quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Campismo

As "acampadas" em Lisboa e no Porto não podem continuar! A polícia será chamada a intervir, para garantir a ordem pública e a "paz do senhor"! Quando muito, tolera-se a permanência até à meia noite e meia, garantindo-se, assim, que o relento e a frialdade da noite não engripa os manifestantes, o que agravaria as esperas nas urgências e nos centros de saúde, e aumentaria os custos com o SNS, cujo orçamento é cada vez mais elevado e, paradoxo, mais curto.

A "malta" deve ficar em casa dos pais que, entretanto, vão envelhecendo, serão levados para os lares ou para o outro mundo, deixando completamente disponíveis as habitações às quais aquelas "crianças" já estão habituadas e afeiçoadas. 

Segundo dizem os "entendidos", a crise habitacional é consequência da "invasão" dos migrantes, que esgotaram todas as casas dos centros das cidades, principalmente aquelas que, pelo seu preço módico, se tornam acessíveis às carteiras recheadas dessa "trupe" que para aqui vem trabalhar. E quem duvida de que assim é, basta levantar-se cedinho ou estar atento ao final do dia, para vê-los surgirem aos magotes, bem "engravatados" de terra e tinta, saindo e entrando em casas minúsculas, algumas garagens e/ou arrecadações, como abelhas na colmeia.

Alguém ainda põe em dúvida de que são eles os grandes responsáveis?

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Habitação

A dificuldade de deixar por aqui alguma coisa que tenha algum préstimo futuro ou que, pelo menos, não seja aborrecido, é cada vez maior. E não é por falta de assuntos.

As notícias sucedem-se em catadupa, os acontecimentos diários são inúmeros, diversificados e terríveis, na maior parte dos casos, as preocupações imensas, o pessimismo acentuado.

Aliando-se à crise das alterações climáticas, às guerras e ao aumento dos combustíveis e, consequentemente, de todos os bens, saltou, finalmente, para a ribalta, a falta de habitações minimamente capazes e acessíveis, para pessoas viverem com alguma, ainda que pouca, dignidade.

Será desta que se coloca a resolução dum problema tão grande quanto urgente nas mãos de quem sabe e se deixam de "folclores" de "achistas"?

Ontem, no "Isto é gozar com quem trabalha", a arquitecta Helena Roseta pôs o dedo na ferida e, num programa de humor, deixou várias dicas sérias sobre o que por aí vai e o muito que é imperioso fazer.

sábado, 17 de outubro de 2026

Fólio 2026

Centenas de pessoas aguardavam a hipótese, remota, de conseguir um lugar, mesmo de pé, na tenda do Fólio onde Ricardo Araújo Pereira e Marco Neves iriam debater a língua portuguesa.

Entrar estava fora de causa mas admitiu-se a possibilidade de o som das colunas ser suficientemente forte para se ouvir, sentado no frio degrau da igreja de Santa Maria. Impossível. Ainda foram dados alguns passos até à "parede" da tenda mas o som estava lá longe, imperceptível.

Decisão: regresso a casa, com a informação do neto de que seria possível ver no YouTube desde o início. 

Bem sentado, com excelente imagem dos intervenientes, "papei" tudo e bem melhor do que se lá tivesse ficado, mesmo no interior da tenda.

Abençoado progresso tecnológico ...

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

"Férias"

Uns dias passados nos Algarves trouxeram excelentes banhos de mar, em água quentinha, a provar que as alterações climáticas sempre têm alguma coisa de positivo (estas palavras soam a sacrilégio), a calma costumeira e a melhoria, sensível, da habitual rinite outonal.

Proporcionaram, também, grandes caminhadas na areia, aproveitando a extensão da praia (quase tão grande como a Foz do Arelho), para a melhoria muscular e alívio das dores lombares. Como ainda continua a ser obrigatório comer, foi interessante o treino do inglês e a sua beleza escrita nas ementas de quase todos os restaurantes, bem como ouvir o agradável e musical sotaque brasileiro da grande maioria dos empregados.

Vantagens do turismo, essa grande indústria que o país venera e incrementa a cada dia que passa!

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Pirilampos

Pode ter sido um diário, a reunião de um conjunto de crónicas, uma amostra de que a prosa também contém poesia, um exercício de liberdade e de opinião, uma forma de, usando as metáforas, retratar e deixar escrito o que lhe vai na alma. É um livro "eterno", ao qual se volta sempre e sempre com grande prazer e actualidade.

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O BICHANO REACCIONÁRIO

O grande gato não partiu para a grande guerra. Quedou-se em casa. Aceitou de mau grado o racionamento do leite, a escassez do carapau, as hipérboles dos títulos dos jornais; aceitou, até (ele que há muito deixara de ser um caçador!), a magreza dos ratos. Conformou-se, foi-se conformando com a crescente dureza óssea do regaço da dona. Mas, sob as águas estagnadas do dia-a-dia, quem estaria a torpedear-lhe a barquinha da vida?

E, assim, com seu guizo e juízo, o grande gato foi, aos poucos, aprontando-se para entrar numa quotidiana eternidade em que a mera sobrevivência já seria grande conforto. E não perdeu as maneiras - o grande gato! Mesmo quando certos deveres cívicos passaram a mobilizar colectivamente homens e bichos, o grande gato soube encontrar, com desencanto e pachorra, a figura certa na hora própria. Impunha-se quadricular as vidraças das janelas para evitar, em caso de bombardeamento, o voo rufião dos estilhaços? Lá estava o gato, de língua de fora, a ajudar a dona a espalhar, nas tiras de papel de embrulho ou de pano cru, a cola de preparação caseira. Nos exercícios de ocultação de luzes, ele, que há anos não trepava a um telhado, acabou por rondar, corajosamente, o seu quarto pelos inclinados caminhos de telha, mau grado a secura que a vertigem, o medo da vertigem, sempre lhe deixava no céu da boca. E a atenção concentrada por ele nessa vigilância era tanta que, uma escuríssima noite, vislumbrou algo. Preveniu a Central da existência, embora incerta, a umas centenas de metros do seu posto, dum tremeluzir suspeito. Distracção do locatário ou morse de espião para o inimigo? Acorrida ao local detectado pelo grande gato a brigada móvel, verificou-se, com alívio e gáudio para todos os diligentes vigias, que a ténue fonte de luz era ... um pirilampo! E o grande gato sofreu, nessa altura, a vertigem do primeiro louvor. Mas logo se recompôs na fleuma e no cepticismo. A sua dona, com algum sacrifício pessoal, aumentou-lhe, por dois dias, a ração de carapau e de leite. A filosofia de vida do grande gato não consentiu que ele ficasse, no seu foro íntimo, muito grato à bondosa senhora por este melhoramento (aliás, aumento) temporário do rancho.

A questão, para o gato, era sobreviver. Se não fosse debaixo de telha, seria sobre telha; se não pudesse ser ao pé do calorífero a serradura, teria de ser ao Sete-Estrelo, ao calor da ilusão de dias melhores ou ao sol quadriculado de guerra; se carapau, para tanto, faltasse, moscas haveria, que há sempre moscas (e gordas!) quando os mortos se demoram, um pouco por toda a parte, ao ar livre. O que o grande gato queria era levar por diante o seu plano de sobrevivência, mas sem paixão, de cabeça fria. O pelo deslustrara-se-lhe, a orelha tornara-se-lhe quebradiça, o seu rabo já quase não era capaz de um ponto de interrogação, duma simples vírgula. No entanto, o grande bichano, que conhecera dias de rei, aceitava com resignação a decrepitude que o ameaçava.

Para ter um pouco menos vazio o saquitel do dia-a-dia, prontificava-se a fazer recados às senhoras da vizinhança. Por conta doutrem, aguentou, a pata firme, horas e horas nas bichas do azeite, do açúcar, do arroz, das batatas. E quando alguém se surpreendia com a sua estirada paciência, ele respondia: <<Para que serve, nos dias de hoje, um gato, senão para isto?>>.

Com seu guizo e juízo, lá foi chegando o grande gato ao fim da grande guerra que parecera não mais ter fim. 

No dia da vitória, quando, no peitoril da janela, a cabeça encostada ao ossudo cotovelo da dona, contemplava, quase indiferente, as multidões que se entregavam à desordenada alegria de quem julga que venceu, o grande gato, pensou, repentinamente, num carapau tão grande e tão prateado quanto um dirigível. E, de gozo, adormeceu.

Uma coisa em forma de assim
Alexandre O'Neill
Editorial Presença (1985)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Música para os meus ouvidos

Estou farto de notícias!

Repetidas, repisadas, com ecrãs divididos em partes, análises profundas e perfeitamente inócuas, directos sem qualquer interesse a não ser ouvir a opinião, fundada, de quem acabou de pagar mais pelo litro de gasolina, jornalistas do faz de conta e da encomenda, jornais e televisões "vendidos" à verdade absoluta das redes ditas sociais, tudo com raras e cada vez menos honrosas excepções.

"Voltamos já a seguir a um pequeno intervalo". Dez minutos depois, quando não mais, e a repetição acontece como se fora novidade, de novo com o ecrã partido e a imagem de ontem, sem que disso se dê conta ao incauto.

Ora, notícia importante é o que se passa no meu jardim, que toda a gente desconhece, não tem acesso e, por isso, nem inveja consegue ter e está livre de reportagem televisiva. Sou um privilegiado!

O grilo ocupou uma parte do jardim, sem pedir e muito menos obter qualquer autorização, e sem pagar uma renda mesmo que simbólica. Está por ali, nem eu sei bem onde. Ouço as suas bonitas sinfonias, interrompidas mal abro a janela ou me aproximo do local de onde vem a bela sonoridade. Deve pensar lá para ele:

- Olha-me este! Ouve música de borla e ainda queria renda! Era o que faltava. Por aqui, a lei protege os inquilinos ...contente-se em ouvir o que não é para todos!

Dou por mim a pensar: o grilo tem razão. Não o devo perturbar e a minha preocupação deve ser a de arranjar forma de ele por ali permanecer muito tempo, mesmo não sabendo o local exacto onde pernoita e passa o dia. É um artista, não pesa, se calhar até se alimenta de alguns insectos indesejáveis e toca tão bem! Mesmo com a lei das rendas alterada, vou permitir-lhe a permanência sem cobrar um tostão. Sou um magnânimo, passe a imodéstia!

Afinal de contas, música de grilo não tem preço e só é acessível a alguns. Concluí depressa que, quanto mais música ouço, mais adoro os grilos! 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

República

No dia de aniversário da República impõe-se, sem pretensiosismos nem manias pseudointelectuais, uma pequena reflexão sobre o mundo que os horizontes, curtos, me permitem descortinar, avaliar e, fundamentalmente, temer, não por mim mas por aqueles que me seguem e por cá ficarão em condições que nunca pensei pudessem repetir-se.

Ontem houve eleições no Brasil e, em Espanha, foram antecipadas para o próximo mês de Novembro. No primeiro, Lula ainda irá disputar a segunda volta, embora tudo pareça indicar que acontecerá o regresso ao "bolsonarismo", agora representado pelo filho do pai, acolitado pela restante família, santificado pelos evangélicos e com o apoio declarado dos doláres e da melena. Aqui ao lado, também o "barril" se está a entornar para a direita, com a "pólvora" a preparar-se para ditar leis e comportamentos.

Por cá, o "justiceiro" brande a sua "espada", inunda o país de cartazes, fomenta o ódio e a desconfiança, instala uma nova linguagem mentirosa e cada vez mais tabernal.

Lá mais ao longe (ou será perto?), o homem da melena continua a fazer das suas, fazendo do azul preto e do verde amarelo, com a mesma facilidade com que se misturam guaches, sustentando o Bibi e querendo eliminar tudo o que lhe possa fazer frente, incluindo uma civilização milenar.

Na fronteira da Europa, a guerra continua a semear desgraça, com o general da "operação especial" a fazer o que quer, borrifando-se nas sanções europeias e nas reprimendas, terríveis, da senhora Ursula.

Ainda bem que se deu a bronca entre Jesus e o Cristiano. Há tema assegurado até ao Natal  ...

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

MÚSICA

Ontem, no CCC, aconteceu mais uma noite de encher os olhos, os ouvidos e toda a "mioleira", com um espectáculo extraordinário de beleza musical, de profissionalismo e de comunicação brilhantes.

Schönbrunn Palace Orchestra

E ver, e ouvir, um violinista português radicado na Áustria, ouvir um maestro austríaco a dirigir-se ao público num português quase perfeito e a orquestra a tocar Coimbra com as vozes do público, foram cerejas no topo de um bolo lindo e saboroso.

Duas sessões esgotadas levaram, entre as 19H00 e as 23H30, bem mais de um milhar de pessoas à nossa excelente sala. Tenho dúvidas se houve alguma que saísse defraudada!

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Preocupação

Foi, há 52 anos, um dia que marcou um corte, tornando claro ser impensável e impossível o regresso ao antes, a volta à lei da rolha, a manutenção do Portugal do Minho a Timor, tantas vezes apregoado pelo "Botas" e seus apaniguados.

Para aqueles que, na época, se intitularam "maioria silenciosa", com um pseudo-silêncio dos "inocentes", foi a demonstração inequívoca de que os tempos estavam a mudar e que as vozes caladas tantas vezes à força podiam agora gritar pela justiça, pelo elevador e por um mundo novo.

Meio século passado, com tanta mudança conquistada e uma incomparável melhoria nas condições de vida, surge uma quase maioria expressa nas urnas, não silenciosa, antes ruidosa e malcriada que, através dos seus representantes, cria um ambiente de reles tasca na casa da Democracia. Preocupante!