domingo, 30 de novembro de 2014

Ranking das escolas

As avaliações valem o que valem, dentro da subjectividade que em si próprias encerram e dos parâmetros que lhes servem de base. Apesar disso, é sempre importante e gratificante ver reconhecido aquilo que nos é próximo e que sabemos ser bom.
O Expresso publicou esta semana o ranking das escolas do país e nele a Escola Secundária de Raul Proença é a PRIMEIRA escola pública do país (25ª na classificação geral). Foi a escola dos meus filhos, um deles estagiou e foi lá professor e o genro, que também lá estudou, faz hoje parte do seu corpo docente. O Colégio Rainha D. Leonor (privado) obteve um também brilhante 38º lugar e a "minha" Escola Secundária de Rafael Bordalo Pinheiro figura no lugar 148º. 
Para uma cidade pequena como a nossa, ter três estabelecimentos de ensino nos 150 primeiros, dois deles nos primeiros cinquenta e um em primeiro no respectivo sector é obra!
Esperemos que o trabalho do presente não se perca nos labirintos do futuro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Palavras bonitas e ... actualidade

AVE DA ESPERANÇA

Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
aquece as alegrias do futuro,
o tempo que há-de vir sem este muro
de silêncio e negrura
a cercá-lo de medo e de espessura
maciça e tumular;
o tempo que há-de vir - esse desejo
com asas, primavera e liberdade;
tempo que ninguém há-de
corromper
com palavras de amor, que são a morte
antes de morrer.
Miguel Torga
Penas do Purgatório

Torga publicou estes versos em 1954, desabafando o seu desejo de um tempo sem muros de silêncio e de negrura, com asas, luz e liberdade.
Numa altura em que tudo é posto em causa e se ouvem arautos clamando pelo regresso ao "ontem", é bom deixar claro que "uma andorinha não faz a primavera" e que a sociedade livre e justa passará, sempre, pelo castigo dos que prevaricam e pela absolvição dos inocentes, sem condenações prévias nem absolvições de casta, sejam ou tenham sido os indiciados banqueiros, primeiros-ministros, chefes da polícia, juristas, altos quadros ou simples cidadãos desconhecidos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Quotidiano

O meu neto Gil está cada vez mais personalizado, criativo, afirmativo, meigo e a refinar um sentido de humor fascinante.
Tem um discurso fluente, sarcástico quando lhe parece adequado, simples ou mais elaborado, consoante a ocasião e a disposição.

- És o meu neto "mais grande".
- Ó avô, isso é que é português "bem dezido". Fico com a boca "abrida".

E lá foi para a ginástica, ao som de uma boa gargalhada conjunta.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Quotidiano e ... Palavras bonitas

Na última ida à piscina, numa pausa entre braçadas, diz uma:

- Vamos lá, há ir e voltar ...
- Há mar e mar, há ir e voltar, acrescenta outro.
- Sabe de quem é, pergunto eu.
- ???
- Alexandre O'Neill
- Não sabia. E olhe que até gosto, embora conheça pouco.
- Quinta-feira trago-lhe um livro, velhinho, que lá tenho e tem um nome engraçado: "Tomai lá do O'Neill!". Tenho mais dois ou três mas este é uma antologia, vai gostar, espero.

Fui à "secção" da poesia e lá estava ele, numa edição de 1986, do Círculo de Leitores.
Folheei e, antes de ele ir passear ... tomai lá, para aperitivo:

PELO ALTO ALENTEJO/2

Meto butes à inteira planura.
Esboroa-se a terra. Lá pra trás
sobraram o paleio e a literatura.
Aqui, na aparência, só a paz.

Mas que paz se desdobra a toda a anchura
do horizonte a que olhar se faz?
Esta página em branco (ou sem leitura)
não terá uma chave por detrás?

Eu sei ler a cidade, mas, aqui,
sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá, com o alibi
da paisagem que a outras me transporta.

Hei-de voltar a ler e a presumir,
quando Alentejo se puser a rir ...

AUTO-RETRATO

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui uma pequena frase censurada ...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
      Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
      do que neste soneto sobre si mesmo disse ...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Palavras bonitas

LUTA

O que eu sonho!
A fé que ponho
na imaginação!
Digo à razão
que sim, que desvario
nesta humana aventura,
e ergo mais a lança em desafio
e desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
os gigantes que encontro nos caminhos
das minhas digressões.
Mas combato,
combato
e desbarato
as próprias ilusões.

domingo, 2 de novembro de 2014

Palavras bonitas

A minha filha foi esta semana falar à escola dos meus netos sobre discriminação e teve uma grande receptividade da parte das crianças que a ouviram e que com ela partilharam os sentimentos e as experiências que, sobre o tema, já tinham tido ou sentido. Por mera coincidência, hoje li mais uma história dos habitantes do prédio que Lobo Antunes descreve no seu novo livro, esta a dos que moram  no rés do chão direito.

(...) 
    que curioso o tempo, volta e meia marcha ao contrário recuperando cenas perdidas, tardes na praia, uma girafa do carrossel que se escapou da feira, a prega de apreensão do meu pai enquanto afasta o jornal
     - O que vai ser de nós?
    as lojas dos judeus despejados, os colegas da escola sem falarem connosco, meninas que puxavam o cabelo à minha irmã, um rapaz que me bateu, o director
     - Não os tragam mais são judeus
     e a pena na cara dele, não o frenesim dos restantes, um aluno mais adiantado ameaçou-o com a régua
     - É amigo dos judeus?
     e o director sem o castigar, baralhando as mãos, mais alunos em torno
     a primeira bofetada, a primeira rasteira, o primeiro soco nas costas, uma súplica aflita
     - Perdão
     o casaco rasgado, o vizinho que nos visitava às vezes
     - Não me falem
   a vidraça da varanda quebrada, as floreiras do muro no chão, os pneus do nosso automóvel furados e o mecânico baixinho
     - Não me deixam vender-lhes
     e alto a seguir para um freguês que entrava
     - Não vendo a judeus
(...)
António Lobo Antunes
Caminho como uma casa em chamas