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segunda-feira, 2 de março de 2026

Palavras bonitas

Continua a parecer que foi ontem, mas já lá vão 22 anos. A capicua fica assinalada com a ligação poética entre o mês em que partiste e aquele em que me pariste.

ENTRE MARÇO E ABRIL

Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto, 
entre março e abril,
o rosto que foi meu.
o único
que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem 
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado -
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
- que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade(2000) 

domingo, 2 de março de 2025

Palavras bonitas ...

... para a minha mãe, que partiu há vinte e um anos e por aqui se mantém, diariamente, em recordações, sonhos, arrependimentos, certezas de que estive longe de ter sido um bom filho, lhe dei muitas e grandes preocupações e poucas alegrias.

A HORA DA PARTIDA

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andreses
Caminho (2005)

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Mãe

Nasceu há 101 anos, partiu há 20 e por cá permanece sempre viva, na lembrança diária.

Foi uma mulher enorme, que conheceu bem cedo as agruras da vida, as sofreu e tentou sempre superar. Dei-lhe muitas preocupações, roubei-lhe muitas noites de sono, fui altivo e rezingão, e nunca lhe senti a mais pequena acrimónia. 

"Roubei" a Torga a carta, simples, que recebi hoje no meu imaginário.

Correio

Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.

- <<Filho>> ...
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Diário II
Miguel Torga
Coimbra (4ª edição-1977)

sábado, 2 de março de 2024

Mãe

02.03.2004, terça-feira.
Seria igual a tantas outras?
Diferente, tão diferente.
- Vou ali a casa, volto já.
- Não tenhas pressa. Não vale a pena.

Como sempre, tinhas a razão do teu lado.
E ficou tanto por dizer.
E por fazer.
Vinte anos passaram.
Continua a parecer que foi ontem.
E todos os dias o diálogo acontece,
sem mágoas. O amor permanece.

TUDO É FOI

Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.

António Gedeão
Poesias completas (1956-1967)
Portugália (1975)

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Centenária

 A minha mãe faz(ia) hoje 100 anos. Para ela, uma Strelitzia Reginae, vulgarmente conhecida como Ave do Paraíso, de produção própria, e a música que enche sempre o coração.


quinta-feira, 2 de março de 2023

Mãe

E, num instante, passaram 19 anos.

A minha mãe foi, é e continuará a ser a mais bonita. Era-o, na realidade, na beleza exterior, no seu íntimo e por ser a minha.

domingo, 8 de maio de 2022

Mãe

Hoje é o dia da minha mãe! Faria 99 anos e por cá continua a fazer companhia a todos os que foram seus.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Mãe

Passam hoje dezoito anos sobre o início da viagem sem retorno, que a minha mãe efectuou para o lugar onde está, seja ele palpável ou não, o que, no caso, é perfeitamente irrelevante.

A chama permanece viva, sem quaisquer sinais dos efeitos do tempo.

terça-feira, 2 de março de 2021

Mãe

- Vou buscar os medicamentos e volto já.

- Não vale a pena. Quando voltares já cá não estarei.

Era um final da tarde e estavas deitada na cama do hospital, com grandes dificuldades na respiração mas completamente lúcida. A percepção do que iria acontecer era muita mas, ainda assim, saí para satisfazer o pedido da enfermeira. Não cheguei a casa e os medicamentos por lá ficaram ... o telefone tocou antes e voltei pelo mesmo caminho. Tinhas razão ...

Foi há dezassete anos e continuas a ser a minha rosa, da noite, da tarde e da manhã.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Culinária

Era uma tia-avó, velha, que vivia na Avenida Defensores de Chaves, em Lisboa, há muitos anos. Tinha perdido o marido muito nova e permanecia viúva, sem filhos.
Vinha ao Oeste visitar os sobrinhos uma, duas vezes por ano, sempre com alguma altivez da capital para com os "coitados" que permaneciam na província.
Nesse ano veio passar a Páscoa e foi convidada para o almoço no Domingo da dita.
- Vê lá o que arranjas. Olha que ela não gosta de borrego.
- Não te preocupes. Alguma coisa se há-de arranjar.
Chegou o dia e, como era de bom tom, fomos todos festejar a sua entrada na nossa casa, dar-lhe as boas-vindas e receber o pacotinho de amêndoas, pequenino, com que nos brindou.
- Então que fizeste para o almoço? Espero que não te tenhas esquecido que não gosto de borrego.
- Claro que não, tia. Fiz um cabritinho, que espero esteja ao seu gosto.
O almoço correu bem, a tia comeu e bebeu e ninguém se desmanchou.
- O teu cabrito estava divinal. Gostei muitíssimo, obrigado.
Vieram as despedidas e, de novo, as referências elogiosas ao cabrito, com a indicação de, para a próxima vez
- Hás-de fazer de novo, gostei muito e quero repetir.

A minha mãe, que faz(fazia) hoje 97 anos, foi a cozinheira desta refeição e ensinou-nos que, afinal, o cabrito pode ser borrego e que, mesmo os mais convencidos, nunca sabem tudo.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Lembranças

Era um princípio de tarde igual a tantos outros que se vão repetindo quase em ritual. 
De repente, junto à tua morada actual, surgiu, branca, tímida, medrosa até, e parou. Dirigi-me para lá, deixou-se apanhar sem qualquer resistência. Tinha penas sedosas, maciinhas (como tu dirias), e os olhos agradeciam o contacto com as minhas mãos.
Veio para casa sem qualquer esforço ou aborrecimento. Arranjei-lhe uma morada, provisória, alimentei-a e dei-lhe de beber. Cantou, agradecida. Já não devia comer e beber há muito tempo, saciou-se com a alpista que por cá havia. 
Ainda nesse dia fui comprar uma casinha nova e alimentação apropriada para a sua espécie, de acordo com a informação de quem vendeu. Dessa mistura que lhe coloco à disposição, não gosta de algumas sementes e rejeita-as com vigor, sujando o chão e ouvindo as recriminações de quem manda no sítio.
Acorda cedo e canta, num arrulhar sereno que repete sempre que me aproximo.
Na semana passada comprei milho partido, que ainda tornei mais miúdo com o auxílio de uma maquineta de cozinha. Adorou e cantou, de alegria, julgo.
Já faz parte da casa, trazendo sempre à lembrança o sítio onde se disponibilizou para que eu a trouxesse.
Está comigo sempre (como tu). Não sei bem se é pomba se é rola, é branquinha como a neve e tranquila como a paz.
Perfazem hoje dezasseis anos que partiste para essa morada onde apareceu a ave branca e maciinha.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Dia da Mãe

Hoje é (era) o Dia da minha mãe. 
Faria 96 anos, se ainda por cá estivesse,

CANTO ROUCO

Antes que perca a memória
das pedras do adro,
antes do corpo ser
um sopro e quebrado
ramo sem água,
devolvei-me o canto
rouco
e desamparado
do harmónio da noite.

Mãe!,
desamparado na noite.

Eugénio de Andrade
Poesia
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

sábado, 2 de março de 2019

Mãe

Já lá vão 15 anos e parece que foi ontem ...

DIA DE HOJE

Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.

Sophia de Mello Breyer Andresen
Dia do Mar
Caminho

terça-feira, 8 de maio de 2018

Mãe

Em cada ano que passa as memórias recuam cada vez mais; os "armários" abrem e mostram o que está arquivado há tantos, tantos anos; e não são memórias difusas, são imagens claras, nítidas, sem sombra de névoa ou de nuvem a cobrir-te. E vejo o colo e as lágrimas que, apesar da força com que as tentas controlar, afloram nos teus olhos tristes mas tão cheios de esperança.
"Quanto é doce" ... no dia em que farias 95 anos.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Mãe


Do lado de lá da ponte haverá flores bonitas ...
Se assim for, estarás a tratar do jardim, cuidando para que a primavera as floresça e traga cada dia mais encantos.
Sempre presente, apesar dos catorze anos que já lá vão.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Palavras bonitas

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro
uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

A casa, a escuridão
José Luís Peixoto
Temas & Debates (2002)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Palavras bonitas ...

... para a minha mãe; todos os dias me parece que foi ontem e já lá vão 13 anos.

Depois da cinza morta destes dias, 
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos, 
Se dissolver, cumprindo o seu tormento, 
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.

Sophia de Melo Breyer Andresen
Coral

domingo, 8 de maio de 2016

Palavras bonitas

A minha mãe faria hoje 93 anos.

Nunca mais
Caminharás os caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

Poesia
Sophia de Mello Breyer Andresen

quarta-feira, 2 de março de 2016

Mãe

Circunstâncias recentes da vida relembraram "águas passadas" há muitos anos, que devem ter "afogado" o coração e a cabeça de uma mãe perante a impotência e a incapacidade de cuidar do seu filho.
Foi há doze anos que minha mãe partiu e, hoje, quando lhe fui levar uma, ou melhor, cinco "Aves do Paraíso" do meu quintal pensei que, apesar de tudo, não fui seguramente capaz de, em vida, lhe demonstrar a gratidão que lhe era devida.