terça-feira, 27 de março de 2012

Dia Mundial do Teatro

Apesar de o teatro da vida nos reservar surpresas onde menos se esperam, regista-se a comemoração do dia salientando o excelente trabalho que o Teatro da Rainha, remando muito, vai realizando nesta terra.
Da sua página "roubei" o video, para sonhar ... com a possibilidade de, um dia, poder ver teatro na sala que (ainda) é projecto.
   


quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavras bonitas ... no Dia Mundial da Poesia

P A I S A G E M

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen

F O L H I N H A

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.

Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Miguel Torga

R I C O C H E T E

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?

Natália Correia

D U N A S

É o mar do deserto, ondulação
Sem fim das dunas,
Onde dormir, onde estender o corpo
Sobre outro corpo, o peito vasto,
As pernas finas, longas,
As nádegas rijas, colinas
Sucessivas onde o vento
Demora os dedos, e as cabras
Passam, e o pastor
Sonha oásis perto,
E o verde das palmeiras se levanta
Até à nossa boca, até à nossa alma
Com sede de outras dunas,
Onde o corpo do amor
Seja por fim um gole de água.

Eugénio de Andrade

sábado, 10 de março de 2012

Quotidiano

MOTE, EM NOTÍCIA
O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, acusa José Sócrates de deslealdade política, no prefácio de mais um livro dos seus discursos. A acusação, feita em termos bastante violentos, é justificada por o antigo Primeiro-Ministro não ter dado conhecimento antecipado ao PR do conteúdo do PEC IV. Os factos passaram-se há mais de um ano, o PR não fez qualquer comentário público a tão grave desconsideração e não demitiu o então chefe do Governo.
GLOSA, EM FICÇÃO
No silêncio desconfortável do Palácio de Belém, na longa noite de insónia às voltas na mesma cama, Aníbal inicia um curioso diálogo com Maria:
- Há muitos anos, quando eu era chefe de turma na escola secundária de Boliqueime, um rapaz chamado José qualquer coisa - olha, não me lembro do apelido, tinha a ver com filosofia, Grécia, não, Grécia, Grécia, não, nós não somos gregos nem queremos ser como eles ...
- Deixa-te de entretantos e vai aos finalmente, para ver se me dá o sono ...
- ... Segismundo, Séneca, Scarlatti, que confusão, bem, não interessa, o rapaz, dizia eu, fez uma redacção e entregou-a ao professor sem ma mostrar, a mim, que era o chefe da turma.
- E tu, que fizeste?
- Nada. Aguardei que o tempo me fizesse justiça. E assim foi!
- ?!?!
- Pois! Passado muito tempo, voltei a encontrá-lo e escrevi no quadro:
" Mamã, este menino bateu-me!"
- Ó Aníbal, que dizes tu? Dorme, que o teu mal é sono.


quarta-feira, 7 de março de 2012

Aniversário

A minha irmã fez hoje anos. Não digo quantos, mas asseguro que são pouco mais de 30 ..., bem conservados!
A "rede" proporciona-nos um manancial de coisas boas (e também algumas más). O som não é famoso, mas a voz e a música estão lá para serem digeridos por quem tem tempo ..., com a curiosidade de a gravação ter sido efectuada no já longínquo ano de 1949.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Palavras bonitas

CLARO-ESCURO

Dia da vida,
Noite da morte ...
O verso
e o reverso
da medalha.
E não há desespero que nos valha,
nem crença,
nem descrença,
nem filosofia.
Esta brutalidade, e nada mais:
Sol e sombra - o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro,
e a sombra depois ...
E à luz do sol é tudo o que sabemos:
Juventude,
beleza,
poesia,
e amor
- Amargo fruto que na sepultura,
em vez de apodrecer, ganha doçura.

Miguel Torga
Orfeu  Rebelde