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sábado, 11 de maio de 2024

Sapateiro

A habilidade no manuseamento da sovela garantia que a sola das botas ficava bem cozida à parte de cima. Era a garantia de que, por ali, a bota jamais se desfaria, fosse a sola um bocado de pneu de tractor bem aparado ou um naco de couro melhor curtido. As mãos determinavam a excelência do trabalho, por todos reconhecida.

Depois da sovela, e as mãos, terem executado o trabalho, a forma do sapateiro, instalada em cima do banco e bem segura pelos joelhos, e a precisão do martelo de bola, concluíam a peça, apta, a partir daí, para calcorrear léguas ou trabalhar muitas jeiras.

O avental e a proeminência da barriguinha eram os distintivos do velho artesão. O copinho de três que molhava a goela a meio da manhã, garantia a boa disposição e ajudava a actualizar a conversa da coscuvilhice.

O produto final não era barato, mas a qualidade, essa, estava mais que provada e garantida.

- Podes pagar quando quiseres ou ires pagando. Tu é que sabes!

Nem sempre havia botas novas para executar. Colocar meias-solas garantia a sobrevivência do sapateiro, da família ... e dos sapatos.

Tudo no tempo em que as sapatilhas se chamavam alpargatas.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ontem, hoje e amanhã

"Começar de novo e contar comigo,
Vai valer a pena ter amanhecido." 
(Ivan Lins/Vitor Martins)

Ontem soube que, no início do próximo ano, chegará mais um elemento à família. Por enquanto ainda não é possível determinar se será a menina para fazer o contraponto com os rapazes ou se será mais um destes. Aguardemos com a ansiedade que, apesar das experiências anteriores, uma notícia destas sempre traz. Passarão a ser quatro, cada um diferente do outro, todos motivo de orgulho e alegria para o avô babado.
Hoje fez quatro anos o neto Vasco. Fala "pelos cotovelos", quando lhe apetece; finge que não é nada com ele, quando o assunto não lhe convém; argumenta, de forma convincente, quando o tentam contrariar. Está um "homem", o meu Vasco!
Amanhã encerra-se um capítulo (mais um) da minha vida profissional. Deixo de ser bancário e passo a trabalhar para um Banco. Um pequeno pormenor que faz toda a diferença. É o progresso, estúpido!
Há 52 anos, curiosamente neste mesmo mês de Julho, recebi a minha primeira remuneração: 20$00 (hoje 10 cêntimos) por uma semana de trabalho, a anotar os valores dos contadores das bombas nas mudanças de turno, a fazer as contas dos litros de combustível vendidos e do respectivo valor, a passar as facturas mais simples, a anotar a ordem de chegada dos clientes para a estação de serviço, etc. O posto de abastecimento ainda existe, mas já não é Mobil. A nota de 20$00 era um "Santo António", novinho, que a patroa me entregou na segunda-feira, referindo que eu o tinha merecido e que, se assim  continuasse, talvez pudesse haver aumento lá mais para a frente. Entreguei a nota em casa, tal qual como a tinha recebido: sem uma ruga.
Nestes muitos anos que já levo, mudei várias vezes de emprego, fiz coisas diferentes, gostei mais de umas, apeteceu-me fugir de outras, procurei sempre ter brio, ser profissional, ainda que, por vezes, não tenha sido fácil. Em todas as mudanças, decidi sempre pela minha cabeça, recorrendo à opinião dos mais próximos mas reservando para mim a decisão final. Até para cumprir o serviço militar obrigatório, a decisão foi exclusivamente minha, uma vez que ponderei a deserção.
Desta vez e fruto dos tempos, alguém decidiu que eu era "transmitido", em conjunto com os computadores, os telefones, as secretárias, tudo de acordo com o Código do Trabalho e sem alternativa.
A decisão poderia levar ao mesmo resultado, mas gostava de ter tido opinião!
Dispensaram-me a gravata, o que, com este calor, não é de somenos importância.