FOLHINHA
Murchou a flor aberta ao sol do tempo.Assim tinha de ser, neste renovoQuotidiano.Outro ano,Outra flor,Outro perfume.O gumeDo cansaçoVai ceifando,E o braçoDoutro sonhoSemeando.É essa a eternidade:A permanente rendição da vida.Outro ano,Outra flor,Outro perfume,E o lumeDe não sei que ilusão a arder no cumeDe não sei que expressão nunca atingida.Orfeu RebeldeMiguel TorgaCoimbra (1992)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Palavras bonitas
domingo, 27 de setembro de 2026
Actualidade
"Coimbra, 27 de Setembro de 1991 - Um dia lavado de corpo e alma. Dores ainda, mas aliviadas pelo bálsamo de palavras desusadas, nem ditas nem ouvidas antes. Viciados num quotidiano de banalidades, banalizamos a vida, a nossa e a dos outros, a repetir lugares-comuns. E só lá de tempos a tempos conseguimos, quando conseguimos, realizar o milagre de nos merecermos, a ser inéditos."
domingo, 23 de agosto de 2026
Palavras bonitas
Apesar de parecer que foi ontem, o tempo determina que hoje se completa a primeira capicua da partida do meu pai.
TEMPOTempo - definição da angústia.Pudesse ao menos eu agrilhoar-teAo coração pulsátil dum poema!Era o devir eterno em harmonia.Mas foges das vogais, como a frescuraDa tinta com que escrevo.Fica apenas a tua negra sombra:- O passado,Amargura maior, fotografada.Tempo ...E não haver nada,Ninguém,Uma alma penadaQue estrangule a ampulheta de uma vez!Que realize o crime e a perfeiçãoDe cortar aquele fio movediçoDe areiaQue nenhum tecelãoÉ capaz de tecer na sua teia!Cântico do HomemMiguel TorgaCoimbra (1974)
terça-feira, 5 de maio de 2026
Português
Numa época em que, em profusão, se ouvem atentados à nossa língua "mascarados" de erudição e conhecimento, nada melhor do que ir à estante e pegar num livro antigo, na data, na edição e na beleza.
Foi como poeta que conquistou um lugar cimeiro entre os falantes da língua portuguesa em todo o mundo. A sua modéstia e a "mesquinhez da outra senhora" impediram voos bem mais largos. Também na prosa se revelou enorme, dando-nos livros maravilhosos, dos Bichos à Vindima, do qual se deixa um belíssimo excerto.
"(...) Quando a noite caiu sobre a Cavadinha, espessa e desolada, é que a ausência de Alberto passou a ser um pesadelo.
- Aconteceu-lhe alguma coisa! Ah, isso é que aconteceu! ... - era agora o estribilho da D. Maria Jorge.
Por debaixo da crosta insensível e ressequida, o instinto de mãe irrompia ansioso e vaticinador.
- Que é que lhe havia de acontecer?! - iludia-se o Lopes, a querer ter mão em mais desgraças. - Apanhou uma carga de água, e está-se a enxugar em qualquer parte. Mas há-de ouvir-me! ...
Dizia isto sem convicção nenhuma, apenas para sossegar a mulher e não acordar as forças do mal que tão obstinadamente o perseguiam.
- Não costuma demorar-se tanto ... De mais a mais num dia destes, sabendo que a gente está aqui aflita ...
Foi ainda a Gertrudes que deu a resposta decidida a estas reticências:
- O menino, se não veio até agora, já não vem!
A afirmação tinha tal dureza e tal verosimilhança, que o Lopes assanhou-se de indignação:
- Tu não me faças perder a cabeça, rapariga! Cala-te de uma vez!
Toda a tarde a criada resmungara a pedir socorro para o rapaz. E o Lopes, ao verificar que teria sido melhor mandar procurar o filho a tempo e horas, reagia com violência, sem querer reconhecer o erro.
- Não vem! E nós havemos de ver!
Forte na dedicação, segura nas conjecturas, a moça não se dobrava aos berros do patrão. E este acabou por ceder, numa resposta contemporizadora:
- Tu não estás mais aflita do que nós. Por isso ...
Não era, porém, com frases que a nuvem pesada se desfazia.
- E se mandássemos alguém a Vilela saber se o tinham visto? - propôs a D. Maria Jorge.
- Pode ir. Mas é tolice. Antes de o portador lá chegar, já ele cá está ...
Tentava iludir-se e iludir o destino.
- Deus te ouvisse ...
Pressurosa, a Gertrudes saiu a chamar dois homens à cardenha, e acompanhou-os até ao fim do terreiro a recomendar-lhes pressa e zelo. Naquela incerteza, o seu coração feminino era uma dobadoira de ternura.
- Se eu fosse mulher, ia também! (...)"
sábado, 7 de março de 2026
Palavras bonitas
A minha irmã cumpre hoje a sétima capicua e, como eu ainda por cá não estava, no dia seguinte Torga publicou no seu Diário um poema a saudar a sua vinda ao mundo.
Coimbra, 8 de Março de 1949
DEPOIS DA CHUVA
Abre a janela e olha!Tudo o que vires é teu.A seiva que lutou em cada folha,E a fé que teve medo e se perdeu.Abre a janela e colhe!É o que quiser a tua mão atenta:Água barrenta,Água que molhe,Água que mate a sede ...Para que haja um sorriso na parede!Diário IVMiguel TorgaCoimbra (1973 - 3ª. Ed.)
Exactamente um mês depois, salvaguardando o excesso de optimismo que podia transparecer do primeiro, deixou-lhe um aviso para a vida que estava a iniciar ... e nem sequer a conhecia.
Coimbra, 7 de Abril de 1949
EXAME DE CONSCIÊNCIA
Por tudo passa o artista:Primeiro, pela alegriaDe se julgar criadorNo seio da natureza;Depois, por esta tristezaDe ver morrer o que fez,Sem ter nas mãos a certezaDe erguer o sonho outra vez.Diário VMiguel TorgaCoimbra (1974 - 3ª. Ed.)
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
8 de Fevereiro
A ansiedade e a dúvida que por aqui existiam - tenho sempre muitas dúvidas nas sondagens - desapareceram às 20 horas de ontem e deram lugar a uma enorme satisfação e alegria. Afinal, o povo português ainda não se esqueceu do antigamente, mantém discernimento e reduz a "conversa da treta" à sua trapalhice evidente.
António José Seguro foi eleito Presidente da República e o outro teve cerca de um terço (ironia) dos votos.
Foi óptimo, mas cautelas e caldos de galinha não fazem mal a ninguém.
Miguel Torga escreveu no seu último Diário:
"Coimbra, 1 de Março de 1990 - Liberdade. Passei a vida a cantá-la, mas sempre com a identidade no pensamento, ciente de que é ela o supremo bem do homem. Nunca podemos ser plenamente livres, mas podemos em todas as circunstâncias ser inteiramente idênticos. Só que, se o preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira, pode-nos ser outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade."
sábado, 23 de agosto de 2025
Palavras bonitas ...
... adequadas para o meu pai, que partiu há precisamente uma década.
VOZ
Era uma voz que doía,Mas ensinava.Descobria,Mal o seu timbre se ouviaNo silêncio que escutava.Paraísos, não havia.Purgatórios, não mostrava.Limbos, sim, é que diziaQue os sentia,Pesados de covardia,Lá na terra onde morava.E morava neste mundoAquela voz.Morava mesmo no fundoDum poço dentro de nós.LibertaçãoMiguel TorgaCoimbra (1978)
sábado, 28 de junho de 2025
Palavras bonitas
S. Martinho de Anta, 28 de Junho de 1986
REBATE
Tantas palavras que conheço agoraE malbaratoNo papel,Aqui onde só duas aprendiCom eterno sentido:Pai e Mãe!Mas ninguémFica fiel à infância.CrescemosE perdemosA inocênciaE a sua mágicaSabedoria.Adulto que porfiaNestas solfas de letras alinhadasE paralelas,Chego a ter pejo de as escrever.Que podem dizer elasQue valha a pena ler?Diário XIVMiguel TorgaCoimbra
sexta-feira, 23 de maio de 2025
Livros (lidos ou em vias disso)
"(...)
Mãos estranhas enterraram no dia seguinte o corpo mirrado do pobre aventureiro na terra estrangeira onde devia pagar o preço das suas aventuras.
E como sem mensalidades o Colégio de Santo António não ensinava nada a ninguém, passados meses, o pequeno Sérgio foi despachado em terceira para Penedono.
O Gaudêncio velho, então, teve pena dele e pô-lo a guardar ovelhas no Farrobo.
Pastor, que foi por onde o Senhor Ventura começou."
quarta-feira, 19 de março de 2025
Dia do Pai
Logo pela manhã, bem cedo, os meus filhos deram-me os bons dias, um lá de longe, bem longe, a outra bem perto, numa visita relâmpago antes da labuta.
Eu, que já não posso dar os parabéns ao meu - faria hoje 103 anos -, deixo-lhe um pequeno poema do grande Torga.
MEMÓRIA
Chove.Mas, afinal, já chove há muitos anos ...O mundo dos meus pés nunca se moveSem chuva, tristezas e desenganos ...Apesar disso,Lembro-me perfeitamente bemDo luminoso sol de certo dia ...Um lindo sol que doiravaNum toco que rebentavaUma folha nascia.Diário IMiguel TorgaGráfica Coimbra
sexta-feira, 17 de janeiro de 2025
Palavras bonitas
À BELEZA
Não tens corpo, nem pátria, nem família,Nem te curvas ao jugo dos tiranos.Não tens preço na terra dos humanos,Nem o tempo te rói.És a essência dos anos,O que vem e o que foiÉs a carne dos deuses,O sorriso das pedrasE a candura do instinto.És aquele alimentoDe quem, farto de pão, anda faminto.És a graça da vida em toda a parte,Ou em arte,Ou em simples verdade.És o cravo vermelho,Ou a moça no espelho,Que depois de te ver se persuade.És um verso perfeitoQue traz consigo a força do que diz.És o jeitoQue tem, antes de mestre, o aprendiz.És a beleza, enfim! És o teu nome!Um milagre, uma luz, uma harmonia,Uma linha sem traço ...Mas sem corpo, sem pátria e sem família,Tudo repousa em paz no teu regaço!OdesMiguel TorgaGráfica de CoimbraNota: Miguel Torga faleceu em Coimbra, há exactamente 30 anos
quinta-feira, 26 de dezembro de 2024
Palavras bonitas
FÉ
segunda-feira, 12 de agosto de 2024
Palavras bonitas
LUTA
Um contra o mundo, é pouco.Mesmo que seja louco,É muito pouco ainda.Mas que pode fazer o homem que endoideceE se esqueceDe medir o poder do seu tamanho?Ah, se houvesse um fotógrafo no céuQue filmasseUma aventura assim, ridícula e perfeita!D. Quixote sozinhoA combater as velas do moinhoQue mói, ronceiro, a última colheita.Cântico do homemMiguel TorgaCoimbra
Passam hoje 117 anos do nascimento do grande Miguel Torga. Sempre actual!
sábado, 20 de julho de 2024
Nadando ... lá longe
Com o aniversário do neto II, Vasco de seu nome, encerra-se o ciclo anual dos aniversários das 4 pessoas, agora as mais importantes, do núcleo familiar.
O dia de hoje, em que completa 13 aninhos, ficar-lhe-á na memória por não o ter comemorado em modo "normal" ou, pelo contrário, registá-lo-á para sempre como o aniversário passado a "contar azulejos", nadando pela primeira vez nos Campeonatos Nacionais de Natação, em Setúbal. Regressará amanhã, lá para o final do dia, cansado, por certo, mas sempre uma "delícia".
PEDAGOGIA
Brinca enquanto souberes!Tudo o que é bom e beloSe desaprende ...A vida compra e vendeA perdição.Alheado e feliz,Brinca no mundo da imaginação,Que nenhum outro mundo contradiz!Brinca instintivamenteComo um bicho!Fura os olhos do tempo,E à volta do seu pasmo alvarDe cabra-cega tonta,A saltar e a correr,DesafrontaO adulto que hás-de ser!Diário IXMiguel TorgaGráfica de Coimbra
sexta-feira, 5 de julho de 2024
Rapidez
Este é o dia no qual o meu neto GRANDE se torna MAIOR, de acordo com a legislação que regulamenta o crescimento das pessoas. É apenas o registo formal de uma situação visível há muito, não havendo qualquer alteração na personalidade ou na responsabilidade, ambas já bem definidas e visíveis.
Continuará a ser o meu neto GRANDE, sem sobressaltos, devaneios ou convencimentos, sempre educado, cortês e disponível. Eu é que estou cada vez mais ... sonhador!
BRINQUEDO
Foi um sonho que eu tive:Era uma grande estrela de papel,Um cordelE um menino de bibe.O menino tinha lançado a estrelaCom ar de quem semeia uma ilusão;E a estrela ia subindo, azul e amarela,Presa pelo cordel à sua mão.Mas tão alto subiuQue deixou de ser estrela de papel.E o menino, ao vê-la assim, sorriuE cortou-lhe o cordel.Diário IMiguel TorgaCoimbra
quarta-feira, 8 de maio de 2024
Mãe
Nasceu há 101 anos, partiu há 20 e por cá permanece sempre viva, na lembrança diária.
Foi uma mulher enorme, que conheceu bem cedo as agruras da vida, as sofreu e tentou sempre superar. Dei-lhe muitas preocupações, roubei-lhe muitas noites de sono, fui altivo e rezingão, e nunca lhe senti a mais pequena acrimónia.
"Roubei" a Torga a carta, simples, que recebi hoje no meu imaginário.
Correio
Carta de minha Mãe.Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,A sua letra vemA tremer-lhe nos dedos.- <<Filho>> ...E o que a seguir se lêÉ de uma tal pureza e de um tal brilho,Que até da minha escuridão se vê.Diário IIMiguel TorgaCoimbra (4ª edição-1977)
sábado, 2 de março de 2024
Mãe
TUDO É FOIFecho os olhos por instantes.Abro os olhos novamente.Neste abrir e fechar de olhosjá todo o mundo é diferente.Já outro ar me rodeia;outros lábios o respiram;outros aléns se tingiramde outro Sol que os incendeia.Outras árvores se floriram;outro vento as despenteia;outras ondas invadiramoutros recantos de areia.Momento, tempo esgotado,fluidez sem transparência.Presença, espectro da ausência,cadáver desenterrado.Combustão perene e fria.Corpo que a arder arrefece.Incandescência sombria.Tudo é foi. Nada acontece.António GedeãoPoesias completas (1956-1967)Portugália (1975)
domingo, 9 de abril de 2023
Palavras bonitas
QUEREM O CÉU
Querem o céu, a mística mansãoDa alma.E, se estivessem lá,Queriam a terra, a sórdida moradaDa raiz.Mas é o céu que lhes dizEternidade,Verdade,SantidadeE descanso.Assim se pode mistificarA preguiça,O pecado,A mentiraE a transitória vida natural.O grande tecto azul, porém, não dá sinalDe acolher o aceno.Afaga as nuvens, e da luz solarFaz o dia maior ou mais pequeno.Cântico do HomemMiguel TorgaCoimbra (1974)
domingo, 19 de março de 2023
Dia do Pai
Se (ainda) por cá estivesse, o meu pai celebraria hoje 101 anos e apagaria as velas do bolo com a gana e a vontade que sempre o nortearam numa vida de duração significativa, com muito trabalho esgotante e, por vezes até, escravizante.
FOLHINHA
Murchou a flor aberta ao sol do tempo.Assim tinha de ser, neste renovoQuotidiano.Outro ano,Outra flor,Outro perfume.O gumeDo cansaçoVai ceifando,E o braçoDoutro sonhoSemeando.É essa a eternidade:A permanente rendição da vida.Outro ano,Outro flor,Outro perfume,E o lumeDe não sei que ilusão a arder no cumeDe não sei que expressão nunca atingida.Miguel TorgaOrfeu RebeldeGráfica de Coimbra (1992)
domingo, 5 de fevereiro de 2023
Palavras bonitas
Para o meu neto Miguel, o infante de um quarteto maravilhoso de netos, que muito merece porque tudo dá.
Completa hoje 7 anos de uma vida cheia e desafiante, na qual se tem revelado perspicaz, inteligente, dotado de uma personalidade forte e de uma meiguice desarmante.
O INFANTE
Na bandeira das almas há uma almaQue pesa mais no prato da balança;Irradia vontade e confiança,E os seus olhos videntesIluminam os outros penitentes.O além do mundo, embora mundo ainda,É tenebroso.E só o génio animosoDum inspiradoTem a coragem nova de enfrentarO medo acomodadoQue não deixa passar.Segue ele à frente, pois, o espírito audaz,Que só ele é capazDe ir à frente e de ser o derradeiro.Guia de todos os descobrimentos,E sempre ele o gajeiro,Com nomes vários nos vários momentos.Poemas IbéricosMiguel TorgaGráfica de Coimbra (1995)