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quarta-feira, 27 de março de 2024

Dia Mundial do Teatro

"(...) PRIMEIRA COMADRE: Não ouve, comadre? O mafarrico quer continuar a fazer de cego!

FALSO CEGO: Não, senhora. Fui cego até agora, mais nada. Isto (sacode a venda) é a prova! Fui cego. Fui! Mas hoje a boa hora soou para o povo. Pelas frestas deste trapo conheci o padre Cano. Presenciei o medo que vai na tropa, e, nesses montes além, vi o Ruivo e mais três sargentos a entregarem-se ao bando do Académico. Andando por toda a parte, tudo soube, tudo ouvi. De Coimbra vêm estudantes, Vila Real já se rende, fogo para aqui fogo para ali, bala vai, bala vem, e - poder do mundo - as vilas levantam-se pela Maria da Fonte.

SEGUNDA COMADRE, PARA A OUTRA: E ele, cego.

PRIMEIRA COMADRE: Pudera. O mundo está para os cegos.

FALSO CEGO: Nem mais. Se não tivesse feito o que fiz nunca teria as vantagens que tive.

SEGUNDA COMADRE: Que vantagens?

PRIMEIRA COMADRE: Sim, que vantagens?

FALSO CEGO: As vantagens de ser cego.

(Pega na viola e canta)

AS VANTAGENS DE SER CEGO 

Perguntaram ao cego
se ele não ia às eleições
nem dava contribuições
e mais impostos devidos.
"Assina, escolhe os mandões
que há muito estão escolhidos."

COMADRE: E o cego que respondeu?

FALSO CEGO: 
"Senhor, respondeu o cego,
"Eu sou cego, cego, cego,
E o meu rosto jamais vi.
Desconheço a minha letra
E de quantos nos governam." (...)

José Cardoso Pires
O render dos heróis
Dom Quixote (2001)

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Extrato, pequeno, da biografia de José Cardoso Pires, publicada recentemente e escrita de acordo com o malfadado novo acordo ortográfico. Apesar da minha (o)posição, a cópia abaixo respeita a ortografia constante da obra, que me tem sabido bem ler. Espero concluir em breve as 566 páginas e que o agrado actual se mantenha até ao fim.

(...) Naqueles anos, nos intervalos permitidos pelos empregos por que ia passando, tinha escrito vários contos. O grande desafio era encontrar quem os publicasse. O convívio com jovens artistas e o contacto com algumas pessoas do meio literário não eram garantia de publicação. Naquela altura, até autores consagrados tinham dificuldade em encontrar editor. Os livreiros e os responsáveis das editoras queixavam-se que o ano de 1947 tinha sido um dos piores de sempre para o setor. Em julho, a revista Vértice publicou um artigo sobre a crise do livro português com um diagnóstico sombrio. Os livros eram demasiado caros para a maioria da população que gostaria de os ler. A prioridade era pôr o pão na mesa. Alguns autores vendiam razoavelmente, mas quase todas <<ediçõezinhas de 3000 exemplares>> dormiam o <<sono eterno nas estantes das livrarias>>.

Nada ajudava. Nem a censura, com o risco de possíveis apreensões a pesarem nos cálculos dos editores, nem a elevada taxa de analfabetismo, a rondar os 45 por cento, muito superior à dos outros países europeus, nem o preço dos livros. Para que a publicação do seu livro não fosse apenas uma quimera, um aspirante a escritor precisava de um <<padrinho>>, alguém que caucionasse a qualidade da obra. Depois logo se via. Mas se mesmo com padrinho era difícil, sem padrinho era impossível. E sem livro, também. Porém, essa parte ficou resolvida em agosto, quando Cardoso Pires concluiu a primeira versão de um livro a que deu o título provisório de Areia Movediça. E já decidira a quem ia entregá-lo para uma primeira leitura.(...)

Integrado Marginal
Biografia de José Cardoso Pires
Bruno Vieira Amaral
Contraponto (2021)

sábado, 24 de abril de 2021

Liberdade

Aquela "coisa" que mantinha a ordem em todo o país e que, em boa hora, sucumbiu em 25 de Abril de 1974, cuidava de todo o mundo com um desvelo e uma dedicação "louvável", controlando o que se dizia, escrevia ou lia, pretendendo determinar comportamentos e bons costumes, fomentando a denúncia e o afastamento, ostracizando ou perseguindo quem ousasse agir ou pensar de forma diferente.

No ano em que nasci, a Direcção dos Serviços de Censura "despachava" o livro de contos de José Cardoso Pires intitulado Histórias de Amor desta forma "brilhante e eloquente":

Imoral. Contos de misérias sociais e em que o aspecto sexual se revela indecorosamente. De proibir.

O Subdirector 
a) José da Silva Dias
Cap.

Em Janeiro de 1960, a Delegação de Angola da PIDE enviava à sede da mesma sinistra polícia em Lisboa, o ofício nº. 169/60, que dizia o seguinte:

A seguir tenho a honra de transcrever a V. Exª. parte da escuta feita pela Rádio Costeira ao noticiário da "Radio Brazaville", na sua emissão em língua portuguêsa: 
 
"Em Lisboa a polícia apreendeu todos os exemplares do último livro de Miguel Torga "O Tomo oito do seu diário" publicado há dias. Supõe-se que o motivo de tal atitude são as depreciações dadas pelo autor sobre alguns episódios da vida política portuguesa. Miguel Torga é um dos mais brilhantes escritores portugueses contemporâneos e a sociedade dos homens de letras portuguesas apresentou a candidatura do escritor ao Prémio Nobel de Literatura Portuguesa.
Foi levantada a apreensão que a polícia fêz em todas as Livrarias de Lisboa da última obra do célebre escritor português Miguel Torga. O próprio autor do livro tinha sido detido pela Polícia na véspera da confiscação do livro mas posto em liberdade pouco depois. Miguel Torga é candidato ao Prémio Nobel da Literatura de 1960. A sua candidatura foi apresentada pela Sociedade Portuguesa dos homens de letras. Julga-se que a atitude que a Polícia tomou foi devida a algumas apreciações contidas no livro sobre certos episódios da vida política portuguesa."
A Bem da Nação
O Subdirector, Intº
Aníbal de São José Lopes
Inspector-Adjunto

Muitos outros exemplos se poderiam dar do país que tínhamos e que, parece. alguns por aí querem fazer regressar.