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quarta-feira, 12 de março de 2025

1884 ou 2025

"(...) Ainda se não disse tudo.

Neste espaço de literatura da decadência, ou decaída de todo, observe a crítica escorreita que há dois projectos: um é patente, o outro é clandestino. O primeiro é - arrasar Inglaterra; e, com efeito, arrasa-se. O projecto clandestino, um tanto arteiro, é obter pelo sofisma tortuoso da letra redonda, tipo Elzevir, o que o merceeiro alcança com o correcto silogismo dos azeites e dos farináceos. O Espiritual ousa correr o pário com o Comestível: a meta é o hábito de Cristo. Que o merceeiro, melindrado na sua prosápia de antropóide, não se agaste, se eu o lanço nestas correrias de hipódromo. Não lhe conheço outros dons que o habilitem a entrar no sport.

Enfim, quando voltares a ministrar os negócios do reino, Tomás Ribeiro, não me percas de olho o meu hábito de Cristo, merecido pela façanha heróica e pouco trivial de arrasar Inglaterra. Bem vês que estas ambições aliás temerárias, confesso, não ultrapassam desmedidamente as balizas do meu merecimento. A almejada venera é a ínfima, penso eu, a mais piranga característica étnica da raça que domina esta nesga rasgada da Espanha (que mo releve dom Jaime) - umas noventa léguas, metade incultas; e, assim mesmo, na povoação dessa metade, inçam e pompeiam, segundo conta o Almanaque Comercial para 1884, cento e vinte e dois condes, trezentos e quatro viscondes, e cento e noventa barões. Quanto a comendadores, quem contou as gotas do Mediterrâneo, as areias do Saara e as estrelas da Via Láctea? (...)"

Vinho do Porto
Camilo Castelo Branco
Frenesi (2001)

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Metáforas

Vinha sozinho, no seu voar balanceado e pontuado pelo chilreio característico e tão bonito quanto o amarelo das suas asas e o vermelho forte da sua pequena cabecita. Voava à beira de água, sem pressas, deliciado com a brisa vinda do mar, meiga e facilitadora do seu voo. O esforço era pouco, contrastando com outros dias em que a força das asas quase não conseguia movimento.

O canavial, denso, despertou-lhe a curiosidade e nele se embrenhou à procura do desconhecido ou apenas porque sim. A cana, nova e fina, despertou-lhe os sentidos e foi nela que pousou, deixando-se balançar de poente para nascente, sem grandes oscilações, enjoos ou perigos.

Apreciando a paisagem, o pintassilgo foi meditando na sua vida, aproveitando-se de estar sem companhia e nem sequer um companheiro para lhe toldar o cérebro. O sol ainda ia alto e o mar, sereno, espelhava tudo, desde uma ou outra nuvem que passasse, devagar, às árvores que circundavam a margem, ou às gaivotas e aos patos que se deliciavam nos voos de aproveitamento do bom tempo.

Que bom não ser humano, pensou o pintassilgo. Faço o que quero e sobra-me tempo. Já não corro o risco de alguém me fisgar ou dar um tiro, os pesticidas diminuíram o suficiente para me alimentar sem grandes riscos, embora deva ter sempre presente algum cuidado. Ninguém me proíbe nada, não cumpro códigos de conduta nem de circulação, voo e paro onde me apetece, não tenho casa nem beira e durmo sem cabeceira.

No meu "principado" existem muitas aves diferentes e, embora o meu chilreio seja, de longe, o mais melodioso, seria estultícia pensar que toda a passarada se identificava com a sua harmonia. Muito embora adore alpista, tenho de admitir, e admito, que há muitas outras aves que a detestam. Enfim, gostos não se discutem e muito menos se impõem.

Não me preocupo com o tamanho dos decotes das pintassilgas, não adjectivo nem recrimino as gorduras supérfluas, o aumento dos juros não é coisa que me aflija e o preço do azeite esbarra na couraça da minha indiferença. Vantagens de ser avezinha alheia à sociedade de consumo ...

Só a guerra me preocupa! Os tiros perturbam a minha cabeça e retiram-me o sossego que eu tanto prezo. Mesmo ainda lá longe, impedem-me de voar alto e levam-me a pensar o que será de mim se a alpista acabar ...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Palavras bonitas

AVE DA ESPERANÇA 

 

Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
aquece as alegrias do futuro,
o tempo que há-de vir sem este muro
de silêncio e negrura
a cercá-lo de medo e de espessura
maciça e tumular;
o tempo que há-de vir - esse desejo
com asas, primavera e liberdade;
tempo que ninguém há-de
corromper
com palavras de amor, que são a morte
antes de morrer. 

Penas do Purgatório
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1976)

Torga publicou estes versos em 1954, desabafando o seu desejo de um tempo sem muros de silêncio e de negrura, com asas, luz e liberdade.

Numa altura em que tudo é posto em causa e se ouvem arautos clamando pelo regresso ao "ontem", é bom deixar claro que "uma andorinha não faz a primavera" e que a sociedade livre e justa passará, sempre, pelo castigo dos que prevaricam e pela absolvição dos inocentes, sem condenações prévias nem absolvições de casta, sejam ou tenham sido os indiciados banqueiros, primeiros-ministros, chefes da polícia, juristas, altos quadros ou simples cidadãos desconhecidos.