quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Dúvida, dilema ou reflexão de um jovem aluno

A escola é uma casa onde nos sentamos e a professora fala por nós. Na escola as palavras da professora chegam ao mesmo tempo aos ouvidos de todos e os que estão na sala com a professora aprendem as mesmas coisas. Se eu quiser dizer ao Roberto qual é o maior rio do mundo, ele já sabe porque aprendemos juntos, de igual modo para os planetas e as montanhas e os animais da savana, por isso no recreio todos correm e fazem jogos ou ficam calados a comer pão com geleia.
Na escola aprende-se a ler mas não há livros a sério. Há um cartaz grande com as letras lá impressas e vão-se aprendendo uma a uma, depois duas a duas, depois as palavras pequenas e as maiores, tudo sem livros para ler. Já começámos a aprender algumas frases, mas a professora não nos disse de que histórias vêm.
Ontem repetimos várias vezes que "O Pedro pegou na pá do papá", mas não nos foi dito para que queria o Pedro a pá nem se o acto foi feito à revelia do pai ou com o seu consentimento. Em resposta às minhas perguntas, a professora ameaçou-me com castigos se eu não ficasse calado e quieto. Todos os meus colegas se riram e o Rudolf disse que o Pedro pegou na pá para me dar com ela na cabeça.
Acredito que aprenderia mais com a minha mãe do que na escola, mas ela diz-me que devo fazer o que fazem os outros meninos e saber as coisas que eles sabem. Eu perguntei-lhe até quando tem de ser assim, até quando tenho de saber o que os outros sabem e porque é que os livros têm histórias de outras avós. A minha mãe diz-me que os livros são para eu saber o que quiser para dentro, que posso lê-los e conversar com eles sobre todas as coisas de que não falo com os meus colegas.
Amanhã não há escola e sinto-me aliviado. Vou procurar livros complicados onde o Pedro pegue na pá para fazer um buraco enorme e enfiar lá a professora e o Rudolf. Só os meninos sem mãe deveriam ir à escola e, em vez da professora, deveria haver livros pelas paredes para cada um aprender as suas coisas. Assim eu podia chegar ao Roberto e contar-lhe do homem sozinho na ilha e ele falava-me de uma viagem até à lua numa bala de canhão. Não sei se vou conseguir ler os livros todos e gostava que alguém me contasse alguns.
O Roberto disse-me ontem que os livros não prestam, eu perguntei-lhe se tinha lido algum e ele disse-me que não porque não prestam. Na casa dele não há livros porque o pai e a mãe não sabem ler e por isso não precisam deles.

Nuno Camarneiro
No meu peito não cabem pássaros

domingo, 4 de agosto de 2013

Palavras bonitas



PRESSÁGIO                                                              
                                 
Há um presságio de júbilo                                           
à sua beira, um tecido tecendo                                     
a trama do contrário                                                     

Uma réstia de mar                                                        
na sua esteira, uma espécie
de ardil em seu afago                                                                                            

Um modo                                                                     
Um todo                                                                       
Uma maneira                                                                

De misturar
o doce
com o amargo

ETERNIDADE

Regressava sempre
das viagens
como se voasse

A perder-se no dentro
de si mesma. Em busca
do mundo e da verdade

Firme, sedenta e libertária
na teima de encontrar a eternidade.

Maria Teresa Horta
Poemas para Leonor