domingo, 23 de junho de 2013

Palavras bonitas

POEMA

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

Maria Teresa Horta

PS - Ontem a Universidade de Coimbra foi declarada Património da Humanidade pela Unesco e, nesta decisão, é toda a cultura portuguesa que é reconhecida. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Actualidade

Vítor Gaspar e Passos Coelho têm razão: para quê pagar os subsídios de férias em Junho se o Verão só chega em Novembro!
E mais: este ano ainda não tive férias e, de acordo com a última do nosso inquilino de Belém, ainda não as fiz, não sei se as faço ou se as "façarei".
É obra! Depois do plural de cidadão ter passado a "cidadões", parece que o verbo fazer ainda tem mais uma irregularidade.
Puna-se o verbo, que não divulgou esta sua forma a todos os seus "concidadões" e assim contribuiu para a ignorância de muitos.
Cá para mim, o Professor Lindley Cintra deu uma volta no túmulo, ajeitou-se e riu ...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Santo António

No dia em que se comemora o Santo António na capital, a recordação de um dos enormes divulgadores    da poesia, senhor de uma voz extraordinária, que aqui fica, num registo cantado, com João Villaret a dar largas à ironia, retratando, em simultâneo com o Santo, o outro António que, na altura, ocupava S. Bento.

sábado, 8 de junho de 2013

Quotidiano

O autocarro está preparado para mais uma viagem a caminho da capital. O motorista já fechou as portas de entrada e da bagageira, colocou os óculos de sol na testa, ainda que o tempo esteja "manhoso" (choveu bem, nesta noite do mês de Santo António), a instalação sonora já deu a informação da partida.
À saída, um automóvel (mal) estacionado em cima do passeio não permite efectuar a manobra. Tem os "piscas" ligados e o seu condutor deve ter ido, num "pulinho", tomar um café. 
Estou a colocar os "phones" nos ouvidos, o saco que traz o livro, a maçã e as bolachas já ocupou o lugar à minha beira, que não teve pretendente. 
O autocarro deve levar 25/30 pessoas em silêncio. Não há qualquer comentário em relação ao "simpático" que nos impede o início da viagem.
Normal!
Eis senão quando surge um casal, já entrado nos anos (dois "idosos sexagenários"), com a mulher a gesticular para o motorista. Percebe-se, pelo movimento dos lábios, que pergunta se vai para Lisboa e pede a abertura da porta.
- Viessem mais cedo ...
Ouço o comentário e apetece-me responder. Contenho-me. Afinal são só 06H30 da manhã, ouço música, tenho o dia todo pela frente para me aborrecer ...
- Não sabem o horário!?
- Há gente que acha que os outros podem sempre esperar pelos atrasados ...
O motorista abriu a porta e o casal entrou.
- Bom dia a todos, ouviu-se da voz masculina, bem rasgada.
Poucos responderam.
- Obrigada por abrir a porta. O senhor dos bilhetes disse-nos que já tinha partido ... mas como estava aqui ... desculpe, falou a mulher.
- Sentem-se, que vamos avançar.
O tipo do automóvel voltou do café, sentou-se ao volante e acelerou, sem um aceno de desculpa. Foi à vida, descansado, e não teve direito, ao menos, a uma criticazinha.
Passaram junto a mim, ele com o boné característico de quem vive e trabalha no campo. À cautela, um guarda-chuva enorme na mão, não vá o S. Pedro da capital fazer das dele, num sítio onde ninguém nos acolhe nem oferece tecto, mesmo que chova "a cântaros". Ela leva um saco, também grande, que não parece pesado. Talvez tenha lá dentro o aviamento para o dia, que a vida não está para comer em restaurantes e, mesmo havendo dinheiro, não se conhece ninguém ...
Iriam ao médico?
Talvez, mas chegaram atrasados ao autocarro. 
Se não fosse aquele senhor ter vontade de beber a sua bica matinal e teriam ido no outro, a seguir.
Há dias de sorte!