domingo, 5 de abril de 2026

Bodas

É Domingo de Páscoa e o sol não se esquece de acompanhar as festividades e de lhes trazer a alegria da luz. Na semana que vem, de acordo com as previsões, já desligará as luzes, talvez para poupar energia que não estamos em época de desperdícios.

O carro precisa de gasolina porque, teimoso, não anda sem isso e amanhã vai ter de trabalhar. Ainda é cedo e o posto de abastecimento não deve ter fila. O rádio vai ligado, como é sempre e, de repente, ouço uma voz já um pouco estafada como a minha:

Tinha 15 anos quando ouvi isto pela primeira vez, na casa de uns amigos onde nos juntávamos para tocar, cantar e ... beber uns copos. Na rádio, naquela época, era impensável.

Prestei atenção. Era isto, e eu ainda me lembrava da letra!

sábado, 4 de abril de 2026

Leitura necessária

Por enquanto, José Saramago é o único Prémio Nobel da Literatura que Portugal ostenta. Isso causa comichão a muita gente e inveja a outros tantos. Nada melhor do que "escondê-lo" e propagar a ideia de que é de muito difícil leitura. Vem-me à memória A Relíquia, de Eça de Queirós, que li com uma cinta vermelha à volta e graças à boa vontade do motorista da carrinha da Gulbenkian, que pediu para não dizer a ninguém. Pensando melhor, qual é o interesse em ler isto na escola? O Ministro tem razão! É uma trabalheira ...

"(...) Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica, nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais, tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive, escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talento para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar, ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra de tão escassos recursos e ainda menores necessidades. Contudo, não se devendo medir os méritos dos homens apenas pela bitola das suas competências profissionais, convém dizer que, apesar da sua pouca idade, é este José do mais piedoso e justo que em Nazaré se pode encontrar, exacto na sinagoga, pontual no cumprimento dos deveres, e não tendo sido a sua fortuna tanta que o tivesse dotado Deus duma facúndia capaz de o distinguir dos mortais comuns, sabe discorrer com propriedade e comentar com acerto, mormente se vem a propósito introduzir no discurso alguma imagem ou metáfora relacionadas com o seu ofício, por exemplo, a carpintaria do universo. (...)" 

O Evangelho segundo Jesus Cristo
José Saramago
Caminho (1992)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Notas

Se mais não houvesse - e há muito - a arte e a capacidade crítica de António justificavam, por si só, a compra do Expresso todas as sextas-feiras, incluindo a Santa.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Aniversário

Fiz hoje 50 anos! Meio século de vida que, como em todas as vidas, teve escolhos, mudanças, correcções, adaptações, novidades, acidentes, percursos sinuosos. Apesar de tudo isso, procurei que estivessem sempre presentes os princípios que nortearam o meu nascimento - liberdade e democracia.

Como muito bem frisou hoje o nosso Presidente da República, no discurso da minha festa, a função que me foi cometida é a de ser garante dos princípios e não executora de programas de governo.

Estou preparada e tenho genica para mais meio século, ainda que me aflijam alguns "badamecos" que, ou ainda não tinham nascido ou andavam de cueiros em 1976 e que querem, à viva força, que eu saia de cena e dê lugar a uma nova, talvez sonhando com a de 1933 ...

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Aluguer

A rua é sempre uma caixinha de surpresas: a calçada à portuguesa, desconjuntada, que prejudica as pernas trôpegas pelo tempo; as pessoas que correm, apressadas, no caminho para o emprego ou no saltinho para um rápido café; os pescoços, dobrados sobre os telemóveis comandados pelo dedo indicador, numa "ginástica" que o tempo também há-de tornar trôpegos; as cuspidelas e as embalagens de sumo que "inundam" o chão que alguém limpará; os carros que aceleram, apressados pelos condutores para logo, logo, estacionarem em cima da passadeira ou do passeio.

Nada de anormal nem novidade. Um olhar mais atento, e calmo, - o tempo das pressas já lá vai - permite olhar, ver e reparar em tudo, que a coscuvilhice ajuda a perceber aquilo que vai acontecendo e que, muitas vezes, já passa ao lado de quem passa mais tempo em casa do que a vaguear por aí ...

O anúncio é elucidativo, apelativo e bem referenciado. Está no centro da cidade, publicitando a satisfação de uma necessidade sentida por muitos. Faltam só as referências do dito que se aluga. Será dos de "cama quente"?

segunda-feira, 30 de março de 2026

Redacções

Isto de ter (muitos) livros em casa cria problemas de espaço, de arrumação, de procura, de "norte"

Onde estará? É melhor ver no computador se é um dos que está registado ...

mas, vezes sem conta, traz surpresas tão inesperadas quanto agradáveis.

Olha as Redacções da Guidinha. Há quanto tempo ...

Luís de Sttau Monteiro foi jornalista e escritor cuja irreverência foi muito "admirada" pela PIDE, a qual, pelo muito "amor" que lhe tinha, lhe dispensou bastos "mimos" e o levou várias vezes para a sua companhia. Outros tempos ... 

Nos anos de 1969 e 1970, Sttau Monteiro publicou, no Diário de Lisboa, deliciosas crónicas de crítica social e de costumes que, na sua aparente simplicidade, procuravam iludir a vigilância da censura e ser mordazes ao quotidiano. Ao deparar com o livro, não resisti e (re)li as Redacções. Por parecer actual, com as devidas adaptações, deixo esta por aqui ... para memória futura.

Carta Aberta ao Presidente da América 

Ando mesmo à brocha com falta de pilim é que ando mesmo à brocha o que vale é que tive uma ideia bestial que me vai dar pilim em barda para comer sorvetes durante o Verão todo e ainda me vai sobrar algum para comprar um helicóptero e um transistor pequenino daqueles que parecem carteiras a ideia que eu tive foi escrever ao presidente da América a pedir pilim todo o pilim que lhe pedirmos é pouco porque não lhe faz falta nenhuma mas o melhor é eu contar como é que tive esta ideia sim porque a ideia não foi minha eu só a copiei quem a teve primeiro foi um do Salgueiros a coisa foi assim o meu Pai leu o MUNDO DESPORTIVO e deixou-o na sala e vai eu levei-o para a retrete mas não para o ler sim porque eu não leio jornais da bola agora que já ando no liceu levei-o mas foi para outra coisa porque a gente cá em casa anda agora em economias para comprarmos um perú lá para o Natal ora quando eu estava a fazer o que tinha a fazer pus-me a lê-lo porque é sabido que uma coisa puxa a outra toda a gente sabe como as coisas são a carta escrita pelo tal do Salgueiros que é um clube da bola é assim <<Excelência: Aceite senhor Presidente os respeitos desta Comissão Pró-Estádio do Sport Comércio e Salgueiros. Os dias que antecederam a amaração da Apolo-13 no Oceano Pacífico foram autênticos dias de preces. Todos os portugueses imploravam a Deus pedindo o salvamento desses geniais cosmonautas.

Deus atendeu os portugueses. De todo o mundo surgiram pedidos ao Divino Salvador para que acompanhasse os cosmonautas da Apolo-13 mas as orações mais febris partiam do povo português, esses portugueses que sempre têm Richard Nixon no seu coração. Esses portugueses que oram no seu altar Fátima - Altar do mundo. Pedimos e fomos atendidos. Os cosmonautas regressaram à terra vivos e sãos, cheios de contentamento, cheios de felicidades, orgulhosos do seu êxito. E assim tudo acabou em bem, felizmente para os cosmonautas e para o mundo civilizado. Sentimo-nos muito honrados com mais uma vitória dos nossos amigos americanos. Senhor Presidente: Quem como nós acompanhou a difícil campanha eleitoral que conduziu em boa hora Richard Nixon à Casa Branca passámos a partir do momento em que Vossa Excelência aparecia nas câmaras de televisão e nas páginas dos jornais a ser fervorosos simpatizantes de Vossa Excelência. Foram muitas as vezes, sempre que Vossa Excelência surgia junto do seu povo, chorámos de alegria ao depararmos com a figura de Vossa Excelência, Senhor Presidente: Que Deus nos ajude também a construirmos o nosso estádio. Somos um clube desportivo dos mais pobre em Portugal, mas também, nos honramos muito por sermos um dos mais populares clubes deste país. Precisamos de construir o nosso Estádio, tarefa em que todos nos encontramos empenhados e a braços com o mais grave problema, que é o arranjo de dinheiros para custear a sua construção. Que Deus nos oiça e que Richard Nixon nos escute, e que os cosmonautas por quem muito pedimos a Deus, passem agora a pedir eles por nós para conseguirmos dinheiro para a construção do nosso Estádio. Senhor Presidente: O respeitável nome de V. Excelência, ficará perpetuamente na História da América e pelo decorrer dos anos jamais o mundo se esquecerá de Richard Nixon. Aceite senhor Presidente, a admiração de todos nós e fazemos votos ardentes para que V. Excelência continue com a ajuda de Deus, a mostrar ao mundo, que é o povo amigo da América. Muito honrosamente assinamos, António Fonseca Zenha, Presidente.>> Então é bestial ou não é está-se mesmo a ver que é e eu disse à Guidinha que sou eu estás a ver ó Guidinha como isto é que este sabe-a toda e tu se não fores parva também escreves ao tal Presidente da América a ver se apanhas algum e vai escrevi <<excelentíssimo senhor presidente da América o senhor recebeu uma carta do senhor do Salgueiros a pedir pilim porque a gente rezou muito quando aqueles foram à Lua e voltaram sem lá terem ido o que eu quero dizer ao senhor é que rezei que nem uma danada olhe que a gente lá em casa rezou tanto que até os vizinhos reclamaram contra o barulho cá por mim ninguém me tira que aquilo tudo aconteceu por causa das minhas rezas nunca tinha rezado tanto na minha vida rezei tanto que fiquei nervosa e vi-me doida para conseguir parar se não me tivessem dado uma Água das Pedras ainda agora estava a rezar aquilo foi uma tara era capaz de jurar que rezei mais dos que o senhor da bola e se o senhor Presidente quiser fazer uma justiça esquece esse senhor e manda-me o pilim a mim isso é que era uma grande justiça eu moro na Graça quem trouxer o pilim que pergunte onde eu moro porque toda a gente sabe o que era bom era que o pilim viesse depressa porque eu estou mesmo à brocha e prometo que se vier um pilim assim que se veja mando algum ao senhor da bola com as honras da Guidinha

Redacções da Guidinha
Luís de Sttau Monteiro
Areal Editores (2002)

sábado, 28 de março de 2026

Teatro a sério

A Primavera chegou, fez florir as ginjeiras, limpou o céu, deu luz aos olhos, algum vento para arejar as humidades e, pasme-se, uma constipaçãozinha para limpar o nariz das mucosidades invernais.

Mesmo combalido, era obrigatório ir ao teatro ver, em último dia, "A árvore que sangra", pelo Teatro da Rainha. Das três vezes anteriores que a ida esteve agendada, gorou-se sempre. Os afazeres com os netos em visita são, foram e serão sempre mais importantes (é a verdade, verdadinha) do que o Teatro. 

Quando tudo parecia indicar que a disponibilidade de calendário era um facto, a constipação também queria fazer das suas. Enganou-se! Era um "crime" perder a peça. 

Perto da hora, carrinho no parque de estacionamento, subida no elevador e regresso da mesma forma, mal acabaram os aplausos, bem justos, diga-se. O "nosso" conterrâneo que exerce as mais altas funções do Estado esteve lá, e pareceu-me que também gostou. Mas deve ser muito "chato" ter de andar com o segurança atrás até para ir ao teatro ...

sexta-feira, 27 de março de 2026

Teatro

A bola não rebenta e o jogo continua, retrata, com a qualidade de sempre, o cartoon de António no Expresso de hoje.

O Teatro, que hoje comemora o seu Dia Mundial, traz a lucidez que os líderes mundiais deviam ter para conseguirem dominar aquelas farripas loirinhas que enfeitam a cabecinha louca do homem da melena.

terça-feira, 24 de março de 2026

Diálogos

O homem da melena está prestes a conseguir, uma vez mais, atingir os objectivos que o levaram, conjuntamente com o Bibi, a desencadear o conflito no Médio Oriente.

De acordo com o que declarou aos jornalistas, em mais uma das suas esclarecedoras conferências de imprensa, os iranianos estão de rastos e, por isso, ligaram-lhe para o informar de que estão disponíveis para o diálogo em encontro a realizar em breve. 

Resta apenas saber onde esse diálogo se vai concretizar e como, dado que o de cá não fala iraniano e os de lá devem ter grandes dificuldades em entender o inglês americanado. Na dúvida, talvez o nosso MNE possa dar uma ajuda ...

sábado, 21 de março de 2026

A poesia e o mundo

Retirados da estante, abertos "ao calhas", deles surgem sempre surpresas vindas de quem retratou um mundo simultaneamente belo e perverso. E são apenas pequenos exemplos!

as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis, 
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente

Servidões
Herberto Helder
Assírio & Alvim (2013) 

NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!

<<Ninguém se mexa! Mãos ao ar!>> disse o histérico
e frívolo homenzinho com mais medo
da arma que empunhava que de nós.
<<Mãos ao ar!>>, repetiu para convencer-se.

Mas ninguém se mexeu, como ele queria ...
Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,
escaqueirou o espelho biselado
que tinha as Boas-Festas da gerência

escritas a sabão. Todos baixámos,
medrosos, a cabeça. Se era um louco,
melhor deixá-lo. (O barman escondera-se
por detrás do balcão). Ali estivemos

um ror de medo, até que o rabioso
virou a arma à boca e disparou.

Tomai lá do O'Neill!
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

UM DIA

Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais,
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)