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sábado, 13 de julho de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Um dia, frustrado e bastante ofendido, Julinho dos Pardieiros insultou a Baronesa com a mesma fama com que ela por vezes insultava alguém. Chamou de catatua, megera, antipática, mentirosa, trogalho, baldão, bandalho, feia, estúpida, gente horrorosa, merdosa, comedora de esterco, vampira, mal dormida, despenteada, despencada, olho de cu e arroto fétido. Foi à porta da igreja, o padre João a escutar, toda a gente a benzer-se de escândalo e demónio. Só podia dar uma assombração a Julinho, o dos Pardieiros. Que insultara de tanta criatividade a benemérita do Campanário que não sobravam palavras na língua portuguesa para a comissão de maior maldade. Minha mãe quase desmaiou. Meu irmão disse: Deus o abençoe, meu pai. Deitou-lhe as mãos. Se não tivesse deitado, mais Julinho haveria de espaventar os braços no ar, a crescer maluco em redor da velha que só dizia ai, e agarrava os trapos que levava ao peito, sempre encafifada em camadas de panos sem serviço. Estava calor. Tinham posto tirinhas de papel a oscilar ao vento. Subitamente, o movimento das tirinhas pareciam palminhas. Muitas palminhas que alguém batia em silêncio.

Minha mãe, que não era de grandes admoestações e não tinha por hábito instruir meu pai, instruiu por horas naquele dia. Levantámos aos Pardieiros, e ela não se calava. Porque era indecoroso insultar quem quer que fosse, e era indecoroso insultar uma mulher que talvez ainda nos pudesse ajudar. Meu pai nem quis levantar-se a casa. Levantou-se a meio caminho e desculpou-se com ir às sementes ou à rega. Não queria escutar mais nada. Estava sofrendo de não saber esperar e não saber ter mais futuro. Pouquinho pediu licença para o acompanhar. Queria ver as crias das galinhas. Os ovos que acabaram de eclodir e pipilavam meigos quase ainda mudos. Mariinha ficara tão vexada e encurralada na pobreza de sempre que desatou a chorar assim que o marido lhe deu as costas. Choraria sem querer falar-me. Que eu ainda pedi: mãe, a senhora que se acalme. Isto não vai ser nada. A gente se vive de qualquer maneira, e gente ainda tem muito Deus em nossa vida. Mas quando meu pai subiu, à hora da janta, Mariinha voltaria à sua instrução, começada devagar, a fazer de conta que iam ser só duas palavras, até virar um sermão que entrou noite adentro e expiou muito ano de casamento. Eu e Pouquinho, aninhados em nosso colchão, acabámos por sentar. Eu murmurei: a mãe tem medo que nos falte futuro. E Pouquinho respondeu: nosso pai também. (...)"

Deus na escuridão
Valter Hugo Mãe
Porto Editora (2024)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Livros (lidos ou em vias disso)

Foram vários (seria "pecado" dizer muitos) os livros com que me deliciei nestas férias. Do "Amor  em Lobito Bay", de Lídia Jorge ao "Macaco infinito" de Manuel Jorge Marmelo, passando por "Vamos comprar um poeta", de Afonso Cruz, por Mário Vargas Llosa (Cinco esquinas), Maria Teresa Horta (Anunciações), Pepetela (Se o passado não tivesse asas), pelos "Navios da noite" de João de Melo e pelas inquietudes das mulheres do "velho" Camilo, foram uns milhares de páginas que me distraíram, inquietaram e me deram prazer.

Quase no fim, senti-me de novo na adolescência com os "Contos de cães e maus lobos", de Valter Hugo Mãe, dos quais ficam aqui pequenos exemplos da beleza das palavras, quando são bem tratadas.

As mais belas coisas do mundo

"(...) Convenci-me que as coisas mais belas do mundo se punham como os mais profundos e urgentes mistérios. Eram grandemente invisíveis e funcionavam por sinais dúbios que nos enganavam, devido à vergonha ou à matreirice. O que sentem as pessoas é quase sempre mascarado. Deve ser como colocarem um pano sobre a beleza, para que não se suje ou não se roube, para que não se gaste ou não se canse.(...)"

Bibliotecas

"(...) Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra. Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame o direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem se esgotarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se com isso. Os livros divertem-se muito.(...)"

Contos de cães e maus lobos
Valter Hugo Mãe
Porto Editora (2015) 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

Acabei de o ler há pouco, mas antes de o fazer ocupar o lugar que lhe cabe, por direito próprio, na "biblioteca" cá de casa, não resisti a transcrever o final:

"(...) Não soube nada acerca do que foram contar ao Einar nem de como o consolaram. Estaria ele agarrado à caçadeira, ganhando coragem, medindo o plano quando, subitamente, não havia o que decidir. Percebi absolutamente que o amava. E levava dúvida nenhuma de ser amada. Teria a vida inteira para lidar com esse sentimento. Sabia que me perdoaria. Pensei. Quem não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas."

A desumanização
Valter Hugo Mãe
Porto Editora (2013)

domingo, 22 de setembro de 2013

Leituras de fim de semana

EXPRESSO
Um sol enganador - Miguel Sousa Tavares


Em lugar de agregar municípios ou freguesias dos grandes centros urbanos, o Governo extingue freguesias do interior que, em muitos casos representam o último resquício da função social e política do Estado. Assistindo, sem nada fazer, ao contínuo despovoamento do país interior, fecha mais linhas férreas, tribunais, centros de saúde e escolas, invocando razões orçamentais e demográficas tornadas então inevitáveis. E, a troco de 600 milhões de euros, avança para nos tornar o único país do mundo sem correios públicos, dando aos felizes vencedores da privatização dos CTT uma licença bancária de bónus, que eles irão acrescentar às poupanças geradas com o encerramento de inúmeras estações de correios, gerindo um serviço público essencial à unidade territorial do país com uma irrebatível lógica de mercearia. Aos CTT, irá, em próximas oportunidades, acrescentar a TAP, as Águas e a Caixa, a parte rentável da CP e os Estaleiros de Viana (deliberadamente inviabilizados pelo senhor Ministro da Defesa). E a juntar ainda ao que já privatizou por completo: aeroportos, produção e distribuição de energia eléctrica. Privatiza-se o que dá dinheiro, mantém-se público e financiado por swaps e PPP o que perde dinheiro.
E enquanto assim desmantela o que demorou décadas ou séculos a construir, enquanto dá ordem de expulsão ao interior e entrega as terras abandonadas às celuloses e aos incêndios, que depois piedosamente lamenta, o "Governo de Portugal" (como eles gostam de ostentar nos pins das lapelas) trata de liquidar também qualquer veleidade de futuro, enquanto nação independente.(...)

A escola pública - valter hugo mãe
(...) Torna-se cada vez mais insuportável a notícia diária da paulatina destruição da escola em Portugal. O nosso país de pobres a aumentar está a assistir à sua lenta estupidificação. Tudo se prepara para que as gerações seguintes se bastem a trabalhos braçais, regressem talvez à lavoura, depois de tanta Europa nos ter pago para acabar com a agricultura, e se deixem governar cordeiramente, sem capacidade de contraditório, sem sequer autoestima para se considerarem incluídos na grande equação da cidadania e da escassa felicidade.
Tudo se prepara para que os nossos alunos aprendam mais e mais inglês pasra que se fitem na abstracção do imenso estrangeiro e partam. Nunca, como agora, se procurou tão avidamente produzir receita com as divisas dos emigrantes. Importa que todos saiam do país, produzam riqueza fora daqui e enviem o que puderem, para que seja o extra gratificante para a política de desmantelamento que cá dentro se opera. É muito fácil, num Portugal sempre desvitalizado, em que o povo foi menorizado durante décadas a fio de ditadura, levantar de novo o desapego e até a repulsa. Os jovens licenciados que hoje emigram fazem-no revoltados, sem vontade de respeitar uma país que claramente os rejeita. E um país tem de servir exactamente para o contrário disto. A verdadeira escola serve exactamente para o contrário disto.
Há uma euforia bizarra na recondução da escola pública ao terceiro mundo. As turmas outra vez enormes, notoriamente imprestáveis para garantir qualidade a cada um dos seus elementos, tornando o professor mais uma espécie de ama de luxo do que alguém a quem dão e exigem a oportunidade da instrução. A seguir assim, a escola pública servirá apenas como gigante ATL nacional. Em muitos casos, ela já é um ATL gigante, sem meios para mais do que tomar conta dos miúdos durante o período de trabalho dos pais.(...)

terça-feira, 16 de março de 2010

Livros (lidos ou em vias disso)

capítulo dezanove
somos um povo de caminhos salgados

a xanica e a pachi tinham um cão chamado afonso. que eu seja ceguinho se o que digo não é verdade. entraram por aqui duas senhoras perfumadas e chamavam-se xanica uma, e pachi a outra. e traziam um cão. procuravam a dona beatriz, a dos vestidos a arrastar pelo chão. eu pus-me de simpático a fazer companhia e perguntei, e o cão, como se chama este cachorrinho tão bonito. e elas, em estéreo, disseram que era afonso. agora diga-me se isto não está de cara virada para trás. o silva da europa perguntava-o e nós ríamos e ele insistia, então o cão é que tem nome de gente. não há nisto algum preparo, isto não tem preparo nenhum, meus amigos. estas senhoras já não se reconhecem como gente, devem estar à espera que seja o cão a fazer-lhes as festas.(...)

A máquina de fazer espanhóis
valter hugo mãe
Alfaguara (2010)