segunda-feira, 21 de março de 2016

Dia Mundial da Poesia

QUANDO

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

ABRIL

Vinhas descendo ao longo das estradas,
Mais leve do que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.

E o jardim tremeu,
Pálido de esperança.

Sophia de Mello Breyer Andresen
Dia do Mar

sábado, 19 de março de 2016

Dia do Pai

Hoje é (era) o Dia do (meu) Pai!

Ponta Seca

Remendo o coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha ...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.

Miguel Torga
Diário VI (05.04.1952)

sábado, 12 de março de 2016

Cavaco

Tinha prometido a mim mesmo que não gastaria mais "tinta" neste espaço de modesta reflexão com o "inquilino" que deixou o Palácio de Belém no passado dia 9, curiosamente dia de aniversário da minha primogénita. E não era por não ter ideias sobre o homem que, não sendo político, ocupou durante 10 anos o cargo de Primeiro-Ministro e, após uma primeira derrota em 1996, foi eleito Presidente da República e também por lá esteve mais uma dezena, sempre votado pelo povo que o detesta (?), pairando sobre nós qual cagarro sobrenatural e sobredotado, sabendo de tudo e de nada, com uma capacidade de ver à distância através de avisos inócuos, destilando ódio e raiva sem precedentes  e sem qualquer cabimento numa sociedade plural e democrática, como se quer que seja o país restaurado em Abril.
Mas Miguel Sousa Tavares, com o brilhantismo que lhe reconheço mesmo quando dele discordo, escreveu na sua crónica de hoje no Expresso a história factual do cavaquismo, num texto que vale a pena ler com atenção e na íntegra e do qual respigo alguns parágrafos. Talvez um dia, se se interessarem por isto, os meus netos interpretem o avô, o seu pensamento, as suas convicções, e dele discordem em tudo, com convém ao progresso.
(...)
Cavaco tomou o poder, derrubando facilmente o desgastado governo do Bloco Central de Mário Soares e Mota Pinto, de caminho humilhando e crucificando quem, no seu partido, se atrevera a coligar-se com os socialistas numa hora de emergência - em que ele esteve prudentemente ausente.(...)
Mas o Governo que ele derrubou deixou-lhe uma preciosa herança, uma verdadeira mina de ouro: o fluxo sem fim de dinheiros europeus de que iria beneficiar nos seus dez anos à frente do Governo. Hoje, parece difícil de acreditar, mas Cavaco começou por torcer o nariz à adesão à União Europeia, um processo para o qual não moveu prego nem estopa.
(...)
Inversamente e já como PM, Cavaco foi um entusiástico promotor da entrada na moeda única, e nisto, como em tudo o resto de essencial, a história encarregar-se-ia de demonstrar a sua nula capacidade de visionar o futuro: a entrada na UE permitiu-nos dar um salto de uma geração; a moeda única está na raiz dos males que agora nos afligem.
(...)
Mas já antes ele vendera por um punhado de moedas a agricultura a Bruxelas e aos interesses dos produtores agrícolas europeus. Ele, que hoje se reclama "homem do mar", vendeu ainda as pescas, a marinha mercante e os estaleiros navais, mas também as minas e o tudo o que, no futuro, nos poderia garantir independência económica. Em troca, construiu e distribuiu: o país interior está cheio de centros de terceira idade, palácios de congressos e piscinas municipais que ninguém usa - ou porque se foram todos embora ou porque não há meios para os fazer funcionar.
(...)
A sua chegada a Belém ficou-me para sempre marcada pela primeiríssima fotografia do eterno fotógrafo oficial da Presidência, Rui Ochoa. Uma das tais imagens que valem por mil palavras: de mãos dadas e com a felicidade estampada na cara, toda a família Cavaco Silva subia a ladeira de Belém para tomar posse do palácio e do país.
(...)
Cavaco portou-se sempre como alguém muito acima, por direito próprio e por direito divino, de todos os outros portugueses e, sobretudo, dos desprezíveis "senhores agentes políticos". Ele era o homem que sabia muito mais de finanças do que qualquer um, que tinha "avisado" de cada vez que as dificuldades surgiam, que exigia a quem pusesse em causa o seu insustentável negócio com o BPN que nascesse duas vezes antes de se atrever a questioná-lo. 
(...)
Um pouco mais de cultura, de coragem e de sentido de Estado (que vêm por arrasto), teria evitado, por exemplo, que Cavaco se tivesse alienado por completo da discussão sobre o Acordo Ortográfico ou que tivesse encaixado sem um estremecimento os enxovalhos que levou em Timor, na cimeira que consagrou a vergonhosa adesão da Guiné Equatorial à CPLP, ou em Praga, quando ouviu, sem reagir, o Presidente checo ofender os portugueses. Cavaco foi submisso ou inexistente lá fora e grandiloquentemente vazio cá dentro. Para a história ficará que, dez anos de presidência depois, deixou um país infinitamente pior do que aquele que recebeu.



quarta-feira, 2 de março de 2016

Mãe

Circunstâncias recentes da vida relembraram "águas passadas" há muitos anos, que devem ter "afogado" o coração e a cabeça de uma mãe perante a impotência e a incapacidade de cuidar do seu filho.
Foi há doze anos que minha mãe partiu e, hoje, quando lhe fui levar uma, ou melhor, cinco "Aves do Paraíso" do meu quintal pensei que, apesar de tudo, não fui seguramente capaz de, em vida, lhe demonstrar a gratidão que lhe era devida.


terça-feira, 1 de março de 2016

Matemática

E isto é matemática!
E isto também é televisão a cumprir!
No seu programa, que a SIC transmite regularmente, Rogério Martins dá aulas de matemática de forma rápida, agradável, eloquente e divertida, tornando fácil o que é comum apelidarmos de "bicho de sete cabeças".
No primeiro programa que vi, já lá vão alguns meses, Rogério Martins explicava as razões que justificavam serem as tampas de esgoto redondas e não quadradas ou rectangulares. 
Desde aí e sempre que "apanho" o programa, delicio-me.
Hoje, alertado pelo Expresso, fui ao Youtube colocá-lo nas minhas subscrições e aproveitei para ver e ouvir "As dobrinhas das orelhas", que aqui partilho em cerca de nove minutos deliciosos!