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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

António Mega Ferreira

Nasceu em 1949, em Lisboa, e foi de lá que partiu hoje, para sempre. Quem o leu no Expresso, no Jornal de Letras ou nos seus muitos livros, não pode deixar de ficar pesaroso com o cumprimento inexorável da lei da vida. 

António Mega Ferreira foi o grande responsável pela Expo 98, deu muito do seu saber ao Centro Cultural de Belém, uma "mãozinha" na Orquestra Metropolitana de Lisboa, uma grande contribuição à RTP 2, entre muitas outras coisas que conheço e, quase de certeza, muitas mais que ignoro.

Em sua memória, estendi o braço à estante, tirei um dos livros "ao calhas" e abri. Fica aqui um pequeno extracto da página que o acaso exibiu.

"(...) Parece que não há, na língua portuguesa, palavra adequada para descrever um oásis desagradável. Se houvesse, coisa ruim inesperadamente revelada no meio do paraíso, mão fatal do Homem a romper o exuberante equilíbrio da Natureza envolvente, talvez devesse aplicar-se com propriedade à pequena cidade de Nazaré das Farinhas, em pleno Recôncavo Baiano, a uns cento e tal quilómetros de Salvador.

Chega-se a Nazaré por um descuido da estrada, os olhos imersos na quase exaustiva diversidade do verde rasgado por pequenos veios de água, pela via que une a capital da Bahia ao sul, a caminho de Valença e de Ilhéus. Atravessa-se uma rua estreita de casas baixas e poeirentas e desagua-se numa praça tosca, descambada sobre a margem esquerda do Jaguaripe, que aqui, em vez de água ameno e límpido, é esgoto a céu aberto, lamacento e castanho. À volta, os morros verdejantes quase asfixiam a terra; cá em baixo, os burros, carrocinhas e caminhões atrapalham-se uns aos outros, na pressa de chegarem ao mercado instalado nas ruas da outra margem. 

E, flutuando sobre tudo, o cheiro acre e inevitável do jenipapo a pôr verniz num ar lento, húmido, doentio, feito de urina e de excrementos, a dar pasto às moscas e à doença. (...)"

Hotel Locarno
António Mega Ferreira
Sextante Editora (2015)

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

A Tinta da China promoveu, no ano passado, um "Clube" de leitores do qual faço parte desde o início. Mensalmente, recebo um livro novo, ainda antes de esse livro ter entrado no circuito comercial, o qual circuito, diga-se, me parece ser cada vez mais restrito em qualidade e alargado em quantidade. A abertura da caixa que traz o livro, sempre acompanhado por uma "graça" de utilidade, cria alguma ansiedade, uma vez que não faço a mais pequena ideia do que irá surgir e estou (ainda) habituado a folhear quase todos os livros antes de os adquirir. Até aqui, têm sido sempre excelentes surpresas, que bem justificam a decisão tomada.

Há três dias recebi o exemplar deste mês. Nele,  António Mega Ferreira faz um roteiro por palavras perdidas no tempo, ordenando-as alfabeticamente, debruçando-se sobre a sua origem e divagando sobre as razões que as levaram ao desuso. O autor refere, no preâmbulo, que apenas utilizou 80 das 250 palavras que inventariou. Dei por mim a confirmar que o meu "computador" já colocou no seu "lixo" tantas palavras bonitas ...

"(...) FINEZA - Há mais de meio século era corrente ouvir, em qualquer loja da Baixa, pedir a fineza de, solicitar um obséquio, reclamar a bondade de. Eram tudo formas mais ou menos preciosas (estas eram mesmo preciosas) de pedir um favor, demandar um serviço, chamar a atenção. No tabuleiro dos rituais de interação social, tanto como as formas de tratamento ("você é estrebaria" era a condenação comum de uma forma que agora se tornou corrente, tal como há 50 anos previa Luís Filipe Lindley Cintra, no seu ainda hoje fundamental estudo Sobre Formas de Tratamento na Língua Portuguesa, publicado em 1972), as saudações e fórmulas de cortesia tinham uma gradação exigente, cuja valorização social classista sempre espreitava por trás da expressão utilizada. Aliás, Cintra sublinhava que a relativa maior complexidade das formas de tratamento no português europeu (o que é usado em Portugal) refletia uma hierarquia social muito rígida, definida e gradativa. Quando em 1974 se abriram as comportas do discurso e da interação, tudo isso foi varrido no lapso de uma geração. Antigamente, a fineza e o obséquio eram um suplemento de cortesia que mascarava um mal-estar social, uma espécie de insegurança no relacionamento com os outros. Normalmente, o seu emprego era desproporcionado em relação ao favor que se pedia. (...)"

Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas
António Mega Ferreira