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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Elevador

Ocupa as mãos, a mente e a atenção, mesmo a intuitiva. É um elemento imprescindível na indumentária moderna, incluindo para aqueles que raramente o utilizam, quase o detestam e têm algumas dificuldades no seu manuseamento.

- Não tens telemóvel?

- Claro que sim, era o que faltava, mas não uso muito.

Quem assim responde está a necessitar de uma intervenção "ecológica", talvez parecida com a do lince e da serra da Malcata. O aparelhinho é fundamental nos dias de hoje. A sua versatilidade é imensa e os novos fazem tudo, até chamadas telefónicas e SMS. Cada vez é mais utilizado e, pouco a pouco, vai substituindo a necessidade de cérebro para executar o necessário, do trabalho ao lazer, do ócio ao prazer.

O botão de chamada do elevador foi premido e, enquanto se aguardava a chegada, foi-se preparando o acesso - password, aplicação de mensagens, destinatário - para que, em dois caracteres, se comunicasse o piso de destino. A porta abriu-se, a entrada foi feita, o botão do 1 premido. Daí a pouco, ainda a mensagem não tinha seguido, de novo a porta do transportador se abriu e a saída aconteceu. Mensagem enviada, surgiu no aparelhinho.

As cadeiras da sala estavam quase todas ocupadas. Lá ao fundo, duas livres, no cantinho. Bom sítio. O telemóvel foi emudecido que o sítio não é para barulhos, o livro aberto e a leitura, interessante, foi iniciada.

O tempo passa depressa para quem desespera e não consegue ser atendido de imediato. Parece que terão passado mais de cinco minutos. Uma eternidade! Por pressentimento ou gesto mecânico, a mão foi ao bolso e os olhos espreitaram o ecran. 

- Curioso ... está a ligar. Não consegue arranjar lugar para o carro. 

- Onde estás?

- Sentado, a ler, aguardando que o número apareça.

- Não pode ser. O médico veio chamar-te e eu fui ter com ele. Pensava que estavas na consulta. Afinal ... Disse-me que já era a segunda vez que te chamava. Agarrei-me ao telemóvel e tu não atendias ... pedi ao segurança para ir à casa de banho ver se lá estavas ...

O elevador tinha descido sem disso fazer eco. Despistado, saiu sem sequer olhar para o -1 escarrapachado na parede, em tamanho bem grande. Sentou-se, tranquilo, com o olhar atento aos números que iam desfilando no ecran, à espera que aparecesse aquele que estava no papelinho e lendo mais uns parágrafos, sem ligar ao tempo que tanto corre no piso certo como no errado. 

- Desculpe, doutor. Não me apercebi que o elevador tinha descido em vez de subir ...

Tudo acabou bem e ninguém morreu. O pânico foi apenas um pormenor e a culpa, essa, sem dúvida que foi do elevador, que deveria ter cumprido a ordem de quem lá estava dentro e não de outro qualquer espontâneo que o desejava no -1. 

Moral da estória: se é despassarado, use sempre as escadas.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Evolução

A música flui do aparelho, sem necessidade de qualquer intervenção, nem para colocar o disco, muito menos a agulha. O cuidado, antigo, para não riscar o vinil esteve ausente durante a ascensão e o apogeu do CD, e voltou, venerado por uma nova geração que adora o som mais grave e mais claro por ele transmitido. Já me desabituei. Ainda existem por aí uns quantos exemplares, apenas como recordação ou para que outros lhes dêem o carinho que merecem.

Os CD's estão guardados na "biblioteca" electrónica e permitem ouvir todas as músicas, de forma aleatória ou escolhendo o álbum pretendido. Os originais permanecem guardados, em gavetas e armários, num sossego divino e com rara utilização. Sem qualquer trabalho, a música passa. Da nova à antiga, da clássica ao rock, da popular ao fado, da bossa à coladera, sem qualquer intervenção humana que não seja carregar no botão. Quando o "palco" é abandonado, o botão do ratinho carrega na setinha e determina o silêncio. A inversa é verdadeira (como na matemática) quando se volta ao local do "crime", para continuar a usufruir do prazer interrompido. As colunas de som que fizeram o percurso do gira-discos até ao computador com toda a naturalidade e adaptação, continuam a proporcionar um som tranquilo e nítido. Espero que continuem assim.

Na música, estou rendido. Nos livros ainda não e ponho dúvidas que venha a ceder. Vou ouvindo grandes elogios aos novos métodos de leitura, sempre com destaque para a facilidade e para a simplicidade de trazer um "calhamaço" de mil páginas numa "janela" de fácil arrumação e de peso pouco mais que ridículo.

Modernices, dirão uns. Actualizações do progresso, responderão, lestos, outros. E, reconheça-se, os livros assim não ganham humidade e não ocupam espaço nas estantes. Nem se tornam velhos ...

Recordei-me agora mesmo do comentário de um professor de História, a propósito dos Beatles, nos anos sessenta do século passado:

"Músicos eléctricos. Desliga-se a ficha, acabam!"

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Novas tecnologias

Efectuar uma chamada telefónica para os serviços, complexos, de alguma grande empresa, entidade ou repartição, é um suplício.

As gravações são todas muito simpáticas, uma voz melodiosa cumprimenta-nos e, logo a seguir, "despeja" as instruções:

- Se pretende X, marque 1; Se pretende Y, marque 2; Se pretende Z, marque 3; Se pretende ser atendido pelo operador, marque 9.

Escolhida a hipótese que parece ser a mais adequada à questão que suscitou o telefonema e sobre a qual se pretende esclarecimento, aguardam-se alguns momentos até aparecer uma voz, simpática, claro, que se identifica, nos cumprimenta e nos interroga sobre qual o assunto que nos levou ao contacto, "que, desde já, muito agradecemos".

Relatado o problema, de novo a voz melodiosa:

- Desculpe, mas esse assunto não é comigo. Vou ter que transferir a sua chamada para o departamento respectivo. Não desligue.

Música, muita, para que o tempo passe sem se notar.

- Boa tarde, fala F., em que posso ser útil?

Renova-se a cantilena, tentando que a exposição seja clara e que o interlocutor perceba. 

- Entendi perfeitamente mas, vai-me desculpar, o assunto não é comigo. Vou tentar ligar ao departamento respectivo. Espero que a chamada não caia. Pensando melhor: mande um "mail" para o endereço "tal" que, eu entretanto, falo com o colega para que se resolva de forma rápida.

O "mail" já lá está. E a resposta, quando virá? Aguardemos!