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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Careca

Mais uma ida ao barbeiro, ou melhor, à Barber Shop, para o corte regular que os cabelos necessitam. Agora, com a marcação antecipada, até o tempo de espera desapareceu. A cadeira, desinfectada, como ele faz questão de referir, aguarda-me.

- É o costume, claro.

A pergunta já tem muitos anos, a resposta é sempre sim, o trabalho é cada vez mais reduzido. A careca, que o espelho estrategicamente suportado pela mão do barbeiro projecta no frontal, é cada vez maior. O que falta naquela área já devia dar lugar a desconto ...

- Hoje não falamos do nosso Benfica. Já estamos quase como os de Alvalade: para o ano é que é!

As máscaras de um e outro não permitem que a conversa flua com naturalidade. Torna-se fastidiosa, cansativa, as palavras têm dificuldade em sair, parece até que as ideias se atropelam e optam por se esconderem nos interstícios do cérebro, com o medo a reduzir-lhes o discernimento.

- Tantos infectados ... eu já me convenci que, mais dia menos dia, me vai calhar. A lidar com tanta gente ...

- Pois ...

- Ainda ontem cortei o cabelo a um cliente, que tem 74 anos, e já apanhou duas vezes. Desta segunda, segundo ele, foi parecido com uma gripe, mas da primeira viu-se aflito. E já tinha as vacinas todas.

Serviço terminado. Regresso a casa, seguindo o conselho/solução da "bióloga" do vídeo que o meu amigo ADS me enviou.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Evidências

O creme de barbear é verde, perguntou o meu interlocutor de todas as manhãs, olhando-me de frente, bem nos olhos e com um ar de dúvida sobre o que estava a ver. Verbalizou o pensamento e o espanto que me assaltavam, eu que tinha ido à prateleira do supermercado e trazido aquela embalagem sem me preocupar sequer em ler o que ela tinha escrito. As letras não eram muito grandes e os óculos estavam em casa, onde são absolutamente necessários para ler as pequeninas. 

Peguei na embalagem e lá estava a explicação: gel de barbear e não creme nem espuma. Experimentei espalhar pela cara o bocadinho de massa verde que permanecia no dedo e, milagre, passou de imediato a espuma branca, explodindo por todo o lado e deixando a mão com uma quantidade enorme. Amanhã vou ter mais cuidado a carregar, para não haver desperdício. É feio.

O interlocutor do espelho ainda não tinha recuperado da surpresa. Ele, que se lembrava bem dos primórdios, do pincel sobre o sabão, da lâmina larga que exigia muito cuidado ao ser colocada na gillette, do salto para a bisnaga de creme mantendo a actividade do pincel, via agora este gel verdinho e fresco a espalhar-se pela cara toda com grande facilidade.

Matreiro e com o segundo sentido sempre na ponta da língua, não resistiu:

- Não percebo para que guardas aí o pincel. Podes deitá-lo fora. Já não serve para nada ...

Claro que ele tem razão, mas prefiro manter aquilo que me foi útil durante tantos anos. E o tubo do creme Palmolive ainda tem algum. Nunca se sabe se o gel não acaba de repente. 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Tranquilidade

Hoje foi dia de ir ao "Baeta". O cabelo cresce, apesar da pandemia e, a partir de certa altura torna-se incomodativo, começa a enrolar-se, a custar a secar, enfim, a dizer, claramente, que está chegada a hora de voltar à tesoura do mestre, agora não da barbearia mas da Barber Shop, que apresenta na entrada a moderna rotativa led, azul e vermelha, indicando que está ao serviço de quem precisa.

Tempos houve em que a presença de vários clientes dava lugar à cavaqueira, aos comentários das notícias dos jornais, à anedota picante ou de salão, à piada política, ao tempo que "está que nem se percebe", aquelas coisas que os teimosos frequentadores se lembram bem e que o corona levou. Agora, não há jornais nem clientes. A conversa fica apenas no diálogo com o barbeiro, acompanhado do som de fundo do aparelho de televisão pendurado na parede. Falou-se do "nosso" Benfica (ele também pertence aos desiludidos deste ano) e da justeza do campeão, verde, como convém a um país que se pretende virado para a ecologia e para o crescimento sustentado.

Quando a conversa estava a esgotar e o cabelo quase cortado, o relógio da televisão marcou 17H00 e surgiu o noticiário, que repetiu, uma vez mais, a notícia do dia: os ingleses regressaram em força ao Algarve!

E, logo a seguir, o Ministro Cabrita tranquilizou as massas, numa exposição clara e assertiva para todos os deputados que foram hoje trabalhar à casa da democracia: os turistas vão ter de cumprir as regras impostas por Portugal, sob pena de ... levarem "tau-tau".

Fiquei tranquilo!

quarta-feira, 17 de março de 2021

Barber Shop

A caminho do barbeiro, não encontro ninguém conhecido. Passam por mim meia dúzia de pessoas, bem mais novas e apressadas. No parque de estacionamento havia lugares "à fartazana". A actividade da cidade ainda está muito longe do normal. Muitas lojas do pequeno comércio ainda permanecem fechadas e isso causa algum desconforto ao passar, lembrando o Fulano, o Sicrano, o Beltrano que, à vista, estão "mortos".

O meu amigo C. está a funcionar "ao postigo" e falou comigo à porta. Ninguém entra para comprar nem para dois dedos de conversa. Estávamos nisto, enquanto eu aguardava a minha hora marcada e o barbeiro despachava o freguês anterior e desinfectava tudo, quando apareceu um cliente. Queria ver canas de pesca, embora a actividade de pescador amador ainda esteja interdita.

- Tem alguma ideia?, perguntou o C.

- Queria ver ...

- Não pode entrar. A polícia passa muitas vezes e, se estiver lá dentro, aplica-me uma multa. Vou trazendo para aqui, para ver se gosta ...

O barbeiro, que fica em frente da loja do C., chamou-me. Estava na hora de me sentar na cadeira e de cortar a guedelha.

Já mais leve, voltei à conversa com o C.

- Vendeste a cana ao homem?

- Não. Talvez volte quando a pesca voltar a ser permitida. Hoje até nem foi muito mau. Vendi um saco, entreguei quatro cofres (para as armas) e tive algumas promessas...

O dia está a acabar. As poucas pessoas que (ainda) andam na rua, vão recolhendo à casinha. Espera-se um amanhã melhor, mas não vai ser fácil ... 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Barbeiro

Sempre fui ao barbeiro, mas agora, quando preciso de cortar o cabelo, vou à "Barber Shop". O homem é o mesmo, o sítio é o mesmo, as tesouras iguais, as máquinas e o secador, a toalha e o resto não tiveram qualquer alteração, mas soa melhor, e é mais chique: vou à "Barber Shop", que já tem uma coluna à porta, com luzes a rodar de cima para baixo, ou será de baixo para cima?

Marcação efectuada via telefone, como acontece desde há alguns meses. Pude escolher a hora e optei pelas cinco da tarde, não para tomar chá, mas por ter adivinhado uma manhã de sonho, como aconteceu. A tarde também deve ter sido excelente, como se adivinhava quando de lá saí. Continuo a preferir a primeira parte do dia, correndo sempre o risco de o sol estar ausente, por atraso, e, muitas vezes, por falta de comparência. Não foi o caso de hoje. Quando o interior não está a "queimar", o oeste fica sem nevoeiro e com temperatura óptima.

- Boa tarde. Vamos ao costume?

- Pode cortar mais um pouco, para não demorar a secar, que é tempo de praia. Veja lá se hoje consegue cortar os brancos e deixar os pretos. Das outras vezes, isso nunca acontece. Com tantas mudanças, talvez seja possível ...

- Nem pense. Ficava com tão poucos que a cabeça torrava no sol da Foz.

Não há mais clientes. O seguinte só chegará depois de eu ter saído e de tudo ser desinfectado. Ao contrário do que acontecia antes, não há conversas com terceiros, não há jornais na mesa, o único interlocutor é o homem da tesoura, com o ruído de fundo da televisão.

Falámos do Benfica, do futebol sem público, do Jesus e do Cavani, do Bayern e dos oito ao Barcelona, dos cinco do Inter e dos cabelos brancos, que são cada vez mais.

- Dê-se por satisfeito. Olhe que há muita gente que nem brancos tem.

E, como sempre, o barbeiro tem razão, perdão, "the man of Barber Shop".