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sábado, 7 de março de 2026

Palavras bonitas

A minha irmã cumpre hoje a sétima capicua e, como eu ainda por cá não estava, no dia seguinte Torga publicou no seu Diário um poema a saudar a sua vinda ao mundo.

Coimbra, 8 de Março de 1949

DEPOIS DA CHUVA

Abre a janela e olha!
Tudo o que vires é teu.
A seiva que lutou em cada folha,
E a fé que teve medo e se perdeu.

Abre a janela e colhe!
É o que quiser a tua mão atenta:
Água barrenta,
Água que molhe,
Água que mate a sede ...
Para que haja um sorriso na parede!

Diário IV
Miguel Torga
Coimbra (1973 - 3ª. Ed.)

Exactamente um mês depois, salvaguardando o excesso de optimismo que podia transparecer do primeiro, deixou-lhe um aviso para a vida que estava a iniciar ... e nem sequer a conhecia.

Coimbra, 7 de Abril de 1949

EXAME DE CONSCIÊNCIA

Por tudo passa o artista:
Primeiro, pela alegria
De se julgar criador
No seio da natureza;
Depois, por esta tristeza
De ver morrer o que fez,
Sem ter nas mãos a certeza
De erguer o sonho outra vez.

Diário V
Miguel Torga
Coimbra (1974 - 3ª. Ed.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

8 de Fevereiro

A ansiedade e a dúvida que por aqui existiam - tenho sempre muitas dúvidas nas sondagens - desapareceram às 20 horas de ontem e deram lugar a uma enorme satisfação e alegria. Afinal, o povo português ainda não se esqueceu do antigamente, mantém discernimento e reduz a "conversa da treta" à sua trapalhice evidente.

António José Seguro foi eleito Presidente da República e o outro teve cerca de um terço (ironia) dos votos.

Foi óptimo, mas cautelas e caldos de galinha não fazem mal a ninguém.

Miguel Torga escreveu no seu último Diário:

"Coimbra, 1 de Março de 1990 - Liberdade. Passei a vida a cantá-la, mas sempre com a identidade no pensamento, ciente de que é ela o supremo bem do homem. Nunca podemos ser plenamente livres, mas podemos em todas as circunstâncias ser inteiramente idênticos. Só que, se o preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira, pode-nos ser outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade."

Diário XVI
Miguel Torga
Coimbra (1993)

sábado, 23 de agosto de 2025

Palavras bonitas ...

... adequadas para o meu pai, que partiu há precisamente uma década.

VOZ

Era uma voz que doía,
Mas ensinava.
Descobria,
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.

Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia,
Lá na terra onde morava.

E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.

Libertação
Miguel Torga
Coimbra (1978) 

sábado, 28 de junho de 2025

Palavras bonitas

S. Martinho de Anta, 28 de Junho de 1986

REBATE

Tantas palavras que conheço agora
E malbarato
No papel,
Aqui onde só duas aprendi
Com eterno sentido:
Pai e Mãe!
Mas ninguém
Fica fiel à infância.
Crescemos
E perdemos
A inocência
E a sua mágica
Sabedoria.
Adulto que porfia
Nestas solfas de letras alinhadas
E paralelas,
Chego a ter pejo de as escrever.
Que podem dizer elas
Que valha a pena ler?

Diário XIV
Miguel Torga
Coimbra

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...)

Mãos estranhas enterraram no dia seguinte o corpo mirrado do pobre aventureiro na terra estrangeira onde devia pagar o preço das suas aventuras.

E como sem mensalidades o Colégio de Santo António não ensinava nada a ninguém, passados meses, o pequeno Sérgio foi despachado em terceira para Penedono.

O Gaudêncio velho, então, teve pena dele e pô-lo a guardar ovelhas no Farrobo.

Pastor, que foi por onde o Senhor Ventura começou."

O Senhor Ventura
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra

quarta-feira, 19 de março de 2025

Dia do Pai

Logo pela manhã, bem cedo, os meus filhos deram-me os bons dias, um lá de longe, bem longe, a outra bem perto, numa visita relâmpago antes da labuta.

Eu, que já não posso dar os parabéns ao meu - faria hoje 103 anos -, deixo-lhe um pequeno poema do grande Torga.

MEMÓRIA

Chove.
Mas, afinal, já chove há muitos anos ...
O mundo dos meus pés nunca se move
Sem chuva, tristezas e desenganos ...

Apesar disso, 
Lembro-me perfeitamente bem
Do luminoso sol de certo dia ...
Um lindo sol que doirava
Num toco que rebentava
Uma folha nascia.

Diário I
Miguel Torga
Gráfica Coimbra

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Palavras bonitas

À BELEZA

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço ...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço!

Odes
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra 

Nota: Miguel Torga faleceu em Coimbra,  há exactamente 30 anos

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Palavras bonitas

Venha o sol que vier, é uma promessa
O que a manhã nos traz na sua alvura. 
É outra vez a vida que começa 
Aberta de inocência e de frescura. 

Cipreste frio, a noite! Cor impura.
Triste alegria a tinta negra impressa. 
Venha o sol que vier, tem mais altura
O sonho que se veja e que se meça. 

Claro como a verdade - diz o povo.
Doce como um começo, o fruto novo
Onde reluz o laivo que o pintou. 

Venha o sol que vier, é um outro dia
No límpido país da fantasia
Que a nossa escuridão iluminou. 

Libertação 
Miguel Torga
Gráfica Coimbra 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Palavras bonitas

 LUTA

Um contra o mundo, é pouco.
Mesmo que seja louco,
É muito pouco ainda.
Mas que pode fazer o homem que endoidece
E se esquece
De medir o poder do seu tamanho?
Ah, se houvesse um fotógrafo no céu
Que filmasse
Uma aventura assim, ridícula e perfeita!
D. Quixote sozinho
A combater as velas do moinho
Que mói, ronceiro, a última colheita.

Cântico do homem
Miguel Torga
Coimbra

Passam hoje 117 anos do nascimento do grande Miguel Torga. Sempre actual!

sábado, 20 de julho de 2024

Nadando ... lá longe

Com o aniversário do neto II, Vasco de seu nome, encerra-se o ciclo anual dos aniversários das 4 pessoas, agora as mais importantes, do núcleo familiar.

O dia de hoje, em que completa 13 aninhos, ficar-lhe-á na memória por não o ter comemorado em modo "normal" ou, pelo contrário, registá-lo-á para sempre como o aniversário passado a "contar azulejos", nadando pela primeira vez nos Campeonatos Nacionais de Natação, em Setúbal. Regressará amanhã, lá para o final do dia, cansado, por certo, mas sempre uma "delícia".

PEDAGOGIA

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende ...
A vida compra e vende
A perdição.
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!

Diário IX
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Rapidez

Este é o dia no qual o meu neto GRANDE se torna MAIOR, de acordo com a legislação que regulamenta o crescimento das pessoas. É apenas o registo formal de uma situação visível há muito, não havendo qualquer alteração na personalidade ou na responsabilidade, ambas já bem definidas e visíveis.

Continuará a ser o meu neto GRANDE, sem sobressaltos, devaneios ou convencimentos, sempre educado, cortês e disponível. Eu é que estou cada vez mais ... sonhador!

BRINQUEDO

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Diário I
Miguel Torga
Coimbra

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Mãe

Nasceu há 101 anos, partiu há 20 e por cá permanece sempre viva, na lembrança diária.

Foi uma mulher enorme, que conheceu bem cedo as agruras da vida, as sofreu e tentou sempre superar. Dei-lhe muitas preocupações, roubei-lhe muitas noites de sono, fui altivo e rezingão, e nunca lhe senti a mais pequena acrimónia. 

"Roubei" a Torga a carta, simples, que recebi hoje no meu imaginário.

Correio

Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.

- <<Filho>> ...
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Diário II
Miguel Torga
Coimbra (4ª edição-1977)

sábado, 2 de março de 2024

Mãe

02.03.2004, terça-feira.
Seria igual a tantas outras?
Diferente, tão diferente.
- Vou ali a casa, volto já.
- Não tenhas pressa. Não vale a pena.

Como sempre, tinhas a razão do teu lado.
E ficou tanto por dizer.
E por fazer.
Vinte anos passaram.
Continua a parecer que foi ontem.
E todos os dias o diálogo acontece,
sem mágoas. O amor permanece.

TUDO É FOI

Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.

António Gedeão
Poesias completas (1956-1967)
Portugália (1975)

domingo, 9 de abril de 2023

Palavras bonitas

QUEREM O CÉU

Querem o céu, a mística mansão
Da alma.
E, se estivessem lá,
Queriam a terra, a sórdida morada
Da raiz.
Mas é o céu que lhes diz
Eternidade,
Verdade,
Santidade
E descanso.
Assim se pode mistificar
A preguiça,
O pecado, 
A mentira
E a transitória vida natural.

O grande tecto azul, porém, não dá sinal
De acolher o aceno.
Afaga as nuvens, e da luz solar
Faz o dia maior ou mais pequeno.

Cântico do Homem
Miguel Torga
Coimbra (1974)

domingo, 19 de março de 2023

Dia do Pai

Se (ainda) por cá estivesse, o meu pai celebraria hoje 101 anos e apagaria as velas do bolo com a gana e a vontade que sempre o nortearam numa vida de duração significativa, com muito trabalho esgotante e, por vezes até, escravizante.

FOLHINHA

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano, 
Outra flor, 
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.

É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outro flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Miguel Torga
Orfeu Rebelde
Gráfica de Coimbra (1992)

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Palavras bonitas

Para o meu neto Miguel, o infante de um quarteto maravilhoso de netos, que muito merece porque tudo dá. 

Completa hoje 7 anos de uma vida cheia e desafiante, na qual se tem revelado perspicaz, inteligente, dotado de uma personalidade forte e de uma meiguice desarmante. 

O INFANTE

Na bandeira das almas há uma alma
Que pesa mais no prato da balança;
Irradia vontade e confiança,
E os seus olhos videntes
Iluminam os outros penitentes.

O além do mundo, embora mundo ainda,
É tenebroso.
E só o génio animoso
Dum inspirado
Tem a coragem nova de enfrentar
O medo acomodado
Que não deixa passar.

Segue ele à frente, pois, o espírito audaz,
Que só ele é capaz
De ir à frente e de ser o derradeiro.
Guia de todos os descobrimentos,
E sempre ele o gajeiro,
Com nomes vários nos vários momentos.

Poemas Ibéricos
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

domingo, 25 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Um anjo imaginado
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Diário IX
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1977)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATIVIDADE

Arde no coração da noite
A ritual fogueira que anuncia
O eterno milagre
Do nascimento.
Batida pelo vento, 
Que da cinza das brasas faz semente,
É um sol sem firmamento,
Directamente
Aceso
E preso
À terra
Por mãos humanas.
De raízes profanas, 
Lume de vida a bafejar a vida,
O seu calor aquece
A única certeza que merece
Ser aquecida ...

Diário VII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1976) 
 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Natal fora da casa de meu Pai,
Longe da manjedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha-vã da infância que perdi.

Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas ...

Diário VI
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1978)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário ...
E Deus não representou.

Diário V
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)