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sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) A chegada de Dona Felícia ao palácio do governador está prevista para a detardinha do dia 29 de dezembro, já quase ao cair da noite. Ela se apresentará vestida de ponto em branco, como convém a uma donzela renascida das cinzas do mais feroz opróbrio e que já não contava vir a merecer qualquer tipo de piedade ou misericórdia da parte do marido.

O zeloso bispo providenciou uma égua igualmente branca e ajaezada a preceito, no lombo da qual Dona Felícia percorrerá as três léguas que separam a cidade da Ribeira Grande da vila da Praia, pudicamente montada na tradicional posição feminina chamada de amazona. Noutros tempos ela estava habituada a passear na cómoda charrua Princesa Real que, ao chegar a Santiago, o marido, o governador-geral Chapuzet, tinha encontrado desconjuntada e abandonada a apodrecer num armazém de velharias, e a tinha mandado restaurar, com minucioso rigor, pelo engenheiro Teive Cabral, que nas suas horas vagas também se dedicava a trabalhos em madeira, para que a sua jovem esposa pudesse viajar com comodidade pelos diversos recantos da ilha que valia a pena conhecer.

E de facto não foram poucos os passeios que fizeram a dois ou em grupo mais alargado pelo vale da Fonte Ana ou até à nascente de Monte Agarro, para além de diversas jornadas a locais no interior da ilha, tendo ficado a lembrança de uma ida às imediações da Ribeira dos Engenhos, sítio que tinha ficado com curiosidade de conhecer depois de o cirurgião Lima, que tinha acompanhado o governador na sua digressão à zona para convencer os rendeiros, lhe ter contado com evidente entusiasmo a indiscritível beleza de toda aquela área.

Porém, hoje as situações estão mudadas. O próprio marido, que não teve uma única palavra para retorquir à proposição do bispo, e vai por isso obrigado, praticamente manu militari, a perdoar e de novo aceitar a esposa repudiada, não fez qualquer oferecimento do veículo, nem o próprio bispo se atreveria a ir tão longe pedindo-lhe também a cedência desse excelente transporte oficial. (...)"

Infortúnios de um governador nos trópicos
Germano Almeida
Caminho (2023)

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Lisboa

Um passeio junto ao Tejo, com visita à renovada estação fluvial do Terreiro do Paço, uma almoçarada num excelente restaurante junto a Santa Apolónia, um convívio com amigos e o último livro de Germano Almeida autografado pelo próprio, no final do repasto. Eis o resumo de um dia bem passado na capital, marcada pelo imenso trânsito e pelas longas filas para os autocarros. O Metro esteve de greve e assim permanecerá até ao final do dia, talvez para que todos os trabalhadores possam ouvir a comunicação ao país do PR, Marcelo Rebelo de Sousa.

Germano de Almeida, simpático como sempre, informou, sem tabus, que vai regressar dentro de dias a Cabo Verde e só voltará a Portugal lá para a Primavera de 2022. Talvez nessa altura traga notícias sobre um novo livro que, por enquanto, ainda nem em pensamento existe.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Lembro-me de que ainda antes de eu propriamente dar entrada nas instalações prisionais, nós ainda no gabinete do juiz que se preparava para me fazer as perguntas da praxe com vista à legalização da minha prisão, tinha entrado um ansioso procurador da República com a novidade de que a rádio acabava de anunciar que, por decisão do Governo, transmitida pelo Ministro da Cultura e das Artes Cénicas, o escritor Lopes Macieira ia ser homenageado com os célebres funerais de Estado, aquela paródia em que, depois de algumas leviandades pelo meio, como, por exemplo, missa de corpo presente, o caixão dirige-se ao cemitério ladeado por tropas de arma aperrada como se estivessem a defender o defunto de algum ataque iminente com vista a impedir que seja enterrado ... Ambos riram dessa maneira pouco canónica e algo descortês de falar, mas eu sequer sorri. No entanto, lembro-me realmente de logo ter pensado, Ele fica a dever-me esta honra! E como se tivesse adivinhado os meus pensamentos, o procurador olhou para mim, sorriu e quase sem transição disse, Olhe, ele fica a dever-lhe essa grande honra, até hoje a muito poucos concedida!

Desta vez fiz uma espécie de um leve sorriso e apeteceu-me comentar que era uma grande verdade o que ele acabava de dizer, o Macieira ficar a dever-me essa honraria sem talvez a merecer, mas considerei que estávamos no meio de uma audiência judicial, ainda que no gabinete do juiz, e não seria de bom tom diminuir ainda mais a pouca solenidade do momento. O jovem que estava sentado ao meu lado, mandado chamar pelo juiz para me servir como meu defensor oficioso embora ainda não tivesse aberto a boca para coisa alguma, sequer para me cumprimentar quando entrou, é que disse quase a medo, O único escritor cabo-verdiano que até hoje teve direito a funerais de Estado foi Eugénio Tavares, que morreu em 1927.(...)

A confissão e a culpa
Germano Almeida
Caminho (2021)

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Meia dúzia de exemplos, curtos, dos muitos que se podiam dar, para ilustrar a beleza desta língua que é a nossa e falada por muitos milhões, em várias partes do globo, com características diferentes em cada sítio mas sem necessidade de acordo ortográfico para que nos entendamos todos.

(...) Andam por ali uns homens desgarrados, e embora a praça seja mais para a tarde, há quem se chegue ao feitor e pergunte, Que é que o patrão resolveu, e ele responde, Nem mais um tostão, que as boas e pertinentes fórmulas não se devem perder e dispensam variações, e os homens dizem, Mas há seareiros que já pagam trinta e três, e diz Pompeu, Isso é lá com eles, se quiserem ir à ruína, bom proveito lhes faça.(...)
José Saramago
Levantado do chão
Editorial Caminho

(...) - António, foi por minha causa, eu pago-te o cavalo ...
 - Não digas mais, Bernardo, não digas mais, que já nem te vejo todo. O cavalinho pateou ao meu serviço, a perca é minha. Deixa, se se arrastar até casa, bem sei o que lhe hei-de fazer.
Descansámos ali a noite e, com sopas de vinho e boa pitança, reanimámos o animal, a pontos de se aguentar em pé. E, embora moêssemos um dia até Trancoso, o cavalinho lá foi andando.
- Cão de mim - maluquei - se trago o macho não sofria o dano de vinte libras, que era quanto o Orlando dava pela bestinha no mercado dos quinze. O mulo engolia o estirão sem tocar com um casco no outro. Mas adiante, vamos a ver, talvez o Orlando lhe pegue ... (...)
Aquilino Ribeiro
O Malhadinhas
Bertrand Editora

(...) Estou apaixonada.
Que coisa boa, até que enfim; disse a amiga, que se chamava Paula.
Mas ele não está interessado em mim.
Isso é duro, querida, é a pior coisa do mundo. Eu sei por experiência própria. Lembra aquele rapaz que estava comigo na festa do sábado passado?
Loreta não lembrava, ela não via nenhum outro homem a não ser Luís.(...)
Rubem Fonseca
Secreções, excreções e desatinos
Campo das Letras

(...) Mas certo dia vi-a a entrar num beco e em vez de a chamar, como fazia habitualmente, fui andando atrás dela. E de madrugada fui bater-lhe à porta. Ela perguntou quem eu era, dei-lhe o primeiro nome que me veio à cabeça. Como me explicou depois, o nome coincidia com o de um fulano que costumava visitá-la a meio da noite e por isso abriu a porta sem temor. Ao ver quem era logo tentou de novo fechá-la, mas era tarde, eu já tinha meio pé metido dentro de casa.(...)
Germano Almeida
As memórias de um espírito
Editorial Caminho

(...) Nga Sessá e as amigas mudaram a doente e os lençóis muitas vezes, a infeliz parecia ia se derreter em suor e gemia, adormecia, acordava:
- Aiuê! Minha barriga, minhas costas! Morro!
Só sossegou mais meia-noite já, começou respirar mais calma, a gemer com voz baixa, calando aquelas conversas do homem que lhe amigou para adiantar roubar os bois, dos ladrões de bois, dos ladrões do dinheiro dela, um advogado de Malange e os filhos mulatos e tudo o resto que don'Ana, sá Domingas e o capitão gostam falar.(...)
José Luandino Vieira
Nosso musseque
Editorial Caminho

(...) Lhe conto uma história. Me contaram, é coisa antiga dos tempos de Vasco da Gama. Dizem que havia, nesse tempo, um velho preto que andava pelas praias a apanhar destroços de navios. Recolhia restos de naufrágios e os enterrava. Acontece que uma dessas tábuas que ele espetou no chão ganhou raízes e reviveu em árvore.
Pois, senhor inspector, eu sou essa árvore. Venho de uma tábua de outro mundo mas o meu chão é este, minhas raízes renasceram aqui. São estes pretos que todos os dias me semeiam.(...)
Mia Couto
A varanda do frangipani
Editorial Caminho


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quotidiano

O meu amigo ADS deu-me a oportunidade de, ontem à noite, confraternizar com o grande (até na altura) escritor cabo-verdiano Germano Almeida, que não conhecia pessoalmente e com quem apenas havia estado nos seus livros que, há muito, me habituei a ler.
Foi uma noite bem passada, saboreando uma excelente cabidela de frango e provando um digestivo caseiro, oferecido e feito por um dos convivas presentes. Fomos catorze afortunados que se sentaram à mesa, com a companhia, extremamente agradável, do escritor e da irmã.
Para além de o físico de Germano Almeida impressionar (deve medir mais de um metro e noventa), surpreendeu-me a afabilidade do escritor - apesar da gripe, forte, que o afectava - e os autógrafos pessoais que fez o favor de colocar nos vários livros que comigo viajaram, alguns já com mais de vinte anos de "casa".
Foi um privilégio e uma noite para não esquecer.