prestáveis nos dois, três primeiros dias de qualquer catástrofe que aconteça. Vá lá, uma semana! Depois, bem, depois é só estar atento e os comportamentos egoístas voltam e rapidamente esquecemos o que aconteceu ... aos outros. "Vai ficar tudo bem!"

Não vai! Há gente que nunca mais esquecerá não o quilo de arroz ou de feijão que recebeu com direito a aparecer na TV mas as telhas que voaram, partiram-se e demorarão a evitar a chuva que o S. Pedro não cessa de despejar.

Entretanto, surge a confirmação da incapacidade de muita gente exercer o poder de decidir que lhe está atribuído. Espera-se sempre que da acção resulte algo de concreto e não ainda mais confusão e aflição do que a que já existe.

Um exemplo: com extraordinária boa vontade, estão a ser distribuídas telhas, no estádio de Leiria, a quem tem possibilidades de lá chegar, se perfila e aguarda serenamente a sua vez de pedir, e receber, as telhas que colocará na sua viatura e levará até à sua casa ... destelhada.

Não seria preferível concentrar os pedidos nas Juntas de Freguesia e estabelecer um circuito logístico que as fizesse chegar ao local? Seria muito difícil? 

É apenas um exemplo ido de quem, no conforto do seu sofá, resolve tudo ...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Actualidade

Depressões, cheias por chuvas diluvianas, ventos ciclónicos derrubando tudo, casas sem electricidade nem água, empresas destruídas, mar revolto, a aberta a encurtar cada vez mais a praia, a gasolina a desaparecer com as "bichas" dos aflitos, o açambarcamento a encher os carrinhos dos supermercados que, felizmente, ainda estão abertos.

É um privilégio viver numa cidade do distrito de Leiria onde (quase) tudo funciona, ao contrário do que por aí vai nas outras. Caíram muitas árvores e até o portão da casa antiga mas ... "tá-se bem". 

No meio de uma desgraça que a memória não avaliza ter semelhanças, só houve um benefício: as televisões deixaram de ter o "António Mourão" a todo o momento.

Nota: Para quem não é velho, o António Mourão verdadeiro cantava "Ó tempo volta para trás"!

domingo, 25 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Por um momento, ele debruça-se do convés, sente o frio que vem do mar, do lado oposto à cidade que não quer ver ainda. Daqui a duas horas, dissera a vozinha de gaze do imediato aos microfones de bordo, o navio atracará na Gare Marítima de Alcântara. <<Tudo tão perto>>, pensa, <<tão na distância de um grito, e afinal para que serão precisas ainda duas longas horas de mar?>> Não conhece os ritos, as demoras que tornam extenuantes as navegações, nem as suas atracagens ao cais da chegada. Uma lentidão até certo ponto litúrgica, das que exasperam até a paciência dos santos. E, contudo, não experimenta nenhum anseio quanto ao momento que o papá, a mamã e Patrícia lhe acenarão de longe, descobrindo-o perdido entre as fardas mil dos batalhões e das companhias independentes. Não propriamente um número rigoroso de homens vestidos com suas muito velhas fardas, mas sim o espírito de quantos haviam somado anos, noites e dias nas suas três frentes de guerra. Em breve seriam talvez perto de um milhão, mas nunca ao certo o diria ninguém: estavam em todas as famílias e casas portuguesas, guardando álbuns de fotografias em cuja capa se lia <<ao serviço da pátria>> por baixo da gravura em relevo de uma sentinela alerta - a arma como que aperreada, os olhos fitos no seu ponto de mira; estavam vivos e mortos, mas todos calados, sem vontade de contar histórias e tragédias, e crimes que assustariam mulheres e crianças. Pior do que tudo, fingiam-se curados de uma dor que entrara neles para nunca mais deixar de doer, e à qual entregavam culpas, vergonhas, desgraças tais e tantas que não bastará ter duas vidas para expiar o castigo, cumprir toda a penitência e todo o remorso desse pecado.

<<O estranho pormenor da minha geração?>>, pensa João Alberto. O facto de ser única, perdida e solitária entre todas as demais - num país pequeno, com forma de urna e sem memória de nada. Onde nem mesmo as vicissitudes mais monstruosas têm qualquer importância. A Europa sabe de cor toda a música dos Beatles. Ouvira, em transe, o pânico provocado pelos bombardeiros B-52 sobre as lezírias do Vietname; vivera o sonho provisório dos hippies e o levantamento das novas comunas do Maio 68 - mas essa mesma Europa ignorava por completo a fatalidade de um destino estritamente português. Ri-se dos seus emigrantes avaros e suplicantes, tolera os exilados, os refratários, os desertores - mas mantém-se cega como a toupeira, sem suspeitar que o tempo dessa geração portuguesa é também o vinho mortal, a nuvem do seu próprio e inevitável crepúsculo. (...)"

A nuvem no olhar
- O tríptico dos barcos
João de Melo
D. Quixote (2025) 

sábado, 24 de janeiro de 2026

24 Janeiro

Apenas mais um. Divulgar quantos não se justifica, porque cada um tem "apenas" os que aparenta.

Contado ninguém acredita!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Inverno ou premonição?

O receio de um Verão sem praia da Foz já se perspectiva há algum tempo. A depressão Ingrid, em vez de irradiar simpatia e beleza como a sua homónima sueca, parece disposta a acabar com o resto ou, pelo menos, a deixar-nos ainda mais preocupados.

A ver vamos ...



terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Palavras bonitas

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto, 
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Futuro

Se fosse uma final de uma qualquer competição de futebol, dir-se-ia:

- Há um favorito, mas nunca se sabe. É só um jogo e pode haver surpresas.

No dia 8 de Fevereiro de 2026 não acontecerá um jogo de futebol. Mas pode haver surpresas!

Passaram já mais de 50 anos desse "dia inicial inteiro e limpo" em que fiz 22 anos, alimentando a esperança de uma sociedade nova, com liberdade e possibilidade de todos subirem a escada, independentemente da origem social, cor ou qualquer outra, sem polícia do pensamento nem mandantes sem autoridade.

Tudo isso está na corda bamba. Mas tenho esperança que o bom senso prevaleça na maioria das pessoas e que quem grita serem precisos três "rapa-tachos" continue a dizer as bacoradas que quiser, mas não adquira direito a um "mocho" quanto mais a uma cadeira de poder.

É seguro que apenas SEGURO pode ser Presidente de todos os portugueses!

domingo, 18 de janeiro de 2026

Votos

Quase a acabar o Domingo das decisões importantes!

Dos catorze candidatos inscritos no boletins de voto, "apenas" onze são oficialmente aceites, por as tipografias terem imenso trabalho e não conseguirem imprimir os "papelinhos" apenas depois da decisão do Tribunal Constitucional. Paciência ... os eleitores saberão escolher bem, por a grande maioria já pertencer a uma geração muito letrada!

É seguro que, dos onze, dois vão à final ... se não houver surpresas de última hora.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Amanhã é dia de reflexão, não sendo legalmente possível falar sobre o acto eleitoral que decorrerá Domingo, dia 18. Por isso e por ser Dia de Santo Antão, deve ser, entre uns chouriços na brasa, umas entremeadas e umas febras regadas com um bom tinto, dedicado à colocação de todas as cartas na mesa, à arrumação das ideias e ao vislumbre, difícil, de qual seja a melhor solução. Ou talvez, ainda mais clarinho, aquilo que nunca será solução e deve ser deixado à "meia dúzia" de tontos que acham ser fundamental voltar ao antanho.

Para ajudar a reflectir, a opinião de quem escreve sobre o mundo miserável que se mantém e comunga da opinião de que "para trás, mija a burra!".

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"(...) Todas as noites, Obinze saía do trabalho coberto por uma poeira química branca. Partículas arenosas alojavam-se-lhe nos ouvidos. Tentava não inspirar demasiado fundo enquanto limpava, preocupado com os perigos que flutuavam no ar, até o gerente lhe dizer que ia ser despedido devido a uma redução de pessoal. O emprego seguinte foi uma substituição temporária numa empresa que fazia entregas de cozinhas, semana após semana sentado ao lado de condutores brancos que lhe chamavam <<moço>>, estaleiros de construção civil cheios de ruídos e de capacetes, subir muitos degraus a carregar pranchas de madeira, sem ajuda e sem reconhecimento. No silêncio em que conduziam e no tom em que diziam <<moço!>> Obinze sentia a inimizade dos condutores. Uma vez, quando tropeçou e caiu de joelhos, uma queda tão forte que foi a coxear para o camião, o condutor disse aos outros no armazém: <<O joelho dele mais preto não pode ficar!>> Riram-se. A hostilidade deles incomodava-o, mas só ligeiramente; o que importava era que ganhava quatro libras à hora, mais com as horas extra, e quando foi mandado para um novo armazém de entregas em West Thurrock, sentiu-se preocupado por poder deixar de ter oportunidades de trabalhar horas extra.

O chefe do novo armazém tinha o aspeto do típico inglês que Obinze imaginava, um homem alto e enxuto, com o cabelo ruivo e olhos azuis. Mas era um homem sorridente e, na imaginação de Obinze, os homens ingleses não eram sorridentes. Chamava-se Roy Snell. Deu um vigoroso aperto de mão a Obinze.

- Então, Vincent, és de África? - perguntou, enquanto conduzia Obinze numa visita ao armazém, que era do tamanho de um campo de futebol, muito maior do que o anterior, e estava cheio de camiões a serem carregados, de caixas de cartão espalmadas a serem dobradas e metidas num buraco fundo, de homens a conversarem.

- Sou! (...)"

Americanah
Chimamanda Ngozi Adichie
D. Quixote (2025)