"(...) Não identifica uma altura exacta em que a banca começou a mudar para ele, sempre esteve em mudança, desde as fichas e fichinhas, passando pelos computadores de 256K ou as fitas de banda magnética com três pistas (que mais tarde dariam origem aos terminais de POS) e chegando, nos séculos XX e XXI, à digitalização, às comunicações, aos chipes e à inteligência artificial. Diz que a banca conseguiu fazer o aproveitamento da tecnologia, especialmente do avanço das comunicações: <<Foi como passar de um caminho de cabras para uma autoestrada. No resto, a banca é como tudo, vivia sob regras, listas de antiguidade, espírito de equipa, mas sem carneirismo. Havia um lado humano, protetor, mas sem ter o pastor lá do sítio. Alguns colegas atravessavam dificuldades e havia sempre maneira de ajudar. Tinha-se mais vida social. A maior parte do pessoal estudava à noite e por isso cruzavam-se em sítios distintos, no banco e na escola. A partir dos anos 2000, isso perdeu-se.>>
(...) Conheço-a há muitos anos, somos amigos de longa data. Convidei-a para dar o seu testemunho, certo de que as suas palavras acrescentariam luz e verdade a estas páginas. Respondeu-me pelo WhatsApp. Li a mensagem de um fôlego, e soube logo que não poderia existir melhor forma de terminar este livro. Não porque fale, mas precisamente porque recusa falar. Porque a recusa, com todas as feridas e silêncios que arrasta, é também um retrato fiel daquilo que aconteceu a uma geração inteira de bancários neste país.
<<Eu não sei se quero participar, Luís ... Optei por fechar este capítulo em definitivo, o mais possível, porque em absoluto não é possível. Voltar a "abrir" não é algo que tenha vontade. E de que é que nos vale ou adianta a exposição? Vale zero! Nunca ninguém se interessou por nós, pela hecatombe que foi nas vidas de muitos de nós. Eu, para viver com dignidade mínima e pagar as minhas contas, trabalho numa actividade que está na base da pirâmide social, com tudo o que acarreta. Não é "vergonha" nenhuma, mas não era a minha expectativa de vida, não foi a minha projeção de vida nem para o que trabalhei. Não tendo estabilidade no rendimento mensal, tive de antecipar o pedido de reforma ao abrigo do desemprego de longa duração. Do Fundo de Pensões recebo 330 euros e da Segurança Social 506 euros, para 38 anos de carreira contributiva, no total. Eu não quero falar da banca, nem do banco, nem de despedimentos, nem do que seja. Não fiques aborrecido comigo, mas a única interação que tenho com o banco é o pagamento da casa no dia 23. E, agora, os 330 euros que me pagam por 25 anos de trabalho. Ninguém quis saber. Ninguém quer saber. O modelo de cálculo das reformas é algo de tão surreal! É um roubo autorizado e legalizado. É o lançar para os parâmetros da pobreza quem sempre trabalhou, produziu e contribuiu, quem educou filhos e investiu na formação das gerações mais bem preparadas que este país alguma vez teve. Não há um tribunal que nos dê razão, que nos oiça, que nos valorize e devolva a possibilidade de uma velhice digna. Para se sobreviver a isto, só "arrumando" o assunto. É o que tento fazer, pelo menos de há uns dois anos a esta parte. E não quero reabrir essa "gaveta" ...>>

