sexta-feira, 24 de março de 2017

Reforma

E, finalmente, livre ... a "passagem à peluda", como se dizia nos meus tempos do serviço militar obrigatório, chegou.
Foi hoje encerrado um capítulo de meio século e estou cheio de garra para iniciar outro que dure, pelo menos, tanto tempo ...
Uma manhã quase tranquila, ainda que as emoções das despedidas aparecessem, por vezes, com aquele espírito traidor e infiel ao que se tinha combinado na noite mal dormida. Carinhos, muitos, uma caneta para não perder a vontade de escrever, um livro cheio de textos (imerecidos), que enchem o coração, a cabeça e tornam o ego enorme. (Têm esta opinião de mim? Enganam-se. Tenho tantos defeitos!). Foi óptimo e reconfortante! Se dependesse de mim decretava, de imediato, a felicidade para todos eles, sem distinção de género.
A conversa tida com o meu "eu" resultou: as lágrimas chegaram à porta muitas vezes, mas não passaram daí (meninas obedientes e bem comportadas).
Agora só preciso de tempo. 
Como diz Raduan Nassar, na Lavoura Arcaica que ando a ler, "o tempo é o maior tesouro que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento". Vou seguir o conselho e tentar fazer muitas refeições dele.
Obrigado a todos os que me acompanharam desde sempre. 
Vemo-nos por aí, com maior ou menor regularidade, mas seguramente com subido prazer.

terça-feira, 21 de março de 2017

Dia Mundial da Poesia

A poesia não vai                                                 

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia          
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão                            
que o chama.                                                    
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.

Eugénio de Andrade
O sal da língua

Esteira e cesto

No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto
Mas seu humano casamento com a terra

Será possível

Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
- Que nada seja, senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta - só perdido?

Sophia de Mello Breyer Andresen
O nome das coisas

domingo, 19 de março de 2017

terça-feira, 7 de março de 2017

Livros (lidos ou em vias disso)

Mais um excelente livro de Mário Cláudio, desta vez especulando sobre a vida de Camões e sobre um pretenso trapaceiro que pretenderia apoderar-se da obra do poeta.

"(...) Lá me surgia de tempos a tempos alguém que evocava os passos lisboetas do nosso homem, mas bem mais os chocarreiros do que os literários, com exclamações deste recorte, e proferidas entre torpes risadas e piscadelas de olho, "Que valdevinos!","Que borrachola!", "Que putanheiro!". E abstinha-me portanto de descrever o meu convívio com o vate, poupando-me à reposição de baboseiras quejandas, e preferindo não me capacitar da rapidez com que em Portugal se arquivam os maiores, a fim de os festejar muito depois nos ossos que deixaram, sempre que isso convém aos que mandam, e às vezes aos que obedecem.(...)"

E mais à frente:

"(...) Mas o que sobremaneira me deixava boquiaberto era que a gentalha que se cruzava com semelhante monstro, aceitando-o cegamente como Luís de Camões, nem por instantes adquirisse consciência de falcatrua tamanha. A população de Lisboa não reparava na fantochada, ou fingia não a compreender, arrebatada por essa forma de inércia lusa, e recorrente em vário tempo e lugar, nos termos da qual se mostra preferível a mentira que desresponsabiliza à verdade que sobressalta.(...)"

Mário Cláudio
Os naufrágios de Camões
D. Quixote (2016)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Palavras bonitas ...

... para a minha mãe; todos os dias me parece que foi ontem e já lá vão 13 anos.

Depois da cinza morta destes dias, 
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos, 
Se dissolver, cumprindo o seu tormento, 
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.

Sophia de Melo Breyer Andresen
Coral