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segunda-feira, 2 de junho de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

Biblioteca acima das possibilidades de leitura

Uma biblioteca cheia de livros que não foram lidos - sabendo que muitos deles nunca o serão - é uma biblioteca enorme, porque contém em si a semente da possibilidade. É imensa porque inclui desejo. Quem a criou tinha um desejo acima das suas possibilidades, e isso define o leitor: a sua ambição. Nunca concretizaremos plenamente os nossos desejos, mas o tamanho da biblioteca pode evidenciar o tamanho da ambição e, por reflexo, o tamanho do leitor. Um leitor tímido terá um ou dois livros por ler, um leitor ambicioso terá logicamente mais. Em japonês, existe uma palavra para a pilha de livros por ler: tsundoku.

Seria expectável que um grande leitor fosse aquele com menos livros por ler na sua biblioteca, pois leu muitíssimo, mas não é isso que acontece: o melhor leitor tem sempre cada vez mais livros por ler. Quanto mais lê, mais essa lista aumenta.

Children's afternoon at Wargemont, 1884 - PIERRE AUGUSTE RENOIR
O vício dos livros II
Afonso Cruz
Companhia das Letras (2025)

domingo, 1 de junho de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Por norma, a leitura não tem uma gratificação imediata e contraria as nossas características gregárias, isolando-nos dos outros e do mundo, impondo algum silêncio, exigindo atenção, concentração e, como se tal não bastasse, obriga ao esforço da descodificação. Ao contrário de outras formas de arte, como a música, a pintura ou o cinema, a leitura não se oferece directamente à sensorialidade - exige um processo cognitivo, converter letras em cenários mentais, converter letras em vozes, rostos, emoções e paisagens. Ler dá trabalho. Essa exigência torna a leitura uma arte activa, mais próxima da tradução do que da fruição imediata, e, talvez por isso, quando funciona, seja tão poderosa: porque é o leitor quem completa a obra. A leitura é uma arte de co-autoria.

Sendo difícil ultrapassar os primeiros obstáculos que a própria leitura impõe aos seus possíveis futuros amantes, as medidas para aumentar o número de leitores têm resultados tíbios. Repare-se que esse número deveria ter aumentado estrondosamente com a diminuição da iliteracia, mas tal não se verificou. Nunca houve um entusiasmo esfuziante com a leitura; pelo contrário, sempre foi um fenómeno sóbrio, que vai tendo mais leitores, é certo, mas de forma lenta, ou muito lenta. De todos os que foram alfabetizados, poucos se tornaram leitores assíduos. (...)"

O vício dos livros II
Afonso Cruz  
Companhia das Letras (2025)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Londres era, então, uma das maiores cidades do mundo: no dealbar do século XIX, tinha cerca de um milhão de habitantes e, no final desse mesmo século, quase sete milhões. Os muitos milhares de cavalos que eram utilizados como transporte levariam à grande crise do estrume, The Great Manure Crisis, em 1894, ameaçando soterrar Londres em bosta (cerca de meio milhão de quilogramas por dia) e urina (57 000 litros por dia). O problema haveria de tomar proporções tão graves, que um jornal, publicado nesse momento de crise, vaticinava que em cinquenta anos todas as ruas de Londres estariam cobertas por uma camada de estrume com três metros de altura. O presságio não se cumpriu, pois apareceram outras formas de transporte para substituir o cavalo. Todas elas, incluindo o automóvel, acabaram por ter consequências globais bem mais graves do que o estrume.

Num mercado de rua, Fuegia estendeu a mão, apanhou uma maçã e trincou-a. O vendedor gritou com ela. Nenhum dos três fueguinos compreendia exactamente o que se passava, de onde vinham aqueles gritos, pois nunca incorporaram completamente a noção de que a comida só era acessível em determinadas condições, muitas vezes em troca de dinheiro, fazendo uso dos tais botões brilhantes. Para eles, uma pessoa poderia ter, como propriedade individual, um cesto ou uma arma - não no sentido que damos à propriedade, mas por uso directo ou constante usufruto -, mas não poderia ser dono da comida. A comida pertence a todos. A quem pertence um guanaco, senão a Watawineiwa, que dá vida a todos os seres? Quem criou o guanaco? Uma pessoa pode fazer armas, roupas, cestos, são suas, mas as frutas das árvores, bem como as próprias árvores - ou as estrelas ou a chuva ou os albatrozes -, não podem pertencer a ninguém senão a Watawineiwa, que dá vida a tudo.

Londres era um mundo realmente diferente. Não o compreendiam, e não eram compreendidos.

Nenhum dos três fueguinos tinha palavras para dizer <<exército>> ou <<polícia>>. (...)"

O que a chama iluminou
Afonso Cruz
Companhia das Letras (2024)

sábado, 11 de dezembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Assistíamos juntos aos jogos do Bayer Leverkusen. Ele costumava dizer que os presidentes dos clubes de futebol estão completamente errados. Insistem em contratar treinadores, quando qualquer adepto sabe muito mais do assunto. Pareceu-me uma ironia que funcionava então e que continua a ressoar nos dias de hoje. Basta entrar num café e perguntar como vai o Benfica, o Sporting ou o Porto, que aparecem treinadores com um copo de três na mão e palito na boca, ou mesmo, como agora, de fato e gravata na televisão, que evitariam contratos milionários pondo tudo a trabalhar na perfeição, graças às análises óbvias feitas a posteriori. Nós também éramos assim, claro, a História compreende-se de trás para a frente e é hermética em relação ao futuro. Compreender o que passou e o que deveria ter sido feito é relativamente fácil, o que é difícil é imaginar todos os "ses" possíveis que o futuro nos coloca, e, dizia, nós, como qualquer outro adepto, sabíamos perfeitamente quais os jogadores que deveriam jogar e quais deveriam ficar no banco ou ser vendidos, que estratégia usar, com que perna determinado jogador deveria rematar ou driblar, sabíamos tudo, era um bom tempo, esse em que sabíamos tudo com toda a certeza possível, hoje já não consigo ter certezas sobre nada. Acho que compreender o futebol era um treino para compreender a vida. Ao perceber as jogadas possíveis, as intenções, dissimuladas em fintas ou abertamente provocadoras ou explícitas, compreendíamos as relações entre as pessoas e, ao olhar para o jogo como um todo, também percebíamos a vida como um todo, desde a tristeza inalterável do resultado negativo até à euforia do triunfo esporádico. É a idade que corrói esta felicidade, não é?(...)"

Sinopse de Amor e Guerra
Afonso Cruz
Companhia das Letras (2021)

domingo, 9 de maio de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Foi-me oferecido por um amigo, comemorando o meu recente aniversário. É um livro para quem tem "o vício dos livros" e, lido, vai juntar-se aos restantes do mesmo autor, escritor da "nova vaga" de quem já li vários e de quem gosto muito.

LIBERDADE

Num jardim público, na cidade do Kuwait, algumas mulheres completamente cobertas, vestidas de negro (de niqab) faziam jogging com uma pequena carteira a tiracolo e umas sapatilhas coloridas de marca (a única coisa visível, além da carteira). Habitualmente, o clima não é propício a qualquer actividade ao ar livre: no Verão chegam a estar sessenta graus. Estávamos em Dezembro, por isso, era possível correr nos jardins.

Ali, o ar livre é, durante uma boa parte do ano, uma miragem no deserto, e as pessoas vivem cercadas de ar condicionado, dentro de edifícios de escritórios, arranha-céus, centros comerciais, automóveis, por isso, andar pelas ruas é uma espécie de luxo confinado a uma temporada curta, tão curta que não é capaz de cimentar rotinas, apesar das tentativas.

Caminhei pelo centro da cidade com uma escritora, bastante famosa no mundo árabe, que havia conhecido dias antes e que, ao contrário da esmagadora maioria das mulheres suas conterrâneas, usava calças e os cabelos destapados. No souq, passamos por uma loja que tinha roupas penduradas à porta. Ela apontou para essas roupas, daquelas que tapam, todo o corpo, e disse: "já fui uma mulher destas".

Tinha sido casada, durante mais de uma década, com um homem de uma família muito conservadora, teve dois filhos e depois divorciou-se. O que aconteceu? perguntei eu, e ela respondeu que se libertou. Como? Insisti.

- Comecei a ler e libertei-me.

Afonso Cruz
O vício dos livros
Companhia das Letras (2021)

sábado, 12 de agosto de 2017

Livros lidos (ou em vias disso)

Numa altura em que, um anormal norte americano, de madeixas lacadas e dedinho apontado, qual boneco animado, e outro anormal, norte coreano, sem madeixas e de cabelo rapado, qual boneco articulado, disputam o primeiro lugar no campeonato da asneira e da fanfarronice, sabe bem ler:

"(...) A sua autoridade era de uma eficácia sem limites e, para quem visse, era ainda acentuada por, tantas vezes, o coronel ter flores no cabelo. Em certas ocasiões era ele que as punha atrás da orelha, mas noutras alturas eram as próprias flores que procuravam o cabelo do coronel. A flor e a autoridade, uma aparente contradição, acentuavam-se mutuamente e mostravam que a lei, o rigor e o poder devem ser acompanhados pela beleza estética e pela sensibilidade.
     O mordomo, por seu lado, não se mostrava consternado com a situação nem com o nervosismo de Kopecky e, ao sair da sala, ainda repetiu:
     - Que cheiro a chucrute!
     O coronel, mesmo reconhecendo a utilidade das armas, nunca as teria em casa como faziam os outros oficiais seus amigos, que tinham as paredes enfeitadas com pistolas e espingardas. Uma arma nunca poderá ser um objecto de decoração. As paredes são coisas que servem a nossa intimidade e impedem o frio, mantêm o calor, mas também são o esqueleto da cultura: é nas paredes que estão as estantes dos livros e os quadros pendurados. Wilhelm, o filho do coronel Moller, dizia mesmo que essa era a função principal de uma parede: servir a cultura. Para o frio há casacos. (...)

Afonso Cruz
O pintor debaixo do lava-loiças
Editorial Caminho

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Flores ... na literatura

Porque não consigo ter tempo para ler tudo, vou dando preferência aos autores portugueses - os que gosto -, os quais me continuam a surpreender quase sempre que sai uma obra nova.
(...)
- Não sei como é que a Clarisse atura um homem assim, tão pouco interessante, que não se comove com a transparência dos corpos, com a lucidez que nos transmitem, que não conhece a linguagem da pele, das rugas, das unhas, das articulações. Altitude, cavalheiro, altitude!
- Tem covinhas na cara.
- Ah, isso já é qualquer coisa. Os risórios-de-santorini! Saiba que é um músculo que nem todos os homens têm, um músculo devotado ao riso, só serve para isso. Quem tem covinhas tem risórios de santorini, quem não tem covinhas poderá ter ou não. Mas concentre-se, cavalheiro, estamos a falar de um músculo dedicado ao riso. Ora, como disse Samuel Lieber, o ser humano é o único animal que ri, apesar da taxa de desemprego. 
(...)
Dias depois, um bando de pássaros levantou voo do beiral da varanda.
Ele riu-se com estrépito, como se alguém lhe fizesse cócegas.
Perguntei-lhe o motivo daquela explosão.
Respondeu-me que os coitados tinham de voar para chegar muito alto, mas a nós, humanos, bastava-nos pensar. 
- Coisa que não fazemos muito bem - disse-lhe.
- É verdade. Altitude! Falta-nos isso. Num minuto reclamamos do Governo, a seguir votamos nos mesmos, num minuto verduras, a seguir bacon, num minuto espaço, depois infinito, num minuto salada de rúcula, a seguir um leitão, num minuto felicidade, depois a telenovela, num minuto a verdade, a seguir aquele animal, como é que se chama esse coelho?
- Estive a pensar naquilo que me disse da Clarisse, que bebia porque tinha sido despedida ...
(...)
Afonso Cruz
Flores (2015)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Badini disse que as coisas mortas vão com a água, naturalmente, seguem a corrente do rio, é isso que fazem os paus, as pedras, as folhas, os cadáveres, todos são empurrados para a foz, todos eles, enquanto os sábios e os salmões procuram a nascente, as causas das coisas, e, assim, tudo o que contraria a corrente está vivo, e a educação também é isso, é ir contra tantas coisas, não nos deixarmos arrastar para não nos tornarmos um pau seco a boiar nas águas. (...)"

Afonso Cruz
Para onde vão os guarda-chuvas
Alfaguara (2013)