Viver na cidade e ter o campo, cheio de tremoços e papoilas, a cerca de quinhentos metros é um privilégio.
Foi por aqui hoje a caminhada matinal. O mar ficou para a tarde!
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Viver na cidade e ter o campo, cheio de tremoços e papoilas, a cerca de quinhentos metros é um privilégio.
Foi por aqui hoje a caminhada matinal. O mar ficou para a tarde!
- Despistado
Quase nunca acerta no melhor caminho. Raramente o percurso mais rápido é descortinado e, muitas vezes, só a meio da viagem se apercebe de que, afinal, podia, e devia, ter escolhido outro.
Liga o "piloto automático" e confia nas suas capacidades de decisão improvisada e no conhecimento que detém há tanto, tanto tempo. Afinal, não há rua nenhuma da cidade que não conheça, e bem. Para quê estar a perder tempo com análises e planeamentos? De repente ...
- Mas não era por aqui ...
E lá desaparece mais um litro de gasolina, que está tão cara, diga-se de passagem, porque a volta, agora, será muito maior para chegar ao destino.
- Parece impossível. É só dar à chave. Nem pensa ...
Há sempre vários caminhos para se atingir um objectivo. E vale a pena experimentar, ousar, tentar, inovar, perceber, procurando sempre o caminho crítico que há-de levar ao destino pretendido por cada um de nós e que varia sempre, até com o sol do dia ou o cinzento das nuvens.
O futuro está aí, à porta, e parece que os automóveis, um dia destes, já nem precisarão de chave quanto mais de ser conhecido o caminho. Um simples contacto biométrico, uma ordem sussurrada, e ei-lo a arrancar com rumo certo e determinado, sem falhas.
Talvez esteja para breve a sua chegada, a tempo, ainda, de corrigir todos os "nabos" que não cuidam do percurso antes de iniciarem a viagem e se deixam seduzir pelo improviso. Poupará tempo, evitará contratempos, não falhará, mas será sensaborão e não terá graça nenhuma.
É tão bom perceber que nos enganámos e que, afinal, o caminho não era bem por ali.
As conversas da caminhada das manhãs das quartas-feiras caem, inevitavelmente, em dois grandes temas absolutamente essenciais e de fino recorte: a actualidade e a antiguidade.
Na primeira, fala-se sobre política, economia, futebol, presente, futuro, o que vai ser disto, porque não se faz assim ou assado, parece que têm medo de tomar decisões, querem agradar a todos e não agradam a ninguém, estão preocupados apenas com o voto e tratam-nos como completos anormais; é uma vergonha o que se passa com os caloteiros, bens todos "ao fresco" e com aquela carinha de enjoados, vítimas da injustiça, da incompreensão e do escárnio das gentes que não conhecem quão difícil é a vida (todos invejam o vinho que eu bebo, ninguém inveja os trambolhões que dou), são uns ingratos que nem valorizam os sacrifícios que fizemos para criar postos de trabalho, os tribunais demoram anos, há sempre mais um recurso, um apelo, um erro e o tempo a passar, já não vamos ver a solução; claro que foi penalty, viu-se bem na repetição, o árbitro estava a dormir e o VAR deve ter medo, não foi nada, o guarda-redes nem lhe tocou, ele mandou-se para o chão, ainda a perna vinha longe e já se ouvia o grito, gosto é de ver jogos estrangeiros, não há nada disto, afinal o Conceição já não vai para Itália e o Jesus vai ficar, que o "orelhas" já disse e o que ele diz é uma escritura ... sempre.
Ainda te lembras da loja, na esquina, junto onde é hoje o ..., quem lá trabalhou muito tempo foi o pai de Fulano, esse trabalhava no banco da rua das montras, não, no banco era outro, pai do Beltrano, lançava os movimentos nas fichas, à mão, claro, o caixa era o senhor M., enorme, sempre de pé, contava a "massa" e as anedotas ao mesmo tempo, não havia computadores, o primeiro que apareceu foi o Spectrum, programámos a bandeira desfraldada, lembras-te, e a seguir veio o, já não me lembro da marca, tinha disquetes de 5 1/4", era muito mais rápido, depois, bem, depois já foram tantos, cada um melhor que o anterior e olha que ainda me lembro de ir ao INE ver um enorme, na cave, que funcionava com cartões perfurados, trabalhava lá o Q., eu devia ter treze anos, se contares isto agora aos netos, dizem que és do tempo da pedra lascada ...
- Finalmente! Já estávamos fartas de esperar. Põem-se na conversa e nós aqui, temos mais que fazer. Param por tudo e por nada e a gente que espere ...
A caminhada chegou ao fim e as reprimendas também. Cada um foi para o seu carrinho e seguiu a vidinha, que se faz tarde para o almoço.
Para a semana há mais ... do mesmo. Velhos!!!
O "grupo" voltou hoje às caminhadas, com as cautelas devidas, "mascarados", a distância determinada mas não medida, as vozes bem altas, para nos fazermos ouvir.
A conversa fluiu e os cinco quilómetros foram percorridos sem esforço e quase sem se dar por eles. O barulho dos carros, tão incomodativo no passado, passou hoje despercebido, tal a ansiedade do reencontro e a satisfação pelo regresso dos hábitos, bem sumidos pelo tempo decorrido sem quilómetros calcorreados em conjunto.
As notícias parecem ser animadoras, muito embora isso já tivesse acontecido noutros tempos e, depois, tudo regrediu e obrigou a reduzir o espaço de liberdade e a circunscrevê-lo à "casinha" e pouco mais.
O tempo ajuda e o azul do céu reforça o efeito da esperança, como se verde fosse.
Talvez consigamos, desta vez, colocar o "bicho" em sentido e obrigá-lo a depor as armas.
Já por lá não passávamos há alguns anos. A última vez tinha sido num passeio dominical, organizado por um grupo de caminheiros. Desta vez fomos sozinhos, mas é sempre um prazer caminhar por sítios bonitos.
A capela de Santa Ana já está recuperada ou, talvez melhor, construída de novo. Apesar de as pedras terem sido substituídas pelo reboco pintado, está bonita, melhora e favorece o local, lindo. Faltarão ainda alguns acabamentos para que as vedações obreiras sejam retiradas, mas já se consegue andar à volta. Há um espaço aberto na rede, que permite ir "cuscar" todos os pormenores, das portas de madeira ao sino no campanário.
A vista é soberba. Até o nevoeiro se dissipou para a podermos apreciar.
No caminho, uma curiosidade rural e de artista. Alguém fez, e colocou, mais de uma dezena de cata-ventos em cana, a lembrar brincadeiras de outras épocas. E funcionam, cumprindo a indicação de que lado sopra o vento, hoje pela manhã apenas uma ligeira brisa.
A Capela de Santa Ana fica debruçada sobre a entrada da barra de S. Martinho do Porto, do lado de Salir. Ao contrário da vila importante, pertence ao concelho das Caldas da Rainha, é perto e o caminho é bom. Fizeram-nos companhia, à distância, dois casais ingleses, com o cão pela trela. E o sítio não está nos guias turísticos.